Os manuais de medicina popular de chernoviz na sociedade imperial



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OS MANUAIS DE MEDICINA POPULAR DE CHERNOVIZ NA SOCIEDADE IMPERIAL

Maria Regina Cotrim Guimarães*

* Mestre e doutoranda em História das Ciências da Saúde (COC/FIOCRUZ)


Poderíamos imaginar que, no século XIX, para a imensa maioria da população do Brasil - dispersa pelos vastos interiores - estivesse interditado o acesso ao conhecimento de ciências em ascensão, como as leis, a medicina e a engenharia, já que a elite dos profissionais vivia em menos de meia dúzia de centros urbanos. No entanto, muito mais do que o contato direto com os próprios profissionais, uma literatura de tipo auto-instrutivo facilitou, aos indivíduos interessados, a proximidade com os mais variados assuntos. Vamos encontrar, nesse período, por exemplo, manuais de culinária, de boas maneiras, de direito e de medicina, visando à divulgação de códigos de elegância, de ciências, de higiene, e de regras sociais fundamentais para se construir o que os autores de tais obras idealizavam como “civilização”.

O presente trabalho se dedica à análise dessas obras auto-instrutivas produzidas por médicos - os manuais de medicina popular - dentre as quais priorizamos as do Dr. Chernoviz1, e sua interação com a medicina acadêmica, com as práticas populares de cura e com a sociedade senhorial marcada pela rentabilidade do trabalho escravo.

Os manuais de medicina popular foram um tipo de produção literária sofisticada, freqüentemente em forma de livros de grossos volumes, que expressava a ciência médica do Império a ser divulgada junto ao público leigo. Foram escritos pela autêntica elite médica - autores que, ou faziam parte da Academia Imperial de Medicina2, ou tinham muito boas relações com as autoridades médicas e políticas do Império, em geral. E, se essas obras representavam a legítima ciência da época, eram, igualmente, legítimos agentes de medicina popular, tamanha sua aceitação e difusão entre a população leiga, que, através delas, pôde diagnosticar e tratar de sues males.

As medicinas não poderiam ser rigorosamente classificadas, como desejam alguns autores3, em, de um lado, uma medicina oficial - praticada unicamente por médicos diplomados - e, de outro, uma medicina descredenciada pelas autoridades médicas – praticada pelos citados oficiantes das artes de cura. Os curandeiros, freqüentemente denunciados como charlatães pelos médicos do Império, produziram diversas sínteses, ao aproximarem, sincreticamente, os elementos da medicina científica da linguagem compartilhada pelos diferentes grupos subalternos. Assim, a constituição de um monopólio legítimo sobre o território da cura teve, como se pode deduzir, muito mais percalços do que supõem os adeptos da tese de uma medicalização homogênea e ubíqua da sociedade brasileira4.

A insistência dos médicos no monopólio da medicina foi uma estratégia genuína de afirmação de sua profissão, bem como de suas convicções científicas, pois, certamente eles produziram uma ciência5 e puseram-na em sintonia com o ethos civilizador que regeu as instituições acadêmicas imperiais.6 A Academia Imperial de Medicina, na primeira metade do século XIX, criou um amplo debate médico, a fim de consolidar sua ciência autóctone e não pouco sofisticada, dentro dos padrões de seu tempo7, que só os médicos estariam autorizados a praticar. Fundada em princípios fortemente racionalistas, a medicina acadêmica jamais aceitaria um diálogo com o que ela própria intitulou de charlatanismo.

Cumprindo assim os pressupostos acadêmicos, três princípios básicos de cunho civilizador serviram de oriente aos manuais de medicina popular: elucidar as atribuições informativas da ciência, com as mais corretas orientações para o período, aglutinar os leitores contra o charlatanismo, além, é claro, de introduzir as noções de medicina de forma inteligível aos leigos. Bastante abrangentes, os manuais abordavam a gravidez, o parto, a primeira infância, os sinais e sintomas de todas as doenças, os hábitos, a higiene, os primeiros socorros, os remédios e tudo o mais que seu autor considerasse importante curar doenças e preservar a saúde. Ao fugirem das concepções mágicas, vitalistas e animistas que caracterizaram a medicina praticada no Brasil do século XVIII, os manuais de medicina popular do Império dão continuidade à preocupação com a higiene e com a população do campo, totalmente distanciada da assistência médica acadêmica.

