Os Institutos missionários na Europa



Baixar 33.6 Kb.
Encontro20.07.2016
Tamanho33.6 Kb.
Os Institutos missionários na Europa:

 

 



Manter ou rever o modelo de presença?

O modelo da presença dos institutos missionários ad gentes na Europa - modelo que assentava fundamentalmente na promoção e formação das vocações, na animação missionária e na recolha de fundos necessários à actividade missionária - resulta da história da origem dos institutos e do seu subsequente desenvolvimento nas igrejas do continente. Durante décadas, o modelo mostrou-se apropriado, proporcionando crescimento e dando aos institutos recursos humanos e meios materiais indispensáveis à actividade missionária. Uso os verbos no passado, porque hoje, como está à vista de todos, este modelo de presença perdeu essa efectividade e já não garante nem os frutos nem o crescimento do passado. A questão que se coloca é óbvia: manter o modelo ou revê-lo?

 

Modelo inadequado



O modelo tem-se mostrado inadequado pelo lado dos resultados: continua a oferecer aos institutos os meios materiais necessários à missão, mas faltam as vocações e aumenta o isolamento em relação às igrejas locais e à sociedade em geral. Mas também se tem mostrado inadequado pelo lado dos princípios. Hoje as igrejas locais da Europa têm uma consciência de missão global, sentem-se em missão no próprio território e para além dele e não entendem a distinção entre missão ad extra e ad intra, distinção familiar aos institutos missionários. Nos últimos anos as igrejas da Europa desenvolveram uma própria consciência missionária, que se exprime num novo compromisso de evangelização, de «nova evangelização» para sermos mais precisos. Elas têm consciência de serem sujeito da missão cristã, no seu território e para além dele. Desenvolvem programas de animação missionária das suas comunidades e iniciativas de evangelização e partilha de recursos humanos e materiais com outras igrejas. Elaboraram as suas próprias sínteses das várias dimensões da missão que se foram afirmando depois do Vaticano II, desde o testemunho e o anúncio à promoção da justiça e da paz e à defesa da criação.

Este novo contexto veio colocar em questão o modelo de presença dos institutos e a sua função dentro das igrejas locais. Enquanto no passado as igrejas reconheciam uma função própria e um espaço típico aos institutos missionários, que assumiam a missão cristã por delega pontifícia, hoje as igrejas locais sentem-se protagonistas da missão. Este protagonismo obscurece a função e ocupa o espaço dos institutos missionários e manifesta-se no aparecimento de novas comunidades e movimentos, de novos grupos que empunharam a bandeira da missão cristã.

Por outro lado, este obscurecer de função dos institutos missionários em relação às igrejas locais, foi também favorecido pela evolução interna dos próprios institutos que, entretanto, entraram em fase de forte redimensionamento, por causa do envelhecimento rápido dos seus membros, dos abandonos e da diminuição de novas vocações. Com o pessoal a diminuir, os institutos missionários sentem dificuldade em estarem à altura e serem prepositivos de maneira significativa e renovarem as estruturas físicas típicas da sua presença no passado (casas, seminários).

Em conclusão, reduziram-se os espaços de animação missionária e de promoção vocacional e o modelo de presença e acção dos institutos missionários na Europa entrou numa fase de grande passivo de resultados, de vocações e de fecundidade apostólica, e de crescente isolamento em relação às igrejas locais.

 

Medo da revisão



As tentativas de reagir a este cenário têm sido várias. Umas sem questionarem o modelo de presença, outras pondo-o em questão nalguns aspectos. Estas tentativas de revisão têm encontrado resistências, mais entre os membros dos institutos do que talvez entre os responsáveis das igrejas locais.

Se tivéssemos que enumerar as resistências, talvez tivéssemos que começar pelo receio que alguns sectores mostram e que se poderia formular desta maneira: «não estamos preparados para a evangelização nas igrejas da Europa. Temos uma experiência de evangelização na África e na América, uma experiência forte e rica, mas também com limites que nos deixam numa posição débil para um empenho de evangelização na Europa». Há, naturalmente, alguma verdade neste tipo de afirmações. Mas a resposta é simples: se não se está preparados, é necessário preparar-se para a evangelização, na Europa como noutros continentes. A revisão do modelo de presença dos institutos na Europa, numa linha de evangelização, implica naturalmente um programa de preparação das pessoas e discernimento sobre recursos humanos e materiais.

