Os jornais do século XIX e a pesquisa em história da educaçÃO



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OS JORNAIS DO SÉCULO XIX E

A PESQUISA EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

Celina Midori Murasse Mizuta

Faculdade de Artes do Paraná – Curitiba-PR

celinafap@yahoo.com.br


O jornal, literatura quotidiana, no dito de um publicista contemporâneo, é reprodução diária do espírito do povo, o espelho comum de todos os fatos e de todos os talentos, onde se reflete, não a idéia de um homem, mas a idéia popular, esta fração da idéia humana.
Machado de Assis, 1859.

Ao expor minuciosamente o dia-a-dia do povo, os anúncios de jornal, afirma Gilberto Freyre (1979, p. XXIX), fornecem elementos preciosos aos cientistas modernos que estejam dispostos a reconstituir passados desfeitos ou civilizações extintas seguindo os passos dos egiptólogos antigos. Freyre (1979, p. 7) estava convicto que “mais do que nos livros de história e nos romances, a história do Brasil do século XIX” estava nas notícias dos periódicos.

Freyre, ao fazer uso dos jornais para efetuar suas investigações e conferir um caráter científico a esse gênero de pesquisa, prestou uma valiosa contribuição para as modernas Ciências do Homem.

Maria Lúcia Pallares-Burke (2000), na contracapa do livro Ingleses do Brasil de Freyre, registrou a essência da metodologia por ele inaugurada: “o estudo dos fatos aparentemente miúdos e irrelevantes do cotidiano doméstico, das oficinas, das estradas de ferro, dos anúncios de jornal, pode ser uma grande via de acesso aos fenômenos mais gerais do passado de uma cultura”. Assim, as notícias veiculadas nos periódicos se tornam cada vez mais relevantes para entender a história do Brasil, pois, assevera Pallares-Burke (1995, p. 12), são vistas como fontes privilegiadas de aproximação ao pensamento coletivo de uma época.

Este estudo considera o periódico como fonte documental para a história da educação. Esta abordagem metodológica acompanha a transformação no fazer historiográfico sugerida por Diana Vidal (2003, p. 2): os documentos legais têm o seu mérito, porém, são por vezes insuficientes para a construção historiográfica. Há indícios de que o Auxiliador e outros periódicos podem oferecer subsídios que completem os elos históricos que faltavam para tornar mais consistente a compreensão acerca da História da Educação. Cynthia Pereira de Sousa (2002, p. 93), afirma que “a análise de tais fontes, de inestimável valor histórico, muito pode contribuir para enriquecer nossos conhecimentos sobre as questões educacionais [...]”.

Nesse sentido, os jornais podem trazer à tona os elos fundamentais para recompor a História da Educação uma vez que na origem do jornalismo na Europa, ele tornou-se um poderoso instrumento do projeto iluminista para desencadear mudanças nas idéias e nos comportamentos das pessoas comuns. Diante disso, Pallares-Burke (1998, p. 145-146) argumenta que “no que diz respeito às possibilidades da educação, a imprensa periódica, no seu veio mais propriamente cultural do que noticioso, assumiu explicitamente as funções de agente de cultura, de mobilizadora de opiniões e de propagadora de idéias”. A imprensa tomou para si essa tarefa em virtude da “ausência de outros agentes educativos, como leis e um sistema de educação pública, que, caso existentes, poderiam fazer mais sistemática e formalmente o que o jornalismo fazia informalmente”, assegura Pallares-Burke (1998, p. 147). A autora salienta que, no século XVIII, “o livro e o periódico não eram considerados objetos culturais completamente diferentes, tal como geralmente os vemos hoje”. Por isso mesmo, os jornais – tidos como “fragmentos de livros” – compartilhava com eles a missão de educar a sociedade. (PALLARES-BURKE, 1995, p. 14-15)

O jornal, afirma Isabel Lustosa (2003, p. 15), ao incutir novos hábitos e operar transformações nas vidas dos homens, foi visto como fonte de ilustração e instrução: “Naquele contexto, o jornalista se confundia com o educador. Ele via como sua missão suprir a falta de escolas e de livros através dos seus escritos jornalísticos”. Assim, o processo educativo que se realizaria primordialmente no interior das instituições escolares passa a se efetivar em outras instâncias sociais, utilizando os mais diferentes meios, inclusive a imprensa.