O Dr. Chernoviz era um médico polonês, formado em 1837, na França, em Montpellier, onde conheceu alguns colegas brasileiros. Em 1840, veio para o Rio de Janeiro, e por aqui ficou até 1855, quando voltou para Paris com a esposa e vários filhos brasileiros. Sabia, certamente, o que se lia na Corte, sabia que uma grande parte das obras médicas era traduzida, e tomou conhecimento do modo pelo qual sua profissão se organizava e se institucionalizava. Assim, foi-lhe possível pisar com firmeza no novo solo para construir uma trajetória de médico e de empresário editorial. Chernoviz, como estratégia de visibilidade e notoriedade, percebeu que pertencer à Academia Imperial de Medicina seria um grande trunfo social e profissional.

A Academia Imperial de Medicina, à qual Chernoviz se filia, ainda em dezembro de 1840, como Membro Titular, era, por excelência, uma instituição representante da elite médica da Corte, de cujas atividades de pesquisa e de consultoria sobre higiene nosso médico já tinha alguma notícia. A Revista Médica Fluminense, órgão da Academia Imperial de Medicina, de cuja redação Chernoviz já vinha participando, publicara, em setembro de 1840, um elogio do “Formulário ou Guia Médico”8, sua primeira obra, então, no prelo.

Uma confusão insolúvel: Chernoviz escreveu, um ano após o lançamento de seu “Formulário ou Guia Médico”9, o “Dicionário de Medicina Popular”10, de 1842. Este obteve sucesso igual, apesar de diferente intuito: enquanto o FGM servia aos iniciados na medicina, o DMP se dirigia a um público estranho à arte, aos leigos. No entanto, mesmo sendo a primeira obra dirigida aos médicos - segundo os prefácios das diversas edições - foi misturada ao DMP, e ambas acabam igualmente chamadas de “o Chernoviz”.

O FGM fazia jus a seu nome: dividido em várias seções, continha a descrição dos medicamentos, suas propriedades, suas doses, as moléstias em que deviam ser empregados; as plantas medicinais indígenas, e as águas minerais do Brasil; a arte de formular, a escolha das melhores fórmulas, além de muitas receitas úteis nas artes e na economia doméstica. Todos os medicamentos de que o FGM trata dividiam-se em 16 classes, cada uma com uma propriedade médica particular que, “mais ou menos enérgica”, encontrava-se em todas as substâncias. Estas classes eram: “adstringentes, tônicos, estimulantes gerais, estimulantes do sistema nervoso, emenagogos, sudoríficos, diuréticos, narcóticos, antispasmódicos, eméticos, purgantes, emolientes, temperantes, cáusticos e alterantes”. 11

Ao lado dos medicamentos chamados officinaes, os doentes também podiam dispor das receitas magistraes. Estas últimas eram preparadas de acordo com as fórmulas de cada médico, segundo as necessidades específicas do paciente. Eram poções, cozimentos, colírios, pílulas, emulsões, linimentos, cataplasmas... O Chernoviz propunha-se a reunir esse amplo conjunto.

Uma seção aparentemente inusitada para um guia médico, mas que se coaduna perfeitamente com o ideal iluminista e civilizatório de que se investia a elite médica, intitulava-se Receitas Diversas, “úteis nas artes e economia doméstica”, tais como água de colônia, tintas de escrever, venenos para a destruição de animais daninhos... Eram fornecidas também as composições de diversas preparações vendidas como segredos: pomadas de tingir cabelos, água para tirar nódoas de tinta de escrever, e coisas que tais.

O DMP, até porque destinado aos leigos, tem inegável serventia doméstica, não só pela forma de dicionário ou pela linguagem, mas principalmente pelo conteúdo temático selecionado pelo autor.

