Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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A INSURREIÇÃO

Capítulo I

Estréias de um jovem fidalgo

Mais de um mês de inalterável tranqüilidade passou-se no povoado de S. João Del Rei.

Tão diuturna tranqüilidade a todos agradava menos a Fernando, que via com desgosto fugirem-lhe todas as ocasiões de perseguir Maurício. Infelizmente para fazer o mal elas não se fazem esperar por muito tempo.

Fernando e Afonso ocupavam o mesmo aposento na casa do capitão-mor, o que lhes dava aso de poderem palestrar a vontade nas horas vagas da noite ou do dia, e fazerem-se mutuas confidencias. Fernando tomara a seu cargo acabar de perverter a lama do jovem primo já bastante estragada pelos mimos e condescendências paternas, e ia conseguindo maravilhosamente o seu fim.

- Onde estiveste ontem à noite até tão tarde, que nem vi quando chegaste ? – perguntou Fernando a seu primo um manha ao acordar.

- Oh! Se soubesses, ficarias com inveja, Fernando, - respondeu Afonso acordando e espreguiçando-se voluntuosamente.

- Por que ?

- Porque estive em casa de uma menina bonita ... oh! Fernando ... bonita como os amores!...

- Oh! Deveras ! sim ! ... pois isso por aqui é fruta bem rara. Quem é ? ... como se chama ? ... onde mora?...

- Oh! Que gana de saber tudo a um tempo !... pois não te conto nada.

- Forte criança !... receias acaso, que te eu vá tirar do lance ?... bem sabes, que a minha posição, e ainda mais o amor que consagro à tua irmã, me não permitem meter-me em empresas de certa ordem... anda lá; conta-me quem é a rapariga. Em vez de te estorvar, talvez te possa ajudar em tua empresa.

- Prometes não contar nada a meu pai ? ...

- Ora essa é boa !... – retorquiu Fernando rindo-se e, levantando-se da cama, foi sentar-se à do primo que ainda estava entre os lençóis, e disse-lhe afagando-lhe a cabeça.

- Toma juízo, rapaz... que interesse posso eu ter em levar tais ninharias aos ouvidos de teu pai ? ... Temos coisas mais serias em que pensar. Deixa-te de tantas precauções, e sobretudo tem confiança em mim, e conta-me que é a rapariga.

Afonso em razão de sua pouca idade, pois contava apenas vinte anos incompletos, tinha ainda certo recato e timidez, e em razão de sua índole, que não era má, respeitava ainda ao pai seu tanto ou quanto. Foi portanto com algum acanhamento e receio, que revelou ao primo a existência dessa moça, por quem começava a tomar-se de amores.

- Chama-se Helena, disse.

- E onde mora ? ...

- Nas abas daquela serra, - respondeu o moço indicando com a mão o rumo da serra do Lenheiro, que ainda não tinha nome; - a casinha, onde mora, esta situada perto de uma fonte, e o lugarzinho é muito bonito. Quando a vi a primeira vez, estava lavando roupa. O pai dela é um ferreiro; de certo o conheces, Fernando... o mestre Bueno ? ...

- Oh! muito!... então a menina é filha de mestre Bueno !. .. um paulista velho e casmurro como trinta diabos!. .. conheço-o muito, e já ouvi falar nessa rapariga; dizem que é muito bonitinha a filha do tal bronte...; deve ter muitos amantes...

- Muitos, Fernando; e é isso que me amofina.

- Em pouca água te afogas; pois que tem isso? ... é muito natural; aqui não há mulheres; é "populus virorum... res unius etatis", como diz o teu Floro falando dos fundadores de Roma. Quero dizer que nesta terra quase tudo é homem, e rapaziada nova e bem disposta, e portanto uma menina bonita por aqui é osso, a que se atiram mais de trinta cães... uma cáfila de perros, que só com um grito podemos enxotar... Mas vamos ao caso; quais são esses amantes ?

- Eu sei lá... um magote de farroupilhas, que não conheço, e que andam sempre a rondar por perto da casa de mestre Bueno, como zangões em volta da colméia... Um deles bem conheço, eu ... um rapazote, que não sai de lá, e dizem que até mora com eles, por nome, Calixto...

- Ah ! ... conheço... e mais quem ? ...

- O Gil...