Uma segunda linha de objecções vem da percepção de que, se os institutos missionários se empenham em tarefas de evangelização na Europa esse empenho roubará pessoas à missão ad gentes. Esta objecção tem também algum sentido, sobretudo em tempo de escassez de vocações e pessoal, como é o nosso. Mas não esconde a sua lógica selectiva, no sentido que não se consideram roubadas à missão as pessoas que se dedicam à promoção de vocações, à formação e à animação missionária. Porque, então, se deveriam considerar roubadas à missão as pessoas que assumem empenhos de evangelização na Europa? Num tempo de escassez de pessoal, o que se impõe é um bom discernimento sobre a maneira melhor de investir os recursos humanos e estabelecer prioridades tanto para a missão como para a vida interna dos institutos. Num contexto de missão global como é o nosso não faz sentido ver as pessoas que trabalham na Europa como roubadas à missão.

Uma terceira objecção vem de uma consideração psicológica e prática: se nos empenhamos na evangelização na Europa acabaremos por nos instalarmos e já não partiremos mais para outros continentes, como é nossa vocação específica. Esta objecção sublinha, por um lado, a importância do partir e do sair da própria igreja e nação como elemento típico da vocação missionária; e, por outro lado, alerta para o que se percebe como uma perca de disponibilidade a partir. Mas, este receio tem a ver com o desafio de viver a vocação missionária com um constante sentido de disponibilidade a viver a missão onde Deus quer segundo as mediações concretas, as prioridades e o discernimento histórico do próprio instituto. A disponibilidade a partir tem que ser sempre fomentada nos institutos missionários, na Europa como na África, em todas as partes. Esta é, de facto, uma questão de vida ou de morte para os institutos missionários: a disponibilidade a partir faz parte da tradição missionária mais genuína e tem que ser afirmada como prioritária antes de qualquer outro projecto pessoal de missão. Por isso, o medo a não partir tem que ser combatido com a promoção da disponibilidade a abraçar a missão que é de Deus, da Igreja e do Instituto antes de ser do indivíduo.

 

Institutos e Igreja



As resistências a uma revisão do modelo de presença dos institutos missionários nas igrejas da Europa, no sentido de um empenho de evangelização, têm também uma vertente mais teológica. A objecção soa assim: «a evangelização aqui é tarefa da igreja local; os institutos missionários são para a evangelização fora, ad extra».

À primeira vista, a objecção parece, teologicamente falando, séria. Mas ela assenta sobre um falso dilema «igreja local-institutos» que interessa analisar. Ela coloca a igreja local de uma parte e os institutos de outra, como se os institutos estivessem fora da igreja local. Ora, a verdade é que os institutos são parte integrante da igreja local, como o são os novos grupos, comunidades e movimentos. E a evangelização, como todas as outras dimensões da vida da igreja local, têm a ver também com os institutos missionários, segundo o seu carisma e dom particular.

A afirmação de que «a evangelização aqui pertence à igreja local e a evangelização ad extra pertence aos institutos missionários» é um falso dilema e contém um mal entendido. A verdade é que tanto a evangelização sobre o próprio território como para além dele, ad extra, pertence à igreja local como sujeito da missão. A missão com que os institutos missionários tanto e tão amorosamente se identificam é da igreja local antes de ser deles; e é tanto mais deles quanto mais a viverem neste contexto de igreja, em sintonia com as igrejas locais, os seus dinamismos e prioridades.

 

Dimensões estruturantes



A esta altura, superadas as resistências, poderíamos enfrentar uma pergunta que coloca o problema pela positiva: quais as dimensões estruturantes de uma possível revisão do modelo de presença dos institutos missionários nas igrejas da Europa?

Uma nova plataforma para a inserção dos institutos nas igrejas locais teria que incluir os seguintes elementos:

Primeiro, a dimensão carismática: viver todas as dimensões do próprio carisma, com uma visão integrada do mesmo e segundo os recursos disponíveis. Para nós combonianos, significaria viver todas as dimensões do carisma consagradas na nossa tradição, como estão expressas na parte III da Regra de Vida (56-101).

