Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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CAPÍTULO XXIV

A catecúmena

Se o desaparecimento de Irabussu a muitos encheu de indignação e cólera, desalentou a alguns, e a outros foi motivo de alegria e festa, houve com tudo um coração, em que ele ecoou dolorosamente desfechando-lhe cruel e profundo golpe; foi o de sua filha Judaíba.

Como sabemos, apenas o velho bugre partiu com sua escolta, Leonor tomou a seu cuidado transfigura-la completamente; deu-lhe alguns vestidos mais descentes, penteou ela mesma os cabelos ásperos e corredios da índia, perfumou-se e transformou dando-lhes a cor luzidia da plumagem do Açu, enfeitou-lhe o colo, a fronte e os braços com algumas jóias e adereços de pouco valor, e em poucas horas transformou a bronca e seminua virgem da floresta em lida e faceira rapariguinha.

Leonor a muito tempo vivia no mais completo e fastidioso isolamento. Não tinha uma aia, uma criada grave, nem pessoa de seu sexo, com que pudesse se entreter. Sua antiga aia e ama, que desde o berço a havia acompanhado, tinha inesperadamente falecido não havia muito tempo.

Afonso seu irmão, rapaz dissoluto e vadio, estragado pelas complacências paternas, dissipava as horas do dia em jogos, caçadas e divertimentos, e quase não parava em casa senão as horas de comer e dormir. Seu pai quase sempre atarefado com os negócios da governança, de poucos momentos dispunha para conversar com a filha. Era Fernando quem mais assíduo se mostrava junto dela, esforçando-se por disfarçar-lhe o enfado da monótona existência; para ela, porém, a mais horrível das solidões seria preferível à presença desse homem.

Não havendo ainda no lugar famílias de linhagem distinta, com as quais pudesse relacionar-se, rodeada por alguma escravas boçais, estúpidas e sem afeição, a pobre moça passava a mais triste e monótona existência tendo apenas por distração algum serviço, ou os seus próprios pensamentos.

Quantas vezes se lastimava ela por não lhe ter dado o céu uma irmãzinha mais moça, de cuja educação se encarregasse, e que preenchesse o triste e imenso vácuo, que sentia em torno de si! ...

Ermado assim e concentrado em si mesmo em tão enfadonha solidão aquele coração de dezoito anos, tão rico de viço virginal, tão ávido de emoções afetuosas, devia amar com todas as suas forças. Como planta solitária ouvindo ao largo e em derredor toda a seiva de um terreno ubérrimo e virgem, nele o amor devia medrar com pujança irresistível . Todos os seus afetos, não achando outra expansão, vinham concentrar-se em um único objeto; a imagem de Maurício o encha todo. O amor filial em Leonor cifrava-se na submissão, respeito e gratidão, que devia ao autor de seus dias. Diogo Mendes, se bem que idolatrasse a filha, sempre grave e reservado, não tinha para com ela -salvo em ocasiões críticas e extraordinárias, - esses meigos carinhos, essas expansões íntimas e afetuosas, que às vezes dão azo a ultrapassar um poucos as raias do respeito para dar lugar a sentimentos mais termos. Leonor, portanto, só na ultima extremidade ousaria abrir-lhe o coração. Assim era para o amor unicamente, que se volvia aquela alma solitária, era à sua luz, que se aquecia, como o girassol com a face sempre voltada para o rei das luzes.

Se não fosse Maurício, se não o soubesse ali presente e amando-a sempre cada vez com mais extremo e dedicação, se não fosse aquele amor, que lhe enchia a alma, tornar-se-lhe-ia insuportável aquela solidão, e teria morrido de tristeza, saudade e nostalgia.

Nestas conjunturas veio-lhe à idéia, que a jovem indígena poderia bem ate certo ponto suprir o vácuo, que em torno dela reinava, e encher-lhe mais agradavelmente o tempo, que tão enfadonho lhe corria. Desvelar-se-ia em educa-la para a sociedade; ensinar-lhe-ia a ler, a cozer, a rezar; a menina seria sua discípula, sua catecúmena, sua irmã mis moça. Isto ao mesmo tempo que seria para ela um honesto passatempo, que lhe ia tornar mais suportável a ociosa e solitária a existência, que levava, seria também uma obra meritória aos olhos de Deus e dos homens. Demais lembrava-se que assim tinha acontecido com Maurício e Antonio; esta analogia de destinos sorria-lhe à imaginação amorosa.

