Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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CAPÍTULO IV

Diligência malograda

De todos os emboabas o que mais enraivava e mordia-se de inveja pela riqueza do Gil era o minhoto. Tinha altamente gravada na memória e na costela quebrada a ofensa que recebera do mancebo no dia da grande caçada. Ficou furioso quando lhe vieram contar que naquele dia mesmo Gil fora perdoado e posto em liberdade. Queixou-se amargamente em alto e bom som e jurou por estas formais palavras:

-Uma vez que o Sr. capitão-mor não sabe desafrontar os seus patrícios, juro pela cruz de Deus vingar-me por minhas próprias mãos e da melhor forma que for possível.

Os emboabas fariam coro com as queixas e lamentações de seu bom patrício levando muito a mal o ato de clemência do capitão-mor. Mas eram lamentações abafadas e aplausos em voz baixa, que não pudessem chegar aos ouvidos do homem do tronco e da palmatória.

O enriquecimento rápido e maravilhoso do jovem paulista levara ao cúmulo o despeito do Minhoto, escaldava-lhe o cérebro, e dia e noite o enchia de tribulações, e o cercava de pesadelos e aflições mortais. A prosperidade do inimigo, ao passo que lhe assanhava o ódio e a inveja, tornava-lhe mais difícil a vingança. Pode-se com facilidade e impunemente amesquinhar, maltratar, aniquilar, matar mesmo um pobre diabo; mas suplantar um rico é negócio de maior monta; é preciso ser também rico, e além disso ter coragem e habilidade.

Mas nem por isso o Minhoto desanimava. A própria riqueza do Gil, por sua origem misteriosa, sugeria-lhe ao espírito malicioso e astuto um combinado plano de intrigas e perseguições, em que esperava bem cedo colher o inimigo e arruiná-lo completamente. Depois de indagar muito, pelos ouvidos e pelos próprios olhos veio ao conhecimento de que Gil com efeito não possuía lavra alguma, e vivia quase sozinho em companhia de um índio velho, o qual todos os dias saía-lhe de casa sem almocafre nem bateia, armado somente de arco e flechas, e trazendo a tiracolo um saquiel de couro, que saía vazio e entrava sempre cheio. O Minhoto observou este fato por mais de duas vezes e dele tirou as naturais conclusões.

-É ouro, que traz ao patrão, não resta a menor dúvida, -refletia consigo. -E de certo ele o apanha aos punhados. Está sabido donde vem a fortuna ao biltre paulista... Mas onde irá o maldito bugre descobrir tanto ouro?!... Ladroeira não pode ser. Em que lavra pode ir ele furtar assim sem ser descoberto?... Pacto com o demônio... Ah! Ah!... Ah!... Os néscios que acreditem nessas toleimas!... Eu cá não!... É mina oculta; ninguém me tira isto cá da cachola; mas juro por meu pai, que tais manhas hei de empregar, que hei de descobrir a melgueira. Deixa-te estar, paulistinha de uma figa, que em pouco hei de secar-te a gorda teta, em que chupas!...

O Minhoto, depois de muito banzar sobre o caso, não querendo repartir com ninguém um tesouro, que já julgara seu, entendeu que o melhor partido que lhe cumpria tomar era nada revelar a pessoa alguma, e ir ele sozinho espreitar o bugre em suas excursões e espiar-lhe os passos. Pungido pelo demônio da cobiça, uma bela madrugada o bom homem, superando a custo sua habitual preguiça e poltronice, foi-se meter em uma moita a alguma distância da casa de Gil, espreitando a saída do índio. Apenas viu este sair e ganhar distância, foi acompanhando-o de longe e cautelosamente procurando não ser visto. Bem cedo, porém, compreendeu que tal empresa lhe era impossível. O bugre, além de mover-se com incrível rapidez, quase nunca andava por veredas já trilhadas; metia-se pelas brenhas, atravessava brejos, trepava e descia íngrimes e escabrosas rampas, deslizando como um fantasma sem deixar o menor vestígio à flor da terra. De mais a mais dava tais e tantas voltas, que não era possível seguir-lhe a pista. Convencido de que nem com as vistas poderia acompanhá-lo, e não tendo coragem para aventurar-se sozinho pelos ermos, o Minhoto desistiu de seu propósito, e tomou a deliberação de associar à empresa mais alguns companheiros. Convidou, portanto, os seus mais íntimos, e que tinha por mais fiéis e resolutos, contou-lhes o que sabia, e de acordo com eles combinou o plano, em que já os vimos assentarem, e no dia seguinte trataram de pô-lo em execução.

Logo que anoiteceu, cinco ou seis dos mais valentes e decididos, armados e bem apercebidos, foram-se postar de emboscada em um lugar, onde, segundo as observações do Minhoto, o bugre tinha de passar impreterivelmente.