Se for procurada, por exemplo, a palavra LEPRA, o leitor vai se inteirar de que “Os médicos árabes davam este nome a todas as moléstias da pele caracterizadas por formas hediondas...”, que o povo continuava chamando de lepra às sarnas e às várias “empingens” que ocupavam grande extensão da pele. Os “médicos modernos”, por outro lado, teriam trazido à palavra lepra sua “verdadeira acepção”, e distinguiram esta moléstia da elefantíase dos árabes. Ao descrever as alterações da pele, Chernoviz caracteriza-as por pequenas elevações cercadas de manchas avermelhadas, cobertas de escamas delgadas, firmes, brancas, escuras, que caem, e que são substituídas por novas. Aconselha um tratamento à base de substâncias irritantes associadas com emolientes, e em caso de o leitor desejar mais detalhes sobre esta doença, como informações do que seria a lepra tuberculosa, fica indicado, ao fim deste verbete, que procure por MORFÉIA12.

A confiança dos proprietários da famosa loja de livros da rua da Quitanda – os irmãos Laemmert - era tal, que imprimiram três mil exemplares do DMP, em 1842, uma tiragem quase sem precedentes na época, principalmente para uma obra em dois volumes, ao custo de 9$000. O acerto do investimento pode ser medido pela segunda edição, de 1851, ampliada para três volumes in quarto (com 1620 páginas e 5 pranchas com ilustrações), ao preço de Rs.12$000 em brochura e 15$000 encadernados13. Compará-los a preços de outros livros e manuais, de 1851, da mesma editora ajudou-nos na avaliação14. À guisa de exemplo, o “Guia Prático do Povo no Foro Civil e Crime Brasileiro”, “ao alcance de subdelegados, juizes de paz, advogados, (...) e quaisquer pessoas do povo”, em 2 volumes, poderia ser comprado por Rs. 3$000, em brochura, ou Rs. 3$500, encadernado - e esse autor deveria ser conhecido, pois é anunciado como “autor do Conselheiro do Povo”15. Com o preço entre quatro e cinco vezes maior que o do citado manual prático de Direito, nitidamente o DMP foi uma obra cara. O FGM também, ao que parece, não foi de preços módicos. O Almanaque Laemmert, de 1846, anuncia sua segunda edição “aumentada e inteiramente reformada”, de um volume encadernado, por Rs 6$000, enquanto “Os Lusíadas”, o clássico de Camões, foi vendido neste ano por Rs 4$000, em dois volumes, e com gravuras.16

Em seu DMP, Chernoviz sugere que as casas possuam uma botica doméstica, e nisso, ele está prestando uma ajuda substancial a seus leitores, para que conservem e acomodem adequadamente os medicamentos que considerou imprescindíveis. Na terceira edição do DMP (1862), ele recomenda 67 substâncias, a quantidade necessária e o preço de cada uma delas. Na quinta edição, o próprio autor já havia desenhado o “plano” de uma botica portátil, de madeira, enfeitada em relevo, com 44,5 cm de altura e de largura, e 34 cm de profundidade. Na sexta e última edição do DMP, a caixa de botica - com seu conteúdo - deixa de ser vendida na “na farmácia do Luiz”, na rua Saint Honoré, em Paris e, como que se incorporando ao próprio manual, já pode ser comprada na própria editora (editora A. Roger & F. Chernoviz). O autor não se esqueceu de citar, para o caso de encomendas, o valor total da caixa de botica e do frete de Paris ao Rio de Janeiro, no ano de 187817.

A quantidade crescente de ilustrações da obra de Chernoviz também torna a leitura mais agradável, e, a cada edição do DMP, o número de ilustrações é maior, variando de “cinco estampas”, na segunda edição (1851), a mais de 900, na sexta (1890).Constantemente revisto e ampliado, até a 6ª e última edição de 1890, o DMP não apenas se apresenta como uma espécie de vade mecum do saber médico estabelecido, com tem uma postura pioneira, sancionando algumas inovações pouco consensuais para a época. Assim, acreditando que o sistema decimal de pesos, adotado em Portugal em 1860, seria também utilizado no Brasil, Chernoviz incorpora-o, já na terceira edição de seu DMP, de 1862. Em 1874, na seção “Noções Preliminares”, apresenta uma tábua de conversão de pesos e medidas usados nas farmácias do Brasil – libras, onças, oitavas, escrópulos, grãos - aos pesos decimais.