Maurício nas mesmas circunstâncias, desvelando-se pela educação de Antonio, fizera dele o mais dedicado dos amigos; ela esperava também achar em Judaíba uma companheira e amiga fiel, uma confidente de seu coração. Já ela pensava nos aprestos do batizado da índia, que esperava catequizar em pouco tempo, e de quem queria ser madrinha. Depois vinha-lhe naturalmente ao pensamento o casamento de Judaíba com Antonio, e por detrás dessas idéias no ultimo plano do painel sorria-lhe em longes vaporosos como uma esperança vaga, ou um sonho nebuloso o seu consórcio com Maurício. Mas de repente uma nuvem sinistra pairava sobre o risonho painel, em que tanto se comprazia, e o sepultava todo em merencória sombra.

Era a imagem de Fernando. Ah! Com esse homem não era possível mais para Leonor nem mesmo um sonho de felicidade futura!

Judaíba mostrava-se mui satisfeita com a sua nova sorte, e prestava-se com suma docilidade a tudo, que sua nova e gentil ama exigia dela.

Leonor por seu lado estava contentíssima com a sua catecúmena. Ambas contavam com certa a volta de Irabussu com os emboabas e, portanto, com o contentamento, paz e regozijo geral. A nova porém do desaparecimento deles veio por termo de um modo brusco e doloroso aquele suave idílio tão bem começado. Judaíba de mansa e meiga rola, que se ia tornando, transformou-se de repente em arisca e bravia corça. A princípio caiu amuada a um canto a chorar e soluçar, sem querer responder a nada, sem prestar ouvidos a ninguém. Depois levantou-se bruscamente, e rasgando as roupas, arrepelando os cabelos , arrancando os enfeites começou a correr desatinadamente por toda a casa dando gritos selváticos e uivos lamentosos e procurando escapar-se a todo transe fosse por onde fosse. Debalde Leonor arrojando-se diante dela procurava conte-la e apazigua-a; a indômita cabocla não lhe prestava a menor atenção, e com as narinas dilatadas, a boca espumante, os olhos em fogo arremessava-se às paredes como para arrombá-las e abrir caminho através delas. Leonor teve medo. Foi-lhe forçoso mandar agarrar a índia à força, para que não saísse a correr à-toa e não cometesse desatinos.

Passada aquela crise de furor, que durou uma boa hora, Judaíba, desalentada e arquejante de cansaço, caiu de novo em profunda prostação; desta vez porém não chorava nem soluçava mais; deitada de bruços sobre o pavimento com a cabeça oculta entre os braços assim ficou por largo tempo imóvel como um cadáver, até extenuada pela fadiga e violência das emoções ali mesmo adormeceu.

O selvagem é como a criança; suas alegrias e pezares são tão vivos e violentos, quão passageiros e fáceis de se dissipar. À força de sofrer e chorar, como de rir e brincar, acabam por adormecer. Na mais profunda angustia uma bagatela os distrai, assim como a menor contrariedade é capaz de mergulha-los em tristeza mortal, ou de mete-los em furor. Judaíba, que além de selvagem acabava apenas de sair da infância, tinha dupla razão para ser assim.

Leonor, que sentada ao pé dela a vigiava com toda a atenção e solicitude, deixou-a dormir.

Quando acordou, ameigou-a delicadamente, deu-lhe doces e vinho, e procurou conforta-la com palavras de esperança.

-Teu pai não morreu , não, Judaíba, -dizia-lhe Leonor desmaranhando-lhe os cabelos, que cobriam-lhe a face, e enxugando-lhes o sentido. Pouco a pouco foi se mostrando mais calma e consolada, até que por fim um ligeiro sorriso, se bem que ainda envolto em certa tristeza, como um raio de sol escoado entre nuvens, lhe despontou nos lábios. Tal é o atrativo e prestigio da beleza, quando serve invólucro a uma alma boa e piedosa!

Davam-se estas cenas na manhã do dia seguinte ao em que fora trazido a casa do capitão-mor o único emboaba, que escapara à desastrosa expedição à mina de Irabussu. Eram cerca de onze horas. Leonor encostada a uma janela da frente com Judaíba se ocupava em recompor-lhe os trajes e os cabelos, que a índia em seus acessos tinha posto em deplorável desalinho, quando ao olha casualmente para fora avistou dois vultos, que pela rua ou estrada, que passava em frente, se encaminhavam para sua casa. Eram dois garbosos mancebos, de barbas e cabelos negros, altos e bem lançados. Trajavam quese uniformemente, gibão negro apertado por um cinto de couro polido, botas altas de couro de mateiro, capa sobraçada e chapéu de feltro negro com largas abas arregaçadas por cordões. Dir-se-iam dois irmãos gêmeos; tão semelhante eram a certa distancia no porte e na figura. Em um deles Leonor logo reconheceu Maurício , o outro era Gil, patrão e protetor de Judaíba. Nenhuma delas pode conter um grito e um movimento de alegre sobressalto.

