Os medos na reportagem policial carioca



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OS MEDOS NA REPORTAGEM POLICIAL CARIOCA
Leticia Cantarela Matheus (Mestranda do PPGCOM – UFF)
Resumo: Este artigo parte de uma investigação inicial acerca dos medos midiáticos configurados na história recente da reportagem policial carioca. A pesquisa, que conta com o financiamento da CAPES, tenta compreender as razões das atuais configurações que esse sentimento adquire no jornalismo quando este trata o fenômeno da violência urbana na cidade do Rio de Janeiro. Para realizar este estudo, será necessário abordar o medo como matéria social e histórica e tentar traçar seus caminhos na mídia: a que assuntos ele vem sendo relacionado na história recente do jornalismo carioca e que tipo de sociedade é possível enxergar pelas lentes dos medos expressos nas reportagens policiais atualmente. Servem como referência a esta pesquisa duas coberturas realizadas no ano de 2003 pelo jornal O Globo, portanto, a problemática abordada aqui será vista apenas pelo ponto de vista deste periódico.
Palavras-chave: medo, violência, reportagem policial

Considerações iniciais


As pessoas experimentam cotidianamente sensações que lhes causam angústia, medo ou mesmo pavor, sejam elas vividas pessoalmente ou mediadas de alguma forma, como por exemplo, pelos meios de comunicação. O problema que se pretende tratar neste artigo diz respeito às diferentes formas que os medos adquirem midiaticamente, mais especificamente na reportagem policial, e suas prováveis razões. Entre as possíveis explicações para determinadas conformidades dadas aos medos não se pode descartar a dinâmica social e histórica que atravessa as experiências cotidianas num determinado lugar, neste caso, na cidade do Rio.

Parte-se do pressuposto que os sentimentos constituem matéria social e histórica. Ou seja, as experiências e as atitudes frente ao medo podem variar tanto ao longo do tempo quanto em relação a diferentes grupos sociais. De acordo com o historiador francês Jean Delumeau (1996, p. 12-24), as coletividades estão comprometidas num diálogo permanente com o medo e este sequer precisa se basear em ameaças reais. Elaborando uma história do medo no Ocidente, o autor mostra que esse sentimento está presente na história da imprensa desde a publicação das obras de cavalaria, nas quais a covardia não era confundida com sensatez mas oposta à bravura, ou mesmo na difusão das narrativas sensacionais por meio de folhetins e periódicos.

Em "O Grande Medo de 1789" (1979), o historiador Georges Lefebvre faz uma espécie de apologia à história das mentalidades ao apresentar a Revolução Francesa sob o ponto de vista do medo. Ou seja, mesmo levando em conta as condições políticas e principalmente econômicas (da miséria), ele mostra como os homens, agentes concretos da história, estão sujeitos a seus próprios sentimentos. Sob este ângulo, a Revolução Francesa parece um evento histórico desencadeado pela boataria, que só proliferou graças a um ambiente dominado por uma série de temores. A Revolução Francesa teria sido, antes de tudo, uma revolução dos boatos, alimentados pelos medos. Ou dos medos alimentados pelos boatos. Naquele ambiente, uma comunidade era capaz de se sublevar com base em relatos sensacionais que poucas vezes corresponderam aos fatos. Naquele contexto, os boatos eram disseminados não só pelos viajantes, pelas autoridades e pelo correio como também pelos periódicos, que acabavam por "oficializar" e amplificar os boatos sensacionais.

Ou seja, os medos das pessoas podem variar na sua forma de expressão e mesmo no seu objeto de temor, dependendo das condições históricas. No caso dos camponeses franceses, havia o medo das invasões de hordas de bandidos, de soldados inimigos, de tropas mercenárias financiadas pela aristocracia francesa e mesmo estrangeira, entre outros temores. Já, nas cidades, ocorria justamente o oposto: o medo era de possíveis invasões rebeldes promovidas pelos camponeses. No caso francês, os medos eram gerados espontaneamente a partir das expectativas e dos temores reais das pessoas em relação ao desconhecido, ao que poderia vir de fora. Por outro lado, as relações entre os moradores de um mesmo local, que podem ser nem mesmo tão desconhecidos assim, também podem gerar medos, dependendo das atribuições de valores que uns dão aos outros.