O termômetro médico, que representou uma verdadeira revolução propedêutica, na 5a edição do DMP, é apresentado como “um novo modo de explorar os estados mórbidos, que serve de complemento ao exame do pulso e de outros sintomas”. A partir das observações termométricas, agrava-se ou abranda-se o prognóstico de doenças, indicando qual a urgência de uma medicação, se for o caso. Diante da possibilidade de se aferir a temperatura com exatidão, criou-se um verdadeiro frenesi gerado pela associação entre graus centígrados, tipos e prognósticos das febres. Chernoviz nos fala de um “distinto professor da Escola de Medicina de Lisboa”, o Dr. Alvarenga, que garantia que “até 39.5o a temperatura não exprime, só de per si, gravidade da moléstia, [mas] que deste grau em diante, e sobretudo de 41o para cima [...], o prognóstico é grave”.18


A 16ª edição do FGM, datada de 1897, alguns anos após a morte do autor e editada pela livraria Roger e F. Chernoviz, já continha “os novos métodos de soroterapia segundo as teorias de Pasteur e de Roux”; informações sobre “os raios X ou as fotografias através dos corpos opacos”; para sua redação contribuiu o Dr. Paulo do Rio Branco, brasileiro, antigo interno dos Hospitais de Paris19. O mesmo empenho em seguir as últimas novidades das ciências médicas foi perseguido até a última edição de 1924. Somente em 1926 aparecia a Farmacopéia Brasileira, o que explica porque até essa data, nos regulamentos sanitários, o Chernoviz – feito substantivo comum– era citado como um livro obrigatório nas farmácias.

Um índice importante da extensão da penetração da obra de Chernoviz na sociedade brasileira é a sua menção por parte de consagrados escritores nacionais. Alguns autores consolidam, em seus curiosos personagens, o papel legitimador da medicina acadêmica desempenhado pelo Chernoviz, enquanto, no outro extremo, outros fazem dele motivo de zombaria. O leitor percebe, através de algumas obras literárias, em que medida o Chernoviz contaminou as referências simbólicas dos diferentes saberes de cura mantidos pela tradição oral.

O coronel João Batista Pinheiro, personagem oitocentista de “Sinhazinha”, de Afrânio Peixoto, quando ganha de presente um Chernoviz, faz dele o fiel companheiro, que definitivamente o protege contra a ignorância: “O seu Chernoviz, meu amigo, não falha, aquilo vale por uma academia.”20

Monteiro Lobato, em “O engraçado arrependido”, mostra um personagem que utiliza o Chernoviz como um passaporte para um emprego garantido, caso Pontes, portador de um aneurisma, morresse. Assim, “leu, no Chernoviz, o capítulo dos aneurismas, decorou-o ...”21, para descobrir as situações que provocariam a ruptura do aneurisma. Cora Coralina, da mesma forma, se remete ao manual como uma enciclopédia, na qual o que está escrito possui valor de verdade. Num conto também recheado de humor, “O Lampião da Rua do Fogo”, a caminho do cemitério, o caixão cai com o corpo de Seu Maia. O morto se levanta e seu Foggia diagnostica um ataque de catalepsia. Assim, “os letrados”, com medo de serem enterrados vivos, “foram até o Chernoviz e o Langard22. Conferiram-se diploma no assunto e discorriam de doutor e com muita prosódia, sobre catalepsia ou morte aparente”23.

Em “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, já se sente que o manual (neste caso, o autor não foi mencionado) realiza percurso diverso, pois seu dono possui uma personalidade oportunista. O protagonista recorda-se de como o agregado José Dias apareceu pela primeira vez na fazenda de Itaguaí, “vendendo-se por médico homeopata”. Levava consigo “um Manual e uma botica” e curou um feitor e uma escrava de umas “febres” que ali se instalaram.24.

