Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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CAPÍTULO XXI

Em busca do Eldorado

Enquanto o capitão-mor, Fernando, Maurício, Gil e toda a população de S. João d’ El-Rei esperam as horas passarem na mais viva e ansiosa expectação, façamos como o índio Antônio, e vamos espiar através de matas, morros e grotões, para onde Irabussu vai guiando os pobres emboabas a fim de lhes mostrar a tão cobiçada e misteriosa mina.

O índio conduziu os seus guardas para o lado de Matozinho, justamente por onde é hoje a estrada que conduz a Ouro Preto. Apenas ganhou as proximidades do Rio das Mortes, parou, e com um aceno deu a entender que deviam largar o caminho à esquerda e embrenhar-se pelo mato, seguindo rio acima por um lugar onde não havia a menor trilha, nem batida alguma de gente ou de animais.

-Como é isso?... exclamou atônito um dos emboabas; -pois nós nos havemos de enfiar por esse mato bravo, sem nenhum caminho aberto?... tu ou estás doido, meu bugre, ou queres zombar conosco.

-Ora não faltava mais nada! -acrescentou outro. Quero ver como havemos de varar por estas charnecas e andurriais!... ainda a pé, vá feito; mas a cavalo!... seguramente este velho bruxo quer nos debicar!... fala, bugre dos diabos, pois não há melhor caminho do que este para chegarmos à tua maldita mina?...

Irabussu, como já vimos, entendia alguma coisa de português, se bem que no interrogatório se mostrou mais boçal do que realmente era.

Portanto, auxiliando-se com gestos e sinais, deu a entender aos emboabas, não sem alguma dificuldade, que se não quisessem acompanhá-lo, não poderia mostrar a mina; que ele mesmo não conhecia trilho nenhum certo, dirigia-se pelo rumo, e alguma vez tinha acontecido desnortear-se e não encontrar a mina senão depois de longos rodeios. Confessou, demais, que sempre tinha cuidado de não deixar rasto algum nem sinal de sua passagem, a fim de que ninguém pudesse descobri-la.

-Ah!... é assim?... mau!... o caso está mais feio do que se nos pintava!... estamos bem aviados, meus amigos... -disse um emboaba.

-E por que não nos disseste isso a mais tempo, brugre de satanás?... ou tu hás de mostrar melhor caminho, ou com esta te arrebento os miolos!... -ameaçou outro erguendo o coice da escopeta.

Por única resposta Irabussu sacudiu os ombros e sentou-se no chão.

Os emboabas desesperavam de raiva e impaciência.

-Com mil diabos!... isto é abusar demais da paciência do próximo!... se eu adivinhasse, por Deus, que não me metia em tais alhadas...

-Nem eu!... nem eu!... nem eu!... repetiam todos, à exceção de um.

-Não é assim, meus amigos! -exclamou este; -não desanimemos, temos ordens apertadas, e suceda o que suceder, vamos por diante com esta empreitada; senão... vocês bem sabem o que é que nos espera. Anda lá! -continuou dando um pontapé nas costas de Irabussu; -levanta-te, bugre escomungado!... vamos adiante!... se cuidas ainda pregar-nos alguma peça, juro-te que com o coice desta escopeta te hei de pôr em marmelada essa cabecinha de pica-pau.

O índio não compreendeu, ou não fez caso da ameaça; levantou-se e pondo-se em movimento abaixou a cabeça e foi-se enfiando pelo mato adentro. Mas não era possível aos emboabas acompanhá-lo pela mesma forma em que até ali tinham marchado. Os quatro, que iam a cavalo, viram-se forçados a apear e levar pela rédea suas cavalgaduras. Os dois que pegavam nas extremidades da corda arrochada aos punhos do índio, não tiveram remédio senão largá-la, e deixaram que ele fosse adiante de todos a fim de os guiar. Mas o índio esgueirava-se com presteza admirável por entre as mais emaranhadas brenhas, ao passo que às vezes era preciso aos emboabas usarem de suas facas de mato para abrirem caminho em lugares por onde ele passava sem encontrar a mínima dificuldade. Entretanto não era prudente deixá-lo adiantar-se muito, e foi preciso que ao menos um dos emboabas por cautela segurasse a corda.