- O Gil também ? ! ... – exclamou Fernando erguendo-se com alegre surpresa. – Bom !... não está mal escoltada a pequena...

- O minhoto...

- Também 1 ?... coitado ! ... aquele pobre diabo mete-se em quanta alhada há por esse mundo. Há de ser bem feito que os paulistas lhe arranquem o couro, que de cabelos não lhe acharão um fio. Mas vamos adiante, Afonso, quem mais ?

- Os mais não conheço...

- Pode ser; mas nunca o vi por lá. Passo muitas vezes a cavalo pela casa de mestre Bueno; quase sempre vejo Helena ou na fonte, que fica mesmo pertinho da casa, ou na varanda cosendo; mas nunca me atrevi a apear-me, porque meu pai não gosta que me meta no meio de semelhante gentalha. Mas ontem perdi a pa­ciência, e deitei para longe os escrúpulos... arre lá ! pois a gente há de viver aqui, como quem está no seminário dos Jesuítas em S. Paulo!. .. aqui não há saraus, nem teatros, nem cursos como lá; não se vê senão poviléu e gentalha; com quem a gente há de divertir-se senão com as rapariguinhas do povo ? ...

- Tens razão.

- Apeei-me a pretexto de descansar e beber um pouco d’água, e lá fui deixando-me ficar até horas mortas... A companhia estava muito divertida. A Helena canta...

- Ah!... e que pretendes fazer, meu rapaz?...

- Não sei, primo; tenho medo de me envolver com essa canalha.

- Se não tens animo de suplantar essa corja de maltrapilhos, o que vais fazer lá ? ...

- Tenho medo de desgostar a meu pai.

- Forte poltrão!... não pareces filho do capitão-mor Diogo Mendes. Maior desgosto teria ele, se soubesse és tão pusilânime.

- Que estás dizendo, Fernando ? eu pusilânime ?

- Sim, pusilânime, por que tens medo de uma meia dúzia de ciganos. Pois bem ! fica em casa comento biscoitos e deixa-me lá ir, que eu saberei haver-me com eles; irei requestar a menina, e depois de enxotar todo esse bando de rufiaes, tu poderás possuir a tua Helena, eu te afianço; mas há de ser em segunda mão.

- Bravo ! ...assim é que te quero ver; - replicou Fernando sorrindo. - Nada receies da minha parte; eu estou gracejando. Tudo isto por aqui é nosso; podes ir, andar por meio deles, entrar-Ihes pela casa dentro; mas não te humilhes, nem te acovardes diante desses perros, porque... ai daquele, que faltar o respeito ao filho do capitão-mor Diogo Mendes!...

- Ao vil, que me desrespeitar, - retrucou vivamente o mancebo, - eu, sem socorro de mais ninguém, saberei dar a competente resposta.

- Falando assim Afonso espumava, ,trincava os dentes e crispava os punhos, como se já estivesse sendo vítima de algum insulto. Saltou da cama, vestiu-se e penteou­:se à pressa.

- Apenas acabarmos de almoçar, - disse a seu primo, - monto a cavalo e lá estou em casa do ferreiro. Já agora hei de levar a cabo esta aventura, de no que der.

- Fernando exultou vendo a disposição do rapaz.

Temo-la travada – pensou ele. – este amor do menino há de produzir seus frutos. E o verdadeiro pomo da discórdia... Uma Helena pôs a Grécia em conflagração. Outra Helena vai dar aqui o mesmo resultado. O ponto é eu saber aproveitar-me das circunstancias. E uma ratoeira, em que tenho de apanhar todos esses insolentes paulistas, sem excetuar ao seu alnado chege Maurício... oh ! que sim !... como as outras mariposas ele há de procurar o fogo, em há de arder.

De feito, Afonso, terminando o almoço, montou a cavalo e dirigiu-se sozinho para a serra do Lenheiro.