Em "Os estabelecidos e os outsiders", Norbert Elias e John Scotson mostram o caso da pequena cidade de Winston Parva, na Inglaterra, cujos moradores mais antigos, os "estabelecidos", olhavam com desconfiança os recentes moradores, os "outsiders". A dificuldade de integração entre os dois grupos se baseava não somente na variante "antigüidade", mas no grau de coesão interna dos grupos e da ocupação de postos políticos. Os "estabelecidos" não procuravam e não aceitavam criar nenhum laço com os novos moradores, ainda que, muitas vezes, fossem até mesmo colegas de trabalho. Os "estabelecidos" atribuíam aos "outsiders" toda sorte de fofocas, considerações inferiorizantes e mesmo características criminosas. Tais conflitos, concluem os autores, partiriam, entre outros fatores, da visão que os "estabelecidos" tinham dos "outsiders" como ameaça não só a seus postos de trabalho, mas também a sua identidade.

Medo e desordem

Transpondo esse tipo de raciocínio acerca das diferentes configurações dos medos e dos objetos temidos para os periódicos cariocas, encontra-se uma série de especificidades que diz respeito à história local. O medo surge nas páginas do Globo tanto como protagonista em reportagens especiais, como também disperso no léxico de temores como o dos "menores de rua", dos traficantes, seus tiroteios e suas balas perdidas, das brigas entre camelôs e guardas municipais, dos manifestantes que queimam ônibus, entre outros. Dessa forma, o medo midiático se constrói em torno de determinados personagens urbanos. Quase sempre essas reportagens tratam da participação da polícia. Porém essa participação nem sempre está associada à tentativa de manutenção da ordem. Muitas vezes, os jornais assumem uma posição crítica em relação à polícia, tratando-a não somente como incompetente para conter a violência e, conseqüentemente o medo, como também como o próprio agente da desordem.

Tal caracterização dos temores da cidade não é recente. Ela pode ter sofrido alterações ao longo das décadas, mas as idéias relativas à polícia como um mal e à desordem como um risco estão bastante enraizadas no imaginário de uma elite carioca. Por outro lado, a mesma polícia desperta outros tipos de temores nas populações marginalizadas. Ao analisar os gêneros jornalísticas não apenas no tempo presente, encontrar-se-á a associação do medo à desordem em diferentes temas, lugares e personagens.

No final do século XIX e ao longo do século XX os jornais apontaram para diversos tipos de temores. Os periódicos cariocas expressavam a preocupação de uma elite "civilizadora" acerca das "habitações insalubres" das famílias pobres (BARBOSA, 1996, p.202), vistas como proliferadoras de doenças, fruto de uma desordem urbanística. Estes diários promoviam insistentes campanhas higienistas, embora pudessem eventualmente se opor a atitudes específicas como, por exemplo, a campanha da vacina, em 1904.

Décadas mais tarde, já no jornal O Globo, que vem servindo como objeto desta pesquisa, encontram-se múltiplos lugares do medo e da desordem. Usando como referência edições de meses aleatórios deste periódico no ano de 1954, vê-se, por exemplo, que o grande medo da época era o atômico, que permeou o imaginário das pessoas em todo o mundo durante várias décadas. Havia apenas nove anos que as bombas de Hiroshima e de Nagazaki haviam sido lançadas e o mundo estava dividido em dois blocos, sob a constante ameaça de uma guerra nuclear. A apreensão quanto à iminência da guerra parecia o substrato de quase todas as reportagens de assuntos políticos, não só de política internacional. Diante de qualquer crise política parecia estar o medo atômico, o que perdurou durante todo o período da Guerra Fria, ainda que com o passar dos anos sob forma mais branda.

Havia também na década de 50 "o inquietante problema comunista", a apreensão em relação às atividades subversivas, às greves, às manifestações, ao iminente caos político. Tais angústias, porém, não eram incompatíveis com o medo de não haver eleições, com o medo da arbitrariedade policial em casos políticos.

Outro interessante lugar do medo midiático, construído também como lugar de desordem é o trânsito. Devido a uma estranheza em relação ao progresso e ao crescimento demográfico da cidade, o trânsito era tratado como fonte de grande apreensão. Qualquer pequena colisão ou mesmo discussão entre motoristas virava notícia. Todas as metáforas que se vêem hoje nos jornais em relação à violência urbana são facilmente encontradas como formas de tratamento dadas ao trânsito naquela época. "A batalha cotidiana do trânsito", "as criancinhas vitimadas", a tentativa de controle de em até 50 quilômetros por hora devido às altas velocidades que atingiam os carros para os parâmetros da época, a falta de sinalização, "a confusão", "a guerra". O trânsito era uma atividade masculina, que demandava coragem. Somente no Jornal do Brasil é que se encontraram reportagens falando das mulheres no trânsito, como uma conquista feminina.

