Os neologismos podem ocorrer por



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NEOLOGISMOS
É fato por demais sabido que todas as línguas vivas estão continuamente a renovar seu acervo lexical. Às novas criações, dá-se o nome de neologismos, palavras novas.

Os neologismos podem ocorrer por;



  • processos autóctones, dentro dos próprios recursos lingüísticos;

  • por formações onomatopaicas ou, mesmo, sinestésicas;

  • por importação de elementos de outras línguas.

A língua portuguesa tem utilizado todos esses recursos com maior ou menor sucesso. O léxico português é, basicamente, de origem latina, o que não impediu que ao longo da história de sua formação, venha incorporando elementos das mais variadas procedências: celta, fenícia, hebraica, grega, germana e árabe, para só mencionar os contatos mais íntimos e anteriores à “descoberta” do Brasil.

Já na chamada Idade Moderna, os puristas muito trabalho tiveram no combate à invasão de termos de origem francesa, ditando a França a moda por muito tempo, sobretudo no século XIX. Atualmente, a maior fonte de contribuição tem sido o Inglês, principalmente no que se refere às telecomunicações. No Português do Brasil, computamos, também a valiosa contribuição de termos de origem africana e indígena.

Porém, como vimos, nem todos os neologismos são resultantes de importações. São notáveis, embora raros, os casos de formação, por assim dizer, onomatopaica, e os casos de formação com elementos pré-existentes, os mais interessantes.

Os elementos realmente neológicos seriam aqueles a apresentar um significante inteiramente novo, a preencher uma nova necessidade lingüística, sem utilização de nenhum item lexical já do conhecimento dos falantes. Não é difícil perceber que essa criação inédita raramente ocorre. Para tal, é necessário que o resultado da criação se ajuste aos padrões fonológicos da língua e, mais difícil, vença a resistência dos falantes quanto a sua adoção. Será necessário que um número significativo de falantes esteja de acordo quanto ao significado daquele novo significante. O próprio aspecto conservador da língua impede que esse fato se verifique com freqüência. Haverá sempre reação ao novo elemento, tido como “mau” falar.

No momento que vivemos, podemos mencionar os exemplos tchan, tiete, ou tchutchuca, até com semelhança fônica, como casos verdadeiramente de neologismos. Se serão transitórios ou duradouros, só os próximos registros o dirão.

Muito mais freqüentes são os casos de formação a partir de elementos do próprio idioma, agrupados de maneira inusual, com ajustes no significado.

Faremos, a seguir, divisão desses mesmos neologismos formados por motivação intra-lingüística:


  1. Por derivação prefixal:

É, talvez, na atualidade, o processo mais freqüente, sendo, por vezes, tomados por prefixo, elementos que “normalmente” não estão assim classificados. Na linguagem jornalística, por exemplo, são muitíssimo produtivas as partículas:

_ auto – “dar um autogolpe”- Veja – 18-04-2001

_ anti – “...escudo antimíssil “; “corrente anti-gay...”- Veja – 18 e 25-04-2001
_ ex – “Filho de ex” – título de coluna em O Dia – 19-04-2001
_ mega –“um megainvestimento de 14 bilhões”; “o enorme sucesso da megaloja” – Veja – 18 e 25-04-2001; “um megashow” – O Dia – 19-04-2001
_ micro ... “vestindo uma microblusa” – Veja – 18-04-2001
_ multi - “a versão multimídia
_ não – “obras de não-ficção”; “deve ser considerado como não-violento – Veja – 25-04-2001
_ pós – “...em uma festa pós-Oscar” “...era pós-Fujimori” – Veja – 18-04-2001
_ pré - “crédito pré-aprovado”; “celulares pré-pagos” – Veja – 25-04-2001; pode ser tomado como adjetivo, ou mesmo, substantivo, com omissão do radical: aceitamos pré; matriculou o filho no pré.
_ sem ( e o seu correspondente, irônico com ) “filha de um sem-terra” – veja 18-04-2001; “sem-teto recolhidos nas vias públicas...para passar a noite em suites... com-ar-condicionado...” – Veja – 25-04-2001

_ super – “Superataque em Curitiba” – O Dia – 19- 04-2001


O uso intenso desses e de outros prefixos, com ou sem omissão do radical, representa um mecanismo de economia lingüística. Falar em ‘movimento dos sem-teto” requer menos esforço que “movimento daqueles que não tem um teto”.