Apesar do estimulante, que Fernando lhe aplicara, e que produziu o passageiro arreganho, que acabamos de ver, Afonso talvez em razão de sua pouca idade, a medida que se ia aproximando da casa de mestre Bueno, sentia-se cada vez mais indeciso e acovardado, e retardava de mais em mais o passo de seu cavalo. Já estudando pelo caminho um pretexto plausível, com o qual pudesse, sem despertar suspeitas, apresentar-se em casa do velho ferreiro, em presença do qual a seu despeito, não podia deixar de sentir certo respeito e acanhamento. Caçar por esses lados era absurdo; o caminho, que trepava por aquela escabrosa encosta, muito mal dava trânsito a cavaleiros até a casa do ferreiro. Só lá iam os que tinham relações de amizade com mestre Bueno, ou alguma obra em sua oficina. O que iria Afonso lá fazer, que não denunciasse o intento de ver Helena? O jovem fidalgo já tinha esgotado os recursos de sua imaginação. A primeira vez de feito lá fora parar transviado, ou passeando a esmo afim de conhecer os arredores da po­voação. A segunda vez lá fora de propósito para beber água da fonte, que achara mui fresca e saborosa, mas não para ver Helena. A terceira fora arrebatado pelo cavalo, que tomando o freio entre dentes lá o havia levado mau grado seu; também o cavalo parecia ter gostado muito da água da tal fonte. A quarta vez tinha ido para apreciar a bonita perspectiva, que dali se gozava, e ao mesmo tempo beber ainda um pouco daquela deli­ciosa água. Agora, pela quinta vez, o que iria ele lá fazer ? ...

Preocupado com este gravíssimo problema ia ele andando vagarosamente, e largando as rédeas sore o pescoço do animal deixava-o ir a sua vontade.

- Oh! Bem achado ! – exclamou por fim batendo na testa – vou ajustar com o ferreiro o concerto e fabrico de ferramentas para meu pai. Que excelente pretexto !... não sei como a mais tempo não havia atinado com ele!

E tomando as rédeas e esporeando o cavalo pôs-se a trotar resolutamente pelos estreitos trilhos, que galgando a encosta conduziam à casa do ferreiro.

A casinha de mestre Bueno era na verdade, como dissera Afonso, situada em um mui aprazível e pitoresco recanto. Estava assentada em uma pequena esplanada natural, que ficava a meia altura da montanha à maneira de um terraço ou belvedere, donde se gozava a vista de toda a povoação e de extensos horizontes. A fonte, que jorrava a um lado a alguns passos de distância, e que caindo dos topes vizinhos em argentadas e brilhantes espadanas vinha espreguiçar-se em límpido tanque alcatifado de variegado e cintilante cascalho, dava alegria, vida e fresquidão à interessante choupana. Consistia esta pela frente em uma varanda aberta entre dois pequenos quartos, um destes era a tenda, onde o ferreiro tinha a sua forja; comunicava com a varanda por uma porta quase tão larga como ela, e tinha na frente uma janela, que tinha mais de largura que de altura. Para o interior havia mais alguns cubículos, onde, à exceção dos donos da casa, ninguém mais penetrava.

A varanda servia de sala de visita, onde mestre Bueno se entretinha com seus fregueses e amigos.

Habitavam este casebre mestre Bueno, sua filha e Calixto. Não nos ocuparemos do primeiro, que já é nosso conhecido antigo.

Calixto, que também o leitor já viu no dia da grande caçada do capitão-mor, era um jovem paulista, afilhado e protegido de mestre Bueno, belo rapazinho, cheio de vigor e atividade, que muito ajudava a seu velho protetor nas rudes lidas de seu ofício.

Tendo ficado órfão de pai e mãe em mui tenra idade, o bom velho havia tomado a seu cuidado a criação do menino desvalido, e a par de uma boa educação moral, - Única que lhe podia dar, - ensinou-lhe o ofício de ferreiro, e o levou consigo para S. João d 'El Rei juntamente com Helena, único resto de sua família. Ca­lixto habitava o quarto fronteiro à tenda e contíguo à ­varanda.

Helena era uma linda menina, de quinze a dezesseis anos, de porte mediano, e do mais gentil e gracioso tipo caboclo. O rosto redondo era da mais mimosa cor de jambo; as feições regulares e delicadas; a boquinha semp­re risonha era uma rubicunda e fresca rosa entreabrindo-se aos primeiros fulgores da aurora; o colo perfeitamente modelado meneava-se flexível como o da meiga rola sobre o curvo e voluptuoso seio; os olhos não muito grandes eram, vivos, travessos e de uma extraordinária cintilação. Os cabelos negros e corredios seriam muito compridos, se ela não tivesse o costume de apará-los ao rês dos ombros afim de a não estorvarem na incessante lida de seus fragueiros trabalhos; mas ela os encaracolava nas pontas com os próprios dedos, e eles lhe desciam em graciosas espirais como serpentes negras a beijar-lhe as espáduas. Helena era a lavandeira, a costureira e a cozinheira da casa, e também acompanhava seu pai ao mato, quando este ia preparar o carvão necessário à sua forja, e de lá voltava trazendo um bem pesado feixe de lenha sobre a danosa cabecinha.