A invenção da imprensa permitiu a multiplicação dos exemplares de uma mesma obra e possibilitou a rápida difusão das luzes visto que facilitou o acesso aos livros a todos que soubessem ler. No século XVIII, Condorcet (1993) acreditava que a facilidade da leitura “expandiu o desejo assim como os meios de instrução”. Em suma, aquilo que só “era lido por alguns indivíduos pôde sê-lo por um povo inteiro, e atingir quase ao mesmo tempo todos os homens que entendiam a mesma língua”. (CONDORCET, 1993, p. 109-110)

Esse relato de Condorcet sobre a imprensa francesa respalda a afirmação de Robert Darnton (1996, p. 15): no momento em que a luta pelo poder se manifestava na luta pelo domínio da opinião pública, a tipografia contribuiu para dar forma e direção à Revolução Francesa em 1789 e foi utilizada como arma para debelar as antigas concepções e assim garantir a continuidade do livre desenvolvimento da sociedade burguesa. A prensa tipográfica foi fundamental para o êxito da revolução nas idéias que varreria do território francês os últimos resquícios da ordem feudal, simbolizados pela prisão de Bastilha e pelo absolutismo:
Sem a imprensa, podem conquistar a Bastilha, mas não podem derrubar o Antigo Regime. Para tomar o poder têm que tomar a palavra e difundi-la – através de jornais, almanaques, panfletos, cartazes, estampas, partituras de canções, papelaria, jogos de cartas, cartões de racionamento, papel-moeda, qualquer coisa que leve algo impresso e se imprima nas mentes de 26 milhões de franceses, muitos deles encurvados pela pobreza e pela opressão, muitos imersos em profunda ignorância, muitos incapazes de ler a declaração de seus direitos. Quando os revolucionários agarraram a alavanca da prensa e a fizeram baixar nos tipos travados na fôrma, enviaram um novo fluxo de energia através do corpo político. A França voltou à vida, e a humanidade se assombrou. (DARNTON, 1996, p. 16)
Desse modo, a imprensa teve uma participação decisiva durante o processo revolucionário. Todavia, apesar do desenvolvimento que a tipografia alcançou no século XVIII, Condorcet não poderia prever o alcance conquistado no período oitocentista.

Em meados do século XIX, o jornal O Auxiliador da Indústria Nacional – órgão de divulgação da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional – publicou o artigo “Do objeto e utilidade dos jornais populares” que ressaltava os pontos positivos do jornal enquanto método para a difusão dos conhecimentos: publicação a prazos certos; preço módico; variedade de conteúdo; aliança entre a escrita e o desenho. Esse conjunto produziu resultados surpreendentes:


[...] conseguiu-se que pessoas adversas, à leitura, e que se assustavam à vista de um livro, adquirissem o útil hábito de ler; que as crianças alcançassem por gosto próprio idéias e noções, que só por largos anos e com o peso e enfado do estudo regular obteriam; nem se objete que nesses jornais há assuntos superiores à inteligência das crianças; são eles o repositório dos variados ramos do saber; contém doutrina para todos. Conseguiu-se que o homem laborioso nos dias guardados pelo preceito eclesiástico, e nas horas antecipadas ao sono tivesse uma distração inocente e profícua, sem o sacrifício de seus haveres, e de forma que a instrução o fosse visitar semanalmente na sua oficina: e sem que ele o sinta, e tomando por entretenimento o que na realidade é estudo, gradualmente se coloca muito acima dos que entregues á gula e a outros vícios consomem a existência física, depravando a alma. (AIN, 1843, n. 10, p. 318)
O jornal se destinava a educar aquelas pessoas que por algum motivo não estavam vinculadas a uma instituição escolar. Elas não se dirigiam à escola, mas o jornal chegava semanalmente às suas casas ou oficinas.

