Os monstros/criminosos em Gota d’água, proposta de leitura a partir da obra de Foucault



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Os monstros/criminosos em Gota d’água, proposta de leitura a partir da obra de Foucault

Jéssica Tamietti de Almeida (UFMG)


Esta comunicação pretende analisar as sobreposições monstro/vítima/criminosos e, por conseguinte, as de crime/punição presentes no discurso literário da peça Gota d’água, de Chico Buarque e Paulo Pontes. Mostraremos o jogo que se estabelece entre essas categorias que se sobrepõem na construção dos personagens, a partir dos pontos de vista teórico-filosóficos da segunda metade século XX e de seus conceitos enfatizando os trabalhos da escola francesa, representada por Foucault. Entendemos que eles fornecem possibilidade de estudos sociopolíticos pertinentes através da relação crime e monstruosidade estabelecida pelo filósofo francês.

A peça Gota d’água é uma releitura do mito de Medeia representada por Joana, que depois de ser abandonada por Jasão, personagem e autor do famoso samba que dá nome à peça, o sambinha Gota d’água, mata os filho e se mata.

O que nos permite abordar o texto desta forma é que, já na dramaturgia, Buarque e Pontes constroem seus personagens através da palavra. E é recolhendo esses fragmentos que enxergamos os monstros na peça. A teoria que suporta nossa hipótese é de Jeffrey Jerome Cohen em “A cultura do monstros: sete teses”. O medievalista americano afirma:

A interpretação monstruosa é tanto um processo quanto uma epifania, um trabalho que deve se contentar com fragmentos. (pegadas, ossos, talismãs, dentes, sombras relances obscurecidos - significantes de passagens monstruosas que estão no lugar do corpo monstruoso em si). (COHEN, 2000, p. 30)


Assim, entendemos que, com expressões e figuras de linguagens ligadas ao monstruoso, são criados jogos de dualidades que dividem as personagens e suas ações em criminoso/vítima e crime/punição, mostrando-nos que a palavra “nesse texto [em afirmação de seus autores] volta a ser o centro do fenômeno dramático” (BUARQUE e PONTES, 2001, p. 18).

Michel Foucault (29 janeiro de 1975, p. 113) fala sobre o aparecimento do criminoso como monstro moral. Até os séculos XVII e XVIII, a monstruosidade trazia em si um pouco de criminalidade. A partir do século XIX, a relação se inverte e todo criminoso é tido como monstro da mesma maneira, que antes, todo monstro era um provável criminoso. Em Gota d’água ambos, Jasão e Joana, podem ser tanto criminosos/monstros quanto vítimas da história. Surgem, então, as dúvidas e ambiguidades inerentes ao gênero trágico materializadas no texto brasileiro nas oscilações: se Joana realiza um crime ou só perfaz a punição do monstro que, nesse caso, seria Jasão, o grande malvado da história, acusado de traição e abandono.

Esta possibilidade comprova-a outro personagem, Cacetão, o gigolô. Cacetão na peça, canta: “mas a falta mais violenta sujeita a pena crudenta é largar quem te alimenta como fez Jasão” (BUARQUE e PONTES, 2001, p. 43). Outro elemento que reforça o argumento de que Joana é agente de punição é quando ela se refere na peça aos filhos:

Ah, os falsos inocentes! Ajudaram a traição São dois brotos das sementes traiçoeiras de Jasão E me encheram, me incharam, me abriram, me mamaram, me torceram, me estragaram, me partiram, me secaram, me deixaram pele e osso (...) Vão me murchar, me doer, me esticar e me espremer, me torturar, me perder, me curvar, me envelhecer E quando o tempo chegar vão fazer como Jasão A primeira que passar, eles me deixam na mão (BUARQUE e PONTES, 2001, p. 62-63)


Através dessa fala, a protagonista apresenta os filhos como culpados do crime de transformar, violentamente, a própria mãe em monstro, além de prever o futuro crime de abandono. Neste trecho, as deformações físicas e a violência do vocabulário acentuam não só a imagem dos filhos e de Jasão como criminosos, mas, sobretudo, a imagem que formamos de Joana. Exemplo perfeito dessa dualidade que permeia a peça. Veja-se, logo depois, a fala da mulher de Jasão preconizando o crime na obra: “Para não ser trapo nem lixo, nem sombra, objeto, nada, eu prefiro ser um bicho, ser esta besta danada Me arrasto, berro me xingo, me mordo babo, me bato, me mato, mato, me vingo, me vingo, me mato, mato”. (BUARQUE e PONTES, 2001, p. 63)

Essas dúvidas e ambiguidades são construídas a partir da oscilação do discurso, das falas dos personagens que, ao longo da peça, nos apresentam os protagonistas monstruosos. Entre os vizinhos há aqueles que defendem Jasão, como Xulé: “também não é crime Jasão mudar de classe, é mudar de time ele é dono do seu passe.” (BUARQUE e PONTES, 2001, p. 35). Já as vizinhas acreditam que “era pra esse (Jasão) arrancar os dois olhos da cara e dar pra ela se ela carecesse de visão” e que antes ele “era a merda em negativo”.