O leitor já deve estar adivinhando que Calixto e Helena, criados juntos desde a infância naquela vida retirada, inocente e laboriosa, deviam se amar inevitavelmente com aquele amor puro, ingênuo e cheio de confiança, que se insinua no coração quase sem ser sentido, e que se torna por fim ardente, profunda e inextinguível paixão.

Quando Afonso chegou à casa do ferreiro, estava ele na tenda com seu afilhado ocupados em forjar uma grossa alavanca. Calixto tocava o fole, enquanto Bueno, com os músculos e os braços arregaçados, amparado com um comprido avental de couro, que lhe descia do pescoço até abaixo dos joelhos, com a tisnada catadura alagada em suor, empunhava a tenaz caldeando uma pesada barra de ferro em brasa. Helena cosia na varanda.

Afonso apeou-se e, dirigindo-se para a janela, debruçou-se sobre ela.

- Bom dia, mestre Bueno, - disse cumprimentando.

- Oh! bom dia, meu moço... então anda pas­seando !. .. como vai o papai ?. .. respondeu indiferente o ferreiro sem olhar para o moço e sem distrair-se um instante do seu trabalho.

- Meu pai vai bem, mestre; e é por mandado dele, que venho procura-lo.

Pois aqui estamos às ordens, - e dizendo isto o velho bronte agarrou com a mão direita em um pesado malho e com a esquerda empunhando fortemente a tenaz arrancou do fogão a pesada barra de ferro e com rápido movimento a levou à bigorna. No mesmo instante Ca­lixto, largando o fole, empunha outro martelo e começam ambos o tan-tan-tan infernal das tendas de ferreiro.

- Arreda, moço!... Não vá se queimar, - bra­dara Bueno antes de começar a malhar. Mas Afonso, que talvez nunca tinha visto funcionar uma forja, não compreendeu a necessidade de subtrair-se incontinente ao turbilhão de fagulhas ardestes, que ao choque dos martelos saltavam da bigorna como de uma cratera em erupção, e se expandiam em derredor como um repuxo de fogo.

Afonso deu um grito e saltou para longe da janela. Uma chuva de chispas abraseadas tinha-lhe chamuscado as mãos e o rosto.

- Eu bem o avisei, meu moço, - gritou o ferreiro, - mas vossa mercê pateteou, a culpa não é minha.

Falando assim o velho levava outra vez o ferro à for­nalha e com a chegadeira o cobria bem de brasas, enquanto Helena acompanhava os gemidos de dor do mancebo com uma alegre, interminável e sonorosa gargalhada, a que servia de baixo marcante o ronco do fole, que recomeçava a funcionar com redobrado furor.

- De que estás aí a rir-te, menina? - ralhou o velho lá da tenda sem deixar o serviço. - Pensas então, que isso não dói, e que a mão de um fidalguinho é como a nossa toda encoscorada e chamuscada de fogo?.. cuida antes em ver aí um bocado de azeite para untar na mão desse moço.

Helena calou-se, correu ao interior da casa, e daí a pouco voltou com uma chícara contendo um pouco de azeite doce e uma pena, e dirigiu-se a Afonso afim de aplicar-lhe o linimento receitado por seu pai. Tudo isto fez de modo mui cortês e atencioso, porém com tal cara de riso sufocado, que o mancebo corrido e desatinado nada quis aceitar, asseverando que nada sofria, - e de fato a cousa era muito insignificante, - e quase sem se despedir montou a cavalo e retirou-se muito enver­gonhado e com muita raiva... de quem?.. de si mesmo, por certo, pois que ninguém o havia ofendido.