Leonor pressentiu, que algum negocio grave trazia os dois mancebos à cada de seu pai, da qual Maurício a algum tempo andava bastante arredio. Pungiu a irresistível curiosidade, deixou a indígena ao cuidado das escravas e antes que os moços entrassem, correu a postar-se em um compartimento contíguo à sala de recepção, onde se achava seu pai conferenciando a sós com Fernando. O desaparecimento de Irabussu e dos emboabas devia ser ainda por muito tempo o assunto quase exclusivo de todas as conversas.

- Não só não devemos largar mão dessa menina, -dizia Fernando, - como também devemos ter debaixo da mais severa vigilância esse Gil, esse paulista aventureiro, que tanto tem de audaz e turbulento, como manhoso e astuto.

- Lá isso não, Fernando, - retrucava o capitão-mor; - de astuto parece-me, que ele nada tem; antes peca por demasiada lisura e franqueza um tanto rude; não fosse ele tão atrevido...

-Fiai-vos nele ! ... sua lisura não me inspira confiança, como também não me assusta o seu atrevimento. O que lhe digo e que se cruzarmos os braços, ele de mãos dadas com o seu grande amigo Maurício, é capaz de subverter toda a população, e que é preciso ter sobre eles olho vivo e braço apercebido.

-Pois também Maurício entre em tuas suspeitas, Fernando ? ! ... um menino, que eu criei, que me deve tudo quanto é, e de cuja lealdade e dedicação tu mesmo tens sido testemunha ? ! é levar muito longe a desconfiança.

-Gabo-lhe o descanso e a credulidade, senhor meu tio, - replicou Fernando com malicioso sorriso, - e sinto bem não poder gozar da mesma tranqüilidade de espírito.

- Pelo que toca a Maurício pelo menos, juro-te; podes ficar tranqüilo. Quando esse nos trair, não sei mais em que nos poderemos fiar.

-Que cegueira ! - pensou Fernando. Prasa a Deus que não seja isso ilusão, - replicou em voz alta, - mas Maurício não vem agora ao caso; fique cada qual com sua opinião; o tempo se encarregará de deslindar tudo. Era a respeito de Gil, que conversávamos. Quem nos diz que o velho bugre lhe tenha revelado o lugar da mina, e que tudo que depuseram, não era mais que patranha para melhor nos iludirem ? ... também essa pequena índia bem pode saber de tudo, e não é prudente lhe darmos liberdade, em quanto este trama não se desenlear de todo. E mesmo dado o caso, que nem um nem outra saibam de cousa nenhuma, quem nos assegura, que Irabussu está realmente morto, ou que desapareceu para sempre? ... Não é mais provável que o matreiro gentio, que conhece o país até suas entranhas, se tenha ocultado e se faça passara por morto para melhor servir a seu patrão? ... Tudo isto é possível, e não serei eu que me deixarei burlar tão vergonhosamente por tão ruim ralé... para com eles toda a vigilância e rigor é pouco...

Neste ponto é interrompida a conversação por pessoas que se anunciam batendo palmas do lado da varanda Poucos instantes depois Maurício e Gil são introduzidos no salão. O capitão-mor os recebe com polidez, mas com certo ar de fria gravidade, que lhe não era habitual, mormente para com Maurício. Fernando esse ainda estava mais seco e enfarruscado que de costume. Ambos nesse dia estavam de muito mau humor, e bem quereriam não ver a cara de ninguém.

- Então, senhor Gil, como me explica isto ? - foram as primeiras palavras do capitão-mor depois de um ligeiro cumprimento. - O seu bugre em vez de nos mostrar a mina enfiou-se nas profundas dos infernos, e o pior é que para lá levou consigo os meus homens à exceção de um só, que aqui me chegou ontem com cara de quem viu o diabo em pessoa. Que me dizem a esta ? ... ainda estarão vossemecês, dispostos a darem-se por fiadores daquele velhaco ? ...

- A mim também, senhor capitão-mor, - respondeu Gil sem se perturbar, - a mim também muito maravilho semelhante sucesso, e não sei de todo a que possa atribuí-lo.

- Não sabe ! - exclamou Fernando não podendo conter o seu despeito e com certo ar insolente e provocador. - Não sabe ! ? - isso é que mais me maravilha ! ...

