Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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CAPÍTULO XII

A mina misteriosa

Gil ia cumprindo do melhor modo que lhe era possível a promessa, que como um sacrifício à amizade, fizera a Maurício de não concitar, antes procurar acalmar a animosidade dos paulistas contra os emboabas, salvo se novos vexames a isso o compelissem. De feito, por muito tempo, se algumas rixas e pequenos distúrbios se deram, nunca foi ele o provocador, e se alguma vez neles tomava parte, era para apaziguá-los.

Além da palavra dada a Maurício, havia mais um motivo, um freio, que contribuía poderosamente para conter a índole fogosa e arrebatada do mancebo, a coibir as explosões do ódio, que votava ao capitão-mor e a todos os portugueses, e é o seguinte.

Gil, que viera pobre de S. Paulo, ia adquirindo rapidamente considerável fortuna, sem que ninguém soubesse como. Na ocasião da grande caçada, nesse dia, que lhe foi tão fatal, começava ele apenas a sentir os primeiros bafejos da fortuna; mas três a quatro meses depois a contar dessa data já ele se podia ter na conta de um dos mais ricos e opulentos habitantes de S. João d’ El-Rei. Comprava escravos índios e africanos em grande número, aposseava e comprava terras, e fazia transações avultadas em valores de toda a especie. Sua natural generosidade aumentava também na proporção de seus haveres.

Não havia paulista pobre a quem não valesse com sua bolsa, como sempre lhes valera com seus serviços. Os mesmos portugueses desvalidos o achavam sempre pronto para socorrê-los.

Esta crescente e inexplicável prosperidade do jovem paulista dava muito que pensar aos habitantes de S. João, principalmente aos emboabas, que raivando de inveja procuravam atribuir à origem desonrosa tão rápido enriquecimento. Alvo do ódio, e agora também da inveja daqueles homens famintos de ouro, era-lhe mister proceder com a maior circunspecção possível, a fim de não desencarrilhar-se da senda da prosperidade em que o destino o havia lançado. Qualquer imprudência, qualquer desacato que cometesse, podia servir a seus inimigos de pretexto para a mais encarniçada perseguição. Eles aproveitariam com sofreguidão a primeira ocasião que se lhes oferecesse para aniquilar o homem, que tanto temiam e detestavam.

Demais, Gil bem conhecia o poder do dinheiro. Tinha presente o exemplo de Nunes Viana, desse opulento português, cujo nome nessa época era respeitado e temido em toda a região das Minas, e que mais tarde fez recuar o governador general da capitania tratando com ele como de potência a potência. Se conseguisse ficar rico, bem rico, Gil poderia talvez um dia calcar debaixo dos pés os seus opressores de então. A fortuna começava a sorrir-lhe de modo descomunal; convinha-lhe, pois, resignar-se a sofrer no presente para poder vingar-se cabalmente no futuro.

Todavia a prudência e abstenção de um só homem, por importante que este fosse, por maior ascendente que exercesse sobre os seus, não era bastante para abafar tantos e tão vivazes elementos de discórdia, prontos a fazerem explosão ao contato da mínima centelha.

Para esquivar-se a conflitos, e mesmo para evitar invejas e rivalidades, Gil continuou a conservar sempre o mesmo gênero de vida simples e modesta, que até ali tinha tido, e vivia quase solitário em uma casinha um pouco retirada da povoação, à guisa de um mero faiscador. As únicas pessoas que com ele moravam eram duas criaturas quase inteiramente desconhecidas do resto da população, e que apenas uma ou outra vez tinham sido entrevistas de relance.

Eram um velho selvagem e sua filha. O índio chamava-se Irabussu, que quer dizer “papa-mel”, ou “descobridor de mel”, nome que lhe deram os seus por ser ele muito amigo do mel, e muito mestre em descobri-lo e roubá-lo às abelhas do mato. A filha chamava-se Judaíba, nome que lhe vinha de Judai ou Judaíá, por ser ela de estatura esbelta e elevada, como essa formosa palmeira, que se balanceia pelas margens do alto S. Francisco.

Estes dois entes passando vida selvática e misteriosa nas imediações de um povoado já bem florescente, davam em cismar ao povo e forneciam aos emboabas assunto quotidiano para murmurações e maus juízos a respeito de Gil.

