Os métodos narrativos e retóricos



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Os métodos narrativos e retóricos
Pe. Jaldemir Vitório SJ
Depois da obsessão pela análise da gênese e da estrutura submersa do texto, a exegese voltou a uma “ingenuidade reconquistada”. Redescobriu a capacidade de ler o texto, sem mais; de ler o movimento da narrativa ou da argumentação retórica que o texto apresenta.

(I) O método da análise narrativa verifica a maneira como o narrador construiu a narração, observando as estratégias usadas no ato de produzi-la, tendo em vista os leitores implícitos ou reais. O foco da atenção concentra-se na tríade: narrador – texto – leitor. As perguntas de fundo são: como o narrador trabalhou para produzir o texto oferecido aos leitores? Que recursos literários utilizou para transmitir a mensagem? Como arquitetou o texto que o leitor tem em mãos? A preocupação de fundo é a de verificar o efeito produzido pelo texto sobre o leitor, considerando os expedientes de que se serviu o narrador. O narrador é o autor implícito, identificável nas entrelinhas do texto pelas escolhas feitas no processo de criação literária. O autor real carece de importância. Por outro lado, o leitor é o leitor implícito que o narrador teve em mente no ato de narrar. O leitor real, também, carece de importância.

A análise narrativa concentra-se nos seguintes pontos:

a) A intriga. É a organização dos componentes narrativos, garantindo que a trama se desenvolva de forma lógica, de fácil percepção pelo leitor. A intriga não pode ficar incompleta. Por mais que a ação comporte conflitos e tensões, afinal, deverá encontrar um ponto de fechamento. Caso contrário deixará o leitor decepcionado. Ou então, quando a intriga é confusa e o leitor não tem como captá-la, o leitor fica desmotivado a continuar. O bom narrador é o que prende a atenção do leitor até o fim. Três são as características do narrador: onipotência – pode fazer tudo quanto quer e como quer no processo de criação literária; onisciência – conhece tudo que lhe interessa para produzir o texto; onipresença – está em todos os lugares onde se passa a narração.

A intriga articula-se em quatro momentos: introdução – é a apresentação do problema e dos personagens implicados; ação – é o desenrolar da trama, onde a relação entre os personagens vai se tornando sempre mais complicada, a ponto de exigir uma solução; clímax – é o momento em que os nós são desfeitos, os segredos revelados e as relações encaminhadas e as questões levantadas pelo leitor são esclarecidas; desfecho – é o alinhavamento da intriga.

b) Os personagens. O narrador onipotente cria os personagens necessários para o desenrolar da intriga; dá-lhes nome e identidade; fá-los entrar e sair de cena, quando e como quer; determina-lhes os sentimentos. Caso se sirva de personagens históricos, trata-os de maneira livre, pois não lhe interessa fazer biografia. A análise perceberá como se processa a interrelação entre os personagens: amizade-inimizade, confiança-desconfiança, intimidade-indiferença. Ela se dará em diferentes níveis, indo desde a relação superficial à profunda. Poderá romper-se, restabelecer-se, entrecruzar-se. O modo como o narrador refere-se aos personagens determina-lhes a importância na narração, indo desde o herói aos personagens secundários. Os dados a respeito dos personagens são inseridos de dois modos: servindo-se dos personagens implicados na trama, que falam uns dos outros (enunciados intradiegéticos) ou, então, o próprio narrador oferece informações sobre os personagens (enunciados extradiegéticos). Quanto melhor o narrador, maior será a capacidade de apresentar os personagens de maneira conveniente e convincente, em consonância com o papel desempenhado na intriga.

c) A focalização. É um conceito da arte cinematográfica aplicada à análise narrativa. No processo de leitura, o leitor deixa-se guiar pelo narrador, como se tivesse filmando as cenas narradas. A leitura só será proveitosa se o leitor for suficientemente dócil para se deixar conduzir, sem protestar. A sequência das cenas corresponde a diferentes focalizações, que podem ser de três tipos: focalização zero – é a tomada em grande angular, com uma visão tão ampla a ponto de abolir os limites exatos de tempo e de espaço; focalização externa – é o que o leitor “vê” na narração, os detalhes da cena, os diálogos entre os personagens e suas reações; focalização interna – acontece quando o narrador revela o que se passa no íntimo do personagem, pensamentos, sentimentos e desejos.

d) A temporalidade. Toda narração desenrola-se no tempo e no espaço. Não existe ação fora destas coordenadas. Aliás, a narração consiste, exatamente, em descrever de maneira lógica e plausível uma série de ações ligadas entre si, temporal e espacialmente. A análise narrativa distingue dois tempos. O tempo da história narrada conta-se pelas unidades de tempo: minutos, horas, dias, anos, séculos. O narrador oferece as indicações cronológicas para situar, no tempo, os personagens e as ações. Já o tempo da narração corresponde ao tempo empregado para descrever as cenas. Conta-se pela quantidade de palavras, frases e páginas. Algumas cenas são narradas com mais vagar e outras, de forma rápida. Os personagens podem se referir a fatos do passado – analepse – ou falar de coisas que estão para acontecer – prolepse. Por motivos de economia narrativa, o narrador recorre à elipse. Um pequeno parágrafo pode abarcar ações sucedidas num vasto período de tempo. O suspense acontece quando a narração caminha muito lentamente, criando expectativas no leitor.