- Não sei, senhor Fernando; é o que em consciência lhe posso assegurar, - replicou Gil com firmeza.

- Oh! Pode ser, - retorquiu Fernando; - mas acredita vossemecê que o bugre se metesse com sua mina pelo inferno a dentro para nunca mais aparecer? Não acha vossemecê que o velhaco não fez mais do que empregar um ardil para furtar-se ao castigo, que merece ?

- Oh ! poder ser, - respondeu Gil usando de propósito da mesma exclamação de Fernando, - mas o que é certo é que eu de nada sei.

Com esta resposta incisiva e peremptória Fernando tornou-se lívido de raiva, e fazendo gestos e esgares terríveis estava prestes a irromper em uma explosão de cólera.

-Prudência, Fernando ! - disse-lhe em voz baixa o capitão-mor, que se sentava ao pé dele, puxando-lhe a aba do gibão. - Deixemo-los falarem.

Maurício, vendo azedar-se aquele diálogo, e receando algum desaguisado mais sério, julgou que devia intervir e procurar acalma-los.

- É verdade, senhor capitão-mor, - disse ele; - afianço que meu amigo Gil de nada sabe. O velho bugre iludiu-nos a nós todos; mas em todo caso, se ele não desapareceu para sempre, se algum dia for encontrado, como vossa mercês parecem desconfiar de Gil, aqui estou eu, que me obrigarei por minha vida e minha honra a fazer com que essa mina seja descoberta.

- Desculpe-nos, senhor Maurício, - interveio Fernando com o mais revoltante sarcasmo; agradecemos, mas dispensamos os seus bons serviços neste negócio. Não podemos aceitar segurança nenhuma da sua parte, pois não ignoramos que seus interesses são comuns.

- Isso é verdade, senhor; somos amigos, nossos interesses são comuns, não o nego. Mas julga vossa mercê, que para sustentarmos nosso interesses somos capazes de um ato desonroso, e de faltar à nossa palavra ?

- Não sei, e nem estou aqui para responder a perguntas ...

- Basta, senhores ! - interrompeu com império o capitão-mor no intuito de atalhar cenas desagradáveis. - Deixemos de parte esta conversação, cedo ou tarde esse negocio há de ser deslindar, e também creio que vossemecês não vieram aqui a isso.

Veio ainda a tempo esta intervenção. Os dois mancebos, tão desabridamente provocados por Fernando, julgando-se com justa razão ofendidos em seu pundonor, iam perdendo a paciência.

- Não foi precisamente para tratar disso, que aqui viemos, - respondeu Maurício respeitosamente, - mas foi para um negócio, que tem com isso muita relação. O meu amigo Gil vem rogar a vossa mercê lhe mande entregar a índia filha de Irabussu, que aqui se a há detida, visto que ele nenhum crime cometeu.

O capitão-mor abriu grandes olhos para Maurício com gesto de surpresa.

- Pois já te esqueceste, Maurício, - respondeu-lhe ele, - que essa menina aqui ficou em penhor da palavra de Irabussu ? ... e por ventura a cumpriu ele ? ...

- Não cumpriu, é certo; mas essa menina é uma pobre selvagem, uma criança, que de nada sabe, e nenhuma culpa tem do que aconteceu.

- Não duvido; por agora porem ela não pode sair de nosso poder ...

- Lá fora, tanto como aqui, ela nenhum mal pode fazer-vos, senhor capitão-mor; por tanto viemos rogar-lhe que tenha compaixão dela ...

-Por esse lado não tenhas receio; nenhum mal lhe fazemos em conservá-la aqui. Asseguro-te, Maurício, que não será maltratada.

Maurício olho para Fernando e disse:

- Por parte de vossa mercê estou certo...

- E por parte de todos, - replicou asperamente Fernando, que compreendera a reticência. - Fique vossemecê certo, e pode também asseverar ao seu bugre, que sua filha nunca será entregue a ele nem ao senhor, enquanto ele mesmo não vier se entregar. Fora disso havemos de fazer dela o que bem nos aprouver.

- Nós já dissemos, que não sabemos o que é feito de Irabussu, e que no caso que apareça, nós seremos os primeiros a obrigá0lo a cumprir sua palavra.

- Embora, meus amigos ! - disse Fernando com sorriso de insolente escárneo. - Também nós já lhes dissemos, que a palavra de vossemecês vale tanto como a do seu bugre. Esse mesmo empenho, que mostram pela liberdade da índia, dá lugar à suspeitas.