-Aquele aventureiro, -conversavam eles um dia entre si, -aqui chegou com o Maurício há pouco mais de ano, sem eira nem beira, e de repente apresenta-se dispondo de uma soma de mil cruzados!... Isto, se não é ladroeira grossa, não sei o que possa ser...

-Que o é, não pode haver dúvida alguma. Ele nenhuma lavra tem, nem rica, nem pobre; nunca teve negócio, e nem herdou coisa alguma, que eu saiba. Donde lhe vem então esse ouro?... Só se lhe cai do céu...

-Do céu!?... É mais fácil vir-lhe do inferno.

-Estou por isso; mas por que maneira...

-Muito fácil; pois vocês não conhecem um índio velho, que ele tem em casa?

-Sei, sei muito bem quem é; chama-se Irabussu; e por sinal, que é um bugre alto, seco e fino que nem um varapau; pouco aparece; mas às vezes se encontra aí pelos recantos como um fantasma assombrando a gente. Mas a que vem ao caso esse diabo de bugre?

-Ora a que vem?!... É que aquele bugre é um bruxo, um formidável feiticeiro.

-Oh, se o é!... Também eu cá o conheço; aquele maldito tem parte com o diabo, e já agora ninguém me tira da cabeça que é ele quem arranja todo aquele ouro para o Gil... É como dizia ali o patrício: o ouro não lhe cai do céu, sobe-lhe do inferno.

-Ah! Ah! Ah! -Gargalhou um emboaba, que até ali escutara com certo ar sardônico e desabusado. -Vocês parecem-me umas crianças!... Pois homens com barba na cara ainda acreditam em bruxarias?... Patetas, que ainda não atinaram com uma coisa tão simples!... Estejam certos que a riqueza do Gil não lhe cai do céu, nem tampouco lhe vem do inferno.

-Donde lhe vem então?

-Da terra; donde mais pode ser?

-Mas se ele não tem nenhuma lavra...

-Mas tem-na o bugre. Aquele ermitão das matas tem por aí melgueira oculta, alguma furna, algum buraco, onde apanha ouro aos punhados para vir trazê-lo tudo a seu senhor. Sei-o eu de ciência própria, que o tal bugre sai todas as madrugadas da casa de Gil, mete-se aí por essas brenhas, onde fica o dia inteiro, e só volta à noite, e tudo isso assim às escondidas, em horas mortas e por caminhos ocultos. Vejam lá se a coisa está ou não mais que clara?...

-É isso! É isso! Não há a menor dúvida! Vossemecê deu com o trinco! -Exclamaram muitas vozes.

-Mas se ele tem pacto com o diabo, -ponderou um, -o que poderemos fazer com ele?

-E dizem que tem uma filhota, que deve ser bruxa, mula sem cabeça ou coisa que o valha, e que o ajuda nos malefícios diabólicos, -acrescentou outro.

-Valha-me Deus! -Interrompeu impacientado o emboaba mais desabusado. -Quando se deixarão vocês de semelhantes toleimas?... Seja ele bruxo, feiticeiro, ou o diabo em pessoa, não devemos tolerar semelhante desaforo. O ouro, que sai desta terra, que El-Rei nos deu, deve ser para nós todos, e não ir inteirinho sumir-se nas algibeiras daquele maldito paulista, que tanto mal nos quer, e que se pudesse, nos engolia vivos.

-E como nos não pode engolir, pretende engolir todo o ouro destas minas!... Devemos cortar-lhe a vasa e quanto antes...

-Isso é bom de se dizer; agora resta saber por que maneira havemos de consegui-lo...

-Se o índio é bruxo, deve ser queimado vivo...

-E juntamente com o seu patrão, o tal senhor Gil...

-Por certo; tão boa é a corda como a caçamba.

-Não é preciso queimar ninguém, -atalhou aquele emboaba mais autorizado, que parecia ser o presidente daquele conciliábulo. -Basta pegar o bugre, e obrigá-lo a descobrir-nos a mina, donde tira tanto ouro...

-Mas como, se o maldito é feiticeiro, e ainda não houve quem lhe pudesse botar a mão.

