Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



Baixar 1.07 Mb.
Página26/47
Encontro29.07.2016
Tamanho1.07 Mb.
1   ...   22   23   24   25   26   27   28   29   ...   47

Capítulo III

Processo sumaríssimo a meia-noite


Enquanto isto sucedia em casa do ferreiro, o capitão-mor, Leonor e Fernando achavam-se na varanda do grande pátio gozando tranqüilamente o frescor e beleza daquela esplêndida noite de luar.

Também Judaíba, a gentil carijó, ali se achava acocorada aos pés de sua jovem ama, a quem de dia em dia mais se afeiçoava, e com os olhos fitos nela já não parecia mais a ariranha selvática e arisca, mas sim a veadinha mansa, que segue todos os passos de sua dona, e lambe as mãos, que a afagam e alimentam.

- Falta-nos aqui Afonso; que é feito dele ? perguntou o capitão-mor.

- À tardinha saiu a cavalo - respondeu Fernando - como o luar está bonito, anda a passear. .

- Tenho notado, que de certos dias a esta parte o rapaz tem dado em muito passeador; não me deixa os cavalos sossegarem na estribaria. Queira Deus não ande metido em cavalarias altas ! ...

- Não tenha receio, meu tio. Afonso é muito cordato e até mesmo tímido. Não tenho medo, de que se meta em aventuras arriscadas.

- Não duvido; mas em uma povoação como esta cheia de aventureiros audazes e turbulentos, um moço de sua idade e de sua qualidade a estas horas deve-se achar em casa. Não posso tolerar tais desmandos.

Apenas o capitão-mor havia pronunciado estas palavras, entrava precipitadamente pelo pomo do páreo um pequeno vulto embuçado em um capote, e subindo dois a dois os degraus da escadaria abre sem pedir licença à cancela da varanda e pára esbaforido e arquejante em face do capitão-mor.

- O que é isto? ... o que aconteceu ? ... há alguma novidade? - perguntaram a um tempo Diogo Mendes, Fernando e Leonor atônitos e sobressaltados; mas o Minhoto, - pois era ele, - que chegava pondo a alma pela boca, arquejava furiosamente e não podia desde logo satisfazer a ansiosa curiosidade dos interrogantes. Logo, que prorrompera o tumulto em casa do ferreiro, o abjeto e embusteiro emboaba, já com medo de que o barulho tomasse vulto e ele fosse vítima de alguma sova, já por desejo de fazer mal a Calixto, a quem não podia perdoar a decidida preferência, que lhe dava Helena, já por espírito de adulação, querendo ser o primeiro a levar ao capitão-mor a denúncia da ofensa, de que seu filho fora vítima, esgueirou-se de entre os comparsas, e deitando-se a correr pelos estreitos trilhos desceu aceleradamente e aos trambolhões a serra do Lenheiro, e depois de levar bom número de quedas chegou enfim moído e estafado à casa do capitão-mor.

- Que temos de novo, senhor? ... Não nos dirá enfim? ... Repetiu Fernando impacientado.

- Uff! ! - bufou o Minhoto arquejando - que Caminhada! ... Estou a botar os bofes pela boca ... Mas enfim... Como é para servir a vossas mercês... Dou por bem empregado...

- O que há então? ... Fala de uma vez, homem...

- Perdoem-me... Não é nada menos que uma enorme desfeita... Que acabam de fazer... ao senhor seu filho.

- Uma desfeita! ... A meu filho! ... - bradou o capitão-mor levantando-se exasperado. - Que está dizendo, senhor Minhoto? Isso é verdade?... - Que te dizia eu a pouco, Fernando... Está vendo o resultado dos passeios? ... Mas diga já depressa, meu amigo, continuou voltando-se para o Minhoto, - o que foi? ... O que foi? ... Quem foi o atrevido? ...

- Ah! Meu Deus! ... Que terra de maldição! ... Murmurou Leonor dentro d’alma. - Nem um dia de sossego aqui se pode gozar.

- Que malvados, senhor capitão-mor - continuava o Minhoto. - Mil foras que houvesse.

- Deixemo-nos de exclamações. Quem foi, e Como foi isso? - atalhou Fernando.

- Foi em casa de mestre Bueno... Bom! - refletiu Fernando. - O rapaz afoitou-se enfim. O amor perdeu Tróia...

- Ainda não há uma hora, continuou o Minhoto, e o atrevido de um rapazola, que é ajudante do tal ferreiro, teve a petulância de levar as mãos à cara dele, à cara do senhor seu filho, entendeu, senhor capitão, e depois...

- Mentes, infame baturinheiro! - bradou uma voz de pessoa, que subia aceleradamente a escada da varanda.

