Os intelectuais, o nacional e o popular



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OS INTELECTUAIS, O NACIONAL E O POPULAR

(RIO DE JANEIRO, 1890-1910)
Magali Gouveia Engel (Departamento de História da UFF)
Esta comunicação refere-se a alguns dos resultados parciais da pesquisa intitulada “Trabalho, relações de gêneros e questão racial: memórias da cidade através das crônicas (Rio de Janeiro, 1870-1930)”1, cujos objetivos orientam-se no sentido de investigar as questões relacionadas à problemática da articulação entre dominação e cultura a partir dos registros produzidos por cronistas que se destacaram no cenário literário e jornalístico da época2, privilegiando-se os três aspectos indicados. Neste sentido, a hipótese geral é a de que a construção de memórias da cidade encontra-se pautada nas diferentes percepções, convergentes e/ou conflitantes, das experiências de dominação, de submissão e de resistência expressas por aqueles autores.

As abordagens situadas no âmbito da política, da cidade, da cidadania e da nação3 revelam-se privilegiadas para pensarmos sobre as possíveis relações entre as visões do popular e os projetos de nação construídas, explícita ou implicitamente, nas fontes analisadas. Assim, proponho aqui uma reflexão sobre esta questão, tomando como ponto de partida as concepções de Olavo Bilac acerca de dois movimentos sociais populares que tiveram grande impacto no contexto histórico da chamada República Velha: a Revolta de Canudos (Bahia, 1896-1897) e a Revolta da Vacina (Rio de Janeiro, 1904).

Em uma série de crônicas publicadas em 1897 na Gazeta de Notícias – onde havia acabado de substituir Machado de Assis na famosa coluna A Semana – e no periódico A Bruxa – de existência efêmera, fundado pelo próprio Bilac em parceria com Julião Machado em 1896 –, Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac extravasa toda a sua indignação contra os “fanáticos do Conselheiro” que, segundo ele, colocavam em risco os destinos da nação brasileira nas trilhas do progresso e da civilização. Para o cronista, a posição veiculada pela imprensa brasileira, segundo a qual o líder dos revoltosos seria “um homem político”, “um conspirador, um restaurador da monarquia”4 estava completamente equivocada. Fazendo coro com as vozes que predominavam no campo da medicina mental, Bilac afirmava que Conselheiro e seus seguidores eram antes de tudo fanáticos ou doentes, contaminados pelos excessos irracionais de uma religiosidade pervertida5. Rompendo, contudo, com a referida tendência, negava irresponsabilidade aos revoltosos ao considerá-los também “salteadores”. O escritor expressava, deste modo, uma visão bastante corrente que qualificando as manifestações populares (como a de Canudos) nas searas do fanatismo (e, portanto, da loucura coletiva) e da criminalidade esvaziavam-nas de qualquer sentido político e, portanto, conseqüente, na proposição e na viabilização de questionamentos e de transformações da ordem estabelecida.

No ano anterior (em 1896), Machado de Assis naquela mesma coluna defendia a liberdade da crença religiosa e o direito de livre circulação de Manuel da Benta Hora e de seus mais de cem seguidores que peregrinavam pelo interior da Bahia na localidade conhecida como Gameleira (termo de Orobó Grande)6. Segundo o cronista a imprensa baiana recomendava ao governo a prisão de Benta Hora estabelecendo uma relação entre ele e Antônio Conselheiro. Além da defesa da “liberdade de profetar”, igualando-a “à de escrever, imprimir, orar, gravar”, Machado de Assis contesta a comparação entre os dois líderes religiosos:

“... ainda que esse Antônio Conselheiro fosse um salteador, por onde se há de atribuir igual vocação a Benta Hora? E, dado que seja a mesma, quem nos diz que, praticado com um fim moral e metafísico, saltear e roubar não é uma simples doutrina? Se a propriedade é um roubo, como queria um publicista célebre, por que é que o roubo não há de ser uma propriedade?” (“Crônica de 13 de setembro de 1896, A Semana, Gazeta de Notícias ).
O direito e a liberdade de pregar em nome de Jesus Cristo e, até mesmo de saltear e roubar, deveriam, segundo o cronista, ser reconhecidos desde que circunscritos ao mundo espiritual:

“Enquanto esse homem não constituir partido político com os seus discípulos, e não vier a pleitear uma eleição, devemos deixá-lo na rua e no campo, livre de andar, falar, alistar crentes ou crédulos, não devemos encarcerá-lo nem depô-lo. (...) Se Benta Hora, porém, trocando um mandato por outro, quiser passar do espiritual ao temporal e ...” (“Crônica de 13 de setembro de 1896”, A Semana, Gazeta de Notícias ).