-Não creia em tais patranhas, -ponderou o maioral; -ele anda por aí sozinho, e encontra-se por toda a parte. Não custa nada armar-se-lhe uma emboscada. Três, ou quatro ou cinco de nós ficam em uma espera, como se foi aos veados, e quando passar, mãos ao bicho. E eu cá bem sei onde é a melhor espera. Ali por um pequeno trilho, que vem da banda do rio, e entra pelos traseiros da casa do Gil... Percebem?... Por ali sai ele todas as madrugadas, e entra dez a onze horas da noite, trazendo a seu patrão um saquitel15 cheio de ouro, pesando talvez de seis a oito libras!...

Estas palavras, ditas a meia voz, e em tom misterioso, puseram os emboabas boquiabertos de assombro, e com os olhos lampejantes de cobiça.

-Oito libras!!... Oito libras de ouro por dia?!!!...

-Uma arroba em quatro dias!... Quatro mil e noventa e seis oitavas!... Mais de quarenta mil cruzados!... Oh! É muito ouro!...

-Santa Virgem!... Isto é para se ficar doido!... Era quanto bastava para enriquecer todos nós, que aqui estamos.

-E entretanto tudo isso vai para o mealheiro de um maldito paulista, que se servirá desse ouro para nos espezinhar. Oh! Não; isto não se pode tragar.

-De modo nenhum!... Agarremos o maldito bugre, e ou ele nos há de mostrar a mina, ou a vida lhe há de custar.

-Isso mesmo!... O que primeiro devemos fazer é lançar mão ao bicho; o mais deixem por minha conta. E isto quanto antes. Amanhã mesmo faremos uma tentativa?... Que dizem?...

-Prontos! Prontos!... Exclamaram todos a uma voz.

Agarrar o índio era para eles o mesmo que tomar posse do Eldorado.

-Pois bem, meus amigos; coragem e disposição, que eu lhes juro que em breve tudo isto, seja bruxaria, ladroeira, ou mina oculta, há de se pôr em pratos limpos.

Esta conversa, de que acabamos de dar conta, tinha lugar entre oito ou nove portugueses. Era à tardinha e achavam-se eles tomando o fresco sentados sobre alguns toros de madeira em frente de uma bonita casinha, sita nas abas da serra do Lenheiro, e que olhava para as colinas, que lhe ficavam fronteiras além do riacho de S. João d’ El-Rei.

As últimas palavras foram ditas por aquele que parecia ser o principal de entre eles, e que era o dono da casa. Este, sem tirar nem pôr, era o mesmíssimo Minhoto, do qual creio que o leitor não se terá esquecido.

Já era mais noite que dia. Os conversadores dando por terminada a palestra já se despediam e dispunham e se retirarem, quando subitamente um deles bradou:

-Olhem! Olhem!... Ei-lo ali vai!... Não estão vendo?...

Todos os olhares se volveram espantados para o lugar que indicava o emboaba. Por diante deles, a umas vinte braças de distância, ia passando rapidamente um vulto indefinível. Ao primeiro aspecto ninguém diria que era uma criatura humana; parecia mais uma aranha gigantesca, que lá ia fugindo em movimentos desordenados e atarantada, ou galho de árvore seca, que lá rolava impelido por um furacão.

Duas finas e compridas pernas, dois braços da mesma natureza, um dos quais empunhava um arco, outro uma grande manguala, um corpo curvado para adiante, e quase tão fino como as pernas, trazendo às costas um molho de longas flechas, formavam tal composto de linhas quebradas, confusas e extravagantes, que á primeira vista era custoso dizer-se que coisa ali se movia.

-É ele!... É ele mesmo!... Bradou um dos emboabas. -Vamos!... Vamos agarrá-lo!

-Mas como! -Acudiu outro, -se ele já lá vai tão longe...

-Gritemos!... Talvez acuda, e venha!... Olé!... Quem vai lá!...

-Irabussu! Respondeu uma voz forte, áspera, gutural e medonha. E o vulto, que já ia longe, sumiu-se completamente nas sombras do crepúsculo.

-Cruzes!... Credo!... Murmuraram os portugueses benzendo-se, e sentindo arrefecer-lhes no íntimo d’ alma a coragem para a projetada empresa da prisão do índio.

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