Em 1859, no artigo “O jornal e o livro”, publicado pelo jornal Correio Mercantil, Machado de Assis manifestou a sua euforia com o potencial do jornal:


É a locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos, é a literatura comum, universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das idéias e o fogo das convicções.

[...]


A discussão pela imprensa-jornal anima-se e toma fogo pela presteza e reprodução diária desta locomoção intelectual. A discussão pelo livro esfria pela morosidade, e esfriando decai, porque a discussão vive pelo fogo. (MACHADO DE ASSIS, 2006, p. 945-946)
A velocidade na circulação dos jornais mantinha acesa a chama do debate e, além disso, o periódico se destinava indistintamente a todos e por isso poderia prestar a sua contribuição à reforma social. É isso que sugere esse excerto de Machado de Assis extraído do artigo “A reforma pelo jornal” (1859):
A primeira propriedade do jornal é a reprodução amiudada, é o derramamento fácil em todos os membros do corpo social. Assim, o operário que se retira ao lar, fatigado pelo labor quotidiano, vai lá encontrar ao lado do pão do corpo, aquele pão do espírito, hóstia social da comunhão pública. A propaganda assim é fácil; a discussão do jornal reproduz-se também naquele espírito rude, com a diferença que vai lá achar o terreno preparado. A alma torturada da individualidade ínfima recebe, aceita, absorve sem labor, sem obstáculo aquelas impressões, aquela argumentação de princípios, aquela argüição de fatos. Depois uma reflexão, depois um braço que se ergue, um palácio que se invade, um sistema que cai, um princípio que se levanta, uma reforma que se coroa. (MACHADO DE ASSIS, 2004, p. 964)
Nesta perspectiva, é possível compreender o esforço da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional em difundir os conhecimentos úteis necessários ao melhoramento e à prosperidade da indústria, mas ao mesmo tempo educar e moralizar o povo. A associação almejava empreender uma reforma social para que o Brasil se inserisse na rota da civilização. A modernização da produção agrícola era fundamental nesse processo.

Os redatores do jornal O Auxiliador da Indústria Nacional evidenciavam amiúde o cunho formativo do periódico para que o Estado brasileiro alcançasse a prosperidade econômica mediante a difusão das luzes e a adoção de hábitos civilizados. Essa necessidade de propagar os conhecimentos úteis revelava as questões que a comissão de redatores defendia.


Este Império, que a natureza nos apresentara rústico, precisa dos ornatos da civilização; os tijupares de pendula devem tornar-se em elegantes e cômodas habitações; os matos embrenhados, em fazendas de uma cultura perfeita; os rios empecidos, em canais de franca navegação; as apenas praticáveis veredas, em fáceis e seguras estradas; os toscos teares, em máquinas perfeitíssimas; enfim é do nosso dever, quanto esteja da nossa parte, enfeitar o que achamos gentil, é verdade, porém meio nu, e desalinhado. (AIN, 1833, p. 12-13)
Ao divulgar esses conhecimentos úteis por meio do jornal, a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, afirma Maia (AIN, 1837, p. 8), atingiu um dos mais importantes objetivos dessa publicação: “criar uma troca mútua e rápida de noticias, descobertas, e invenções entre todos os industriosos do Brasil”.