Há também um confronto direto dessas duas visões, de monstro presentes na obra. Joana diz a Jasão: “só de ambição sem amor tua alma vai ficar torta desgrenhada aleijada, pestilenta... aproveitador” (BUARQUE e PONTES,2001, p. 90). Em resposta, ele diz: "sarna coceira cancro solitária ameba bosta balaio eu te deixei sabe por quê? doença, estupor, vaca chupada castigo eu te deixei porque não gosto de você.” (BUARQUE e PONTES, 2001, p. 92). Percebemos que neste confronto dos protagonistas, as palavras escolhidas são violentas querem ferir o outro, são ligadas ao excremento, ao nojo, ao animalesco, a doença e a velhice. E as mesmas palavras que formam essa figura monstruosa do outro vão delinear aquele que fala também como monstro, portanto Jasão ao chamar sua ex-mulher de toda essa lista, a exemplo de Joana afirma-se também como monstro neste ciclo ambíguo de crime e punição em que ocorre a peça. É permitido ao monstro essa narrativa dupla, “duas histórias vivas: uma que descreve como o mostro pode ser e outra- seus testemunho- que detalha a que uso cultural que o mostro serve.” (COHEN, 2000, p. 42)

Para criar a unidade de medida entre o castigo e crime, a “tecnologia do poder de punir” (FOUCAULT, 2002, p. 109) começou a procurar o que chamamos de intenção, e essa é observa o indivíduo, no sentido de torná-lo um comum do crime, tipificando-o. Antes, os crimes eram a doença do corpo social, mas o que vemos no século XIX é o criminoso, como doente, monstro. O primeiro monstro moral apontado por Foucault é o criminoso/monstro político, o rei déspota. É nessa ótica do déspota, que Foucault (2002, p. 124 ) fala do monstruoso Rei Luis XVI, pois o primeiro monstro que surge é o rei. Em Gota d’água, a hipótese aplica-se também ao personagem Creonte, pai da noiva de Jasão Creonte possui uma “cadeira”, metáfora do trono e do absolutismo (ou ditadura, se quiserem, termos mais adequados para o regime militar da década de 70), que representa o tópos poder, que foi de seu pai e que será de seu sucessor: “sentado está deus pai o presidente da nação o dono do mundo e o chefe da repartição” (BUARQUE e PONTES, 2001, p. 49). Assim constituído, ele ensina a Jasão a sua cartilha do bem estar, como o rei ao seu sucessor:

Ergue a cabeça, estufa o peito fica olhando a linha de fundo como que a olhar nenhum lugar seguramente é o melhor jeito que se há de olhar para todo mundo sem ninguém olhar teu olhar... cruza as pernas, que teu parceiro vai se sentir mais importante vendo a sola do seu sapato e se ele ousar falar primeiro descruza as penas de repente que ele vai entender no ato (BUARQUE e PONTES, 1983, p. 52).
No segundo ato da peça, quando cresce a revolta de Joana, é com a força de suas palavras gritadas em praça pública que ela invoca todos os demônios, deuses e orixás:

(...) o pai e a filha vão colher a tempestade a ira dos centauros e de pomba-gira levará seus corpos a crepitar na pira e suas almas a vagar na eternidade (...) Hécate, feiticeira das encruzilhadas, padroeira da magia, deusa-demônia, falange de ogum sintagmas da macedônia suas duzentas e cinqüenta e seis espadas mago negro das trevas flecha incendiaria Lanbrego Canheta, Tinhoso, Nunca-visto, fazei desta serva fiel de Jesus Cristo de todas as criaturas a mais sanguinária (BUARQUE e PONTES, 2001, p. 101)


Essas palavras levam a Creonte – o dono de todas as casas do morro – a querer despejar Joana de sua casa, moradia paga em prestações. O ato remete ao contexto econômico da década de 70 assombrado pela inflação. Os moradores pagam sempre mais do que deviam por causa dos juros excessivos que os tornam dependentes da “simpatia de um cidadão para dormir tranqüilo”. Creonte como o Rei, é então quem faz a lei e decide a quem é permitido ficar e quem deve ir embora.