O personagem Bento do conto “O lobisomem”, de Raymundo Magalhães, deve muito ao Chernoviz, pois, além de negociante de gêneros alimentícios, seu Bento, que dominava a medicina caseira, “com o auxílio do seu bojudo Chernoviz, aconselhava remédios a quantos recorriam à sua experiência...” 25

Mesmo assim, nestes exemplos, o uso do manual, embora transcendendo os limites da auto-ajuda e fazendo-se instrumento de comércio, permanece dentro do escopo imaginado por Chernoviz. Mas não é difícil de imaginar as apropriações heterodoxas que resultaram em combinações ecléticas incorporando o receituário científico às concepções mágicas e holistas presentes no saber médico popular. Assim, no romance “Inocência”, Visconde de Taunay constrói um personagem que à semelhança de José Dias, recorreria ao famoso manual como alternativa ao distante, dispendioso e longo curso de medicina. Cirino, indiferente à fronteira traçada pelo médico polonês, transita impunemente entre a medicina erudita e o universo da magia e da superstição, usando como salvo-conduto justamente o Chernoviz. De acordo com o narrador, apesar de conter “muitos erros, muita lacuna, muita coisa inútil e até disparatada”, (...) o Chernoviz, “no interior do Brasil é obra que incontestavelmente presta bons serviços, e cujas indicações têm força de evangelho”.26

Entre o início e os meados do século XX, a popularidade dos manuais ainda seria assombrosa na impressão do escritor e famoso higienista Afrânio Peixoto. O personagem Luciano assegura que havia “mais Chernoviz no Brasil do que Bíblia”27.

Chernoviz provou imenso mimetismo dentro do panorama da medicina, através de consagrados escritores. Variando de conhecimento enciclopédico até salvo-conduto científico para o charlatanismo, algumas obras apresentam a seus leitores um médico/manual desprezível e inútil (talvez, porque desatualizado para o período em questão). Um Chernoviz que mais parece ter sido escrito, como uma farsa oportunista, apenas para corroborar crendices e superstições. Despojado de seu fundamento científico e racionalista, o receituário terapêutico é visto aqui, como integrando aos sistemas mágicos e religiosos predominantes no universo popular de cura.

O poeta (e farmacêutico) Carlos Drummond de Andrade, no poema “Dr. Mágico”, reconhecendo a popularidade do manual, assevera: “Dr. Pedro Luiz Napoleão Chernoviz/ Tem a maior clientela da cidade...”. Outros versos, no entanto, revelam o deslocamento sofrido pelo Chernoviz, aqui subsumido ao campo semântico da medicina folclórica: “Esse que cura todas as moléstias/ (De preferência as incuráveis)/ Socorre os afogados/ Asfixiados/ Assombrados de raio/ Sem desprezar defluxo, catapora, /Sapinho, panariz, cobreiro/ Bicho do pé, andaço, carnegão.../”. 28

O personagem Jeca, de “Urupês”, de Monteiro Lobato 29, preguiçoso e ignorante, reproduziu o desprezo do autor pelo universo de costumes e crenças do caboclo caipira do interior do Brasil. Seu Chernoviz é a própria evocação da ignorância. Para Lobato, o “mobiliário cerebral” de Jeca é repleto de superstições, além de um banquinho de três pernas para receber os hóspedes – “três pernas permitem o equilíbrio; inútil, portanto, meter a quarta, o que ainda o obrigaria a nivelar o chão” - e sua medicina é tratada por uma “noite cerebral”, de onde “pirilampejam-lhe [ao Jeca] apozemas, cerotos, arrobes e eletuários escapos à sagacidade cômica de Mark Twain”, e comparada a “um Chernoviz não escrito, monumento de galhofa onde não há de rir, lúgubre como é o epílogo.”

Nas “Memórias” de Pedro Nava30, serão encontrados médicos, convictos de uma medicina moderna, da terceira década do século XX, cuja racionalidade os obriga a conviver e a reagir, à semelhança de Monteiro Lobato com seu “Urupês”, à medicina “atrasada” do interior. Uma conversa entre dois médicos ilustra bem como o Chernoviz, diante das modernidades médicas, vai sendo identificado com a medicina do paciente, do caipira. Egon estranha a associação entre um remédio científico e uma planta medicinal, e, por isso, “...deu logo sua cipoada no amigo”:

“-Mas Cavalcanti, será possível? ... No meu caso, eu daria logo uma esculhambação nessas mezinhas inoperantes e cheirando a Chernoviz e obrigava a doente a ficar só na antipirina e no linimento de Betul-01. Do contrário é entreter crendice e se igualar a curandeiro...”.