As reticências indicam com clareza a ameaça representada pela passagem do religioso ao político, onde “saltear e roubar” possivelmente adquiririam o atributo de perigo que deveria ser contido pela força. Poucos meses depois Machado de Assis atribui à imprensa a maior responsabilidade por transformar Antônio Conselheiro em uma verdadeira celebridade, imortalizando-o como herói na memória popular ignorante7. Aqui o líder e os seguidores da “seita” do arraial de Belo Monte, às margens do Vaza-Barris (Bahia), qualificados como “fanáticos” e “bárbaros” contrapõem-se aos “civilizados”, cuja “preguiça” os incapacitou para enfrentarem o “fervor” dos primeiros, deixando-os “crescer tanto, quando era mais fácil tê-los dissolvido com uma patrulha ...”. Teriam o Conselheiro e seus seguidores ultrapassado as fronteiras do religioso adentrando as searas do temporal e tornando legítima sua repressão? Independentemente da posição defendida por Machado de Assis, importa-nos aqui assinalar que, sob a ótica deste escritor, nos movimentos sociais populares o fanatismo religioso e o primitivismo não inviabilizariam a presença de um possível conteúdo político, imprimindo-lhes um caráter de contestação à ordem estabelecida.

Voltemos a Olavo Bilac. Inimigos da “alma brasileira”8, os integrantes da comunidade de Canudos representavam uma “ameaça” – tanto mais temível, quanto maior os índices de fúria irracional – que colocava em xeque a viabilidade de um Brasil moderno e civilizado de acordo com os símbolos de progresso criados e veiculados pelos grandes centros burgueses europeus. A chacina final é, assim plenamente legitimada:


“O dia da desafronta chegou. O arraial maldito foi desmantelado. A lição foi tremenda. Não é de crer que o resultado da aventura ainda possa permitir que haja na alma de novos fanáticos o desejo de renová-la. Glória à Pátria e aos seus soldados! E volvamos à alegria!” (“Cérebro de fanático”, Gazeta de Notícias, 10/10/1897).
Enfim o castigo justo e eficaz recoloca o país na trajetória retilínea e “feliz” em direção à modernidade. A construção da nação supunha a eliminação literal dos que ao destoarem de um projeto de futuro aspirado por todos os brasileiros e patriotas, eram concebidos como estrangeiros. Embora expressiva de posturas que pareciam dominar o campo intelectual (artístico e científico) da época, tal concepção muito mais do que um consenso aponta o quadro complexo – permeado de cumplicidade, mas também de profundas tensões – onde se desenhavam, dialogavam e se contrapunham várias perspectivas diante da realidade brasileira e do futuro da “nação”.

Escrito logo depois de findo o conflito a partir dos registros colhidos por Euclides da Cunha como correspondente do jornal O Estado (de agosto a outubro de 1897) e publicado pela primeira vez em 1902, Os Sertões trariam uma visão bem mais complexa na leitura de Canudos. Como assinalou Ricardo Ventura Santos9, mesmo considerando Antônio Conselheiro como “documento raro de atavismo” e, portanto, expressão da “incompatibilidade com as exigências superiores da civilização”, Euclides da Cunha acabaria por redimir o sertanejo, afirmando ser ele “um retrógrado”, mas não “um degenerado”10. Fruto, na concepção euclidiana, sobretudo da longa interação entre o europeu e o indígena e isolado em um meio rústico o sertanejo teria se desenvolvido como um tipo homogêneo e forte, plenamente capaz de “evoluir” em direção à “vida civilizada”. Assim, os males advindos da mestiçagem – expressos, por exemplo, na religiosidade ingênua e fetichista dos adeptos do Conselheiro –, vistos como manifestações de primitivismo, mas não de degeneração, eram passíveis de superação e o sertanejo poderia simbolizar a “alma brasileira” e desempenhar um papel importante na construção da nacionalidade11.