Assim andavam por largo tempo com infinita dificuldade e extrema lentidão. Parece que de propósito o índio levava os emboabas pelos sítios mais ínvios e escabrosos. Aqui era preciso romper um matagal espesso, todo emaranhado de taquaras e cipós. Acolá topavam enorme perambeira, que era preciso descer ou subir agarrando-se aos ramos e aos rochedos. Além tinham de atravessar um córrego de barrancas escarpadas, e forçoso lhes era meterem-se na água até a cintura.

Irabussu vencia todas essas dificuldades adelgaçando ainda mais o corpo já de si mirrado e esguio, mas flexível como a serpente, e ágil como a cotia. Outro tanto não acontecia aos emboabas, que rasgavam as roupas e as carnes pelos espinhais do mato, e levavam tombos e esbarradas, que lhes arrancavam gritos de dor por entre um chuveiro de pragas e maldições.

Reconheceram os portugueses que lhes era impossível levar seus cavalos, que lhes serviam mais de embaraço de que de auxílio. Consultaram entre si, o que deveriam fazer; mas Irabussu tranqüilizou-os, fazendo-lhes ver que em breve estariam de volta pelo mesmo caminho, e que se os deixassem atados a alguns troncos não deixariam de tornar a encontrá-los. Assim resolveram, e livres daquela inútil bagagem, prosseguiram a marcha com menos lentidão.

O bugre conduzia os seus guardas por lugares esconsos e vales profundos e cobertos de mato, donde não lhes era possível descortinar nada em derredor. Além disso, parava de espaço em espaço como para tomar rumo mudando freqüentemente de direção.

Era já meio-dia e eles teriam andado pouco mais de légua sem saberem a quantas andavam, nem a que rumo lhes ficava a povoação. Andaram, andaram ainda por duas longas horas entre brenhas e grotões, até que surdiram no alto de uma encosta descampada.

Os portugueses olhando em torno de si nada viram que os pudesse orientar. De um lado erguia-se uma sucessão de colinas, que se iam elevando em caprichosas ondulações até se perderem nos remotos horizontes. Do outro seguia-se um cordão de morros, intermeados de capões e campinas, e era no vivo de um destes morros que eles se achavam colocados.

Pela frente enfim estendiam-se debaixo de seus pés baixadas e vales profundos, cobertos de matos, que se ligavam a uma floresta geral, que parecia ser a do Rio das Mortes. Mas os emboabas ali se achavam como se tivessem vindo com os olhos vendados, e não saberiam dizer para que lado corria o rio, nem que direção deveriam tomar para voltarem à povoação.

Chegados àquela encosta o bugre, que sentia fome e cansaço, sentou-se no chão, à sombra de um bosquete e pediu que lhes desatassem os pulsos. Os emboabas fizeram-lhe a vontade, mas por precaução sentaram em derredor dele em círculo bem apertado, de olho vivo e a mão nas escopetas. Irabussu tirou da sacola, que trazia a tiracolo, um quarto de caça moqueada, e começou a roê-lo e mastigá-lo com toda a tranqüilidade. Estimulados pelo exemplo, e estafados de fadiga, os portugueses entenderam que era boa ocasião de darem também assalto a seus sacos de matolotagem; entretanto, iam adubando a parca refeição com injúrias ao velho caboclo, que delas nenhum caso fazia.

-Então?... quando chegaremos ao fim desta jornada, bugre dos mil diabos?... -dizia um meio engasgado com um pedaço de carne.

-Ainda está muito longe essa maldita mina?... fala, bruxo endiabrado!... bradava outro atirando à cara do pobre velho um osso, que acabava de roer.

-Se ainda temos caminhada como esta, que até aqui temos agüentado, ah! meu bugre velho, furo-te esses olhinhos de víbora! -rosnou outro arrojando aos olhos do bugre um resto de aguardente, que acabava de beber.

Irabussu, que tinha acabado de comer, limpou os olhos, levantou-se sossegadamente, entregou os pulsos para serem de novo amarrados, e pôs-se em movimento sem murmurar uma palavra. Subiu um pouco pela encosta acima para melhor descortinar o terreno, pairou os olhos sobre a imensa valada coberta de mato que se estendia a seus pés, e depois de observar por alguns instantes, apontando com as mãos atadas exclamou:

-É ali!...

É ali! -estas curtas palavras proferidas por aqueles lábios secos e mirrados, que a tanto tempo não se abriam, produziram efeito elétrico entre os emboabas.

Todos os olhos se dirigiam para o ponto que o bugre indicava com seus compridos braços de esqueleto estendidos para diante.