Ninguém ? ! ... que digo eu? ... a risada de Helena o havia ofendido mil vezes mais que as fagulhas ardentes, que lhe haviam salpicado as mãos. E este um fenômeno moral, de que é excusado dar explicação aos leitores, e creio que nem mesmo as leitoras. Um namorado quereria antes receber uma rija bofetada das delicadas mãos de sua amante, do que ser vitima de uma gargalhada de seus lábios alegres e rubicundos. Os lábios de uma moça amada são como as pétalas de uma flor, que contem em seu calix o veneno, que nos mata, e o perfume, que nos embriaga. O sorriso é o perfume; a risada é o veneno.
Capitulo II

Um Paris mal sucedido com a sua Helena


No dia seguinte àquele, em que Afonso passou pelo cruel desapontamento, que acabamos de narrar, a uma formosa tarde sucedeu uma das mais magníficas noites tropicais. - Um luar esplêndido argentava de luz maviosa o recente povoado e todos os seus pitorescos arredores. O Rio das Mortes apresentava aqui e ali entre os balsedos da vargem o veio cintilante como escamas de prata de serpente gigantesca a esgueirar-se silenciosa por entre os matagais.

A serra de S. José desenhava no fundo límpido e claro do firmamento o erguido espinhaço semelhante ao dorso de um javardo colossal, esbatendo nos flancos ondulados a luz pálida e serena da silenciosa rainha das noites.

A população satisfeita e um pouco tranqüilizada com o sossego, que gozava a cerca de um sem, paulistas e emboabas, espaireciam-se descuidados aos brandos raios da lua, misterioso e benéfico planeta, que adormenta as paixões violentas, que derrama eflúvios de paz sobre a face da natureza, e côa nos corações o bálsamo de meigas e suaves emoções. Uns passeavam, outros sentados tranqüilamente ao poial de suas toscas vivendas se entretinham em alegres e mansas conversações; outros aos sons da guitarra entoavam maviosas cantigas, em que suspiravam saudades da pátria distante, ou amores ausentes.

Era da serra do Lenheiro e da casa de mestre Bueno, que melhor se apreciava essa soberba perspectiva, e é para lá, que levaremos o leitor.

Desde o pôr do sol, Calixto e Helena achavam-se sentados junto à fonte sobre uma larga lagem, que lhes servia de sofá tendo por espaldar um rochedo musgoso, que se elevava alcantilado por detrás deles, e vendo a sem pés estenderem-se por longes sem fim o povoado, os vales e as montanhas, rios e florestas. O sol acabava de armar-se à sua direita entre nuvens de púrpura ar­dente, e à esquerda a lua erguia-se serena como fada amiga com seu condão misterioso derramando silêncio e plácida bonança pela face da criação. Calixto ao depor o malho, fatigado, arquejante e coberto de suor, viera à fonte tomar o fresco, matar a sede, e descansar um pouco ao suave bafejo das virações da tarde. Ali encontrou Helena, que tendo estado a lavar roupa também se sentara a descansar e a cismar contemplando o maravilhoso painel, que se desenrolava ante seus olhos. A fonte era pertinho da casa, e Bueno sentado a porta da varanda os via muito bem; mas podiam falarem- se a meia voz sem serem ouvidos. Entretanto conservavam-se mudos; amavam-se muito, já o sabiam, e nada mais tinham quer dizer-se, porém muito que sentir e gozar. Como que absorvidos em êxtase de puro e santo amor em presença de tão grandioso e solene espetáculo, com as mãos enlaçadas, ouvindo o palpitar de seus corações e trocando olhares, que diziam tanta coisa, estavam ali com dois esposos, cuja união era abençoada pelo Eterno, tendo por templo o universo e por lâmpadas o sol e a lua suspensos nas extremidades do horizonte. No enlevo, em que se achavam embebidos, apenas de quando em quando murmuravam uma exclamação de felicidade, um suspiro de amor, que se confundia com o soluçar da fonte vizinha marulhando entre os rochedos.

Caíra a noite, e alguns amigos e fregueses, aproveitando o belo luar, vinham trepando a encosta em de manda da casa de mestre Bueno. Muitos também aí vinham atraídos pelos lindos olhos de Helena. O próprio Gil a princípio também se deixara enlevar pelos encantos da gentil filha do ferreiro; mas notando depois, que ela e Calixto se amavam extremosamente e que seria uma indignidade de sua parte tentar perturbar uma tão santa e bela união, tratou de acabar logo sua nascente paixão, e se continuava a freqüentar a casa do ferreiro, era simplesmente por estima e amizade, que consagrava tanto ao velho como a seu afilhado. Afonso portanto se havia enganado com as aparências, quando o indicara a Fer­nando como um dos amantes de Helena.