A estas palavras transbordou-se a Gil a taça da paciência e o rubor da indignação subiu as faces de Maurício. Todavia ainda este fez um esforço para conter seu amigo. Foi debalde.

- Senhor capitão-mor, - bradou Gil pálido de cólera e erguendo-se em toda sua altura, - nós aqui viemos para fazer a vossa mercê com todo o respeito um simples pedido, e não para ouvir desfeitas e maus tratos daquele senhor. Visto que não podemos ser atendidos, nós vamos já nos retirar, e pedimos ao senhor seu secretario, que quando quiser nos dirigir afrontas, escolha outro lugar.


Ouvindo estas palavras o capitão-mor não pode mais conter-se, e perdeu de todo a sua habitual gravidade e sangue frio.

- Que quer dizer isto, senhores? ! - bradou com voz atroadora erguendo-se ameaçador e roxo de cólera. - Doestos, ameaças, desafios aqui em minha presença! ? querem vossemecês que eu os force a respeitar a minha pessoa e a minha autoridade?

- Senhor Gil, - exclamou Fernando ansioso por levar aquela pendência a um desfecho trágico, - lem­bre-se que o tronco ali. está bem perto de nós!. . .

- Senhor Fernando, - retrucou Gil com altivez, - lembre-se também, que a minha faca aqui está mais

perto ainda!. . .I

- Insolente!... - bradou Fernando alçando o punhal, que arrancara do cinto.

- O’ lá, esbirros ! - gritou o capitão-mor' com toda a força de seus valentes pulmões dando um furioso murro sobre a mesa, que se achava ao pé dele. - Prendam este homem.

Já uma chusma de esbirros e famulos ia invadindo a sala, quando subitamente apareceu Leonor.

- Meu pai! meu pai! - vinha ela exclamando, o que é isto ? Nada, minha filha; que vens aqui fazer? - respondeu secamente o velho.

- Ah! meu pai! - replicou a moça sem se des­concertar com o tom ríspido do pai; - tudo isto por causa da Judaíba, de uma inocente selvagem, que a nin­guém ofendeu, ou por amor de uma sonhada mina de ouro, que ninguém viu que ninguém sabe onde está!. . . que lástima, meu Deus !... é por isso, que querem brigar?...

- Brigar não, senhora! - redargüiu Fernando, - não brigamos com tais aventureiros, mas não podemos tolerar que nos venham desrespeitar e ameaçar. . .

- Não são capazes disso, senhor Fernando ! replicou Leonor fitando em Fernando um altivo e desdenhoso olhar. - Vossa mercê é muito injusto para com eles; eu estava ouvindo tudo; se alguma coisa disseram, que lhe desagradou, foi em justa represália às provocações, que vossa mercê lhes dirigiu. Senhor Maurício, senhor Gil, declaro-lhes, que Judaíba de hoje em diante me per­tence. Fiquem tranqüilos sobre sua sorte; ninguém mais do que eu saberá protegê-la e tratar dela. Meu pai se vossemecê tem algum amor à sua filha, em nome dele eu lhe peço, deixe estes senhores retirarem-se em paz.

Falando assim Leonor deslumbrante de beleza tinha no porte e na fronte a majestade de uma raínha e a sere­nidade de um anjo.

Olhava em torno de si com ar tão calmo e senhoril, que a todos impunha admiração e respeito. Maravilha­dos de tanta audácia todos a contemplavam com espanto sem nada ousar responder-lhe.

O capitão-mor, posto que irritado ao último ponto, sentiu cair-lhe aos pés toda sua cólera, e no íntimo d’alma dava graças à filha, que viera como iris de bonança acalmar a tempestade, e impedi-lo de praticar atos de rigor, que além de repugnarem à sua índole não fariam senão agravar mais os males da melindrosa situação, em que se achava a população confiada a seu governo. Abaixou a cabeça, e depois de alguns momentos de reflexão, com voz grave e sentida.

- Podem retirar-se, - disse aos dois jovens paulistas.

Os dois mancebos inclinaram-se profundamente e saíram. Maurício, com um olhar e uma ligeira inclinação de cabeça­, deu a entender a Leonor quanto lhe ficava agradecido por sua benéfica intervenção.

Somente Fernando mordia-se de raiva pelo feliz e inesperado desenlace daquele incidente.

- Senhor capitão-mor, - dizia ele apenas se achou a sós com seu tio, - suas complacências hão de acabar por nos levar à perdição.

- Não duvido, Fernando; porém as tuas asperezas também não nos podem levar a melhor caminho.



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