Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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Capítulo IV

Noite de vigília e angústia

Essa noite, que havia começado sob tão lisonjeiros auspícios de paz e de bonança ao clarão de um formoso luar, transtornou-se assim inesperadamente em noite de insônia, agitação e sinistras apreensões para quase todos os habitantes de S. João. Um fatal acidente havia perturbado repentinamente a seguridade dos ânimos e a tranqüilidade de que gozavam a mais de um mês. A devassa terminara muito depois de meia noite e antes que alvorecesse o dia a notícia do ocorrido se havia propalado de casa em casa, e enchia toda a povoação.

Os paulistas recolhidos a seus lares começavam a praguejar antevendo novos vexames e perseguições por parte dos emboabas. Estes por seu lado também não dormiram pensando nas conseqüências daquele fatal incidente, e inimigos natos dos paulistas não deixavam de exultar contando com a perseguição, que contra eles moveria o capitão-mor, e principalmente Fernando, que não deixariam de desafrontar a Afonso; já de antemão congratulavam-se pela ruína dos paulistas, cuja ativa concorrência na descoberta e exploração de lavras queriam ver para sempre arredada. Perseguidos, encarcerados, degredados não teriam remédio senão abandonar-lhes inteiramente o terreno.

Na casa do capitão-mor também o sono recusava teimoso a descer sobre as pálpebras de seus atribulados habitantes. Afonso achava-se esmagado debaixo do peso da desastrada pendência, que o enchia a um tempo de rancor, de ciúmes, de confusão e de vergonha. Ferido em seu pundonor, em sua vaidade, em seu amor e em seu orgulho o coração lhe sangrava dolorosamente, considerando que não poderia aparecer senão corrido de vergonha e confusão diante de seu pai, de sua irmã, de Fernando e de todos os habitantes do lugar. Recolhido a seu aposento nessa noite nem quis falar a Fernando, e fingindo que dormia dava largas aos acerbos pensamentos, que lhe escaldavam o cérebro; maldizendo-se a si mesmo interiormente e praguejando céus e terra fatigado por fim adormeceu pela madrugada entre as imagens delirantes de mil sonhos de vingança.

A meiga e compassiva Leonor, que sabia de tudo, também não podia cerrar os olhos que não lhe aparecesse à alma a imagem aflitiva da infeliz e formosa Helena, debulhada em lágrimas implorando compaixão para o pobre e velho pai e seu desditoso amante.

Não podia compreender a necessidade de meter em prisão juntamente com o criminoso àquele pobre velho e aquela interessante menina, que nenhuma parte tinham tomado na ofensa feita a seu irmão. Reprovava no fundo d'alma a dureza de seu pai e maldizia o momento em que este, aceitando esse cargo de algoz, viera para um país, em que nem um mês se passava, em que não se dessem cenas de tumulto, de lágrimas e sangue. Não pôde adormecer pensando nos meios, que empregaria para acalmar a cólera do pai, e obter dele a soltura de Bueno, de Helena, e também, se fosse possível, a de Calixto.

_ Amava seu irmão, mas em sua consciência reta achava justificável o arrebatamento do moço ferreiro. Lembrava-se de Maurício, e considerando qual não seria sua angústia, se o visse na mesma situação, não podia deixar de condoer-se profundamente da sorte dos dois amantes.

Estes não mui longe dela, debaixo dos mesmos tetos, gemiam em ignominiosa prisão sem se poderem consolar e confortar um ao outro. Helena e Bueno, postos em prisão separada, mas em um quarto contíguo àquele, em que Calixto se achava com os pés metidos no tronco, ouviam seus gemidos abafados, suas imprecações terríveis soluçadas entre ranger de dentes e contorções de desespero sem poderem vê-lo nem alentá-lo, e nem ao menos com ele se lastimarem. Um guarda impunha-lhes silencio, ameaçando-os com os mais bárbaros castigos. O Leonor, ainda que alojada em um aposento bastante afastado do lugar das prisões, cuidava às vezes ouvir-lhes os gemidos surdos; e esperava impaciente o alvorecer do dia suspirando pelo momento em que lhe fosse permitido levantar-se e ir oferecer algum lenitivo àqueles desgraçados. Só Fernando exultava interiormente à custa das angústias e sofrimentos, que abrigava o edifício naquela noite cruel. Essa noite, precursora dos acontecimentos, era para ele esperanças.