Essa opinião, que se repete na mesma obra, “... copaíba e cubebas. Era pura medicação do Chernoviz.” vai de encontro ao Chernoviz descrito por Nava, no seu livro sobre história da medicina: “...medicina douta, posta ao alcance da compreensão vulgar...servindo para incorporar fatos novos à experiência cultural da coletividade”.31

A menção a alguns curiosos personagens e ao papel que exerceram como agentes populares de cura ratifica e amplia as descrições dos usos que se fizeram dos livros de medicina auto-instrutivos. Autênticos personagens da história do Brasil, líderes políticos, militares ou religiosos de expressão regional, também tiveram seu prestígio construído com o apoio do velho manual.

José Antônio Pereira, fundador e patriarca da vila de Campo Grande, atual capital do Mato Grosso do Sul, também ficou consagrado como o primeiro cuidador da saúde, do povoado nascente. Mezinheiro, seu preparo técnico remontava aos tempos de sua vida em São João Del-Rey e Monte Alegre, em Minas Gerais. A dedicação de José Antônio - desenvolvida com o apoio de um Chernoviz - aos que adoeciam no emergente arraial, não se limitava apenas à preparação e administração de ungüentos, pomadas, xaropes, tinturas, chás e garrafadas, mas também ao cuidado dos que se feriam em acidentes. Encanava membros fraturados, tratava das chagas aos feridos e era o parteiro do lugar, tendo assistido ao nascimento de seus filhos e netos.32

De expressão menor, mas igualmente paradigmático, é o caso de Ramiro Ildefonso de Araújo Castro, personalidade importante na região de Ilhéus, em fins do século XIX. Tendo apenas o primário, chegou a coronel-médico da Guarda Nacional, com o direito de exercer o lugar de farmacêutico, praticando também a medicina que aprendera de cor no Chernoviz33.

O famoso líder messiânico nordestino, padre Cícero, patriarca de Juazeiro, dedicava-se aos pobres da região, ensinando-lhes a vida de Cristo e dos santos, que relacionava à sua vida rotineira de agricultores. Entre conselhos e rezas, ensinava-lhes a moderna agricultura e a medicina popular sertaneja, baseada no “Formulário ou Guia Médico” de Chernoviz, que possuía em sua biblioteca.34

Os médicos eram quase sempre inacessíveis, e manipulavam um saber hermético e estranho aos extratos populares. É notável como o Chernoviz veio a reforçar a legitimidade de outros e inúmeros agentes de cura que concorriam com o saber médico oficial – representado por sua própria obra. Um deles foi o avô de Pedro Nava, que exerceu a medicina como curioso no interior de Minas, e “nunca se separava, em viagem, do estojo de cirurgia e partos de meu Pai e nem do Chernoviz, nem do Langgaard. Que livros!...”35

O escritor Paulo Duarte passara um período de sua infância em Franca, interior de São Paulo, no início dos 1900, e aí conhecera um primo, “...corado e folgazão, o homem que mais conhecia medicina no mundo de dez léguas em redor. Lia diariamente o seu Chernovitz e consultava incessantemente o Langard.”36

Mas “Dona Sinhana, de jeito nenhum, aceitava ficar sem os recursos dos remédios que ela sabia aplicar, que o livrão grosso do Chernoviz indicava.” Por isso, diz o autor, Carmo Bernardes, “houve um bate-boca de minha mãe com meu pai”37. Enfim, “Chernoviz era um sábio”, como disse Rubem Braga, com saudades do “Bálsamo Tranqüilo”, que conhecera no “Formulário” de 1892, na farmácia de uns parentes, onde trabalhou no tempo em que era jovem.38

Alguns estudiosos da medicina imperial têm apresentado o saber médico oficial e seus porta-vozes, em especial a Higiene e os higienistas, como poderosos instrumentos disciplinares empregados na afirmação do poder centralizador do Estado em oposição às regras de sociabilidade vigentes no mundo rural, onde imperava o patriarca no comando de grandes famílias, seus agregados e dependentes39. Entretanto, face ao êxito editorial dessa medicina de cabeceira, parece ser necessária uma posição mais dialética. O ideal iluminista de filantropia, contido no projeto pedagógico dos manuais auto-instrutivos, que, em sua matriz européia, procuravam ampliar a autonomia e a igualdade dos indivíduos contra os privilégios da sociedade do antigo regime, serviram, na sociedade oitocentista brasileira, para ampliar o poder e a legitimidade senhorial.