Mas, um outro aspecto chave para identificarmos as diferentes posturas dos intelectuais brasileiros diante dos conflitos sociais é o suscitado pela posição claramente legitimadora do massacre de Canudos assumida por Olavo Bilac. Como vimos, a ação militar é entendida como um ato de salvação da Pátria em perigo, enfim uma vitória do “bem” contra o “mal”. Não seria esta a postura assumida por Euclides da Cunha, cuja indignação diante da violência da repressão ficou registrada nas páginas de sua obra prima:

“Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados”12.


Na cena final, os soldados de Olavo Bilac, “defensores gloriosos da Pátria” diante de “perigosos fanáticos”, “malucos furiosos”13, são transfigurados por Euclides da Cunha em protagonistas da irracionalidade. A denúncia, embora talvez tácita, se faz através de uma imagem bastante forte, situando o autor entre os intelectuais que fizeram de sua literatura, missão social e compromisso político, conferindo-lhe um conteúdo profundamente crítico. Neste sentido, há certamente uma convergência entre as posturas de Euclides da Cunha e de Lima Barreto que, através de um de seus mais impressionantes personagens, Policarpo Quaresma, denuncia e repudia os massacres republicanos de todos os tempos. Conforme observou Edgar de Decca14, é possível estabelecer uma correlação profunda entre Antônio Conselheiro, de Canudos; João Maria, do Contestado e Policarpo Quaresma, da Revolta da Armada que, longe de representarem uma “nostalgia” em relação ao passado monárquico, questionavam a ordem republicana e propunham uma nova organização social. Não portanto por acaso “todos eles foram vistos como loucos pelo olhar republicano”15.

Além disto, o romance de Lima Barreto encerra-se logo depois do famoso movimento dos marinheiros na cidade do Rio de Janeiro que também resultou num massacre exemplar:

“Lemos a Revolta da Chibata ... de 1910 na narrativa da Revolta da Armada de 1893-1894. (...) Na narrativa dos massacres do início da República, Canudos ilumina o Contestado, que revela a Revolta da Chibata, que denuncia as mortes não investigadas da greve anarquista de 1917 e, nesta série, Quaresma aparece como uma outra vítima, ou herói, que se defronta com o poder. Não é possível assegurar que o massacre da narrativa de Quaresma seja, de fato, o da Revolta da Armada. A narrativa toda é uma armação, em que o autoritarismo, os militares, a República e a violência política, a falácia da cidadania, são temas centrais”16.

Mas, se Quaresma desempenha o papel de suscitar o questionamento e a indignação diante dos atos de violência e de arbitrariedade perpetrados pelos governos republicanos de Canudos a Carajás e a Candelária, o protagonista do romance de Coelho Netto, O Morto17 – considerado um dos melhores e mais importantes do autor –, Josefino denuncia os excessos autoritários do governo de Floriano Peixoto durante a Revolta da Armada, sem se envolver no conflito. As arbitrariedades do poder estabelecido são traduzidas nas perseguições pautadas em falsas acusações – como no caso do próprio protagonista narrador – relegando-se a um segundo plano ou mesmo ao silêncio a violência da repressão. Apesar de engrossar as forças de oposição ao governo Floriano Peixoto, Coelho Netto faz de sua ficção um instrumento de denúncia indireta e branda, formulando do alto da torre de marfim da neutralidade as críticas descomprometidas em relação a qualquer posicionamento político explícito.

Vejamos agora como Bilac se posiciona diante da Revolta da Vacina, ocorrida na cidade do Rio em novembro de 190418. Mais uma vez, o caráter político da manifestação popular é completamente esvaziado através da qualificação dos revoltosos como criminosos:

“Aquela gente, para se desencadear, numa tromba devastadora, pela cidade, não precisa de instruções nem de planos concertados. Ali há sempre navalhas afiadas e trabucos carregados, à disposição de todas as causas e a serviço de todos os patrões” (“A Revolta da Vacina”, Gazeta de Notícias, 20/11/1904).