Na década seguinte, tendo como referência exemplares anteriores e posteriores tanto ao golpe militar quanto ao Ato Institucional 5, os medos nuclear e do trânsito persistem, além do risco dos "subversivos", que se intensifica, e que continuaria na década de 70. Ganham destaque nessas duas décadas, entretanto, outros tipos de anseios, como a falta de habilidade dos policiais em desvendar os crimes, o que era abertamente criticado. "Mesmo o crime tendo ocorrido há quatro dias, a polícia nada fez até agora para localizar o autor do disparo" é um exemplo encontrado na página 9 da edição do dia 4 de janeiro de 1967 do Globo.

Desde a década de 50, encontraram-se críticas em relação à polícia, que chegou a ser tratada como "câncer da sociedade" numa reportagem. Entretanto, tais críticas diziam respeito à arbitrariedade dos policiais na condução de casos políticos. Até então, as reportagens policiais eram tratadas com carga de suspense, enfatizando-se o fato de o periódico estar contribuindo para desvendar os mistérios. Essa situação irá se inverter na década de 60, quando a crítica aos casos políticos silencia. Por outro lado, o tratamento dado pela polícia aos crimes comuns passar a ser objeto de crítica do jornal.

As favelas também são cada vez mais marcadas nas reportagens como lugares perigosos, que precisam ser contidos, além da Baixada Fluminense. As favelas, assim como quaisquer habitações dos grupos mais pobres, aliás, merecem um estudo a parte, como um lugar sobre o qual a capacidade dos meios de comunicação de mitificá-las e difundir esse mito tem sido extremamente persistente. Numa seqüência de atribuições negativas, as favelas já foram o lugar da proliferação de doenças, o lugar da ignorância política que faria com que as pessoas votassem em candidatos populistas com promessas vãs ou que vendessem seu voto, até a atribuição de lugar do crime (DUARTE, 2003, p.162).

O medo tem atravessado ao longo dos anos não só múltiplas temáticas e gêneros jornalísticos como também constitui referência na construção de uma dada representação midiática da cidade. Por exemplo, se o lugar privilegiado do medo já foi a Baixada Fluminense e a Zona Norte, o que se verifica, pelo menos no Globo, é que ele se espalhou por toda a cidade. Analisando as primeiras páginas do ano de 2003, observa-se se que, embora a Zona Norte, notadamente Bangu, a Linha Vermelha e a Avenida Brasil, permaneça fortemente marcada como o lugar do medo, a ameaça entretanto se espalha por outras regiões, principalmente em Copacabana, na Zona Sul, bairro com maior número de referências nas reportagens policiais daquele ano com chamadas na primeira página. Também tiveram destaque a Barra da Tijuca, na Zona Oeste, a Avenida Brasil, na Zona Norte, o Centro, assim como Leblon e São Conrado, na Zona Sul.

Deste modo, diferentes tipos de temores e de experiências irão configurar diferentes lugares imaginários que, por sua vez, comporão um determinado mapa midiático do medo. Se Bangu, que abriga o complexo penitenciário, é o bairro da violência explosiva, do perigo que deve ser contido dentro de quatro paredes, a Linha Vermelha, cercada de favelas com o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da cidade, e a Avenida Brasil são lugares dos tiroteios, do inesperado, do desconhecido, da surpresa. Enquanto isso, em Copacabana, bairro da visibilidade internacional e do turismo, o medo midiático se materializa principalmente em assaltos praticados por "meninos de rua". Da mesma forma, o medo em São Conrado, onde fica a Rocinha, e no Leblon se objetiva em assaltos, assim como em tiroteios, latrocínios e em episódios de desafio à ordem pública. O mesmo ocorre no Centro da cidade, onde o conflito entre camelôs e guardas municipais é destaque. Portanto, numa dada representação midiática da cidade, cada região ou bairro também são tipificados segundo determinados medos.