Segundo, a dimensão teológica: viver todas as dimensões da missão cristã hoje, procurando uma síntese das várias dimensões que seja em sintonia com as igrejas locais. Do concílio Vaticano II a hoje os institutos missionários enriqueceram em muito o seu conceito e prática de missão: missão é anúncio do evangelho e fundação de novas comunidades cristãs, missão é diálogo de vida e de fé, empenho pela transformação social, pela justiça e pela, paz, pela defesa da criação, das culturas e da vida. Em muitas instâncias, porém, as várias dimensões da missão perderam contacto entre si, desenvolveram-se de costas umas para as outras, desinteressadas da sua matriz eclesial. Esta falta de unidade orgânica e de integração eclesial entre as várias dimensões da missão levou a uma desestruturação da única missão em muitas missões sectoriais que teve consequências negativas no modelo de inserção dos institutos. Um novo modelo de presença pediria uma nova síntese entre as várias dimensões, na qual, sem esquecer nenhuma, todas aparecessem no seu devido lugar, função e importância. O ponto focal desta nova síntese terá que ser, como sempre foi, o kerigma (anúncio) cristão e o lugar teológico dela só pode ser a igreja local.

O que fica dito anuncia a terceira dimensão: a eclesial. Todo o modelo de presença e acção dos institutos tem que viver as dimensões do próprio carisma e as dimensões da missão cristã num contexto de igreja local. A força e a fecundidade do modelo de presença depende da integração dos institutos nas igrejas locais, pela simples razão que a missão cristã e os carismas que a servem florescem em contexto de igreja, como karis, graças de Cristo, concedidas pelo seu Espírito e reconhecidas pela, reconhecíveis na Igreja.

 

Como movimento



Num novo modelo de presença os membros dos institutos missionários deveriam, eventualmente, ser protagonistas de um serviço à Palavra de Deus, por uma parte, e, por outra, de um envolvimento significativo nos processos de transformação social segundo os valores do evangelho. O serviço à Palavra de Deus implicaria a capacidade de oferecer às igrejas, com uma metodologia própria, propostas de anúncio e iniciação cristã para jovens e adultos. O envolvimento nos processos de transformação social implicaria, por sua vez, um compromisso com o espírito e as armas do evangelho: o amor, a fraternidade, os meios pobres que são os da karis, graça, cristã.

Um novo modelo de presença nesta direcção daria aos institutos missionários a possibilidade de se afirmarem como promotores de um vasto movimento missionário nas igrejas locais da Europa, um movimento eclesial e não comboniano, espiritano, xaveriano, svd, consolata ou pime. Esta possibilidade ressoa fortemente na nossa memória comboniana, já que o nosso fundador S. Daniel Comboni assim pensou primeiro, como movimento, os seus institutos. Mas a ideia aparece como difícil de concretizar: implicaria a procura de uma metodologia adequada, constante e comum, compartida e levada por diante por todos; implicaria a procura de uma metodologia de proposta de itinerários de vida cristã com um forte respiro missionário, que contribua para a renovação do compromisso missionário das igrejas locais e faça aparecer os institutos como expressão imediata deste seu compromisso.

Este re-centramento dos institutos pediria, por um lado, um regresso à Palavra e ao cultivo de uma teologia kerigmática e, por outro lado, um olhar mais para os movimentos e grupos que conseguiram dar corpo a novas metodologias de primeiro anúncio e iniciação cristã. Coisas a que os institutos missionários na Europa têm sido pouco sensíveis.

 

Além das paróquias



A este momento da nossa reflexão sobre o modelo da presença dos institutos missionários nas igrejas da Europa impõe-se mencionar a questão das paróquias, porque na mente de muitos a revisão do modelo e um eventual envolvimento na evangelização passariam pela assunção de paróquias por parte dos institutos. Impõe-se falar do assunto, também porque muitos responsáveis das igrejas locais habitualmente vêem nessa tomada de paróquias o único modo de inserção dos institutos.

Importa dizer que se deve falar de revisão do modelo da presença e de envolvimento na evangelização sem falar de paróquias, porque a paróquia de facto não é o único modelo de inserção na igreja local. Os institutos missionários devem ver-se, e ser vistos pela igreja local, mais na linha dos movimentos que têm dinâmicas e estruturas transversais a paróquias e dioceses e estão inseridos nas igrejas locais como animadores de itinerários de vida cristã com um respiro universal. Nesta linha, como acima se refere, os missionários deveriam afirmar-se como animadores de itinerários de vida cristã, a nível de pessoas e de grupos, com uma forte mística missionária, de testemunho e de anúncio. Isto implicaria que eles passem de uma animação missionária estilo «morde e foge» para uma acção de presença mais continuada nas igrejas locais (paróquias e dioceses), com uma metodologia própria de acompanhamento de pessoas e grupos.