Os redatores reafirmavam, constantemente, a utilidade do jornal e rememoravam os artigos nele publicados ao longo de 13 anos, tal como se verifica no editorial de 1846:


A Sociedade para melhor chegar ao alvo dos seus desejos, auxiliando com eficácia a marcha e progresso da indústria nacional, e para com segurança combater a rotina, o atraso dos nossos lavradores e artistas, o pouco zelo e atividade de alguns dos nossos concidadãos, há 13 anos e meio que empreendeu e tem publicado um jornal, onde mensalmente comunica e espalha cousas úteis e de interesse, a quem no Brasil se ocupa de algum ramo de indústria.

Neste periódico, em que se tem dado forte impulso ao desenvolvimento da indústria brasileira, tem visto a luz do dia já memórias e trabalhos originais de sumo valor, já traduções, compilações e extratos de objetos interessantes às artes e ofícios. É por ele que os nossos lavradores tem podido vir ao conhecimento dos melhores processos para mais lucrarem com os seus trabalhos rurais; é por este meio que se tem espalhado os adequados métodos para o fabrico do açúcar, e para a preparação do café, da goma elástica, das ceras vegetais etc.: é aí em fim aonde em muitos e diversos lugares se encontra a maneira de tornar mais vantajosa as culturas do tabaco, arroz, baunilha, e de uma infinidade de vegetais tanto indígenas como exóticos. As nossas manufaturas tem igualmente aí encontrado muitas regras e preceitos, e bebido instruções que muito lhe tem aproveitado. [...] [AIN, 1846, n. 1, p. 6-7]

O editorial de 1854 é muito semelhante ao de 1846, e reafirma a utilidade do periódico editado pela Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, conforme segue:
O Auxiliador da Indústria Nacional tem procurado derramar doutrinas úteis e propagar o ensino teórico e prático dos diversos ramos da indústria humana; e, por fortuna, ele serve hoje de veículo á comunicação das idéias, e das experiências de alguns dos nossos mais ilustrados agricultores. Não se limita a isto somente a utilidade do Jornal da Sociedade: ao mesmo tempo que leva ao conhecimento dos interessados notícias de inventos de máquinas e de processos úteis, de simples receitas aplicáveis aos usos comum, ocupa-se também com objetos de mais elevado alcance, como da propagação de boas doutrinas de colonização, de violabilidade, de economia política, rural e doméstica, etc. (AIN, 1854, n. 7, p. 239-240)

O jornal O Auxiliador da Indústria Nacional (AIN), editado pela Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional estabelecida no Rio de Janeiro, inclui-se entre as obras cujos editores estavam engajados no projeto para empreender a modernização do Estado brasileiro incluindo-o no rol das nações civilizadas. O seu primeiro número circulou em 15 de janeiro de 1833 e o último em dezembro de 1892.

Inúmeras associações surgiram nos anos oitocentos e algumas se destacaram por sua atuação educativa, dentre as quais a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (SAIN), que foi a primeira associação civil registrada no Império. A SAIN, inaugurada em 27 de outubro de 1827, tinha por objetivo difundir os conhecimentos úteis promovendo, por todos os meios ao seu alcance, o melhoramento e a prosperidade da indústria brasileira. Para alcançar esse propósito utilizou as seguintes estratégias: aquisição e exposição de maquinismos, composição da biblioteca, publicação de monografias e manuais de interesse para a indústria agrícola e pastoril, realização de concursos de inventos e estudos com oferta de prêmios, edição do jornal O Auxiliador da Indústria Nacional e fundação das escolas noturna primária e industrial.

O Auxiliador é um periódico voltado para a área agrícola e registrava as atividades desenvolvidas pela SAIN a partir de 1833, bem como as atas das reuniões do conselho administrativo e das assembléias gerais a partir de 1837. Esse jornal acompanhou 60 anos da história do Brasil, relatada pelos homens que participaram – direta ou indiretamente – da construção do Império brasileiro. Por esse motivo, propicia uma aproximação mais efetiva da realidade vivida pelos homens entre 1833 e 1892, revelando suas preocupações, suas convicções, suas esperanças, enfim, a história da sociedade brasileira. E junto com ela, espera-se encontrar um pouco da História da Educação no século XIX, visto que os números iniciais do jornal já indicam que a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional utilizou O Auxiliador para socializar os conhecimentos úteis e, ao mesmo tempo, introduzir novos costumes. Deste modo, preparava a população para modernizar o Estado brasileiro.