Era Afonso, que tinha chegado cautelosamente querendo recolher-se sem ser visto afim de esconder sua afronta e meditar a vingança, que poderia tomar de seu ofensor. Mas o Minhoto o tinha antecipado alguns instantes, e o moço ouvindo do pátio a denúncia do embusteiro emboaba não pode conter sua indignação. Todos olharam sobressaltados para a cancela, por onde Afonso entrava bruscamente.

- Meu pai - continuou o moço arrebatadamente - não acredite neste homem, que não quer mais do que prestar-lhe um serviço por meio de uma torpe delação. Não houve mais que uma simples alteração, e peço a meu pai que se esqueça disso ...

- Não, meu filho; - replicou gravemente o capitão-mor; - não posso e nem devo esquecer tão depressa. Dizes, que foi uma simples alteração; mas aqui o senhor, que presenciou a pendência, assevera, que foste ofendido. E depois após uma altercação virá outra, e após esta alguma coisa mais séria, e não serás respeitado, como deves ser neste lugar. Nada !...é preciso averiguar este negócio, e por cobro a que se não repitam mais tais ocorrências. Fernando, manda vir já e já a minha presença todas as pessoas, que presenciaram o fato! Afonso e o senhor Minhoto devem bem saber, quais os que lá se achavam ... Oh! não, semelhante desaforo não pode ficar impune.

O Minhoto ficara aturdido e como que embasbacado com o desplante enérgico com que tão brusca e inesperadamente fora interrompido por Afonso; mas depois que ouviu o capitão-mor, e viu sua disposição, criou alma nova.

- É justo, é justo, senhor capitão-mor ! - exclamou ele impertigando-se todo. - Abra-se já uma devassa, e veremos quem fica mentiroso, com o respeito devido ao senhor seu filho ... ele tem o coração bom demais ...enfim, senhor capitão-mor, eu sei bem as pessoas, que lá se achavam, e - Basta, senhor! - interrompeu o capitão-mor agastado. - Eu sei bem o que devo fazer. Não há perder tempo, diga ao senhor Fernando os nomes das pessoas, que lá se achavam, para se darem as providências.

Esta devassa, em que todos concordaram, e que Afonso em vão procurou obstar, vinha colocá-lo na mais triste e desairosa situação. O moço queria a todo custo senão ocultar, ao menos atenuar a gravidade do desacato, de que fora vítima. Tinha gravado no coração o mais implacável ressentimento contra o seu agressor, e jurava dentro d'alma que um dia havia desagravar-se, e tomar cabal vingança; mas, cavalheiro como era, não queria prevalecer-se da superioridade de sua posição, e tirar desforço por meio da autoridade, que seu pai exercia no lugar. Achava isto ignóbil, e contava vingar-se por suas próprias mãos. Mas a devassa, a que se ia proceder, vinha burlar todos os seus planos e esperanças. Desesperado de raiva na impossibilidade de contestar, o que diriam as testemunhas, foi encerrar-se em seu quarto no firme propósito de não assistir à devassa. Daí a duas horas pouco mais ou menos achavam-se em presença do capitão-mor, além do Minhoto, Calixto, Helena, Bueno, Gil e todos os mais paulistas e emboabas, que tinham presentiado a pendência, - umas dez ou doze pessoas - rodeadas de numerosos esbirros. A noite já ia avançada, como bem pode calcular o leitor, e essa devassa a tais horas tinha certo ar sinistro e inquisitorial.

Interrogados por Fernando, todos sem discrepância confirmaram o fato tal qual nós o deixamos narrado. Os paulistas porém procuravam atenuá-lo dizendo que Calixto apenas dera um leve empurrão em seu adversário afim de impedi-lo de beijar a face de sua amante, e que se Afonso foi a terra, e ficou com o rosto pisado, foi por estar mal sentado no banco, em que se achava quase às escuras. Os emboabas, pelo contrário, procuravam inocentar a Afonso dizendo que não tinham visto coisa alguma, que pudesse dar motivo ao desacato praticado por Calixto. Toda essa divergência porém dos dois partidos desvanecia-se diante das declarações do indomável Calixto, que contestando a uns e a outros confessava franca e impavidamente toda a verdade.

Por fim de contas ficava mais que averiguado que Afonso fora vítima de um desacato público e aviltante, e que o autor desse desacato fora Calixto; atentado gravíssimo, contra o qual Fernando reclamou todo o rigor das leis.

- Podem todos retirar-se, que está bastantemente esclarecida a presente devassa - sentenciou gravemente o capitão-mor. - Ficam porém em poder da justiça o autor do insulto, mestre Bueno e sua filha, para se proceder a ulteriores investigações afim de se chegar ao conhecimento dos que foram ou não coniventes no crime de desacato contra a pessoa de meu filho, Calixto irá para o tronco e os outros serão simplesmente conservados em prisão separada.

E assim se fez. Era por esta forma rápida e sumaríssima, que se instruíam e sentenciavam os processos perante o capitães-mores sem apelação, nem agravo.

1   ...   22   23   24   25   26   27   28   29   ...   47


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal