Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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CAPÍTULO XIII

O índio bruxo e sua filha

Não podemos prosseguir nesta narrativa sem nos demorarmos um momento a fim de darmos a conhecer ao leitor quem era Irabussu e sua filha.

Gil havia chegado a S. João d’ El-Rei em companhia de Maurício um ano antes da vinda do capitão-mor. Era um amigo dedicado e um excelente auxiliar que Maurício associava a si na comissão, de que fora encarregado por seu protetor.

Viera muito pobre, mas sempre alentado pela esperança de em breve enriquecer-se por meio da mineração. Sempre porém malfadado tentou ali algumas explorações e serviços, que não lhe sortiram senão trabalho e prejuízo. Desanimado de encontrar fortuna em S. João resolveu separar-se temporariamente de Maurício, agregando-se a uma turma de aventureiros, seus patrícios, que pobres também como ele e animados do mesmo desejo de descobrir ouro partiram para as minas de Ouro Preto e Ribeirão do Carmo, que começavam então a gozar de grande reputação. Gil, já conhecedor desses lugares, que alguns anos antes havia percorrido com Maurício, era ótimo companheiro, e por sua intrepidez, inteligência e traquejo da vida sertaneja, devia ser o chefe natural do bando. Nas excursões, que faziam pelos socalcos da serra do Itacolomi em procura de jazidas auríferas, um dia estes aventureiros, em número de quinze a vinte, bordejando um ribeiro, que corria por leito escarpado, profundo e pedregoso, foram-se entranhando por estreito vale coberto de espessa mata. Depois de se haverem internado bastante pelas brenhas foram surpreendidos por uma vozeria estranha, que partia do seio da floresta. Era uma orquestra horrenda de gritos selváticos e guturais, de uivos lamentosos, de bramidos de raiva e de pocemas pavorosas. Aos primeiros sons, que lhes chegaram aos ouvidos, os paulistas sentiram arrepiarem-se-lhes os cabelos, e estacaram por momentos.

-São os botocudos, que por aí andam; -murmurou um deles transido de terror; -melhor é voltarmos.

-Voltemos mesmo; -acudiu outro, -estes bugres são terríveis, e andam em bandos, que não tem conta. São dos comedores de gente, e não viemos cá para irmos parar no bucho de semelhante caterva!... Melhor sorte nos dê Deus!...

-Voltar por que, minha gente!?... Bradou Gil. Vocês estão com medo sem ver de quê. Bugre é bicho mole e espantadiço: um só de nós basta para dez deles; e basta um tiro de nossas escopetas para os espalhar todos por esse mato. Nada de voltar! Vamos ver o que significa esse berreiro. Vamos! Vamos! Vamos espiá-los. Devemos saber ao menos de que fugimos.

-Vamos! Vamos a isso! Prontos! -Exclamaram quase todos reanimados pela voz de Gil.

-Talvez não sejam muitos, -continuou Gil, -e visto não termos achado ouro por hoje, talvez possamos agarrar ao menos uma dúzia desses perros, que venderemos por um bom dinheiro aos mineiros de Ouro Preto, e assim não perderemos de toda a jornada. Vamos adiante, minha gente!... Mas não façam rumor; é preciso que não nos pressintam.

Os paulistas se puseram em movimento e foram avançando com a maior precaução e silêncio possível para o lugar, donde partia a estranha vozeria, acompanhando o curso do córrego, e rompendo a mata com a sutileza do jaguar, que rastreia a presa. Teriam andado cerca de uns mil passos, quando através dos ramos por uma aberta da floresta puderam descortinar distintamente uma das mais pavorosas e revoltantes cenas do canibalismo selvático.

Era um sítio em que o ribeiro saindo do leito profundo e solapado, em que rolava, se expandia mais desafogado ao longo de uma larga praia arenosa, formando pelo lado, em que se achavam os paulistas, uma espaçosa clareira. Derramados por essa praia, via-se agitando um numeroso bando de selvagens de todas as idades e sexos, em número talvez de oitenta a cem. Uns porém moviam-se alegres e remoinhavam gritando, e saltando daqui para ali, enquanto outros de mãos atadas, sentados sobre a areia, estendidos no chão, ou amarrados aos troncos pelas bordas da floresta, imóveis, torvos e cabisbaixos, soltavam de quando em quando bramidos de furor, vibrando olhares de fogo e sangue sobre os que em torno deles giravam livremente. Estes, -homens, mulheres e meninos, -rodopiavam em torno das míseras presas entoando pocemas pavorosas, fazendo-lhes horrendos esgares e caramunhas, atirando-lhes bofetadas e pontapés, e cobrindo-os de maus tratos e afrontas de toda sorte. Viam-se também aqui e acolá sobre a areia alguns guerreiros mortos, e horrivelmente mutilados, e sobre eles se debruçavam alguns vultos em pleno vigor, que se ocupavam com açodamento em arrancar os dentes e cortar as orelhas aos cadáveres, que depois esquartejados e feitos em postas eram arrastados pela areia por mulheres e meninos, e arrojados na torrente, que os ia rolando nas águas ensangüentadas.