A partícula e- (abreviatura de eletrônico, em informática) passa a funcionar como elemento de prefixação, em formas como: e-business, emusic – Veja – 18-04-2001




  1. Por derivação sufixal:

Se o século XIX foi a época de maior proliferação de –ismos e, conseqüentemente, –istas; o processo continua, copiosamente, sempre traduzindo adesão a uma idéia, teoria, doutrina e, até, a uma pessoa:

...fundamentalistas, ... “...regime fujimorista”...populista – Veja – 18-04-2001; além dos já banalizados petista, pefelista, brizolista, etc. Note-se que algumas siglas, bem como o nome de alguns líderes aceitam essa formação, porém nem todos.


Igualmente produtivos têm-se mostrado os sufixos verbais – ar e – izar , ligados, também à idéia de adesão, embora esse processo tenha-se mostrado mais forte nas eleições presidenciais de 1985 e 1989, não tendo as subseqüentes apresentado o mesmo envolvimento emocional.

Em relação ao ex-presidente Fernando Collor, deu-se preferência ao sufixo –ir , atribuindo nova acepção ao já existente verbo collorir, distinguindo-os na grafia e produzindo o expressivo adjetivo collorido em relação ao passado governo e a seus componentes.


Em formação de novos vocábulos, alguns sufixos serão tomados em acepção valorativa:

_ aço: golaço, filmaço


_ ão: frescão, orelhão; “... ‘regatão’, um barco que abastece comunidades distantes” – Veja – 25-04-2001

ou carinhoso-pejorativa:


_ eba: “ele próprio foi um natureba militante” – “ ...o programa foi uma mistureba” - Veja – 18-04-2001

_ eco: “...repeteco dez anos depois”- Veja – 18-04-2001


_ eiro “...16 de abril, Dia do Picapeiro”- Veja – 18-04-2001; “carreta perde direção e mata motoqueiro” – O Dia – 17-04-2001
Com a criação da Passarela do Samba, que jamais foi chamada por esse nome, a partícula - ódromo ( e não –dromo ) sempre proparóxitona, passou a designar “lugar onde” com as mais imprevisíveis criações: camelódromo, namoródromo, fumódromo, gudódromo etc.

Processo semelhante ocorre com a partícula –brás, mais ou menos esvaziada de sua relação com o nome de nosso país. Petrobrás, Eletrobrás.

Ainda em Veja – 18-04-2001, encontramos realização de podre como sufixo “...menor é a dívida do Econômico-podre”.

A partir do caso “Watergate” o radical “-gate” passou a funcionar como sufixo indicador de negócios excusos: Pittagate, por exemplo.

Com a partícula –vel nota-se afastamento de sua limitação somente a verbos transitivos diretos, indicativa de possibilidade de ação, para ligar-se a nomes indicando, ainda, possibilidade de ação , porém nem sempre traduzida em um só verbo: prefeitável, ministrável etc; têm sua base no papabili do italiano, onde há jogo de palavras.


  1. Por composição:

Reunem-se elementos em combinações insólitas, por ironia, por efeitos humorísticos, sendo alguns radicais recorrentes.

Os resultados dessas combinações aparecem com, ou sem hífen, observando-se, nessa oscilação de grafia, a oscilação lexicográfica: merecerão entrada no dicionário como uma unidade lexical ( palavra-composta ), ou conservarão a autonomia de seus constituintes?

_ Aparecem com hífen: puxa-saco, peso-pesado (fora do contexto de esporte) - (Veja); fora-da-lei, caixa-preta (O Dia, também descontextualizados); cabeça-de-chapa; (O Dia), bispo-cantor (O Dia, duas vezes, em colunas diferentes); “...submeteu-o a sete horas de conversa (em horas-Fidel, coisa de minutos) – Veja – 18-04-2001; faixa-título (O Dia).

_ Aparecem isolados: axé music, efeito estufa, efeito Sophie, vaca louca, programa piloto, efeito colateral (Veja) ônibus pirata, preços animal ( O Dia)



_ Aparece como uma unidade gráfica: as pontocom (Veja)


  1. Por formação de palavras-valise:

Caso especial de composição; parte de dois ou mais elementos, reconhecíveis, que se reúnem para formar uma palavra, por assim dizer ad-hoc. Não é um processo fácil, nem freqüente. A palavra resultante, freqüentemente de efeito irônico, de âmbito apenas literário, ou comercial, raramente tem sobrevida fora de seu contexto original: ecoterrorismo, ecoxiita, ecossistema, frigobar (Veja)


  1. Por reduplicação ou redrobo:

Também caso especial de composição, em que o segundo elemento é um clone do primeiro; mais empregado com formas verbais, indica intensidade de ação: troca-troca (O Dia). Pode ocorrer aformação por onomatopéia, ou, como, já se falou, por efeito sinestésico: zunzunzum (Veja); vupt!vupt!vupt! (O Dia).