e) O contexto. A análise narrativa detecta as circunstâncias de tempo, lugar e ambiente social, nos quais a intriga se desenrola. O contexto pode ser factual ou metafórico. É factual, quando é indicado por dados objetivos de quando, onde, como, com quem, em que circunstâncias se dá a ação. É metafórico quando aponta para algo além da realidade. Uma montanha pode ser um contexto factual ou metafórico. No primeiro caso, trata-se de uma montanha bem localizável; no segundo, simplesmente, significa lugar de encontro com Deus. São variados os contextos de uma ação. A análise os explicitará.

f) O ponto de vista. Os pressupostos ideológicos e a hierarquia de valores do narrador estão presentes nas entrelinhas da narração. Antipatias e simpatias revelam-se na forma como os personagens são criados. Pode acontecer de o leitor ser contaminado com as preferências do narrador e rejeitar determinado personagem ou, pelo contrário, ser-lhe benevolente. O ponto de vista pode ser inserido na narração por meio de um comentário explícito, onde o narrador diz com todas as letras seu ponto de vista, ou de um comentário implícito, onde se serve da linguagem simbólica, da ironia ou do mal-entendido.

(II) O método da análise retórica segue uma linha um tanto diferente. Seu intento consiste em delinear as estruturas de composição dos textos, visando a mostrar a disposição das idéias. Em outras palavras, como a narração está organizada. As estruturas reduzem-se a duas formas: estruturas paralelas e estruturas concêntricas.

A análise retórica comporta os seguintes passos:

a) Reescrever o texto. Longe de ser uma simples cópia, trata-se de apresentar o texto numa tal disposição gráfica que permita visualizar a retórica do texto, nos diferentes níveis. Ao olhar o texto assim disposto, quem o analisa estará em condições de perceber as multiplicas relações no nível das palavras (lexemas), expressões ou frases (sintagmas) e das formas (morfemas). E, mais, no nível das estruturas do texto, a ponto de poder reconhecê-las e identificá-las.

O trabalho deverá ser feito a partir do texto original, pois nenhuma tradução, mesmo a mais literal, dará conta de reportar todos os elementos contidos no original e repetir-lhe, com exatidão, a figura retórica. Se o público alvo da análise não conhecer a língua em que o texto foi escrito, será preciso propor uma tradução. Esta será uma tradução funcional, que respeitará, o máximo possível, o texto original, na sua composição e forma. A tradução ficará um tanto capenga, no tocante à gramaticalidade, embora a compreensão seja possível. A explicação ajudará a polir a aspereza da tradução. Importa, sobretudo, que a tradução seja um retrato fiel do original.

O texto deverá ser reescrito integralmente sem nenhuma omissão, pois cada elemento tem sua importância no texto. Omitir significa mutilar o texto. Pode acontecer de o texto dever ser reescrito várias vezes, de acordo com a análise que se faz: uma vez para evidenciar os lexemas, outra, os morfemas, os sintagmas ou a estrutura. A sobreposição de análise, servindo-se do mesmo texto reescrito, pode impedir a percepção de elementos importantes. Afinal, na base da análise retórica, está a identificação, no texto, das identidades e oposições, com diferentes cores ou recursos tipográficos.

b) Descrever o texto. Concluída a fase anterior, trata-se de fazer uma leitura da dinâmica retórica do texto, descrevendo-lhe as características formais. A descrição seguirá a estrutura do texto. Portanto, não poderá ser linear, passando frase por frase, parágrafo por parágrafo. Se o texto comporta uma estrutura concêntrica, se poderá partir do centro para os extremos ou dos extremos para o centro. O processo de análise retórica apontará as interrelações lexemáticas, sintagmáticas ou semânticas e explicará como se processam. A descrição deverá se ater ao texto, evitando intromissões de elementos não presentes no texto original.



c) Ressituar o texto. Este passo é necessário quando o texto faz referência a outros textos, cuja compreensão é indispensável para entendê-lo. No caso do Novo Testamento, tratam-se das referências aos textos do Antigo Testamento. Sem este expediente, os textos neotestamentários com referências veterotestamentárias ficariam incompeensíveis. O texto referido é parte do texto analisado.

d) Interpretar o texto. Os passos dados até então são preparatórios para a interpretação. Esta consistirá em redizer o texto, na linguagem do intérprete e em suas categorias, com o que a análise retórica possibilitou compreender. Quem interpreta, deverá se ater aos elementos oferecidos pela análise dos elementos formais do texto. Análise formal e a interpretação caminharão de mãos dadas. Tudo dependerá da capacidade de reflexão do intérprete, no esforço de fazer emergir a mensagem escondida nas entrelinhas do texto. As relações de identidade e de oposição, as diferenças e as semelhanças, os sinônimos e os antônimos são todos carregados de sentido a ser explicitado pelo intérprete.


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