- E chegado enfim o ensejo, por que eu tanto aspirava! - murmurava ele dentro d'alma.

- Incomparável Helena! Tu foste um anjo lançado em meu caminho! Só mesmo uma Helena, - este nome é fatídico - podia fazer tão boa cama para seus patrícios, e dar-me ocasião tão azada para surgi-los a meu gosto. Estes amoricos do toleirão do meu primo vieram cair na presente conjuntura mesmo como a sopa no mel. Os fanfarrões do Maurício e do Gil hão de por força querer intrometer-se neste negócio, e eu não os tenho fechados na mão. Leonor, se não queres conceder-me o teu amor, ao menos hei de fazer-te sentir cruelmente o peso de minha vingança, e depois ... depois não terás remédio senão curvar-te a meus pés e ceder-me a tua mão.

Maurício, Gil e Antônio, reunidos na casa do primeiro, também comentavam seu modo o acontecimento da noite entregues às mais sombrias apreensões.

- Não te desenganarás ainda, Maurício? – dizia Gil a seu amigo. - E impossível, por mais que nos curvemos, por mais que nos mostremos submissos e sofredores, é impossível viver em harmonia com esta cáfila de zangões inimigos de nosso sossego, cobiçosos de nosso ouro, invejosos de nossa felicidade. Querem tudo nos arrancar, nossa terra, nosso ouro, nossos escravos, nossos filhos, nossas amantes, nossas mulheres, e para obter tudo isso não duvidarão arrancar-nos a própria vida. Não vejo outro recurso, ou nós todos paulistas havemos de abandonar-lhes estas malditas minas, ou havemos de nos fazer respeitar com as armas na mão.

- Mas donde provém tudo isso, Gil 1 - replicou Maurício. - Da malvadez de um só homem, já mil vezes te tenho dito. É só Fernando, quem assanha os ódios, por que assim convém a seus malvados intentos. Se pudéssemos arredar e fazer desaparecer desta terra o infame secretário de Diogo Menes, oh! como as coisas correriam de outro modo! ...

- Não duvido, mas por que meio poderemos conseguir isso ! ...

- Nada mais fácil, - acudiu Antônio com vivacidade. - Antônio tem um punhal bem afiado, flechas, que não eram o alvo e uma escopeta, que não nega fogo, e além disso olho vivo e mão segura.

- Oh! bem o sabemos, Antônio, - atalhou Maurício; - matá-lo é bem fácil; mas isso seria infame e indigno de nós. Demais esse assassinato em nada nos aproveitaria; antes iria agravar mais nossa posição assanhando o furor do capitão-mor e de toda sua gente.

Pois é crime matar uma onça, que quer devorar a gente ? - perguntou Antônio.

- É, Antônio, - respondeu Gil, - é, quando essa onça só se ceva no sangue dos paulistas. Ele todos são contra nós, nós devemos ser todos contra eles.

- Não é assim, Gil; - replicou Maurício. Se não fosse Fernando, o capitão-mor seria incapaz de nos mover tais perseguições; eu o conheço a muito tempo.

- E que importa isso, se existe o tal Fernando, e se tangido por ele o capitão-mor nos persegue, nos esbalha e nos oprime?... se esse Fernando é o seu homem de confiança, o seu válido, a sua cabeça e o seu braço ao mesmo tempo, e se nada é capaz de levá-lo a desfazer-se de semelhante homem? ...

- Um dia ele virá a conhecer os cálculos pérfidos e interesseiros do homem, em quem tão cegamente se confia ...

- Sim! sim! um dia! ... e até lá esperaremos! resignados gemendo ao peso dos ultrajes e da mais aviltante opressão, até que apraza à Divina Providência abrir os olhos do senhor capitão-mor... isso terá lugar talvez, quando todos nós tivermos morrido às garras desses malsins avaros...