São, pois, “facínoras e vagabundos” que sem qualquer projeto ou proposta política lutam insuflados pela “ambição”, pela “desordem” e pela “maluquice” de “gente culta, inteligente, polida e civilizada”, levando de roldão a “pobre gente ingênua das estalagens” que, verdadeiras “vítimas ignorantes”, se deixam arrastar de forma completamente inconsciente.

Os agentes efetivos do movimento seriam, pois, os capoeiras, explicitamente associados no discurso à animalidade, à ferocidade, ao pântano e à escuridão. Atributos que os situam no reino da irracionalidade e da barbárie em oposição obviamente à ordem e ao progresso, simbolizados pelos operários – que fogem diante do avanço do ataque dos “facínoras da Gamboa”, abandonando suas pás e picaretas. Qualificados através de imagens da “colméia” e do “labor”, representam a “grandeza futura da pátria civilizada”. Trabalhadores, pacíficos e instruídos representam o símbolo da nacionalidade ameaçada.

Tais considerações nos levam à questão da junção entre o popular e o nacional como fundamento para a (re)construção de uma nação brasileira “civilizada” nos trópicos, central no pensamento intelectual brasileiro. Ora esta não é uma problemática nova, embora de fato tenha adquirido um novo significado nas três últimas décadas do século XIX em decorrência das transformações relacionadas ao fim da escravidão. Não se trata, entretanto, de reduzir a complexidade de concepções e perspectivas acerca da realidade brasileira formuladas neste contexto através de uma espécie de evolução que iria do predomínio de projetos elitistas de branqueamento (pautados em visões pessimistas ou otimistas em relação à miscigenação) ao projeto gestado nos anos vinte – com a participação fundamental dos modernistas – e vitorioso no governo Vargas que funda os pilares da nacionalidade nas tradições populares e na positivização da miscigenação – que de “mal”, superável ou não, transfigurou-se na essência específica da nação brasileira, conferindo-lhe homogeneidade, base de sustentação do “mito da democracia racial”.

Como bem defendeu Marilena Chauí, a categoria “nacional-popular” encontra-se politicamente comprometida com uma perspectiva que secundariza ou apaga e nega as tensões e conflitos de classe. De acordo com esta perspectiva,

“... a cultura popular é posta como repositório e guardiã da tradição, enquanto a cultura não-popular (erudita, letrada, científica, tecnológica) é posta como inventora e guardiã do futuro, a linha temporal se torna contínua, esfuma-se a divisão da e na sociedade, e em seu lugar aparecem ‘as forças vivas da nação’, sua memória e seu porvir. A comunidade restaurada”19.
Trata-se, pois de romper com as idéias e imagens do nacional e do popular em nossas reflexões e práticas20, recuperando o lugar histórico e político de sua produção e veiculação, permeado não apenas por partilhas, mas também, ao mesmo tempo, por múltiplas e profundas tensões. Trata-se, enfim, como propõe Maria Clementina Cunha de superar as vertentes historiográficas que identificam “um éthos brasileiro maior que as diferenças e as desigualdades”, “uma síntese cultural realizada no Carnaval e no samba como misturinha harmônica de diferenças empreendida por mediadores letrados e populares” ou que afirmam a “festejada vitória do autêntico Carnaval ‘popular’ e sua inquebrantável resistência à ordem dominante”21.

A construção histórica da simbologia do nacional-popular como fundamento da identidade brasileira e base de sustentação da própria nação foi um processo bem mais complexo, envolvendo diferentes leituras da realidade do Brasil e diversas concepções acerca do “popular” que convergiam e se confrontavam no campo intelectual a partir das últimas décadas do século XIX. Em Olavo Bilac, como vimos, o trabalhador morigerado, ordeiro, pacífico e instruído deveria simbolizar a nacionalidade, assegurando à “Pátria” um futuro próspero e moderno. Mas, as dimensões populares que remetiam ao universo do não-trabalho, bem como aos hábitos e valores de origem africana – no texto analisado expressas na figura do capoeira – representavam um dos maiores obstáculos ao progresso e à civilização, incorporando, portanto, os segmentos sociais dominados concebidos como verdadeiros inimigos da nação. Num sentido bastante próximo, o futuro de nação moderna e civilizada para o Brasil, vislumbrado por Coelho Netto passaria necessariamente pelo expurgo do passado escravista e colonial com a eliminação da herança africana, sinônimo de “barbárie”22.