O jornal O Auxiliador versava sobre as mais variadas questões de economia rural e de indústria agrícola e manufatureira e mercantil. Ele ensinava aos homens industriosos as noções elementares de ciências para aplicar nos processos produtivos e desse modo obter maior soma de produtos. Além disso, apresentava as alternativas para diminuir ou dispensar o trabalho escravo na produção de riquezas. O Auxiliador serviu de instrumento para ensinar os homens industriosos, especialmente os agricultores, a inserir melhoramentos no processo produtivo, além de criar novos hábitos de vida.


[...] em todos os países, mesmo os mais civilizados, e naqueles em que a vida é a mais cômoda, acontece que urna grande parte da população, por ventura a máxima, carente de meios para procurar urna educação intelectual mais elevada, se entrega desde as primeiras idades a ocupações industriais e artísticas, ficando assim privadas de adquirir as noções primitivas necessárias das ciências para em épocas posteriores dirigir com discernimento e aptidão estabelecimentos próprios, ou que podem ser-lhe confiados. É por tanto para essa numerosa classe que são especialmente escritas estas publicações, nas quais se encontram as noções das ciências que de mais perto dizem respeito à indústria em geral, apresentadas de modo a serem compreendidas por todas as inteligências. Vulgarizar por tanto os conhecimentos úteis tem sido para a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional um dos seus mais meditados cuidados, e ela se compraz de pensar ter assim concorrido, do modo mais eficaz ao alcance dos meios de que dispõe, para a prosperidade e aumento da riqueza nacional. (AIN, 1851, n. 1, p. vii.7)
A finalidade de disseminar com rapidez os conhecimentos úteis, ao que parece, era comum a outras associações ou jornais do mesmo tipo, conforme se verifica no artigo “De que servem os livros, os jornais e as reuniões”, assinado por M. P. Joigneau, um colaborador da Folha Cultivador, de Bruxelas.
Se os indivíduos que fazem felizes descobertas em agricultura não falassem a seus vizinhos, não escrevessem a seus amigos, e se os amigos, por sua vez, não comunicassem a boa nova aos jornais, que não são senão grandes cartas sem sobrescrito dirigidas a todo o mundo, não teríeis por ventura de esperar meses e anos para saber o que por este meio, podeis aprender em 24 horas ou em oito dias?

[...] Existem plantas dignas de toda a atenção, instrumentos úteis, métodos experimentados, que os dezenove vigésimos dos cultivadores não os conhecem sequer de nome. Como pois fazer-lhes conhecer o que muito deve interessar-lhes, se nos tirardes o recurso do escrito e da palavra?

A pena e a língua têm seus inconvenientes, sem dúvida por que elas vão algumas vezes mui longe, causam erros ou embaraços, e se movem muitas vezes para nada dizer ou dizer cousas fúteis; mas suas vantagens excedem de muito a seus inconvenientes. Estes dous agentes de publicidade se assemelham ás facas que tem uma parte cortante e outra sem córte; é preciso saber servir-se delas. (AIN, 1861, n. 1, p. 62-63)
O jornal O Auxiliador da Indústria Nacional discorreu sobre “as mais graves questões de economia rural e indústria agrícola e manufatureira, quer essas questões constituam simples artigos de redação, quer sejam o resultado de científicos pareceres elaborados pelas respectivas secções do conselho administrativo da Sociedade”. Em 1869, no relatório da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, o então presidente Nicolao Joaquim Moreira enalteceu o periódico:
O Auxiliador pode ensoberbecer-se de ter sido em suas colunas que primeiro se discutira a necessidade da extinção do elemento servil, da substituição deste pelo elemento colonial e de haver concorrido, em primeira plana, para a verificação das exposições, esses grandiosos certames onde as ciências e as artes se espanejam á luz da civilização das nacionalidades.

