Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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Capítulo XXV

Eldorado sem ouro

Na noite desse mesmo dia, em que uma borrasca serenou-se ao aceno de um anjo, Maurício, Gil e Antônio, reunidos em casa do primeiro, conversavam sobre os graves e estranhos acontecimentos daqueles últimos dias. Judaíba, Irabussu e sua prodigiosa mina eram pois ainda o objeto da conversação.

- Se quiserem, dizia Antônio, - hoje mesmo posso ir mostrar essa mina.

- Para que tão depressa? - replicou Maurício; - se nos virem sair juntos do povoado, isso pode excitar desconfianças. Bem sabes como andam por aí de pre­venção contra nós, graças às pérfidas insinuações de Fernando. Se não é o bom conceito, que o capitão-mor ainda faz de mim, e a nobre e corajosa conduta de sua adorável filha, em vez de nos acharmos aqui estaríamos agora na sala do tronco. Por ora não convém lá irmos; é prudente deixar isso para mais tarde.

- Mas não é preciso, que nos vejam; a lapa não é muito longe; podemos ir e voltar na mesma noite.

- Embora, Antônio; Irabussu ainda pode aparecer ao menos a Gil; ninguém sabe se ele é vivo ou morto, e melhor é esperar mais alguns dias.

- Isso lá não sei, meu amo; seja lá como for, o certo é que mais tarde ou mais cedo Antônio deve achar essa endiabrada mina, se não leva o diabo Judaíba ...

Achar? ! - exclamou Gil com surpresa; - pois não sabes onde é ela? ...

- A lapa sei eu muito bem onde é; mas mina de ouro ainda lá não vi. Sem dúvida deve ser lá por aquelas buracadas fundas e escuras, que não tem fim, e eu a dizer a verdade ainda não entrei muito lá por essas funduras.

Os dois mancebos conservaram-se por alguns instantes silenciosos e pensativos.

- Está me parecendo, Maurício, - disse Gil por fim, - que essa lapa é ainda uma formidável burla do velho bugre, ou que não é mais do que o sepulcro, onde levou a enterrar os desgraçados portugueses, que caíram na toleima de acompanhá-lo.

- Pensas justamente como eu; o que o bugre pretende é desorientar cada vez mais os emboabas, e se existe essa mina, que eles tanto cobiçam não é por certo lá nessa lapa.

- O que é que vossemecês estão dizendo, meus amos ? ! - murmurou Antônio com voz consternada - então ai de minha pobre Judaíba !...

- Sossega teu coração, Antônio, - disse-lhe Gil. – Judaíba nada sofrerá; já não te dissemos, que D. Leonor a tomou debaixo de sua proteção? Bem sabes quanto D. Leonor é boa, e quanto pode em casa do capitão-mor.

- Ah ! ... sim ! D. Leonor ! – acrescentou Maurício; - D. Leonor é um anjo de bondade, é uma santa; mas Fernando também pode muito, e Fernando é um algoz; por amor de um pouco de ouro seria capaz de matá-la ...

- Que diz, meu amo ? ! - bradou Antônio levantando-se de um pulo do chão, onde se achava acocorado, rangendo os dentes e apertando convulsivamente o cabo­ da faca, que trazia ao cinto. - Que diz ? !. .. ai dele, se tiver o atrevimento de tocar um só fio dos cabelos de Judaíba! ...

- E nós também, - replicou Gil - nós aqui esta­mos para ampara-la, liberta-Ia ou vinga-Ia, no caso que aquele infame tenha o arrojo. .. mas não pensemos nisso agora, o que devemos fazer é empregar todo o esforço e diligência para descobrir a mina; se não pudermos acha-la, que remédio teremos senão lançar mão de outros recursos ? . . .

- Ah ! meus amos, eu falo com o coração nas mãos; se não fosse Judaíba, minha vontade era que essa mina se sorvetesse nas profundas dos infernos. E por amor daquela coitadinha, que eu desejo acha-Ia. Em troco dela eu dava todo o ouro do mundo, se fosse meu.

- Havemos de lá ir, Antonio – replicou Maurício – mas por agora não convém; Irabussu e os outros emboabas ainda podem aparecer; esperemos por mais três ou quatro dias.

Bem a seu pesar o índio resignou-se a esperar; aqueles três ou quatro dias de cruel inquietação, que ia passar, iam ser para ele um longo e terivel pesadelo. Entretanto, esses dias passaram sem a menor novidade; de Irabussu e seus companheiros, apesar de continuar as pesquisas, não houve mais nem notícia.

