Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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MAURÍCIO

ou

OS PAULISTAS EM S. JOÃO D’ EL-REI
BERNARDO GUIMARÃES
ASSOCIAÇÃO ACERVOS LITERÁRIOS
BILIOTECA VIRTUAL
2005
APRESENTAÇÃO



Em 1881, Dom Pedro II visitou Ouro Preto. Na ocasião, teria solicitado a Bernardo Guimarães que escrevesse a História de Minas Gerais ! Do projeto prometido ao Imperador, nada ficou entre seus papéis...

Considerando-se que, desde a publicação de o Ermitão de Muquém, o escritor foi quase que somente romancista, com penhor para a narrativa histórica, tal fato nos faz crer que Maurício, e sua seqüência O Bandido do Rio das Mortes, fizesse parte de um projeto maior, com o intuito de visitar a história de Minas Gerais sob a forma de ficção.

Maurício, nos apresenta nas primeiras páginas os distúrbios que levariam à guerra dos emboabas, quando São João D’el Rei ainda se seguia como localidade de novas lavras de ouro e diamantes. Já, aí, temos o conflito instaurado, mas, de maneira localizada, e, sem relações com os mesmos problemas enfrentados em Ouro Preto. Narra-nos um primeiro levante, menos provocado pela população, e mais incitado por D. Fernando, em busca do poder e do amor de sua prima.

O Bandido do Rio das Mortes, sua seqüência, já traz o conflito atingindo maior amplitude, e envolvendo personagens da história de Minas Gerais. Encerra-se, no entanto, dois anos antes do ápice da Guerra dos Emboabas, que se daria dois anos depois, quando, depois da batalha sangrenta, o rio que passa por São João D’el Rei, receberia o nome alusivo a mais importante batalha.

A narrativa inacabada subitamente pela morte de Bernardo Guimarães nos faz supor que existiria um novo romance em projeto, que trataria do desfecho do episódio.

A narrativa lenta, com descrições longas da ambientação, às alusões ao contexto mineiro da época e o cuidado em recriar uma povoação em constante atrito, nos aponta para uma seqüência de romances históricos, iniciada na obra que aqui apresentamos.

O leitor intuitivamente perceberá um Bernardo Guimarães menos leve, pouco irônico e quase excessivamente descritivo. Se pode ter alguma expectativa frustrada ao final do volume, não deixará, no entanto, de reconhecer no alentado volume, um escritor de maior fôlego e, conseqüentemente, de um apuro narrativo que desmente muitas críticas negativas à sua obra.

Caso houvesse concluído o seu projeto, certamente teríamos uma acurada formal de um momento decisivo, não só para a história de Minas Gerais, como da história do Brasil.

L. C.

MAURÍCIO

ou

OS PAULISTAS EM S. JOÃO D’ EL-REI




A MINA MISTERIOSA

CAPÍTULO I

S. João d’ El-Rei

É bem linda a cidade de S. João d’ El-Rei, -Essa formosa odalisca, que abre as portas das magníficas regiões do Sul de Minas.

Se a não conheces, leitor, pergunta àqueles que a têm visitado, se não ficaram encantados com aquele aspecto faceiro e risonho, que sempre a reveste, e que dá-lhe a aparência de noiva gentil, que traz sempre na fronte a grinalda da festa nupcial, e nos lábios o sorriso da alegria e do amor.

Reclinada pela falda de um serrote de pouca elevação, chamada a Serra do Lenheiro, cujo dorso denegrido, árido e esburacado contrasta singularmente com a perspectiva risonha e vicejante da planície, parece travessa e risonha pastorinha, que, pousada sobre a pelúcia verde dos prados, com os braços abertos e o sorriso nos lábios, como que está dizendo ao viandante fatigado:

-Vem a meu seio gozar do repouso e do prazer.

O ambiente tépido e voluptuoso, que a envolve, agitado de brandas virações, a bafeja constantemente com os aromas da flor de laranjeira, da rosa, do jasmim, do jambo, da manjerona e das fragrâncias que se exalam de seus inúmeros jardins e pomares.