As especificidades dos medos midiáticos estão mescladas, portanto, entre outros fatores, às próprias identidades da cidade do Rio, intimamente vinculadas à idéia de nação (é preciso lembrar que o Rio de Janeiro foi capital federal até 1960). O temor em relação à desordem está presente nas páginas nos periódicos cariocas principalmente a partir do início do século XX. Segundo Barbosa (1996), os jornais ajudavam a dar voz ao projeto da República que nascia, associando a forma de governo à própria idéia de nação e acentuando aspectos patrióticos. Nesse contexto, os jornais foram fundamentais para fornecer uma representação da capital da República, passando pelos ideais positivistas de ordem e progresso que marcavam o pensamento da elite na época. Foi naquele período que a cidade do Rio passou por profundas reformas urbanísticas, com a abertura de grandes avenidas e a eliminação de cortiços e habitações populares, numa tentativa de lançar as populações carentes para longe da área central.

Portanto, pode-se imaginar que, naquele momento, a idéia da construção de uma ordem urbana e sua manutenção era fundamental para aqueles que esperavam uma projeção do país em direção ao progresso. Evidentemente, uma gigantesca parte da população, analfabeta e desocupada, logo após a decretação do fim da escravatura (1888), era colocada à margem de tal projeto de progresso. Restava-lhe ser submetida à ordem, nem que fosse pela força. Basta lembrar que o Código Penal do início da República previa a vadiagem como crime. Logo, uma proporção gigantesca da população era passível de ser considerada criminosa, já que o desemprego chegava a 50% da população e 80% das pessoas estavam privadas de direitos civis. (ZALUAR, 1996, p.63) E era preciso conter essa gente "perigosa". Assim, estigmatiza-se o pobre e o desempregado, como elemento criminoso e como aquele que – com seus hábitos e costumes - atrasa o desenvolvimento do país.



Medo e violência

Os medos midiáticos, portanto, expressos nas páginas do Globo têm sido freqüentemente associados a uma suposta desordem urbana, política e social na cidade do Rio, quase sempre atribuída a determinados personagens. Esse tipo de construção pode aparecer, como se viu, em diferentes momentos, em diferentes gêneros jornalísticos, em diferentes temáticas.

Uma das temáticas mais presentes no gênero "reportagem policial" tem sido a "violência urbana". Trata-se de uma série de acontecimentos que não necessariamente têm relação entre si, a não ser pelo fato de terem alguns elementos em comum. Enquanto algumas práticas violentas e modalidades de crimes são ignoradas, outras são inter-relacionadas na medida em que puderem ser vistas como instâncias de algum tema mais abrangente, como capítulos de uma mesma novela. Nesse sentido, poder-se-ia concluir que a "violência" na imprensa carioca engloba uma multiplicidade de eventos e que as reportagens são explícitas em evocar discursos sobre "falta de segurança", "crise na segurança", "guerra perdida", "violência alarmante" entre outras variações. Ou seja, determinados traços são destacados, narrativa e editorialmente, para fornecer a sensação de continuidade entre diferentes episódios. Deste modo, não se está considerando a "violência urbana" um dado, mas um tema, um conceito organizado (FISHMAN, 1990, p.7).

Duas coberturas acerca da "violência urbana", realizadas pelo Globo em 2003, servem a esta pesquisa para tentar encontrar a forma e as razões dos medos na imprensa carioca. A primeira é sobre a morte da estudante Gabriela do Prado Ribeiro durante um tiroteio em uma estação do metrô e, a segunda, sobre o “ataque” a um campus universitário do qual saiu ferida a estudante Luciana de Novaes1, que ficou tetraplégica.

Os crimes ocorreram em lugares simbolicamente importantes no Rio: o metrô, que era considerado livre de perigo, e a universidade, lugar de distinção social. Ambas as coberturas foram construídas de modo a fornecer a sensação de continuidade entre os dois casos, distantes do tempo apenas 41 dias, como parte do mesmo fluxo do sensacional. As duas histórias tiveram como protagonistas duas jovens de classe média, de 14 e 19 anos, cujas vidas foram interrompidas por ações violentas, atribuídas "à ousadia dos bandidos" e "ao despreparo da polícia". Trataram-se de dois episódios de ruptura da ordem pública, cujas coberturas lidaram com a morte e a ameaça como desvios, ainda que rotineirizando-as ao se destacarem narrativa e editorialmente aspectos semelhantes dos distintos casos.