É ali?... ali bem perto!... ali está o termo de nossas fadigas, e a porta misteriosa dos encantados palácios de Pluto!... é ali!... está à vista!... é quanto basta!...

-Ali onde? -perguntaram os emboabas estendendo a vista muito ao largo pelos horizontes.

-Aqui mais pertinho, -disse o bugre abaixando os punhos. -Estamos quase batendo com o pé em cima da mina.

O lugar, para onde apontava o bugre, era mesmo na raiz do grande morro, em que se achava colocado com os emboabas.

Nas últimas abas desse morro destacava-se um cômoro elevado, coberto de espessa mata, e que parecia terminar cortado a prumo sobre um comprido vargedo ou clareira semeada de pequenas lagoas. Este vargedo estendia-se à raiz do morro ao longo das margens de um rio considerável, cujo veio tortuoso se mostrava aqui e acolá tranqüilo e cintilante aos raios do sol por entre as vastas e tofudas florestas, que o obumbravam, e ia coleando perder-se embebido entre as sinuosidades dos outeiros longínquos. Além do rio, e não a muita distância erguia-se a rampa colossal de uma alta serra.

Eram o Rio das Mortes e a serra de S. José, que os emboabas tinham diante dos olhos. Entretanto, na posição em que se achavam, e em virtude dos imensos rodeios, por onde os levou o bugre através de vales escuros, grotões e baixadas cobertas de brenhas, não souberam reconhecer nem a serra, nem o rio. O sol já havia descido consideravelmente do zênite, e eles tinham marchado continuamente, se bem que com suma lentidão desde a primeira alva do dia. Julgavam achar-se seguramente a sete ou oito léguas de S. João, entretanto, em linha reta não se achavam talvez bem a uma légua.

-Aqui em baixo?... -exclamaram os emboabas criando alma nova, apenas reconheceram o sítio, que Irabussu lhes indicava. -Mercê de Deus, estamos bem perto?... Vamos! vamos para lá, e depressa, meu bugre!...

Desceram para as matas, que ficavam ao pé do morro, e nelas se embrenharam guiados por Irabussu. Pensavam os emboabas que em menos de meia hora se achariam naquele sítio suspirado, que ali viam tão pertinho e quase debaixo de seus pés, e estariam tocando com as mãos aquela mina fabulosa, alvo de tantos desejos, termo de tantos esforços e fadigas. Mas em breve se desenganaram. Ou por manha, ou porque assim era mister, Irabussu fê-los dar ainda um imenso rodeio para ganharem o socalco do morro, em cuja base achavam-se o cômoro e o vargedo de que falamos. Ainda os míseros emboabas, estropiados e estafados de calor e cansaço tiveram de gramar cerca de duas horas de marcha difícil e penosa, através de matas emaranhadas e de lugares ínvios e escabrosos.

O sol já estava rente com as montanhas do ocaso, e ainda não haviam chegado ao termo da viagem.

-Arre!... com mil diabos!... -exclamou um perdendo a paciência. -Este maldito bugre quer nos esbofar e matar de cansaço para nunca mais chegarmos a tal mina, que mil diabos consumam!...

-E pela hora que é, -acudiu outro, -não teremos remédio senão lá pernoitar, isso se tivermos a dita de lá chegar...

-Pois se não chegarmos, juro por minha alma que hei de esborrachar a cachola deste casmurro.

-Alto lá, patrício!... Antes de ele nos mostrar a mina, não consinto. Esta cabaça, que aqui levo com aguardente, pretendo trazê-la cheia de ouro em pó.

-Que duvida, amigo!... se não nos gratificarmos por nossas mãos da esfrega que vamos agüentando, ninguém mais se lembrará de nós. O tal senhor Fernando é bem capaz de cumprir as ameaças que nos fez, mas as promessas... fiem-se nelas!... nada, meus amigos; este bornal, que aqui vai com farinha, há de boltar mais pesado um pouco, se Deus quiser.

-E eu nesta garrafa hei de trazer quanto caiba...

-E eu nas algibeiras do gibão, haja ouro, que elas são bem largas.

-E eu, que não trouxe vasilha nenhuma!... valha-me Deus!... té as minhas algibeiras estão em trapo!... mas... para tudo há remédio; encho até a boca o cano da minha escopeta...

-Ah! ah! ah! -interrompeu com uma gargalhada o sexto companheiro, que até ali ainda não tinha apresentado sua vasilha para encher de ouro. -Vossemecês estão dando cabo da mina do bugre, e segundo me parece não pretendem deixar nem um grão para o Sr. Fernando e o capitão-mor.

Nesse caso o melhor é fazermos outra coisa.

-O quê?


-Acabarmos com a vida deste bugre amaldiçoado, -depois de mostrar-nos a mina, está entendido, -atiramos o cadáver aí em qualquer buraco, e nos tornaremos os únicos senhores do segredo e de toda essa riqueza. Diremos depois que ele fugiu, ou que nos foi arrebatado à força por uma troça de botocudos, que nos assaltou...

-A lembrança não é má, mas não deixa de ser arriscada...; e depois como nos arranjaremos?...

-Nada mais fácil; se a mina é, como dizem, dentro de oito dias podemos ficar riquíssimos, antes que se dê pela coisa; e no fim de contas da noite para o dia nos raspamos, que o mundo é largo, e em havendo ouro nada nos faltará.

Nestas e outras quejandas práticas iam os emboabas procurando disfarçar o enfado de tão fragueira jornada, quando se acharam à entrada de um vasto e pitoresco vargedo todo recortado de viçosas balsas e de pequenas lagoas e banhados, formado pelo transbordamento de um rio, cujas barrancas se desenhavam não mui longe no limite da planície. Reconheceram ser o mesmo sítio que o índio lhes havia indicado do alto do morro. Olharam em derredor, e divisaram à direita na base do grande morro, que acabavam de descer, uma escarpa enorme e quase perpendicular de rochas branquicentas dominando a vargem à maneira de fachada ciclópica de um edifício em ruínas. No coruchéu desse bronco acervo de rochas crescia robusta e gigantesca floresta ligando-se às matas que cobriram as abas dos altos morros, a cuja base achava-se encostado.

-Lá está! -exclamou Irabussu apontando para o rochedo.

Os portugueses exultaram; estavam em terreno plano e descortinado, e quando muito a mil passos de distância do termo de suas fadigas!... Bem sabiam que haviam de pernoitar lá; mas achar a um tempo a mina e o descanso era para eles a bem-aventurança, embora se achassem rodeados de perigos e mistérios.

Entretanto, antes de lá chegarem, estava-lhes preparada ainda uma cruel provação. Achavam-se à beira de um extenso e profundo banhado, que atravessava o vargedo em toda a largura parecendo uma vertente das montanhas represada pelo rio. O índio por gestos explicou aos emboabas que era forçoso atravessá-la. Estes responderam-lhe que não sabiam nadar.

-Não é preciso, -disse Irabussu, e com um aceno significou-lhes que o acompanhassem bem de perto. Os emboabas hesitaram por alguns instantes.

-Enfim, -exclamou um deles, -já agora que estamos a ponto de ver o fruto de nossos trabalhos, é vergonha recuarmos. Demais um banho de água fria depois de tanto calor e fadiga não pode fazer mal.

-É verdade, patrício; o mais que pode fazer é levar-nos para outro mundo de alguma macacoa.

-Embora! -exclamaram outros; -já que é preciso, vamos a isso.

O bugre com suas compridas pernas foi atravessando suavemente o banhado com água pouco acima dos joelhos; seus companheiros porém a tiveram quase pela barba, e só ganharam a outra margem depois de bem ensopados e enregelados até os ossos.

-Maldita a hora em que me meti em tais funduras! bradou um tiritando e batendo os queixos de frio.

-Cala-te, menino! acudiu outro procurando alentar o comapanheiro. -Aqui vem a pelo o rifão: -não se pescam trutas a barbas enxutas. As trutas ali estão bem perto; nadamos em água; agora mesmo vamos nadar em ouro...

-Qual ouro, nem meio ouro!... pensas então que ele há de chegar para nós!... para nós é só a canseira, para eles o proveito!... as águas correm para o mar, meu amigo!... Juro pelas tripas de meu pai que pela minha boca ninguém há de saber de ouro nenhum, e hei de mandar este bruxo com sua mina e tudo para as profundas dos infernos!...

-Lá isso não, patrício!... Vá o bugre só, mas fique-nos a mina.

-Tenhamos paciência, minha gente!... dê no que der, já agora levemos por diante esta empreitada.

Assim lastimando-se, queixando-se, praguejando, ou procurando confortarem-se uns aos outros, chegaram sem mais novidades ao pé do grande rochedo.



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