[...] o Auxiliador da Indústria Nacional caminha em sua sagrada missão de difundir os conhecimentos agrícolas e industriais. (AIN, 1869, p. 4-5)

A periodicidade do jornal visa, segundo Nelson Werneck Sodré (1999, p. 6), “facilitar a compreensão do desenvolvimento de qualquer processo ou fenômeno”. E ela foi utilizada como um recurso didático pelo Auxiliador para prender a atenção do leitor. Isso explica, por exemplo, a publicação de um artigo pulverizado em diferentes números do jornal. Um dos exemplos de artigos publicados desse modo é o “Catecismo de agricultura” que em 1838 apareceu nos números 2, 3, 4, 5, 6 e em 1839 nos números de 1 a 7 e também no número 9. Outro artigo foi “Reflexões sobre a escravatura e colonização no Brasil”, de autoria de F. L. Cezar Burlamaque, publicado nos números 4, 6 e 7 do ano de 1847 e nos números 8, 9 e 10 do ano de 1848. Os relatórios da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional eram publicados da mesma forma.

É visível a influência das publicações periódicas na formação do pensamento da sociedade brasileira naquele século. É por isso que no livro “O Rio antigo nos anúncios de jornais 1808-1850”, Delso Renault (1969, p. 10-11) sustenta que a imprensa abriu novos horizontes à vida colonial: ajudou na educação do povo, tornou-se instrumento de lutas e reivindicações, derrubou governos e instalou novos regimes, ajudou a libertar os escravos e a implantar a República. Assim, evidencia-se cada vez mais o valor do jornal enquanto fonte de pesquisa para a História da Educação.

REFERÊNCIAS:
CONDORCET. Esboço de um quadro histórico dos progressos do espírito humano. Tradução: Carlos Alberto Ribeiro de Moura. Campinas, SP: Edunicamp, 1993.

DARNTON, Robert. Introduce. In: DARN TON, Robert; ROCHE, Daniel (Orgs.). Revolução impressa: a imprensa na França, 1775-1800. Tradução de Marcos Mofei Jordan. São Paulo: EDUSP, 1996.

FREYRE, Gilberto. O escravo nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX. 2. ed. aum. São Paulo: Nacional; Recife: Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, 1979.

LUSTOSA, Isabel. O nascimento da imprensa brasileira. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

MACHADO DE ASSIS, José Maria. O jornal e o livro. In: _______. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006.

______. A reforma pelo jornal. In: ______. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006.

O AUXILIADOR DA INDÚSTRIA NACIONAL. Rio de Janeiro, 1833 a 1892 e 1896.

PALLARES-BURKE, Maria Lúcia Garcia. The Spectator, o teatro das luzes. São Paulo: Hucitec, 1995.

_____. A imprensa periódica como uma empresa educativa no século XIX. Caderno de Pesquisa, Cortez, n. 104, p. 144-163, jul. 1998..

_____. Contracapa. In: FREYRE, Gilberto. Ingleses no Brasil: aspectos da influência britânica sobre a vida, a paisagem e a cultura do Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000.

RENAULT, Delso. O Rio antigo nos anúncios de jornais. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969.

SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. 4. ed. Rio de Janeiro: Mauad, 1999.

SOUSA, Cynthia Pereira de. A educação pelas leituras: registros de uma revista escolar (1930/ 1960). In: CATANI, Denice; BASTOS, Maria Helena Câmara. Educação em Revista: a imprensa periódica e a História da Educação. São Paulo: Escrituras, 2002.



VIDAL, Diana Gonçalves. Múltiplas estratégias de escolarização da infância. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO, 3. 2004, Curitiba-PR. Anais... Curitiba: PUC-PR, 2004, p. 1-7.


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