O mesmo símbolo da paz em fotografias, a mesma classificação como "violência urbana", a solidariedade de ambas as famílias, um mesmo criminoso envolvido nos dois casos, o mesmo tipo de responsabilização da polícia pelos desfechos desastrosos. Todas essas operações conduzem à sensação de continuidade entre as duas coberturas, que por sua vez fazem parte de um fluxo narrativo que as antecede e que as precede. Os dois casos, de grande repercussão, passam a servir como referência para outras notícias naquelas mesmas edições ou em edições posteriores.

No dia 26 de março, O Globo deflagrava as primeiras reportagens sobre o caso "Gabriela" apresentando logo no lead o medo que os pais da vítima tinham em deixá-la andar sozinha pela cidade. O Rio é desde este primeiro momento, portanto, construído como lugar perigoso, como uma ameaça às crianças e aos jovens. A reportagem falava da angústia dos pais de Gabriela, ao esperá-la na estação do metrô e não vê-la chegar, materializando ali o medo da falta do objeto amado. No dia 29, esta interpretação ganha reforço com a reportagem que destaca a falta que Gabriela fará na escola. Dizia o lead:

"Na sala de aula da turma 101, uma das cadeiras da primeira fila ficará vaga. Por decisão dos colegas de Gabriela, desde ontem o lugar onde ela costumava se sentar está vazio para lembrar a presença da estudante. (...)" (pg. 14).
O texto, assim, acabava por reforçar na memória não dos colegas de turma de Gabriela, mas dos leitores, a ameaça da falta. Mais adiante, a cobertura destaca o impacto emocional dos jovens diante das narrativas sobre violência que circulam na cidade. Fala numa "guerra perdida" também. Pouco mais de um mês depois da morte de Gabriela, o caso do ataque à universidade repete a ameaça da falta, a necessidade de ordem pública, o medo.

"Estou morrendo um pouco com minha filha", dizia José Almir de Novaes, pai de Luciana. Ele também clamava por uma determinada idéia de ordem: "É preciso varrer esses morros e acabar com a bandidagem." Nos dias que se seguiram, O Globo tratou o episódio como um evento político. "Garotinho admite que há descontrole na segurança", dizia a manchete, citando o então secretário de Segurança. Cogitava-se apelar para as Forças Armadas para manter a ordem. As reportagens tratavam dos riscos que os alunos sofriam, mas o problema ainda estava limitado àquela universidade. No quarto dia de cobertura, o medo se espalha e se torna protagonista das reportagens. A manchete era "Ameaças fecham escolas e 10 mil alunos ficam sem aula". O curioso é que, mesmo sem ter recebido ameaças, algumas das escolas decidiram suspender as aulas, o que indica uma grande "eficiência" do jornal na construção de uma memória recente acerca do medo e da ameaça.

No quinto dia de cobertura, o medo alcança ares de histeria coletiva. "Cultura do medo se espalha no Rio", dizia a manchete. Note-se que a reportagem principal que dá origem à manchete foi estruturada a partir de diferentes fatos ocorridos naquele dia na cidade que não tinham necessariamente relação entre si a não ser pelo medo. Desta forma, vê-se como a ameaça e o medo se espalharam, desencadeados por um único acontecimento inicial.

Considerações finais

O que se observa nas reportagens policiais realizadas pelo Globo recentemente é que o principal elemento que costura os diferentes acontecimentos do cotidiano num mesmo fluxo narrativo é o medo. Esse sentimento é associado à desordem, como ameaça à segurança. Nesse sentido, os medos na reportagem policial são principalmente expressão do medo da morte. Segundo o sociólogo alemão Norbert Elias (2001), fez parte do processo civilizador da Modernidade recalcar a morte, ou seja, empurrá-la para as coxias da vida social. Mas, se a tendência histórica, segundo o autor, foi se calar sobre a morte, não seria paradoxal a prolixidade da mídia acerca dela? O historiador francês Michel Vovelle (1987, p.132) dá uma pista afirmando que "quando os homens se calam sobre sua morte, o indício é tão essencial como quando eles produzem, para aprisioná-la, um discurso construído." Portanto, pode-se pensar que os meios de comunicação são um modo não de vivenciar o medo na sua forma mais assustadora, mas, o contrário, uma tentativa de controlá-lo sob forma discursiva.