Na noite do quarto dia, quando já todos recolhidos a suas casas entregavam-se nos braços de Morfeu, Maurício e Gil, guiados por Antonio, saíram a pé e misteriosamente do povoado e dirigiam-se à gruta de Irabussu. Iam bem armados e munidos de instrumentos e de archotes de resina para bem poderem esquadrinhar todos os recantos e sinuosidades da espelunca, onde chegaram no fim de duas horas de marcha difícil e penível. Entraram na caverna, e aí se demoraram largo tempo per­correndo-a e examinando por todos os escaninhos, em que lhes foi possível penetrar. Viram muita obra assombrosa da natureza, abóbadas, arcadas e colunatas de estalactites, átrios, aposentos, corredores e recessos profundos divididos entre si por enormes pilares de estalagmites. Pelo chão coberto de areia e folhiço nada viram, por mais que examinassem, senão fragmentos e detritos de pedra calcárea, de ouro porém nem um grão e nem se quer o mínimo indício de que ele por ali existisse.

Os dois jovens paulistas, que eram muito práticos e entendidos em matéria de mineração, desanimaram, e acabaram. de convencer-se, que Irabussu os havia burlado a todos.

Uma coisa porém depararam, que os encheu de horror, e diante da qual teriam recuado em fuga precipitada outros quaisquer, que não fossem os nossos três intrépidos e resolutos aventureiros. Esparsos pelo pa­vimento foram encontrando aos pedaços os cadáveres dos míseros emboabas, estrangulados e meio devorados pelas onças e outros animais bravios. O ar frio daquelas abóbadas úmidas e a natureza calcárea do terreno parece que os tinha preservado da podridão; o sangue ainda escorria dos membros dilacerados de alguns, como se houvessem expirado não a muito tempo, e toda a caverna exalava um forte cheiro de sangue e carniça fresca, como se ali acabasse de banquetear-se uma horda de antropófagos. Bem quereriam Gil e Maurício dar sepultura aos miserandos restos daquelas infelizes vítimas da cobiça; mas não lhes sobrava tempo nem mesmo para concluírem suas investigações; ainda ficavam por examinar muitos recessos e anfratuosidades quase inacessíveis, e onde só poderiam penetrar serpeando ou rastejando como as cobras e répteis. Desanimaram e pensando no lastimoso fim dos que os precederam na exploração daquela gruta fatal, deram-se pressa em sair dela, convencidos de que só depois de muitos dias de pesquisas e explorações pode­riam dar com a mina, caso tal mina ali existisse.

- Se Irabussu não aparecer mais entre os vivos, - dizia Gil, - resolvido a mostrar a mina, ninguém mais a descobrirá. Não há duvidar; o velho bugre embaçou­nos a todos, como já havia embaçado o Minhoto, o capitão-­mor e outros.

- Disso estou eu também convencido, - replicou Maurício; - não há por aqui nem a mais ligeira informação de ouro, e é evidente que Irabussu não trouxe aqui aqueles miseráveis senão para dar-lhes uma derradeira e tremenda lição, e esta foi de doer deveras.

- E o diabo é, meu amo, - disse Antônio, - que essa lição também nos vai doer bastante, pois ficamos sem mina, e eu sem a minha pobre Judaíba !. .. Nada! nada!. .. isto não pode ser; a mina deve estar por aí mesmo; hei de cá voltar e tanto hei de escarafunchar por essas buracadas, que hei de dar com ela, ainda que esteja lá nas profundas do inferno.

- É tempo perdido, Antônio, - falou Gil.- Só Irabussu e Tupá; não te lembras, que ele assim dizia?... e ele não o dizia em vão. Mas não te de isso cuidado, havemos de libertar a tua Judaíba, seja como for, e desgraçado de quem t’a quiser roubar ! Mas, meus amigos, - continuou Gil, dando à voz certa acentuação grave e solene, - se aqui nesta gruta não encontramos ouro, quem sabe se um dia nela encontraremos coisa mais preciosa ainda ! ... sim, quem sabe se talvez bem cedo precisaremos do asilo destas furnas para amparar-nos da sanha de nossos perseguidores ? ! Esta caverna, que serviu de túmulo a esses infelizes, poder ser para nós um refúgio sagrado, que o céu nos quis mostrar por intermédio do velho selvagem.

Irabussu enquanto vivo protegeu-me e sacrificou-se para minha prosperidade; se ele é morto, sua sombra, que deve habitar no seio deste covil medonho, aqui virá ainda para nos inspirar e alentar afim de podermos resistir a nossos opressores e proteger e amparar sua querida filha. Portanto, meus amigos, a ninguém revelemos a existência desta gruta; guardemos sobre ela o mais inviolável segredo.

Falando assim Gil parecia possuído de espírito pro­fético; seus companheiros, impressionados pelo tom so­lene e de sincera convicção, com que proferia aquelas palavras, o escutavam silenciosos e comovidos, como se ele estivesse lendo no livro do futuro.

- Sim, Gil; tem toda razão, - disse Maurício com voz grave e melancólica depois de um momento de silêncio e emoção. - O nosso futuro é de sombras, e Deus sabe se um dia somente nas cavernas poderemos achar abrigo para nos esquivar ao tronco e ao cadafal­so !. . . Guardaremos segredo, muito segredo, ouviste, Antonio ?. . .