A utilização do Chernoviz, pelos senhores de terras e de escravos introduziu uma rotina de prestação de cuidados médicos: o Chernoviz foi o mentor das memorialistas oitocentistas, a paulista Maria Paes de Barros40 e a baiana Anna Bittencourt41, e de Exupério Canguçu42, praticantes da medicina para seus familiares, para seus escravos, extensiva a colonos e a diversas outras pessoas da região. Então, se é verdade que “todo fazendeiro tornou-se curandeiro nos seus domínios”43, será que o sinhozinho que retorna à fazenda após anos de ausência, com seu anel de esmeralda e o título de doutor, teria mesmo afrontado - como afirmou Gilberto Freyre44 - o saber secular de sua mãe, usurpando-lhe o amplo domínio sobre a arte de curar? provavelmente, ele teria encontrado certa receptividade, com seu saber parcialmente legitimado e reinterpretado à luz do Chernoviz, uma medicina doméstica contaminada de noções acadêmicas.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS





1 Trata-se do médico polonês Piotr Czerniewicz, que viveu no Brasil entre 1840-1855, cujo empreendimento editorial o tornou famoso e reconhecido nos meios científico e leigo.

2 A Academia Imperial de Medicina, criada em 1835, representou o fórum máximo de consulta e decisões sobre a saúde pública e de legitimação da ciência médica, até a segunda metade do século XIX.

3 (SAMPAIO 2001), (PIMENTA 1998), (BARRETO 2000)

4 (MACHADO 1979)

5(WARNER 1992) A ciência, segundo este autor, não é uma entidade cristalizada, atemporal e abstrata, mas um conhecimento variável conforme princípios firmados dentro de uma época e um lugar.

6 Este debate acadêmico é apresentado por Sigaud, J.F.X. Du climat et des maladies du Brésil. Paris: Chez Fortin, Masson et Cie. Libraires. 1843, apud (EDLER 2001)

7 (EDLER 2001)A medicina científica da época partiu de disciplinas universais, como a anátomo-patologia e a clínica, e levou em consideração fatores locais atmosféricos, climáticos, topográficos, que associados à higiene, deram aos médicos os conhecimentos das principais doenças do Brasil.

8 "Biographia". Revista Médica Fluminense nº5, vol.6, pág. 233-234.

9 Que doravante será tratado de FGM

10 Que doravante será tratado de DMP

11 (CHERNOVIZ 1841)

12 (CHERNOVIZ 1878)

13 (HALLEWELL 1985) Ver também Almanak Laemmmert,1851. pág. 259.

14 Ver Guimarães, 2003, p. 73-34.

15 Almanak Laemmert, 1851 "Livros Modernos", pág. 260-262.

16 Almanak Laemmert, 1846, pág. 442-443.

17 (CHERNOVIZ 1862)

18"Thermometria medica", 2o vol., pág 1047-1052.

19 (ARAÚJO 1979)

20 (PEIXOTO 1962)

21 (LOBATO 1961) “O engraçado arrependido”.

22 Trata-se de Theodoro Langgaard, médico dinamarquês que viveu no Brasil no período de Chernoviz e que também escreveu obras de medicina popular.

23 (CORALINA 2000)

24 (ASSIS 1962)

25 (MAGALHÃES 1959)

26 (TAUNAY 1991)

27 (PEIXOTO 1962)

28 ANDRADE, C. D. Doutor Mágico. In: ______. Boitempo I. Rio de Janeiro: Ed. Record. 27-28.2001, apud FIGUEIREDO, B. Chernoviz e a medicina no Brasil do século XIX. Estudos, I(1) 95-109, Maio 2001.

29 Urupês, pág. 277-292.

30 (NAVA 1983)

31 (NAVA 1949)

32 (MENDONÇA 1967)

33 (BERBERT 1997)

34 (BARROS 1988)


35 (NAVA 1976)

36 (DUARTE 1975)

37 (BERNARDES 1986)

38 (BRAGA 2003)

39 (MACHADO 1979), (COSTA 1999)

40 (BARROS 1998)

41 (BITTENCOURT 1992)

42 (SANTOS FILHO 1956)

43 idem

44 (FREYRE 1951)





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