-Olhem lá, não façam fogo senão em último caso, -recomendava-lhes o Minhoto, que não quis fazer parte da diligência. -Se matarem-me o bugre, adeus ouro!... Lá se vai tudo com ele para a aternidade.

-Em todo caso, morra ele antes do que qualquer um de nós, -replicou um dos emboabas. -Ao menos o peralta do paulista ficará sem a mamata.

-Lá isto é verdade, -advertiu o minhoto. -Mas se puderem meter dois proveitos em um saco, tanto melhor. Façam todo o possível por trazer-mo vivo, mas bem amarrado e, quer queira quer não, há de ser ele mesmo, quem nos há de ir mostrar essa mina assombrosa.

Emboscados em moitas estiveram os emboabas alerta e vigilantes durante quase toda a noite, mas o bugre não apareceu. Na noite seguinte fizeram o mesmo, postados em outro lugar; mas do bugre nem a sombra viram. Mais algumas emboscadas fizeram em diferentes lugares, mas sempre sem resultado algum. Irabussu, matreiro como era, já andava desconfiado com os portugueses, e havia pressentido que o andavam espionando. Havia passado mui perto dos conservadores naquela tarde, em que formaram o plano de agarrá-lo, e alcançara por alto o sentido da conversa. Portanto, desde então redobrou de precauções, e variava todos os dias a hora e o lugar de sua entrada e saída, e de tal arte se houve, que os portugueses nunca puderam pôr-lhe as vistas.

-O maldito bugre, -diziam eles, -de certo tem pacto com o diabo, ou aliás é encantado. Não há quem o veja mais.

-Quando não, é adivinhador; de certo já sabe de tudo, amoita-se em casa e não sai mais...

-Oh! Se sai!... -Interrompeu o Minhoto, -vocês é que são uns palermas, uns homens sem disposição. Sai, que bem o sei eu. Ainda ontem um sujeito contou-me que o viu lá para as bandas do rio, e por sinal que estava a comer uma cuia de jacuba, e o sujeito fugiu a bom fugir, como se tivesse visto o diabo em pessoa.

-E nem outra coisa ele é, cá a meu ver; mas, senhor Minhoto, se ele sai e entra, não é por certo da casa do Gil.

-É de lá mesmo, sim senhor; é que Vossemecês estiveram a cochilar, senão haviam de vê-lo entrar e sair todas as noites.

-Como ele é bruxo, talvez saia pelos ares, ou tome a figura de algum bicho, de modo que nem o diabo poderá reconhecê-lo.

-Deixem-se de toleimas; não há aí nenhuma bruxaria; e que o bugre é um velhaco de trinta diabos. Mas eu cá já excogitei um plano, uma armadilha tal, que, se ele escapar, cortem-me o pescoço.

-Qual é, senhor Minhoto! Vamos a ela! Vamos a ela!

-Nada mais fácil; é fazer-se um cerco em regra à casa do Gil. Fiquem todos dois a dois postados em derredor da casa, em cerco bem apertado, de maneira que com um assovio se possam ouvir e acudir uns aos outros em caso de necessidade. Vocês são só oito; bem vejo que é pouca gente; não há remédio senão chamar mais alguns patrícios; isso é mau, porque um tesouro, por grande que seja, repartido entre muita gente, torna-se migalha, mas enfim, que remédio!... Haja cautela e boa escolha, que tudo irá bem. Fiquem pois vossemecês conchavados para amanhã mesmo se pôr as mãos à obra.

O Minhoto dava o plano e as ordens destas operações com ares de grande capitão, e era ouvido e aplaudido como um oráculo. Contudo, posto que fosse ele a alma da conspiração urdida contra Gil, eximia-se de servir de braço e entrar em ação, não só por pusilanimidade, como também pela importância, que ligava à sua própria pessoa, limitando-se a combinar planos e expedir ordens de sua casa, que era o quartel general dos emboabas.

Na noite seguinte uns quinze ou dezesseis homens organizavam o cerco em roda da casa de Gil, e foram esperar o bugre pela madrugada à hora da volta, conforme as prescrições de Minhoto. Era um bloqueio formidável, que fazia honra ao comandante, que o delineara. Dois aqui, dois ali, dois acolá, postados em curta distância, e escondidos em moitas, cercas e valados, formaram uma linha de assédio inexpugnável. Nem um fantasma poderia rompê-la sem ser pressentido.

O índio tinha de passar impreterivelmente entre esses diversos pontos ao alcance de tiro de pistola, e seria difícil senão impossível atravessá-los sem ser visto.

