Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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CAPÍTULO XVIII

Antônio e seus amores

-Precisa de mim hoje, patrão?... Perguntou Antônio ao entrar.

-Por que perguntas? -disse Maurício.

-Por que queria ir hoje ao mato ver se arranjo mais um couro de onça para o senhor velho; a que tempo ele me encomenda e eu até hoje só pude aprontar três; não quero que ele se queixe de Antônio.

-Muito bem, meu Antônio, vais em bom caminho!... Disse Gil com ironia cheia de azedume. -Vai arranjando couros de onça para esse bom velho, até que venha o dia em que lhe dê na cabeça tirar-te também o teu...

-Como assim?! -Exclamou o índio olhando espantado para Gil. -Que quer ele fazer com meu couro?...

-Talvez algum tambor, Antônio; se queres saber melhor, vai perguntar a Irabussu, mais Judaíba.

-Que tem Irabussu, mais Judaíba?...

-Não sei, Antônio; vai ver em casa do capitão-mor, lá estão nas garras dele...

O índio ficou pasmado e silencioso por algum tempo interrogando com o olhar, ora a Gil, ora a Maurício.

Maurício tratou logo de satisfazer a ansiosa curiosidade do caboclo, e relatou rápida e concisamente o revoltante incidente, que Gil a poucos momentos acabava de contar-lhe. Depois de ter ouvido tudo com a maior atenção, em pé e de braços cruzados, Antônio por alguns instantes ficou pensativo, com os olhos em terra, e abanando a cabeça. Depois batendo com força o pé no chão ergueu a fronte e soltou um rugido surdo, como o rancor do jaguar enfurecido.

-Não é nada, meus brancos!... -Exclamou com voz firme e resoluta. -Só aqui estão três que valem por dez. Não custa nada ajuntar mais alguns companheiros daqueles bons, daqueles, que tem sede de sangue do emboaba. Não é Antônio que há de deixar mais nem um instante Judaíba nem Irabussu nas unhas daquela gente ruim... Vamos, meus brancos!... Que estão esperando?!... Vou chamar mais gente, se for preciso...

Este súbito desgarro do índio não deixou de causar alguma surpresa aos dois jovens paulistas. Entretanto era nele mui natural aquela impulsão. O homem da natureza, ainda que tenha vivido por muito tempo no estado social, nunca perde de todo a nativa rudeza; tem sempre os mesmos arrojos selváticos, e não conhece recurso contra a violência, senão outra violência, a força contra a força.

-Alto lá, meu Antônio! -Exclamou Maurício procurando acomodar o seu índio; -nem tanto açodamento!... O caso ainda não é para isso; talvez possamos livrar teus irmãos sem recorrermos à valentia de nossos braços...

-Maurício tem razão, Antônio! -Atalhou Gil pondo a mão sobre o ombro do índio. -Tenhamos ainda um pouco de paciência; mas em breve, tu verás, meu valente, -em breve não teremos remédio senão alvejarmos nossas armas naqueles cachorros!...

Antônio anuiu a estas palavras com um aceno e um olhar expressivo.

-Mas também não irás à caça, -continuou Maurício, olhando atentamente para a casa do capitão-mor; entrevia talvez lá ao menos a sombra de Leonor. -Hoje precisamos de ti.

Antônio não sabia replicar a seu patrão. Cruzou os braços, e disse:

-Antônio aqui fica!... Quando for hora, chamem por ele!...

Antes de irmos adiante com esta história, é mister informar o leitor sobre uma circunstância até aqui ignorada, mas que vem muito ao caso. E nem o leitor poderia adivinhá-la, pois era um segredo, de que nem Gil, nem Maurício mesmo eram sabedores. Desde muito tempo Antônio conhecia e queria bem a jovem Judaíba. Eis aí todo o segredo.

Gil, como sabemos, era o mais antigo e íntimo dos amigos de Maurício. Tinham ambos grande estima por muitos de seus patrícios, e por todos em geral suprema dedicação. Os trabalhos, os perigos, a opressão a que se viam longe da terra natal, formavam entre os paulistas liga estreita, inabalável. Se não os ligava todos, -e nem era possível, -íntima afeição e estima recíproca, ao menos comungavam na mesma taça, -a taça do ódio contra os opressores.

Maurício, porém, e Gil eram dois amigos no rigor da palavra, em tudo quanto tem de santo, belo e grandioso este nobre sentimento.

Levava Gil uma vida quase idêntica a de Maurício. Tinha uma casa a princípio mui pequena, mas que depois foi aumentando com desígnios que ele lá sabia. Nessa casa, situada em um recanto nas abas do Morro do Lenheiro, isolada do resto da povoação, ele as mais das vezes não entrava senão para dormir. Portanto, todos os seus amigos e conhecidos não iam lá procurá-lo, pois sabiam que era o melhor meio de não encontrá-lo.

Entretanto Maurício e o seu caboclo tinham franca entrada naquela casa, uma vez que lá se achasse qualquer dos seus habitantes, -Gil, Irabussu, ou Judaíba.

Antônio lá ia muitas vezes conversar em língua túpica, que ainda não tinha de todo esquecido, com o velho Irabussu, e com sua mimosa filha. Aí passavam eles horas esquecidos junto ao fogão, relembrando as cenas da vida selvática, da qual Antônio, aprisionado muito criança, apenas conservava uma vaga reminiscência.

A jovem carijó podia assinalar-se como beleza entre as filhas da floresta. Como todos de sua raça, sua tez não era de cor muito carregada. Os olhos pretos, um pouco levantados nas fontes, eram grandes e tinham muita meiguice. As feições não eram totalmente irregulares e o corpo era esbelto e bem feito.

Quanto ao nosso aimoré era um guapo rapagão, capaz de encantar os olhos da mais formosa entre as filhas de Tupã.

Tez cor de bronze bem carregada, fisionomia esperta e animada; como era botocudo, tinham-se furado as orelhas, e o lábio inferior. Apanhado ainda em verde idade esses furos ainda não se tinham distendido com o uso dos botoques, ou rodelas de pau. Pelo contrário, tinham quase desaparecido. Os furos das orelhas serviam-lhe para neles dependurar uns brinquinhos de ouro, e o furo do lábio inferior servia-lhe para soltar um assovio agudo e estridente como o da anta.

Tudo isso reunido à sua fisionomia vivaz e inteligente, e à meia civilização, que possuía, davam-lhe muito prestígio no espírito dos dois bugres, e o tornavam encantador aos olhos de Judaíba.

Posto que de raça hostil, sua nova sorte e o cativeiro comum lhes faziam esquecer os ódios e rivalidades das duas tribos para só se lembrarem que eram todos três filhos das florestas americanas.

Nada faltava portanto para que os dois jovens indígenas se amassem extremosamente; e assim aconteceu. Eis aí o motivo do rugido de cólera, que Antônio soltou, e do ímpeto com que instantaneamente queria correr em socorro dos dois bugres, apenas soube do seu infortúnio.

-Vamos, Gil; -disse Maurício pondo o chapéu na cabeça. -É preciso falar ao capitão-mor, antes que a matilha dos perros se ajunte em redor dele. E tu, Antônio, espera aqui, até que nós voltemos.

-Por quem é, patrão. -exclamou Antônio com acento de extraordinária angústia, arrojando-se aos pés de Maurício. -Pelo Deus, que está pregado nesta cruz, e que vossemecê desde pequeno me ensinou a adorar, -continuou tirando do seio um pequeno crucifixo, que trazia ao pescoço pendente de um rosário; -pela sinhá Leonor, patrão!... Não deixe a minha Judaíba no poder daqueles homens... Senão, -continuou erguendo-se bruscamente altivo, audaz e fremente como a palmeira do deserto batida pelo furacão, -senão... Por Tupã, que é ainda o Deus de Judaíba, por Tupã eu juro, hei de vingar Judaíba!...

Os dois paulistas ficaram atônitos a princípio com aquela veemente explosão, que rompia dos lábios apaixonados do jovem selvagem; mas para logo compreenderam o que aquilo revelava e se entreolharam sorrindo.

-Então queres muito bem a Judaíba? -Perguntou Maurício com emoção.

-Oh! Muito, patrão! Muito! Judaíba é meu coração.

-Pois não tenhas receio, meu Antônio; custe o que custar, Judaíba te há de ser restituída.

Os dois amigos saíram e juntos se dirigiram silenciosamente para a casa do capitão-mor, cada qual fazendo consigo reflexões diametralmente opostas sobre o que acabavam de presenciar.

-Bom! -Dizia Gil consigo, -é mais um inimigo irreconciliável contra estes perros; mais um auxiliar, que nos pode ser de sumo proveito.

-Mau! -Pensava Maurício; -no fim de contas o capitão-mor não terá a seu favor senão a mim, a mim somente!...


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