Esses pomares e jardins, que se entreveram com as casas como arabescos de esmeralda, estão sempre toucados de flores e frutos, porque ali só se conhecem duas estações -a primavera e outono, -que ali reinam todo o ano conjuntamente na mais perfeita e inalterável harmonia.

É a terra dos frutos e das flores, dos perfumes e das canções, dos risos e das festas, da beleza e do amor. É a Nápoles de Minas.

Um ribeiro, que desce das vizinhas serras e que atravessa pelo meio passando por baixo de duas lindas pontes de pedra, a embala com seus murmúrios.

Mas infelizmente não se poderia dizer, sem faltar à verdade, que ela banha os pés e mira-se orgulhosa no espelho transparente dessas águas.

As águas turvas desse ribeiro, que desce da Serra do Lenheiro coberta de uma argila negra revolvida pelos trabalhos de mineração, formam um espelho por demais embaçado, e só servem para enxovalhar de lama negra os mimosos pés da formosa odalisca do Sul de Minas.

Todavia tal senão nem por isso desfigura muito a linda cidade. Para disfarçá-lo, os habitantes têm guarnecido parte das margens de um belo cais sobrepujado de arcadas, trabalho que a ser continuado em ambas as margens muito realçará o aspecto interior da feiticeira cidade.

Deitada ao longo da falda da serra amparam-lhe brandamente a cabeça, pelo lado do sul, verdes e boleadas1 colinas, enquanto os pés estiram-se espreguiçando pela planura, formando o pitoresco arrabalde de Matosinho, cujas casas alvejam afofadas em ondas dos mais frondentes e viçosos pomares.

Seguem-se a norte e a leste as extensas lizerias2, no fundo das quais rola as ondas rápidas o caudaloso Rio das Mortes, que em distância de cerca de meia légua se encurva em torno da cidade como serpente colossal posta em guarda aos pés do escabelo, em que repousa a fada mimosa dos países do ouro e do diamante.

Tudo nessa linda cidadezinha hoje parece respirar paz e alegria, prazeres e amor. Entretanto, em eras mais remotas por aí restrugiram ecos de morte e de vingança. Essa terra hoje tão risonha e tranqüila já foi teatro do embate e desafogo de ferozes e sanguinárias paixões; já fumegou o sangue de espantosas carnificinas por aí, aonde agora só respiram auras embalsamadas dos perfumes dos laranjais, das mangueiras e dos jambeiros em flor.

Como se sabe, à heróica e nobre cidade de Amador Bueno, à terra dos Tibiriçás, cabe principalmente a glória de ter devassado, explorado, e em grande parte povoado as montanhosas e auríferas regiões do centro de Minas. Ao passo que pelo lado de leste aventureiros portugueses se entranhavam pelos sertões e descobriam os terrenos diamantinos das margens do Jequitinhonha e Abaeté, e penetravam mesmo até o Ouro Preto, os bravos e infatigáveis conterrâneos de Amador pelo lado do sul faziam as mesmas tentativas, organizando expedições, a que chamavam bandeiras. Estas expedições tinham duplo fim, que eram por sua natureza conexos, a descoberta de novas regiões, principalmente de terrenos auríferos, e a submissão das tribos indígenas.

É admirável e quase inconcebível a audácia, a perseverança e a incansável atividade daqueles inquietos aventureiros, que através de mil perigos e fadigas insanas exploram e atravessam em todos os sentidos, durante quase um século, toda a vasta extensão da América portuguesa, nem sempre bem sucedidos, porém por vezes levando a cabo as mais incríveis e arrojadas empresas.

Uns arrojam-se através da província de Goiás e, varando inóspitos e medonhos desertos, vão submeter as tribos selvagens das margens do Tocantins e travam luta com o governador do Pará, que lhes queria tolher o passo.

Outros entregam-se às águas do Paraná em troncos desmesurados transformados em canoas e, subindo pelos afluentes do grande rio, penetram no coração do Mato Grosso, onde descobrem novas riquezas minerais e lançam os alicerces de futuras povoações.