Enfim lá pelas três ou quatro horas da madrugada, depois de terem passado quase toda a noite alerta e firmes em seus postos, avistaram ao longe, a uns duzentos passos de distância, alguma coisa que parecia mexer-se, avançando lenta e cautelosamente em movimentos tortuosos e estrangulados. A lua já muito minguada descendo no horizonte deixara ver alguma coisa a algumas centenas de passos. Os dois homens, que se achavam no ponto a que o vulto se dirigia, logo reconheceram o bugre e, soltando um forte assovio para despertar os camaradas, avançaram a embargar-lhe o passo.

-É ele! É ele mesmo! Mãos à obra! -Gritou um deles, e imediatamente disparou à toa um tiro de pistola. Este alarma intempestivo serviu de salvação ao bugre; ele, que até ali vinha sempre avançando, ao ouvir semelhante rebate, estacou de súbito e, acachapando-se com estranho ruído por trás de uma pequena moita de arbusto, desapareceu como duende, que se tivesse sumido por debaixo da terra. Dir-se-ia a ossada de um esqueleto, que desconjuntou-se rapidamente, ou travada de paus secos, que a um golpe de vento desarmou-se, e de um só baque veio à terra.

-Que é dele?! -Perguntava um olhando atarantado para todos os lados. -Parece que derreteu-se nos ares!...

-Qual derreter-se!... Sumiu-se não sei como acolá por detrás daquela moitazinha; não viste?

-Não.


-Pois vi-o eu com estes olhos.

-Ali!... Não digas tal!... Pois semelhante almanjarra podia ali esconder-se?! Só se fosse um coelho, homem!...

-Pois sumiu-se ali, quer creias, quer não, e ali deve estar, salvo se soverteu-se pela terra adentro.

Entretanto tendo sido ouvido o alarma em todos os outros pontos em roda da casa de Gil, acudindo ao sinal os outros camaradas foram prontamente chegando.

Então, que é dele?... Que é do bugre?... Já está agarrado?... Viram-no?... Onde está ele? -perguntavam arquejantes na maior curiosidade e sofreguidão.

-Está ali! -Responderam-lhe apontando a moita.

-Ali aonde?... O que vejo ali é uma pequena moita de ramos.

-Pois atrás dela está ele agachado.

-Deveras!... É incrível!... Mas em todo o caso, avante, amigos! Coragem! Não percamos tão bela ocasião! Agarremos o bruxo, e se for preciso demos cabo dele. Avante!...

Apesar de tão entusiástica proclamação, e do heróico exemplo de coragem que dava o proclamador, avançando intrepidamente alguns passos para o lado da moita, nenhum de seus companheiros ousou arredar pé. Aqueles homens robustos e valentes por certo não teriam medo de um mísero bugre velho; mas acaso tinham eles a certeza de que não era o próprio diabo, que andava na figura daquele misterioso velho?...

-Avante, camaradas! -Continuou o mesmo intrépido proclamador. -Que vergonha!... Nós, que somos tantos, recuarmos diante de um velho caboclo estropiado!... Oh! Lembrai-vos do ouro, que iremos colher aos punhados nas minas daquele patife...

-Virgem santa! -Interrompeu com um brado de espanto um dos companheiros. -Vejam, continuou apontando para a moita, -vejam aqueles dois olhos de fogo!

Todas as vistas convergiram para o lugar indicado, onde de feito dois pequenos globos de luz fosforescente lampejavam por entre as ramas da moita, que se agitava com certo rumor surdo semelhante ao rosnar de um cão. Em ato contínuo um miado agudo, horrendo, lamentoso troou aos ouvidos dos emboabas estupefatos, e um grande gato amarelo surdiu subitamente da moita, e com os olhos em fogo pinoteando, bufando e miando desesperadamente avançou para os emboabas, e em um abrir e fechar de olhos atravessou por entre eles e desapareceu como um corisco. Confusos e trêmulos desde os pés até a cabeça aqueles homens ficaram por alguns instantes mudos e imóveis a olharem espantados uns para os outros.

Tal influência exercem sobre o nosso sistema nervoso as coisas sobrenaturais, ou que ao menos tais nos parecem.

-Não resta a menor dúvida!... O maldito bugre é encantado, feiticeiro, bruxo ou o próprio satanaz! Não há poder humano que o agarre! -É escusado teimar; vamo-nos, minha gente; vamo-nos embora daqui, antes que o cão nos apareça de novo em forma de lobisomem ou coisa pior, e que nos pregue alguma nova peça.

Assim diziam os emboabas e benzendo-se e sem olharem para trás a passos precipitados enveredaram para seus ranchos estremecendo a cada instante com medo de toparem de novo o bruxo de alguma forma ainda mais pavorosa.



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