Outro tanto não acontecia ao Minhoto, que sentia pela gentil rapariga a mais louca e devorante paixão, e que, a despeito de sua abjeta e repelente figura, fazia-lhe a corte e nutria esperanças de conquistar-lhe o coração. Tinha-lhe ela asco e aversão, que não podia dissimular, mas o seu estúpido adorador tinha demasiada confiança. no poder do ouro e não desanimava.

Além destes, Helena contava mais uma boa meia dúzia de apaixonados, paulistas e portugueses, que alimentavam mais ou menos esperanças de agradar-lhe, conforme o maior ou menor grau de juízo e discernimento, de que eram dotados. Bueno bem compreendia a razão daquele excesso de assiduidade de certa rapaziada em sua casa, mas posto que sempre zeloso e vigilante fazia-se de desentendido, e sorria-se à sorrelfa à custa dos pobres pretendentes esperando desapontá-los todos solenemente em poucos dias anunciando o próximo casamento de Helena e Calixto.

Estes, embebidos em seu mudo entretenimento, quase não davam fé do grupo de adventícios, que subindo a encosta se iam juntando em casa do ferreiro. Mas enfim o tropear de um ginete, que se avizinhava resfolegando, lhes atraiu a atenção. Cacalgava-o um gentil e airoso mancebo, que a certa distância apeou-se e dirigiu-se ao . grupo, que se achava em frente à casa.

- É ele !... é o filho do capitão-mor, - resmungou Calixto. - Não sei qual a razão porque esse fidal­gote de certos dias para cá deu em freqüentar tanto a nossa casa.

- É rico, não tem que fazer, - replicou Helena; - anda a passear e divertir-se.

- divertir-se ! ... não é só isso, Helena. Esse moço não vem aqui só por mero passeio... quer me parecer, que ele gosta muito de ti.

- E que goste, que te importa isso ? ... não sabes que sou toda tua ? ...

- Bem o sei, minha Helena; não é por tua parte, que eu temo. Mas estes fidalgos são insolentes e atrevidos... Ah ? se ele uma dia lembrar-se de te faltar o respeito...

- Não tenhas susto; eu não lhe darei ocasião...

- Queira Deus ! queira Deus !... mas, Helena, vamos a nos recolher a nos recolher; este sereno poder fazer-te mal.

Helena compreendeu que não deviam ficar por mais tempo a sós retirados do resto da companhia, que se achava reunida em frente da casa, e ambos se recolheram. Como o luar estava mui claro, Bueno não havia acendido luz nem fogo, e seus hóspedes, uns debruçados no parapeito, outros do lado de fora, conversavam e chalaceavam alegremente sobre diversos assuntos.

Helena e Calixto recolheram-se e foram sentar-se a um canto da varanda, onde silenciosos e e escondidos na sombra escutavam distraidamente a conversação dos circunstantes.

- Então o senhor seu pai já tem notícia da boa têmpera de meus ferros, - dizia mestre Bueno a Afonso, a quem fizera recolher-se à varanda; - pois saiba vossa mercê, que não lhe falaram mentira, e se quer ver com seus próprios olhos, eu tenho aí pronta muita ferramenta de roça e de mineração ... mas está isto aqui tão escuro ... aí nesse canto deve haver um banco; sente-se e tenha paciência de esperar um bocadito, enquanto vou lá dentro acender luz.

Bueno entrou para o interior, e Afonso às apalpa­delas achou o banco, que era o mesmo em que Helena se achava na outra extremidade, quase escondida na escura penumbra, a que de propósito se havia retirado. O jovem fidalgo reconhecendo-a sentiu extraordinário alvo­roço de coração. Quis falar-lhe, mas sentiu-se tão aca­nhado, que não sabia o que dizer-lhe. Entretanto Via que a sua boa estrela vinha como que de propósito de­parar-lhe aquela ocasião a mais asada possível; achavam-se ali quase desapercebidos em um canto da varanda, enquanto os circunstantes, sem darem fé deles, riam, chasqueavam, palravam em altas vozes. Ninguém os via, ninguém olhava para eles, à exceção do Minhoto, cujos olhos velhacos e ardentes os fitavam através das sombras. Essas sombras deram ao moço certa resolução e ousadia, de que seria. incapaz em plena luz. Achegou-se um pouco para o lado de Helena, e pondo-lhe brandamente uma das mãos sobre o braço:

- Por ventura, - perguntou-lhe em voz abafada, - não é a linda Helena, que aqui estou vendo perto de mim ? ...