- Eu serei mudo como estas pedras, - respondeu o índio.

Depois destes acontecimentos passaram-se longos dias uniformes e tranqüilos no povoado de S. João d’el-Rei. A população em geral parecia calma e satisfeita; os ódios e animosidades se iam pouco a pouco arrefecendo; os conflitos e pendências, que quotidianamente forneciam conflitos e pendências, que quotidianamente forneciam novos hóspedes à prisão e aos troncos do capitão-mor, iam-se tornando mais raros e os mineiros em vez de se reunirem em grupos para se queixarem, querelarem, mal­dizerem e desabafarem nos rancores, entregavam-se regularmente todos os dias a seus trabalhos ordinários. Tudo parecia entrar naturalmente e sem esforço em uma fase de paz, segurança e atividade, que prometia um futuro desassombrado e sereno.

Judaíba, posto não fosse restitui da a Gil, era bem tratada e estimada em casa do capitão-mor, onde Leonor a rodeava de cuidados e carinhos. Antônio, que ali tinha entrada franca e presenciava tudo, não podia também ter motivo de queixa nem de inquietação.

Gil, por força das circunstâncias e por sua extrema dedicação aos interesses de Maurício, via-se forçado a abafar seus ressentimentos e a dar por esquecidas as injúrias passadas.

Sentia porém que não poderia viver tranqüilo por muito tempo em S. João d’el Rei; sua aversão aos emboabas era profunda e inextinguível; a seus olhos aquela calmaria dos ânimos era aparente e superficial, era ape­nas um sintoma de cansaço, uma intermitência passageira, que seria seguida de novas e violentas agitações. Bem via, que não faltariam pretextos, nem ocasiões aos emboabas para entrarem de novo em conflito com os paulistas.

Nenhum outro motivo senão a amizade, que consagrava a Maurício, podia dali em diante reter Gil em S. João d’el Rei; mas Gil compreendia também que a sua residência ali, longe de ser proveitosa ao seu amigo, podia ao contrário lhe ser funesta, como por vezes a experiência o havia mostrado. Era portanto essa mesma amizade, que votava a seu patrício, que lhe impunha o dever de retirar-se

Graças a Irabussu possuía já ouro bastante para passar a vida ao abrigo de necessidades, ou para ir a outras paragens tentar novos meios de aumentar seus haveres.

Portanto, resolveu-se definitivamente a deixar S. João d’el Rei. Maurício não ousou opor-se a tão justificada resolução; bem lhe doía separar-se do amigo, que nas difíceis conjunturas, em que se achava, ia fazer-­lhe a mais sensível e irreparável falta; mas conhecendo a índole fogosa e insofrida de Gil, não queria vê-lo exposto a novos vexames e perseguições.

Em outras circunstâncias Maurício teria acompanhado a seu amigo; mas seu destino o detinha com mão de ferro junto de Leonor e do capitão-mor. Ele se julgava ali colocado por vontade do céu como a salvaguarda, o amparo da segurança e da honra de Leonor contra os insolentes e brutais atentados de Fernando. Os anteriores acontecimentos o confirmavam nesta crença, e ele nutria a esperança de um dia libertá-la para sempre de seu odioso amante.

Além dessa, outra esperança, posto que mais tímida vacilante, lhe sorria no porvir, era a posse de Leonor, e a certeza de ser por ela amado era o único alimento dessa suave mas débil esperança.

A primeira era uma missão a cumprir, missão que ele considerava como um dever imperioso que lhe fora imposto pelo céu.

A segunda era apenas um sonho d’alma, um anelo ardente, uma aspiração louca talvez; mas era ela, que com mais força o prendia fatalmente junto de Leonor. O capitão-mor aplaudia-se interiormente pelo restabelecimento da paz e da harmonia entre seus governados, atribuindo-as a seu espírito reto e moderado, e as essas facilidades e condescendências , contra as quais tanto se revoltava seu orgulhoso e atrabilário sobrinho. Entendeu, portanto, que era tempo de afrouxar um pouco o rigor das providencias que Fernando lhe fizera tomar contra os paulistas, no intuito de manter a ordem e a segurança na povoação. O direito de se reunirem e outras mais liberdades lhes foram restituídas.

Fernando não quis se opor a esta medida; a ordem e a tranqüilidade não convinham a seus planos, e ele ao invés de seu tio, entendia que a subordinação e sossego, que a certo tempo reinava na povoação, eram devi­dos aos meios fortes e repressivos, que havia aconselhado.

- Melhor ! - pensava ele consigo; - terão mais azo para porem as maguinhas de fora, e tornarem-se cada vez mais insolentes e insubordinados.

De feito o gênio da discórdia ainda não tinha apagado de todo o seu archote, e Fernando lá estava para avivar-lhe a chama preparando sutil e sorrateiramente novos elementos de desordens e conflagração.


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