Vê-se, portanto, que postulamos uma ampliação do entendimento do monstro moral político a partir do contexto econômico e social, pois A gota de água que falta para derramar o copo preenchido de mágoa se dá através da opressão econômica, resultado de uma sociedade brasileira, onde “às classes subalternas restou à marginalidade abafada, contida, sem saída” (BUARQUE e PONTES, 2001, p. 18) proclamando o sistema como grande monstro, por meio desses monstros “borram-se as fronteiras entre os corpos pessoais e nacionais”. (COHEN, 2000, p. 37)

Em trechos retirados da apresentação da obra, aparecem termos como “Estado inflexível, estreito”, “politicamente diabólico” caracterizando o rosto desse monstro político: “uma face da sociedade brasileira que ganhou relevo nos últimos anos: a experiência capitalista que vem implantando aqui – radical, violenta, predatória e impiedosamente seletiva” e que adquiriu “um trágico dinamismo”. (BUARQUE e PONTES, 2001, p. 9)

Jasão, Joana, os filhos e todos que nasceram nesse “fim de mundo” seriam os não selecionados, fadados pelo destino a serem vítimas, coagidos: “quem nasce nesta vila não tem mais saída, tá condenado a só sair no rabecão e camburão”. (BUARQUE e PONTES, 2001, p. 41)

Foucault postula que a nova economia do poder criou um monstro humano em que se combinam dois temas: “incesto dos reis e canibalismo dos famintos”, é o monstro do abuso de poder e o monstro que rompe o pacto social da revolta, “o soberano despótico e o povo revoltado (...) os dois grandes monstros que velam o domínio da anomalia” (FOUCAULT, 2002, p. 130), “o povo vai ser precisamente a imagem invertida do monarca”.

O filósofo francês afirma – argumentando apoiado em texto datado de 1793 de Levasseur – para traçar uma genealogia da realeza que a instituição real nasceu do conflito entre caçadores e feras. Os caçadores defendiam a sociedade até que, quando as feras foram dizimadas, eles tomaram o seu lugar e passaram a ameaçar a sociedade por eles defendida.1 Assim, entenda-se que aqueles que matam os dominadores déspotas ao tomar seu lugar, tornam-se monstros também e quando o povo mata o Rei ele se torna, por sua vez, monstro também. Joana é aquela que se viu inútil, com alma de caçadora e que se transforma em fera, besta, bicho, diabo, em monstro, rompendo o laço, o pacto de mãe e filho. É de baixo para cima que reage enquanto o sistema em oposição a esmaga. Esse rompimento com suas leis impiedosas culmina com o assassinato dos próprios filhos. É essa dualidade, o sistema-rei déspota e Joana – matricida, que observamos em Gota d’água repetindo o que se via na literatura da época contemporânea à revolução burguesa.2

O monstro sistema e as criaturas quase sempre monstruosas que ele produz afetam a estrutura narrativa da ficção mudando o final de Medeia, pois em Gota d’água Joana suicida depois de matar os filhos, em uma espécie de autopunição. Essa narrativa fragmentária, na qual Jasão e Joana oscilam e se concretizam como monstros (Jasão na passagem em que toma pra si o trono de Creonte e Joana no momento em que mata os filhos), nos mostram como os protagonistas refletem o peso do sistema que os criou e os aprisionam. Portanto, o Sistema cria monstros que o administram, mantém o próprio Sistema monstro, continuando como na genealogia de Levasseur o ciclo das feras e Reis, que nos fala Foucault.

E assim, é através da construção dos personagens que são delineados, por suas próprias falas, que se apresentam para nós leitores/espectadores os monstros políticos e criminosos abordados por este trabalho: os contrapontos de Joana e Jasão monstro/vítima e crime/punição, Creonte, o rei déspota e o próprio Sistema monstro. Chico Buarque e Paulo Pontes retomam a arte dos tragediógrafos de criar o monstro através do canto, da palavra, mostrando que “a linguagem, como instrumento do pensamento organizado, tem que ser enriquecida, desdobrada, aprofundada, alçada ao nível que lhe permita capitar e revelar”. (BUARQUE e PONTES, 2001, p.18)


Referências:
FOUCAULT, Michel. Os anormais: curso no Collège de France (1974-1975). São Paulo: Martins Fontes, 2002. xvi, 479 p
BUARQUE, Chico; PONTES, Paulo. Gota d'água. 30. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. 174 p
DONALD, James; SILVA, Tomaz Tadeu da. Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. 199 p.

1 Havia duas categorias de pessoas os agricultores e os que eram obrigados a protegê-los das feras, os caçadores. Ocorreu um momento em que conseguiram fazer com que as feras desaparecem. Esse fato, porém os tornou inúteis e os caçadores ficaram preocupados com essa inutilidade que iria privá-los de seus privilégios. Assim sendo eles se tornam então animais selvagens e se voltam contra aqueles que protegiam, são o lobo do gênero humano e os reis seriam esses tigres ex caçadores que haviam tomado o lugar das feras.

2 A natureza contranatural do criminoso, o monstro, é isso que aparece nesse momento. E nessa literatura vemos aparecer igualmente duas formas. De um lado, temos o mostro por abuso de poder: é o príncipe, o senhor é o mau padre, o monge culpado. Depois, temos também nessa mesma literatura de terror, o mostro de baixo o mostro que volta a natureza selvagem, o bandido, o homem das florestas, o bruto com seu instante ilimitado. (FOUCAULT, 2002, p. 124-125)


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