Outros ainda mais audaciosos penetram nos domínios espanhóis, descem às reduções do Paraguai e delas expelem os jesuítas, que pretendiam suprimir o tráfico de escravos indígenas, com que aqueles aventureiros tanto se enriqueciam.

Enfim não há província nenhuma do interior, que não guarde as pegadas ainda mal apagadas daqueles audaciosos exploradores e, não conserve em suas tradições uma vaga lembrança de seus hercúleos cometimentos.

Hoje mesmo, quem viaja por esses sertões do interior ainda tão broncos e inóspitos fica pasmo imaginando as dificuldades imensas que naquela época esses homens teriam a vencer, os azares e perigos de toda a sorte, que a cada momento teriam de afrontar.

Mas esse núcleo de homens valentes e resolutos, que ocupava o vale de Piratininga, forte pela atividade e pujança de ânimo, era fraco pelo número para tão vastas empresas e, não podendo manter-se por muito tempo na larga extensão dos países que exploravam, deviam confinar-se nos limites de sua capitania, que já por si só oferecia espaço imenso e alimento ilimitado à sua atividade e ambição.

A história dos primeiros tempos coloniais, incompleta e cheia de lacunas, bem pouco nos satisfaz no que diz a respeito das primeiras explorações e descobertas.

Não ficou vestígio, nem documento algum de muitas coisas, que se passaram nessa época de atividade e agitação febril, desse viver inquieto e aventuroso dos primeiros íncolas do Brasil, abrasados na sede do ouro e, procurando-o por toda a parte da América com o mesmo açodamento com que o povo hebreu morrendo à sede, procurava uma gota de água pelos tórridos areais do país de Horeb. Pouco se sabe das contínuas lutas travadas já entre si mesmos, já com os filhos da metrópole, já com as hordas indígenas, as feras e a natureza selvática da terra americana.

A sombra e o silêncio das florestas adormeceram para sempre em seu seio o eco de muitos combates mortíferos; a terra bebeu muito sangue, que não transuda mais, e pulverizou muita ossada de vítimas de horrorosas carnificinas.

O cronista das eras, que foram, mal pode colher aqui e ali nos lábios dos velhos ou de algumas escassas notícias escritas uma lenda obscura, um conto mutilado, em que todavia sempre ressumbra um pouco de espírito daqueles homens tão singulares, daquela época tão curiosa.

S. João d’ El Rei, como todos os terrenos auríferos do centro de Minas, deve sua descoberta e exploração aos paulistas. Por sua posição geográfica, servindo como de porta ao sul às regiões auríferas, devia ser uma das primeiras, senão a primeira, com que depararam aqueles denodados aventureiros em sua marcha de sul para norte.

Ali foi o principal teatro do antagonismo violento, da luta enraivada, que nos primeiros anos do século passado se travou entre paulistas e forasteiros, luta que terminou pelo horroroso e traiçoeiro morticínio dos paulistas, ordenado por Bento do Amaral Coutinho, agente do famoso e opulento português Manuel Nunes Viana.

Esse atentado tão tristemente célebre, que deu ao rio, que passa por perto de S. João, o sinistro nome de Rio das Mortes, teve lugar em Janeiro de 1709. As rixas, porém, e desavenças, que por vezes se tornaram lutas sanguinosas, já vinham desde o ano de 1700, em que Artur de Sá de Menezes, nomeado governador da Capitania, chegou às Minas, trazendo consigo bandos de aventureiros da metrópole e de diferentes capitanias.

Este fato excitou o ciúme dos paulistas, que, na qualidade de primeiros descobridores das minas, se consideravam como tendo direito exclusivo de explorá-las, e começaram a votar ódio mortal àqueles aventureiros, que pretendiam usurpar seus tesouros, e, principalmente aos portugueses, que apelidavam emboabas.

É nessa época, -dois anos pouco mais ou menos antes da terrível carnificina, -que se passam os fatos, cuja narrativa agora empreendemos.



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