No meio porém desse bárbaro e hediondo tripúdio passava-se uma cena, se é possível, talvez mais sinistra e revoltante ainda. Na extremidade da clareira, do lado em que se achavam os paulistas, sete velhos indígenas com as mãos atadas por detrás das costas com fortes mussuranas, com os joelhos cravados na areia e o dorso alquebrado e pendido para adiante, esperavam o golpe fatal, que os devia roubar para sempre ao mundo e a sanha de seus inimigos.

Quando chegaram os paulistas, iam esses míseros velhos sendo garroteados um por um, e horrivelmente massacrados a golpes de tacape por dois jovens e robustos guerreiros, que desempenhavam alegremente tão abominável tarefa cantando e escarnecendo das miserandas vítimas.

Os paulistas logo compreenderam que era uma horda de botocudos que acabavam de vencer e aprisionar uma porção de seus inimigos, os Carijós, com quem andavam em contínuas hostilidades. Era costume entre aqueles selvagens matar os prisioneiros que a idade tornava imprestáveis, reservando os moços para vendê-los aos brancos, com os quais já se comunicavam e mantinham algum comércio, a troco de qualquer arma, droga ou quinquilharias.

Já seis dos infelizes velhos jaziam imóveis ou estrebuchavam na areia entre as últimas vascas da morte. Dois truculentos tacapes já se erguiam sobre a cabeça do derradeiro, quando uma súbita descarga de mosquetes retumbou como uma trovoada ao longo dos grotões.

Os dois executores e grande parte dos botocudos mortos ou gravemente feridos ficaram estendidos no chão estortegando-se de envolta com as suas vítimas de a pouco. Os que escaparam fugiram espavoridos soltando medonhos alaridos, e embarafustaram-se atropeladamente pelo mato, deixando aos paulistas a arena daquela cena atroz, e sem se importarem com os fugitivos, trataram logo de se apoderarem dos prisioneiros carijós, que distribuíram amigavelmente entre si como escravos, que lhes não tinham custado mais que algumas cargas de pólvora e chumbo.

Compadecido do pobre velho, que escapara, e que ninguém queria para si, mostrando-se os outros paulistas resolvidos a abandoná-lo no mato exposto de novo à barbaridade de seus inimigos, Gil o tomou para si. Mas entre os outros prisioneiros havia uma filha do velho bugre, linda cabocla, da qual um dos companheiros de Gil se tinha avidamente apoderado. O velho porém lastimava-se e rogava instantemente a Gil fazendo-se entender do modo o mais suplicante, que lhe era possível, que não o separassem de sua filha, e forçoso foi portanto, que também esta fosse adjudicada a Gil. Esse velho e essa menina eram Irabussu e Indaíba.

O velho indígena e sua filha nunca mais quiseram deixar a companhia de Gil. Quando depois de algumas exploirações sem resultado pelas serranias de Ouro Preto, Gil resolveu-se a de novo voltar para S. João d’ El-Rei, deixou-lhes a liberdade de ficarem, ou de irem para onde lhes parecesse.

Mas eles obstinaram-se em acompanhá-lo sempre. -O resto dos dias de Irabussu, -dizia este, -pertencem ao branco, que os salvou, eu devo nunca mais deixá-lo. Irabussu está velho, mas suas pernas ainda sabem andar muito, e seus olhos enxergam no escuro como os da jaguatirica. Quem sabe! Talvez um dia ainda Irabussu possa ser útil ao branco.

Irabussu acompanhava a Gil com a fidelidade do cão, obedecia-lhe como servo submisso e tinha por ele a solicitude e dedicação do mais extremoso amigo. Instalado em S. João com seu amo, raras vezes aparecia entre a gente do povoado; mesmo em casa de seu senhor bem poucos tinham ocasião de vê-lo. Andava sempre sozinho pelos matos com seu arco e flechas procurando a caça, de que se sustentava, e sumia-se às vezes dias e dias, sem que ninguém, nem mesmo seu amo, e sua filha soubessem que rumo levara. Gil não se inquietava com estas ausências, pois estava certo que no fim delas voltava o seu velho bugre trazendo-lhe punhados de ouro em pó e em folhetas. Aquele viver misterioso do bugre dava que cismar ao espírito supersticioso do povo, que o tinha já em conta de um grande feiticeiro, e se alguém acaso o encontrava pelos ermos, benzia-se uma e duas vezes, e acelerava o passo o mais que podia, afastando-se dele. Se o povo dele fugia, também ele por seu lado o evitava quanto podia, de modo que bem poucos o conheciam em pessoa, ao passo que o seu nome andava de boca em boca, e sua sombra pairava como um duende sinistro sobre o espírito do povo, que na imaginação supersticiosa já havia inventado por conta dele um sem-número de bruxarias e coisas estupendas.

Resguardado na reserva de sua vida particular, que não tinha por testemunhas senão o velho índio e sua filha, duas criaturas algum tanto misteriosas, mas inofensivas, o jovem paulista via com íntima e tranqüila satisfação ir crescendo a sua fortuna, sem que incidente nenhum viesse comprometê-lo, e cada vez mais por se coibir e comportar-se com a maior sisudez e moderação.

Mas os ódios abalados, como os materiais vulcânicos comprimidos nas entranhas da terra, têm extraordinária força de expansão, e acabam tarde ou cedo por achar uma válvula por onde rebentem, fazendo fatal e assoladora irrupção.



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