Para concluir, sobre a questão das paróquias, não as proponho porque não as considero a forma mais significativa da inserção dos institutos missionários nas igrejas locais. Mas não as excluo à partida, pela simples razão de que a procura de um novo modelo de inserção dos missionários nas igrejas locais tem que combinar criatividade carismática com realismo. Por um lado, para muitos missionários, por razões de idade ou de experiências vividas em missão noutros continentes, o modelo de inserção paroquial poderá ser o único viável. Por outro lado, algumas igrejas locais consideram só esse modelo para a inserção dos institutos missionários.

 

Consequências desejáveis



Que consequências se poderiam prever, desejar, de uma revisão do modelo de presença e acção dos institutos missionários nas igrejas locais de Europa, na linha de uma mais clara inserção e envolvimento na evangelização?

Uma primeira, que poderia ser apontada, seria trazer a animação para a sua matriz kerigmática, mais de testemunho e anúncio de Cristo, que levam pessoas e grupos a opções de fé e a um caminho de vida cristã activo nos processos de transformação social. Uma segunda, seria fazer aparecer o carisma e a vocação missionária como carisma de igreja: os carismas requerem o húmus eclesial para crescer e ser fecundos; os institutos precisam de viver a sua vocação e missão desde dentro, no contexto e dinâmicas das igrejas locais. Uma terceira consequência positiva seria também trazer a promoção vocacional de volta ao seu contexto natural, que é a comunidade eclesial: a paróquia, os grupos e os movimentos. A vocação missionária, como sequela de Cristo, só pode nascer e crescer neste contexto de opção por e de amizade sustentada com ele. Na Europa, em boa parte, os institutos missionários acabaram a fazer animação missionária e promoção vocacional em contextos extra eclesiais, como podem ser considerados os grupos orientados para defesa de causas ou ideologias. Nesta linha, uma consequência da revisão do modelo seria também fazer regressar a formação à sua matriz originária de iniciação a um caminho de vida e sequela de Cristo para a missão, caminho orientado por um maestro de espírito e uma comunidade, como iniciadores à vida em igreja e à vida em missão. Por último, a revisão do modelo poderia conferir melhor significado cristão e mais continuidade aos empenhos dos missionários nos processos de transformação social, que deixariam de ser simplesmente empenhos pessoais ou de instituto para ser e aparecer como empenhos sustentados de igrejas locais.

 

Conclusão



Os institutos missionários na Europa, e as províncias dos mesmos nos diferentes países, têm vivido muito de costas voltadas. A colaboração existente parece resultar mais de razões de conveniência e necessidade (de sobrevivência) que de verdadeira sinergia e unidade. O processo de revisão do actual modelo de presença poderia e deveria constituir uma ocasião para criativamente se criarem novos espaços de reflexão e sinergias de colaboração. O velho modelo manteve-nos a trabalhar sobre as mesmas linhas de fundo mas de costas voltadas uns para os outros. A procura de um novo modelo poderá eventualmente ajudar-nos mais a olhar uns para os outros, e para as realidades das igrejas locais, e, sobretudo, a olharmos todos para a frente, na mesma direcção: a da criação e animação de um grande movimento missionário nas igrejas da Europa, onde os nossos carismas se mostrem fecundos, no futuro como o foram no passado. O desafio pode parecer grande e arriscado, as escolhas difíceis. Mas a simples manutenção do modelo e da situação actuais não pode ser a alternativa. As evidências com que os institutos missionários se defrontam são claras: afunilamento das actividades, envelhecimento do pessoal, falta de novas vocações, alheamento progressivo das igrejas locais e da sociedade. Manter as coisas como estão é caminhar para um beco sem saída. Por isso é que, e antes que a situação atinja o ponto de não retorno, se impõe um processo de discernimento para se usar da melhor maneira os recursos humanos disponíveis e nos abrirmos de novo ao vento do Espírito, o protagonista e a alma da missão cristã, a única fonte onde se pode renovar a fecundidade apostólica dos institutos missionários.

 

Lisboa,



Pentecostes de 2009

 

P.e Manuel Augusto Lopes Ferreira, mccj



 

 

Nota: Este texto reduz a uma síntese de leitura a minha contribuição à assembleia dos Superiores Provinciais e Delegados Capitulares da Europa, em preparação para Capítulo Geral, realizada em Pesaro no mês de Abril. Preparei-o em espírito de partilha e em grande liberdade, como contributo à reflexão em acto e um encorajamento a quantos desejam contribuir para este processo de reflexão.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal