Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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CAPÍTULO II

Os mineiros

A nascente povoação das eras remotas, a que nos reportamos, estava ainda mui longe de ser S. João de hoje. Naquele tosco e selvático embrião ninguém poderia ainda adivinhar a risonha e faceira cidade dos nossos dias.

O vale, por onde passa o ribeiro e onde se acha assentada a parte principal da cidade, tinha o aspecto de uma roça derribada de fresco, e ao longo das margens se viam dispersas as pequenas arranchações dos faiscadores, -esses respingadores das minas, -que com suas bateias apuravam a beira do córrego as fagulhas de ouro, que escapavam às lavras dos opulentos mineiros.

Pela encosta das colinas viam-se disseminadas algumas casas de melhor aparência e outras ainda em construção.

O trabalho ativo e incessante transformava de dia em dia o aspecto selvático daquele solo virgem. Aqui retinia a alavanca e o almocafre3 do mineiro em socavões profundos, ou em lavras de talha aberta. Ali troava compassado sobre a bigorna o martelo do ferreiro. Além gemiam grossas madeiras aos golpes do ferro do carpinteiro. Mais longe o machado do derrubador abatia uma floresta para dar lugar a plantações, fábricas e engenhos.

As ruínas da natureza bruta, -troncos prostrados, rochedos aluídos, terras retalhadas, cômoros desmontados, -avultavam ainda sobre as obras e construções da indústria humana.

Era a luta gigantesca, que então começava a se travar ali, como em toda a face da América, da indústria com a natureza bruta, da civilização com a barbaria.

Oxalá, que a vitória tivesse sido completa, e que os civilizadores desta incomparável terra do Brasil não tivessem também trazido em suas leis, hábitos e costumes tantos elementos de barbaria, de cujas conseqüências até hoje nos ressentimos!

O Rio das Mortes ainda não tinha esse fúnebre nome, e não se sabe qual lhe davam os naturais do país; pelo menos eu não sei, pois nunca o li, nem ouvi a ninguém. Portanto lhe darei o nome, por que hoje é conhecido.

Um pouco retirado do núcleo principal da povoação, para o lado de leste, em um suave lançante, que dominava os vargedos, onde hoje é o bairro de Matozinho, notava-se um vasto edifício inteiramente novo, e que parecia ter recebido naquele mesmo dia os últimos toques das mãos dos operários.

Era uma casa espaçosa de madeira, solidamente construída, vasta e cômoda, do tipo da maior parte das vivendas dos abastados fazendeiros de Minas. Tinha um pavimento, elevado cerca de dois metros acima do solo. A um lado corria em toda a extensão do edifício larga varanda guarnecida de um peitoril com balaústres de jacarandá torneado.

Por uma escadaria de pedra, de dois lances, que desciam à direita e à esquerda, se baixava da varanda para um vasto pátio quadrado, comunicando com a rua, ou antes com a estrada, que lhe passava em frente, por um largo portão formado de dois sólidos batentes de cedro, firmados em duas truculentas colunas de cangerana4.

Pelos outros dois lados o pátio era circunscrito por uma série de casinholas ou senzalas destinados aos escravos e camaradas.

Por esse pátio e pelas imediações do edifício viam-se diferentes grupos conversando com animação, e muitos vultos se cruzavam amiudadamente com certa agitação, que dava a entender, que algum acontecimento extraordinário vinha interromper naquele dia o monótono viver dos mineiros do Rio das Mortes.

Esta multidão, que se agitava em torno do edifício e pelas avenidas da povoação nascente, era um composto de gente de todas as classes e condições, de todas as procedências e de todas as raças.

Eram paulistas e forasteiros de todas as capitanias, portugueses ou emboabas, escravos africanos e indígenas de diferentes tribos.

Do tom por demais animado, azedo e às vezes rancoroso, que reinava em quase todas as conversações, que mais pareciam rixas, se depreendia a profunda discórdia, que lavrava no seio daquela sociedade formada de elementos tão heterogêneos, o ódio irreconciliável, que dividia aqueles ânimos superexcitados pela sede do ouro.

Era isto em dias de Dezembro de 1707.

-Por Deus, que já me acho bastante aborrecido com a demora do tal capitão-mor. Estou cansado de estar aqui a estaca à espera de quem não conheço, nem nunca vi.

Isto dizia um velho paulista que se achava a um canto do pátio sentado sobre um toro de peroba, resto da recente construção, fumando tranqüilamente o seu cachimbo.

-Tem paciência, mestre Bueno; espera ainda um pouco, que ele não pode tardar, -retruca um emboaba, que andava todo trêfego e radioso daqui para acolá dando mostras da mais viva alegria.

-Qual paciência!... já tenho tido demais. Estou aqui firme como este cepo desde o meio-dia. O sol já está baixo, e ainda não botei nada na boca... figa!... e quem me assegura que esse homem chega hoje mesmo?...

-Eu, mestre Bueno. Já não te disse, que o Sr. Maurício teve carta do capitão-mor, em que o avisava, que hoje por tarde estaria aqui sem falta nenhuma?...

-Mas o sol daqui a nada está entrando e, nem poeira eu vejo no caminho. Vão ver que o homem já começa por nos pregar uma peça... Ai que o capitão-mor mesmo antes de chegar já vai nos sendo pesado!

-Não digas tal; o Sr. capitão-mor Diogo Mendes é um fidalgo de mão cheia. E a filha, mestre Bueno!... oh! vale a pena esperar só para ter o gostinho de vê-la; é a figura mais linda que o sol cobre. E a comitiva do capitão-mor há de ser luzida, que ele é homem de gosto e de muitos cabedais. Espera, que te não hás de arrepender, mestre Bueno.

a pura verdade, -acudiu outro emboaba, -eu conheci a menina em S. Paulo de Piratininga, e confesso que é o rostinho mais mimoso, que tenho visto em dias de minha vida. Demais disso, mestre Bueno bem sabe que é o Sr. Maurício quem manda, que estejamos aqui todos os moradores do povoado para o recebermos com as devidas honras o Sr, capitão-mor, e não há motivos para escusar-se.

-E que me importa a mim a ordem do Sr. Maurício, a fidalguia do capitão-mor, nem a boniteza da filha! Caramba! Com eu estar ou não estar aqui não deixarão de chegar ou não chegar, conforme Deus for servido.

-Não fales assim, mestre Bueno! ... pois não tens vontade de conhecer esse homem, que aqui vem para bem e sossego de nós todos?

-Que esperança!... pobre de mim, se meu sossego estivesse nas mãos do tal capitão-mor! A mim pouco me embaraça que ele chegue hoje ou amanhã, ou nunca mais. A mim não vem ele dar nem tirar coisa nenhuma. Não tenho lavras de ouro, louvado seja Deus!... de minha bigorna e minha forja, e essas ninguém me há de cobiçar.

-Alto lá, mestre ferreiro! a vinda do capitão-mor é um benefício para nós todos. Agora sim é que vai haver sossego e segurança nesta terra. O governador da capitania não podia fazer coisa mais acertada do que mandar-nos um capitão-mor para acabar com tantas ladroeiras e desordens, que por aí vão. Muitos vadios altanados, que por aí andam, agora hão de abaixar a proa.

-Isso é que é verdade, atalha o outro emboaba. -E ninguém mais nas circunstâncias de poder endireitar as coisas nesta terra do que o Sr. capitão-mor Diogo Mendes. Eu o conheço muito bem; é homem de têmpera; guardem-se dele os vadios e desordeiros, que por aí andam. Agora sim, tenho eu fé, que as minhas lavras serão respeitadas, e não virá aí qualquer farroupilha atrapalhar-me o serviço e roubar-me o meu ouro.

-O meu ouro! -exclamou mestre Bueno com uma risada de amarga ironia. -O meu ouro!... ora vossas mercês têm boas!... -continuou levantando-se impacientado. -O ouro Deus o pôs no seio da terra para nós todos, e em primeiro lugar para quem se deu ao trabalho de descobri-lo. O meu ouro!... Vossas mercês entendem que todo o ouro da terra lhes pertence, e que nós paulistas à custa do suor do nosso rosto e a risco de vida o viemos descobrir só para termos o gostinho de vê-lo entrar todo para as algibeiras de vossas mercês!... Ah! meus gajões, -acrescentou abanado tristemente a cabeça, -Deus queira que este negócio de capitão-mor, em vez de endireitar as coisas, não venha torná-las ainda mais tortas, do que andam.

-Não tenhas susto, meu velho; tu há de tomar rumo. Pede a Deus, que te dê mais um bocadito de vida para veres como daqui em diante tudo vai andar direito.

-Deus o queira, mas duvido muito... enfim, seja como for, vou-me embora. Olhem como o céu está preto e fuzilando para aquela banda... Sou eu quem lhes digo, que não tarda a desandar uma grande tormenta dágua. Sou velho e doente, não posso apanhar chuva. Venha ou não venha o tal capitão-mor, vou-me mexendo para a casa.

Entretanto, várias outras pessoas, paulistas quase todos, atraídos pelo tom animado daquela conversação, se tinham agrupado em torno dos três interlocutores, e começavam a aplaudir o velho ferreiro.

Os emboabas, receando que a conversação se azedasse mais em vista do mau humor, com que se achava o velho, e vendo que os paulistas eram em maior número, foram-se retirando prudentemente.

-Estes cães tinhosos! -dizia o velho ferreiro a seus patrícios: -estão muito altanados com o seu capitão-mor de uma figa! temos de vê-los agora mais altanados que nunca. Querem nos pôr o pé no pescoço. Meus camaradas, hoje mais do que dantes, é preciso cuidado e olho vivo com estes birbantes.

-Eu os trarei sempre debaixo da mira de minha escopeta, acudiu um dos paulistas, e se abusarem de minha paciência, de nada lhes valerá o seu capitão-mor.

-E eu também, acrescentou outro, se até agora não pude congraçar-me com tais zangões, juro que daqui em diante não lhes aturarei o mínimo desaforo.

-Nem eu!


-Nem eu!

-Nem eu! ... murmuravam uma porção de vozes em torno do velho ferreiro.

Entretanto o sol baixava rapidamente para o ocaso. Era dezembro, quadra de aguaceiros e tempestades.

Violentas rajadas de oeste passavam zunindo pelo meio do arraial, e levantavam ao céu turbilhões de poeira, de folhiços, de cavacos de madeira, que toldavam e escureciam a atmosfera. A serra do Lenheiro cobriu-se de um toldo negro de nuvens, que rapidamente se foi desdobrando por todo o firmamento despejando com horrendo sussurro um dilúvio de águas entre o estouro de uma infinidade de raios.

O humilde riacho de S. João em poucos minutos tornou-se ribeirão caudal e furioso, arrastando troncos, devorando as barracas e levantando de rojo os serviços, os utensílios e mesmo alguns ranchos dos pobres faiscadores.

Cumpriu-se então à risca e literalmente o adágio popular: -foi água fria na fervura.

Todo aquele rebulício, agitação e entusiasmo, que ainda há pouco animava a população, em um momento abafou-se como por encanto. Cada qual tratou de ir correndo a toda pressa a abrigar-se debaixo de seus telhados sem ter inveja alguma à sorte do capitão-mor, que sem dúvida vinha agüentando por sertões desabridos toda a força daquele furibundo temporal.

Entretanto a noite não tardava a cair, a tormenta continuava sempre com a mesma fúria, e o capitão-mor não chegava.

Tudo estava deserto, toda a população se abrigava encolhida e silenciosa em suas casas, e só se ouvia o medonho rugir da procela, o ronco das enxurradas, e de quando em quando um raio que estalava parecendo quebrar as abóbodas celestes. Era uma tormenta descomunal, uma chuva diluviana, que causava horríveis estragos, enormes prejuízos, e enchia de pavor os mais valentes corações.

Um vulto saído do interior do edifício assoma na balaustrada de jacarandá, que dava para o pátio.

Era um mancebo de alta estatura, de tez um tanto morena, de barba espessa e negra, de feições firmes e regulares. Tinha na cabeça chapéu de feltro negro de abas largas arregaçadas dos lados por cordões com borlas nas extremidades, e embuçava-se em uma capa também negra.

-Antônio! bradou ele em voz bem alta debruçando-se sobre o parapeito.

-Pronto! acudiu uma voz de dentro de uma das casinholas, que cercavam o pátio, e imediatamente saltou dela um robusto caboclo, descalço, arregaçado até os joelhos, e embuçado em uma tipóia de couro de veado. Atravessou rapidamente o pátio alagado, e vencendo aos dois e aos três degraus da escadaria, em um momento se achou aos pés de seu patrão.

-Antônio, -lhe diz este, -isto está mau! Não tarda a anoitecer, a tempestade não cessa, e o capitão-mor até agora!... quem sabe o que terá acontecido! esta tempestade... caminhos péssimos... ribeirões cheios... índios ferozes... não posso, não posso ter sossego.

-Não há de ser nada, patrão; sem dúvida os ribeirões cheios é que o atrasaram na jornada. Amanhã de certo ele está aí. No entanto o patrão veja o que se pode fazer, e vamos a isso.

-Ele avisou-me, que sem falta nenhuma hoje estaria aqui, e tu sabes, Antônio; ele é da mais restrita pontualidade mesmo nas coisas insignificantes. Nada! não posso estar sossegado, enquanto não me encontrar com eles aqui ou em qualquer parte. Antônio, sela depressa nossos animais os mais valentes, e vamos encontrar seja a hora que for.

-Mas com esse temporal, patrão?

-Não importa; é por isso mesmo, que é forçoso ir já em seu encontro, e quem sabe se em seu socorro.

-Está dito, patrão; em um abrir e fechar de olhos tudo está pronto.

-Espera ainda, Antônio; talvez sejam precisos mais alguns companheiros para nos ajudarem; quem sabe o que haverá. Chama também o Gil, e mais três ou quatro dos nossos amigos, que estejam mais a mão, e pede-lhes de minha parte, que estejam prontos a me acompanharem com a maior presteza possível.

-Sim, senhor, -disse Antônio, e em três saltos, descendo a escada, foi dar cumprimento às ordens do patrão.

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