Por outro lado, o lugar do “popular” no projeto de nação proposto por Lima Barreto seria informado, embora ambígüa e contraditoriamente, pela crença no potencial homogeneizador e civilizador das luzes da razão, ou da “verdadeira cultura”. Neste sentido, são bastante ilustrativas as impressões do doutor Maximiliano – protagonista do conto “Cló” – diante dos rufos, das batidas e dos gritos desesperados dos cordões e bandos carnavalescos que ocupavam as ruas centrais da cidade do Rio:
“Homens e mulheres de todas as cores – os alicerces do país – vestidos de meia, canitares e enduapes de penas multicores, fingindo índios, dançavam na frente, ao som de uma zabumbada africana, tangida com fúria em instrumentos selvagens ... . As danças tinham luxuriosos requebros de quadris ...”.23
Expressões degeneradas pela escravidão de tradições africanas autênticas, mas “selvagens”, estas “palhaçadas de carnaval”, “bizarras e bárbaras cantorias” despertaram em Maximiliano, primeiramente, um sentimento de rejeição levando-o a pensar na “pobreza de invenção melódica daquela gente”. Mas, o “apaixonado amador de música”, acaba por deixar-se seduzir por aquela “barulhada”, tendo ímpetos de “continuar uma daquelas cantigas”, de “completá-la” para ensinar “aquela gente” a entoar “um hino, uma cantiga, um canto com qualquer nome, mas que tivesse regra e beleza”. Logo, contudo, desilude-se da empreitada. Para quê? Filtrados e civilizados aqueles “esgares e berros” deixariam de exprimir os “pensamentos mais íntimos”, os “sonhos, fantasias e dores” daquelas,

“... criaturas grosseiras e de raças tão várias ... que encontravam naquele vozeiro bárbaro e ensurdecedor meio de fazer porejar os seus sofrimentos de raça e de indivíduo e exprimir também as suas ânsias de felicidade”.24


Percepção de que a incorporação das tradições populares como base da nacionalidade, “civilizando-as”, de acordo com os padrões inspirados nos valores burgueses, ou simplesmente excluindo-as, como propunham intelectuais como Olavo Bilac e Coelho Netto significaria uma forma de ocultar as contradições e tensões sociais, alimentando o projeto de dominação das elites brasileiras? Talvez.

Embora a relação de intelectuais como Lima Barreto – que possuíam origens sociais nos segmentos trabalhadores e que abraçavam posturas políticas contrárias às discriminações e injustiças sociais – com as classes dominadas não fossem pautadas numa identidade absoluta, é inegável a presença de uma certa proximidade. Assim, como observou Maria Alice de Carvalho enquanto as “possibilidades estéticas” da obra de João do Rio “se nutriam do popular”, na “descrição das feiras e mafuás”, Lima Barreto “não fazia concessões ao estilo, buscando uma escrita que servisse ao popular”25.



Se, por um lado, podemos apreender concepções distintas e, muitas vezes, conflitantes e inconciliáveis nas interpretações da realidade brasileira de fins do século XIX e inícios do XX e na proposição de projetos para o Brasil, por outro, vislumbramos um ponto que parece consensual: o papel central do intelectual na construção do futuro da nação. Contudo, há uma diferença profunda e essencial que deve ser considerada na avaliação dos significados políticos desta convicção. Enquanto a postura predominante no campo intelectual brasileiro é a de exercer o papel de direção da nação, a partir do lugar de uma suposta neutralidade, de forma apolítica e científica, intelectuais como Lima Barreto – e, mesmo, como Euclides da Cunha, a partir de uma perspectiva distinta – assumem claramente a missão de intervir na realidade, através de uma ação transformadora da literatura que produzem.


1 A pesquisa conta com o apoio do CNPq e da FAPERJ. Participaram na primeira etapa do projeto as bolsistas Adriana Maria Ribeiro (APT) e Tania Mittelman (IC).

2 Foram selecionados doze autores: Joaquim José França Júnior (1838-1890); Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908); Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo (1857-1913); Raul D’Ávila Pompéia (1863-1895); Henrique Maximiniano Coelho Neto (1864-1934); Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865-1918); Armando Erse (“João Luso”, 1875-1950); João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Barreto (“João do Rio”, 1881-1921); Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922); Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889-1958); Orestes Barbosa (1893-1961); e, Benjamim Delgado de Carvalho Costallat (1897-1961).