  1. Por formação de siglas:

No capítulo da composição governada pela lei do menor esforço, registramos o crescente aparecimento de siglas, de tal forma que torna-se quase impossível viver sem a capacidade de traduzir um número razoável de siglas. Em alguns casos, são as siglas tão incorporadas ao cotidiano, que já se apaga a noção de se tratar de um grupamento de palavras abreviadas, chegando a colocarem-se no sistema gramatical da língua portuguesa, com derivados, como aidético, ufólogo, etc. Nota-se uma tendência, para, de qualquer forma, introduzir a sigla no sistema da língua portuguesa, sejam ou não, as bases palavras do português: os PMs, as CPIs, os CPFs, as ONGs, os CDs, as S. A . (sic) etc (Veja).


  1. Por truncamento:

Ocorre um encurtamento do significante, sendo o resultado desse encurtamento, sinônimo exato do seu modelo original, apenas com emprego no registro coloquial: motoca, delega, boteco, etc.


  1. Por transposição semântica:

Nesse caso, não temos um novo significante, e sim, um novo ou significado atribuido ao mesmo significante, sem perda do significado original. A lista, nesse caso, poderia ser longuíssima, com formações imprevisíveis: repaginados (Veja=com nova aparência), xiitas (idem=pessoa que é fanática por uma idéia), laranja (Veja=falso proprietário), mico (idem=mau negócio), grampear (idem=prender), gato (idem=ligação clandestina de eleticidade), turbinar, siliconar (idem=aumentar uma parte do corpo por cirurgias plásticas), provedor (idem=ligação com a Internet), mala (O Dia=pessoa inconveniente), montadoras (idem=fábrica de automóveis) etc.


  1. Por empréstimo;

No setor dos empréstimos ocorrem também fenômenos de prefixação (on-line), composição,(air-bag, skinheads) formação de siglas, truncamento (jetnet) etc. Facilmente encontrado nos vocabulários técnicos (esporte, finanças, telecomunicações, moda etc) o estrangeirismo é aquela palavra que nos soa como não pertencente ao sistema vocabular de nossa língua materna. Os alemães, aqui fazem distinção entre lehnwort e fremdwort , palavra mais ou menos afeiçoada ao sistema da língua adotiva. Os estrangeirismos podem, portanto, adaptar-se mais ou menos ao país que os acolheu. Essa adapatação será maior quando ocorrer na fala, na grafia e no sistema gramatical: grife, acessar, glamurosa, estressados (Veja). Sentimos que algumas palavras dificilmente modificarão sua grafia, em risco de se tornarem irreconhecíveis: kit, fashion, soul, marketing (em que pese a formação – marqueteiro). Note-se que, nas primeiras páginas da revista Veja, há menos estrangeirismos (política, notícias nacionais). Nas últimas páginas, vai-se adensando o uso de estrangeirismos, com as notícias internacionais, informática, crítica musical e cinematográfica.

Importamos também onomatopéias como click, hip-hop.




  1. Por decalque:

Diferente do estrangeirismo, trata-se, na verdade, de uma tradução desse, ou uma tentativa de tradução, freqüentemente bem sucedida. (arranha-céu, alta-tecnologia, fibra de vidro etc). Vêm-se tornando, cada vez, menos freqüente, talvez por quererem as pessoas, usando as formas originais, sentirem-se parte do “clube dos ricos” . Na contra-mão desse processo, já reparou Millor Fernandes, em recente crônica, estar o futebol se traduzindo:

Zagueiro já foi back;

Falta já foi foul

Centro-avante já foi center-forward, etc

São ainda mais de mais difícil integração os estrangeirismos que resultam em siglas, como yuppies , ( young urban professional ) laser, aid dna etc. Ou são de difícil tradução ou, por muito empregados, já estão memorizados tal qual, a ponto de não se prever modificação.
Em todos os aspectos abordados, apresenta-se o problema da lexicografia. Está no dicionário, ou não está? Se não está, é da língua portuguesa? Ou se não está, deveria estar, por ser muito usado? O dicionário deveria ter um “Livro do Ano” à moda das enciclopédias? E a Lei que limita o uso de estrangeirismos? É nacionalismo retrógrado? São questões que se estão sempre a fazer ( e não colocar ).
Leia mais

ALVES, Ieda Maria. Neologismo, criação lexical. S. Paulo: Ática, 1994.



BASÏLIO, Margarida, Teoria lexical. S. Paulo; Ática, 1987.


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