- Uma sua criada, - respondeu Helena perturbada e inquieta querendo levantar-se.

- Oh ! onde vai? ... espere. Não pretendo fazer-lhe mal algum; só quero aproveitar a ocasião para dizer-lhe... que ... que... morro de amores pela senhora.

- obrigada, meu senhor; mas eu...não devo lhe ouvir mais.

- Por que não ? – replicou o moço detendo-a bran­damente pelo braço. Sente-se aí; não seja cruel assim. Ande lá; deixe-me ao menos dar-lhe um beijo aqui às escondidas.

Dizendo isto Afonso se abalançava a enlaçar um braço ao colo de Helena, que em vão lhe resistia, e ia chegar-lhe os lábios à face, quando um punho de ferro, interpondo-se subitamente entre os rostos de ambos, com um forte murro na mandíbula fez rolar no chão o mancebo com a boca ensangüentada.

- Toma! toma lá o beijo, fidalgote de uma figa! ... bradou ao mesmo tempo uma voz máscula e vibrante.

Era Calixto, que ali se achava pertinho de Helena. sentado sobre uma ruma de ferramentas quebradas, que ali estavam para concertar-se mesmo no ângulo da va­randa. No escuro recanto, em que se havia acocorado, era impossível que Afonso o avistasse. Este levantou-se furioso, e arrancando a espada, - naquele tempo nenhum fidalgo deixava de trazer espada à cinta, - arrojou-se às cegas" para o ângulo, donde partira a mão, que tão cruelmente o ofendera. A espada cravou-se na parede, a ao mesmo tempo dois musculosos braços o agarraram por detrás.

- Prendam, prendam este insolente! - gritava Afonso debatendo-se e forcejando por desvencilhar-se dos braços de Calixto.

A este grito Bueno e sus hospedes imediatamente acudiram e rodearam os dois contendores. Foi um tumulto e vozeria infernal. Os emboabas, e a frente deles o Minhoto, queriam a todo transe levar Calixto preso à presença do capitão-mor.

- Que atrevimento ! – gritavam eles – desfeitear por esta forma o filho de nosso capitão-mor !! Hás de ir ao tronco; desta vez não escapas, meu mequetrefe!

- Se o levarem preso – bradavam por sua parte os paulistas- nos também iremos presos com ele. Quem o mandou desrespeitar a filha do nosso amigo ?! retire-se para a casa e deixe-nos em paz.

Entretanto ambos os partidos procuravam apartar a briga e conter Afonso, que perdido de todo o siso com os olhos fervendo em lágrimas de raiva botava-se a Ca­lixto como um possesso.

- Calem-se, meus senhores; - bradou Gil com voz atroadora – o ofendido aqui é somente o senhor Afonso, assim como foi ele, quem deu causa a todo este barulho. Ele que vá para a casa, e se quiser queixe-se a seu pai, que é quem poder dar ordens.

- Alto lá, senhor! - retorquiu Afonso, sentindo despertarem-se lhe, na alma sentimentos cavalheirosos. - Este negócio deve-se decidir somente entre nós dois. Meu pai nada tem que ver com isto. O insolente, que traiçoeiramente me ofendeu, há de algum dia encontrar-­se comigo, e hei de vingar-me como de um cão, que é. E também quero que nenhum de vossemecês que aqui estão presentes, ponham a mão nesse biltre, que me ofendeu, e nem tão pouco, que digam a meu pai a mínima palavra a respeito do que acaba de suceder. Ouviram ? . . .

Os portugueses nada retorquiram a tão imperiosa imposição; na pessoa de Afonso respeitavam o capitão-mor. Os paulistas também aplaudiram as palavras do jovem fidalgo.

- Este sempre mostra ser filho dos campos de Piratininga ! - diziam eles.

Afonso sem mais proferir uma palavra apressou-se em montar a cavalo e retirou-se precipitadamente.




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