3 Foram identificadas e classificadas tematicamente as crônicas reunidas nas coletâneas selecionadas mais expressivas no que se refere à abordagem de temas relacionados ao cotidiano urbano de um modo geral, bem como de concepções que se remetessem especificamente ao trabalho, às relações de gêneros e à questão racial. Veja-se, neste sentido: Mittelman, T., “Relatório final de Iniciação Científica apresentado à FAPERJ”, dezembro de 2001, mimeog.; e, Engel, M.G. e Ribeiro, A.M., “Relatório Final de Apoio Técnico apresentado à FAPERJ”, abril de 2002, mimeog.

4 “O Diabo Vesgo”, A Bruxa, 11/12/1896.

5 Sobre as tendências teóricas predominantes no âmbito da psiquiatria brasileira entre fins do século XIX e primeiras décadas do XX veja-se, por exemplo, Cunha, M.C.P., O espelho do mundo, RJ, Paz e Terra, 1986; e, Engel, M.G., Os delírios da razão, RJ, Ed. Fiocruz, 2001. É interessante observar a identidade entre o título de uma das crônicas de Bilac, “Cérebro de fanático” (Gazeta de Notícias, 10/101897) e a perspectiva científica coeva que viabilizou o envio da cabeça de Antônio Conselheiro para Salvador para ser estudada por Raimundo Nina Rodrigues, um dos mais proeminentes nomes da medicina legal daquele período, professor da Faculdade de Medicina da Bahia.

6 “Crônica de 13 de setembro de 1896”, A Semana, Gazeta de Notícias.

7 Cf. “Crônica de 14 de fevereiro de 1897”, A Semana, Gazeta de Notícias .

8 Cf. “3a Expedição”, Gazeta de Notícias, 14/03/1897.

9 Cf. Santos, R. V., “A obra de Euclides da Cunha e os debates sobre mestiçagem no Brasil no início do século XX: Os Sertões e a medicina-antropologia do Museu Nacional”, História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Vol. V, jul. 1998, pp. 237-253.

10 Cf. Ibid., p. 243.

11 Segundo Ricardo Ventura Santos, tais concepções seriam depois partilhadas por Roquette-Pinto (cf. ibidp. 247). Sobre os esforços de Euclides da Cunha no sentido de identificar um tipo étnico específico e representativo da nacionalidade ou simbólico dela veja-se o clássico trabalho de Nicolau Sevcenko, Literatura como missão, SP, Brasiliense, 1983.

12 Cunha, E., Os Sertões, RJ, F. Alves; Brasília, INL, 1979 (2a ed.), p. 407.

13 Olavo Bilac, “Malucos furiosos”, A Bruxa, 19/03/1897.

14 Cf. De Decca, E. S., “Quaresma: um relato de massacre republicano entre a ficção e a história”, De Decca, E.S. e Lemaire, L. (orgs.), Pelas Margens, Campinas, Ed. Unicamp; Porto Alegre, Ed. UFRGS, 2000, pp. 137-157.

15 Ibid., p. 143.

16 Ibid., p. 152.

17 Coelho Netto, O Morto. Memórias de um fuzilado, RJ, Dep. Nacional do Livro, 1994. O romance foi publicado pela primeira vez em 1898.

18 “Revolta da Vacina”, Gazeta de Notícias, 20/11/1904.

19 Chauí, M., O nacional e o popular na cultura brasileira. Seminários. SP, Brasiliense, 1984 (2a ed.), p. 62.

20 Cf. Ibid., p. 55. Vejam-se considerações da autora sobre nacional-popular em Gramsci como estratégia de luta contra o fascismo.

21 Cunha, M.C.P., Ecos da folia, SP, Cia das Letras, 2001, p. 313.

22 Coelho Netto, op.cit.

23 Lima Barreto, “Cló” em Lima Barreto, Os melhores contos, RJ, Global Editora, 1986, p. 121-122.

24 Ibid., p. 122.

25 Carvalho, M.A.R. de, Quatro Vezes Cidade, RJ, Sette Letras, 1994, p. 39.




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