Entretanto, o que se vê no dia-a-dia é que o consumo deste material noticioso, aparentemente, não gera nas pessoas nenhum tipo de tranqüilidade. Ao contrário. Seria o jornalismo responsável por uma hipertrofia dos discursos acerca da morte e da violência, gerando medo, ou, contrariamente, seria ele uma maneira ascética e distanciada de lidar com a morte e o medo? Ao que parece, o interesse despertado pela reportagem policial, principalmente na sua forma predominante atual sob o tema "violência urbana", situa-se justamente nas brechas das tensões entre sentimentos conflitantes morte/vida, revolta/apaziguamento, esperança/pessimismo2.

Segundo Barbosa (2004, p.1), as mortes encontradas na mídia, ou seja, o fenômeno da morte midiática, pre-figura uma certa sensibilidade cultural coletiva, uma determinada forma de se conceber a morte. Haveria dois tipos principais de mortes no jornalismo. A morte natural, que só merece destaque se o morto for famoso e, neste caso, a mídia se transforma no lugar cerimonial da morte, ou o falecimento do anônimo, que teve sua vida interrompida por uma causa externa violenta, como foi o caso de Gabriela. Diante desse segundo tipo de morte midiática se constroem discursos como os da "falta de sentido". É principalmente sobre a morte sem sentido ou sobre sua ameaça que se constrói a grande maioria das reportagens policiais e sobre a qual se tenta dar um sentido moral, uma explicação. Talvez a reportagem policial seja uma tentativa de racionalização e de dar sentido à angustiante consciência da transitoriedade que não se pode evitar, da morte que espreita em cada esquina e sobre a qual não se tem controle, aliás, cuja expressão máxima parece ser a "bala perdida", ou seja, a morte aleatória, sem alvo.

Nas duas coberturas estudadas, a bala perdida encarna o descontrole das autoridades em manter a ordem pública. Ela é a imprevisibilidade, o próprio acaso, que pode tanto matar quanto deixar graves seqüelas. O medo da morte é desencadeado, assim, em episódios de desordem do fluxo normal da vida na cidade e se materializa no disparo desnecessário, cujo alvo não fora escolhido e que, portanto, pode ser qualquer um. Manifesta-se aí tanto a angústia diante da finitude da vida imposta por fatores externos quanto o relativo conforto diante da morte do outro, numa perpétua alternância entre a necessidade de dramatizar a realidade para em seguida apresentar pacificações temporárias nos espíritos. A reportagem policial representa assim uma tentativa de racionalizar o mundo, de prever a morte e de estabelecer uma tecnologia de prevenção do acaso. Como afirma Benjamin (1994, p. 200), é próprio à narrativa ter natureza utilitária, conter um ensinamento moral, uma sugestão prática, um conselho. Como, por exemplo, "desconfie do outro", "na dúvida, tenha medo".

Bibliografia:

BARBOSA, MARIALVA. Imprensa, poder e público (Os diários do Rio de Janeiro – 1880-1920). Tese de Doutorado em História. Universidade Federal Fluminense, Niterói,1996.

_____________________. "As mortes como cerimônias midiáticas: a TV e a morte de Tancredo Neves". Texto para a Lusocom/2004.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.

DELUMEAU, JEAN. História do medo do Ocidente – 1300-1800, uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 12 p.

DUARTE, Maurício da Silva. "A universidade e os sentidos da violência: consensos formulados pelo pensamento crítico a partir da ´universalização dos direitos`." IN: Cidadania obstruída. Jornais cariocas e a construção discursiva da violência no Rio. Tese de Doutorado em Comunicação pela ECO/UFRJ, 2003, pp. 148-169.

ELIAS, Norbert. A Solidão dos Moribundos (seguido de "Envelhecer e morrer"). Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001, pp. 7-103.

_____________ e SCOTSON, John. Os estabelecidos e os outsiders. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2000.

FISHMAN, Mark. Manufacturing news. Austin, University of Texas Press, 1990.

LEFEBVRE, Georges. O Grande Medo de 1789. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1979.

VOVELLE, Michel. "Sobre a morte". In Ideologia e Mentalidades. São Paulo, Brasiliense, 1987, pp. 127-150.

ZALUAR, Alba. Da revolta ao crime S.A. São Paulo, Editora Moderna, 1996, pp. 9-128.





1 Exemplares de 26 a 30 de março e de 6 a 10 de maio (2003).

2 Enfatizamos que o nosso interesse não é realizar um estudo de recepção, mas perceber as construções narrativas midiáticas ao elaborar um discurso sobre o tema da violência urbana.


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