- Talvez não nos seja preciso esperar tanto, e não serei eu também, que tenha tanta paciência. Hoje mesmo, Gil, Ah ! ... se não fosse Leonor, que me sopra a cólera, e me suspende o braço...

- Ah! esse teu amor!... esse teu amor!... foi um presente funesto do céu, uma estrela de má ventura, que luziu para ti e para nós todos.

- Não fales assim do meu amor, Gil, que me despedaças o coração, - disse Maurício sorrindo tristemente. - Esse amor pode ser um dia o farol de nossa salvação, o astro medianeiro da paz e da concórdia, se a prudência. . .

- E que pretendes tu que esperas mais, meu amigo ? ... esperas acaso, que o capitão-mor te de a mão de sua filha... - não vês que essa tua paixão insensata só pode trazer em resultado a infelicidade tua, dela e talvez de nós todos ! Se tivesses mais força de alma, há muito terias renunciado a esse mal aventurado amor ...

- Oh! de certo eu o faria, se não tivesse a certeza, que ela também me ama com igual extremo. Então seria eu só o infeliz, e iria para bem longe dela procurar esquecê-la, ou morrer de mágoa e de saudade. Mas ela também me ama e eu não devo abandoná-la aqui entregue a seus inimigos; os meus inimigos são também os dela. É por ela, que eu tremo, Gil. As onças, os selvagens, o furor de nossos patrícios, não é nada disso, que eu mais receio por ela; é de Fernando que eu temo tudo, de Fernando, que ela detesta, e que jurou possuí-la, e que para esse fim não recuará diante de meio algum, de Fernando, a quem a cega confiança do capitão-mor facilita a execução dos abomináveis desígnios forjados na mente daquele perverso. É por isso que eu aqui estou, e aqui devo ficar a pé quedo vigilante e pronto a protege-la a todo transe mesmo em despeito do capitão-mor e toda a sua gente. É por isso, que aqui ficarei vigiando aquele depósito sagrado, que o céu confiou à minha guarda, como quem defende o ninho da inocente rola, em volta do qual vagueia a jararaca astuta procurando devorá-la.

- E também Antônio aqui há de ficar com o patrão, - exclamou o índio com exaltação, - porque Antônio lá tem a sua rola nas garras do gavião. Aqui há de ficar, até que ela lhe seja entregue, e se não quiserem entregá-la, Antônio ou por força ou por astúcia há de arrancá-la de lá.

- Dizes bem, Antônio, - replicou Gil. – Agora lá geme outra rola prisioneira, a noiva do infeliz Calixto; amanhã virá uma quarta e depois mais outra e mais outra, porque estes nossos dominadores não só nos querem impedir de aproveitar o ouro desta terra, como também nos não permitem termos amantes, nem mulheres. Por mais, que faças, Maurício, com tuas prudências e acomodações, as coisas vão tomando péssimo caminho. Com elas não se aplaca a sanha dia nossos inimigos; há sempre o mesmo ódio, a mesma inveja, e isto não se acabaria senão com muito sangue.

- Não duvido, Gil; infelizmente dizes talvez a verdade; mas entretanto deixa-me ainda fazer uma tentativa neste negócio do Calixto ... quem sabe talvez possa conseguir ainda alguma coisa a bem de nosso sossego e tranqüilidade.

- Vai, Maurício; não posso, nem devo impedir-te; mas vais perder teus passos; o capitão-mor jamais perdoará o ultraje feito a seu filho, e Fernando não se resignará a perder este belo ensejo de nos mover a mais dura perseguição.

- Embora; farei sempre uma tentativa, se nada conseguir, tanto pior para eles.

- Vai, patrão, - acudi o Antônio, - vai em quanto eu cá fico amolando nossas armas, e escorvando nossas escopetas .

- Bem falado, Antônio, - retorquiu Gil, - a esta gente só se fala com a boca da espingarda.

O dia começava a despontar.

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