Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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Capítulo V

Perdão pior que a pena

Ao romper do dia, que seguiu-se a essa noite angustiosa, toda a população amanheceu em alvoroço e ansiosa curiosidade. Mestre Bueno era um velho muito conhecido e geralmente estimado pelos habitantes do lugar, já como homem de bem, servil e prestimoso; já como habilíssimo ferreiro, freguês quase exclusivo de todos os mineiros quer paulistas, quer forasteiros. Calixto também ,era estimado e benquisto de todos, à exceção de alguns rivais, pretendentes ao amor de Helena, que o olhavam de revés, e o achavam de gênio sumamente áspero e assomado. Helena era uma pomba meiga e inofensiva, que se perturbava o sossego de alguns corações, era sem o querer, pelo encanto de seus olhares e de sua figura sedutora.

A todos pois devia afligir e consternar o funesto acontecimento daquela noite. Os serviços ficaram abandonados, as lavras desertas, e grande agitação se notava pelas ruelas da pequena povoação.

Afonso, acordando amargurado com a lembrança do desastroso acontecimento da véspera, ruminou ainda antes de levantar-se uma multidão de idéias e planos desencontrados. Não podia deixar inulta a cruel afronta, de que fora vítima, mas que gênero de vingança poderia tomar? eis aí o ponto, em que hesitava fazendo e desfazendo mil projetos sem saber em qual deles se fixar.

Abandonar seu ofensor à cólera paterna e esperar da ,autoridade a sua desafronta parecia-lhe pouco nobre e indigno de um fidalgo; queria vingar-se por si mesmo e por suas próprias mãos, mas como? iria provocar seu adversário a um duelo ? mas seu pai lhe dizia muitas vezes, que a espada de um fidalgo não se arranca contra um mísero peão, e desonra-se medindo-se com a dele.

O melhor e mais seguro meio de vingança, que se lhe oferecia ao espírito, era ferir o adversário na corda mais sensível de seu coração roubando-lhe a amante. Assim o amante em desespero infalivelmente o provocaria, e teriam de bater-se forçosamente, sem que ninguém pudesse intervir, e ou ele o mataria, ou lhe morreria às mãos. Para levar porém a efeito semelhante plano surgiam mil dificuldades, e Afonso não atinava com os meios de obviá-las.

Enfim já com o espírito fatigado e com a cabeça a arder entendeu que devia abrir-se com alguém que o orientasse no intrincado labirinto de seus pensamentos, e com quem melhor se poderia entender senão com o seu habitual confidente e conselheiro, seu primo Fernando. Foi este mesmo quem provocou a confidência.

- Então, Afonso, - foi este o comprimento de bom dia, que Fernando deu a seu primo, - então que diabo andaste tu fazendo ontem lá por casa do ferreiro ? estás ainda muito bisonho no traquejo destas coisas. Se tivesses tomado primeiro algumas lições, não te sairias tão mal.

- Em que me saí mal por ventura? - replicou vivamente o mancebo. - Fui atacado por um cão, mas não me deixaram espancá-lo; eis aí tudo.

- Anda lá, - retorquiu Fernando batendo amigavelmente no ombro do mancebo; - confessa que foste bastante desajeitado e que a cousa não te saiu muito airosa; isso porém não faz mal; tranqüiliza-te, meu rapaz; sem o querer e assim atabalhoadamente preparaste o terreno de um modo admirável.

- Como? ...

- Ora como! ... esse insolente Calixto, que teve a petulância de tocar-te, terá de sofrer prisão por muito tempo, ou será degredado, o que é melhor ainda, e a tua Helena aí ficará à tua disposição livre e desimpedida do importuno jacaré, que tanto a vigia.

- Eis aí em que não posso consentir; meu pai nada tem que ver com isto; foi uma insignificante pendência entre mim e um miserável perro; o ofendido fui eu só; a mim só compete desafrontar-me; não quero por modo nenhum, que meu pai se meta nisto.

- Mas como, se é dever dele castigar esse insolente? ... Mas eu sou o ofendido, e perdôo ao meu ofensor ...

- Imbecil que tu és ! ... então como falas em vingança ?

- A vingança fica a meu cargo, somente a meu cargo.

- Mas de que maneira poderás vingar-te? ... de nenhuma, e esse atrevido, que te pôs a mão na face, irá para os braços de sua Helena gozar de seu triunfo escarnecendo de ti.

- Por Deus, que não há de ser assim, Fernando ! ... hei de vingar-me, e hei de disputar-lhe a todo transe mas sem auxílio de meu pai, nem de quem quer que seja.

- Mas por que meios, não me dirás?

- Não sei; o demônio da vingança e do ciúme nos há de inspirar.

- Não duvido, - disse Fernando como a refletir; - e até, se me não engano, o tal demônio já te está inspirando. Com esse teu proceder estouvado e romanesco, sem o pensar vais preparando um plano, que pode sortir o mais completo resultado, e facilitar-te a mais cabal vingança no sentido, em que a queres.

- Deveras! ? ... mas ... explica-te.

- Queres perdoar ao teu ofensor, não é assim? - Quero, sim, para melhor poder vingar-me dele.

- Pois bem; será perdoado em teu nome, e estou certo, que esse perdão o humilhará e doerá tanto na alma como o mais rigoroso castigo.

- Embora! tanto melhor.

- Esse maroto será perdoado e posto em liberdade, mas não sem levar antes uma formidável corrimassa de bolos, que lhe sirva de lembrete em todos os dias de sua vida para não cair noutra.

- Mas eu já disse, que perdôo; não quero que o castiguem ...

- Não te importes com isso; esses bolos não são por tua conta, são por conta de teu pai, que tem a restrita obrigação de corrigir as crianças turbulentas e mal criadas. Há de toma-los, e depois será solto juntamente com o velho bronte.

- E a Helena?...

- Aí é que está o delicado do negócio. Helena tem de ficar aqui detida por enquanto.

- Detida !? ... mas por que motivo, se ela é inocente?

- És muito simples, meu Afonso. Se ela também ficar livre e solta, em que poderá consistir a vingança ? conservá-la aqui é a condição essencial do piano, que deves seguir para possuir Helena, e vingar-te de Calixto. Só com esse fato ele ficará raivando, e rebentará de ciúme e desespero, e tu saborearás desde já os primeiros tragos de um princípio de vingança.

- Mas ela nenhum crime cometeu para ser metida em prisão ...

- Não há aí nenhuma prisão; fica simplesmente detida;. morará conosco em vez de morar com o pai e o amante, e nisso creio, que ela nada perde. Estando ela aqui fica ao teu cuidado empregar os meios a teu alcance para subjugar e vencer a inserção da menina. És um formoso Páris, e não te será mui difícil seduzir esta nova Helena, que aliás não é esposa de nenhum rei Meneláu. Quanto a pretexto, isso nunca falta. Por ventura não se acha aqui a tanto tempo essa outra caboclinha, filha daquele maldito bugre feiticeiro ! ... que crime cometeu ela também; e que mal lhe faz o estar aqui. Além de tudo, a casa do tal ferreiro estava se tornando um verdadeiro lupanar, um foco de desordem, tudo por causa dessa Helena, que para lá atraia uma corja de vadios. Eis aí um pretexto, senão um motivo muito justo para arreda-la dali. Por algum tempo estiveram os dois primos conferenciando sobre o assunto. Afonso, que conservava ainda no coração alguns restos de bons e nobres sentimentos, a princípio relutou em anuir ao plano de Fernando; mas este já com astuciosas e insinuantes considerações, já por meio de ridículo conseguiu com arte diabólica eliminar da consciência do jovem fidalgo os derradeiros escrúpulos, que aí restavam, e Afonso, instigado pelo ciúme, pelo orgulho e pelo sensualismo, três móveis poderosos, que Fernando soubera admiravelmente estimular naquela alma jovem e inexperiente, acabou por achar excelente e abraçar com entusiasmo o pérfido e ignóbil meio de vingança, que lhe era sugerido.

Deixando Afonso, Fernando foi conferenciar com o capitão-mor. Daí a uma hora a pouco, mais ou menos ambos eles se dirigiam. ao salão, e mandaram vir à sua presença os três prisioneiros. Grande porção de povo se agrupava em torno do edifício rumorejando como ondas, que começam a agitar-se às primeiras lufadas de um furacão.

Maurício, como prometera a seus amigos, também se apresentou e pediu ingresso na sala. O capitão-mor sentou-se à cabeceira de uma grande mesa, tendo Fernando à sua direita e Afonso à esquerda. Achava-se ali também certo número de pessoas curiosas, que ansiavam

por ouvir a sentença, que o capitão-mor lavraria contra o infeliz Calixto.

- Senhor Calixto, - disse o capitão-mor em tom grave e solene, - Vm. cometeu um crime atroz gravíssimo, o qual segundo as nossas ordenações, deve ser punido com açoutes, com degredo e confisco de seus bens, se os tiver. Dê porém parabéns à sua fortuna, e à generosidade do ofendido, que não quer que eu use para com Vm. do rigor das leis.

Ouviu-se um murmuro de aprovação; todos os peitos respiraram desafogados, e todos os olhos volveram-se benignamente para Afonso.

- Ele, portanto, - continuou o capitão-mor, - lhe concede o perdão da ofensa recebida, e eu também da minha parte, tendo em consideração a sua pouca idade, e o motivo da paixão, que o levou a esse ato de violência contra a pessoa de meu filho, quero usar para com Vm. de alguma clemência, e somente o condeno a oito dias de prisão, durante os quais todos os dias Vm. terá de ser castigado publicamente ali no meio do pátio com duas dúzias de bolos.

A estas palavras um sussurro confuso, um frêmito de horror circulou por todos os assistentes. Calixto tornou-se lívido como um cadáver; os olhos se lhe escureceram, as pernas vacilaram, e a cabeça lhe andou a roda, foi-lhe mistério encostar-se a Bueno, que estava junto dele para não cair. Helena soltou um grito de pavor, e Bueno exalou um gemido surdo e ameaçador, como o ronco da sucurí no fundo da lagoa, quando ouve o trovão roncar ao longe.

- Mestre Bueno, - continuou o capitão-mor, como nenhuma parte teve na pendência, seja desde já posto em liberdade, e sua filha será detida por ora nesta casa até segunda ordem.

- Senhor capitão-mor, - exclamou Bueno com voz angustiada, que vou eu fazer em minha casa sem minha filha e sem Calixto ? ... Sou um pobre velho, que por mim só nada valho. Ou restitua-me meus filhos, ou deixe-me também aqui ficar preso com ele.

- Não tem réplica, - atalhou secamente o capitão-mor, - estão dadas as minhas ordens. Não faltará quem o ajude, enquanto Helena e Calixto não voltam para sua companhia. E antes que alguém mais se lembre de pôr-lhe embaraços, desde já comece a execução da sentença. Esbirros! - disse o capitão-mor, levantando-se, - ponham Bueno em liberdade, levem o delinqüente para o pátio, e apliquem-lhe os bolos, a que o condenei. A estas palavras seguiu-se por alguns momentos um silêncio fúnebre; uma espécie de estupefação apoderou-se da maior parte dos assistentes, que sentiam gelar-lhas o coração em um sentimento indefinível de terror, de pejo, de indignação e de assombro ao verem aquele belo e altivo adolescente condenado tão brutalmente ao mais bárbaro e ignominoso suplício.

Foi o próprio Calixto quem interrompeu aquele lúgubre silêncio.

- É debalde, senhor capitão-mor, - rosnou ele com voz convulsa levantando ao céu os punhos trêmulos e crispados; - é debalde! ... ninguém me tocará com esse vil instrumento! ... podem picar-lhe em pedaços, isto não me sujeitarei.

E lágrimas de fogo lhe saltavam aos pares dos olhos fuzilantes de cólera e desespero.

- Agarrem-no e cumpram a sentença, - disse terminantemente o capitão-mor dirigindo-se aos beleguins. Imediatamente estes agarram-se vigorosamente aos braços e Calixto e o vão arrastando para fora. Mal porém o paciente voltando as costas para a mesa tinha dado dois ou três passos cambaleantes pelo salão, seu corpo estirou-se rijo como barra de ferro, os dentes lhe rangeram horrivelmente, a fronte se lhe inundou em bagas de suor frio, os olhos se enrubesceram e dilataram como querendo saltar fora das órbitas, e ele teria caído redondamente no pavimento, se os dois beleguins, que o agarravam, não lhe amparassem a queda. Não fora aquilo um simples desmaio; o pejo, o desespero, o furor impotente e concentrado tinham determinado no organismo do brioso e infeliz mancebo a mais horrível e violenta crise nervosa. Helena, que no auge da angústia e do terror contemplava aquela sinistra e dolorosa cena, solta um grito lamentoso, com os braços estendidos, avança dois passos para seu amante, vacila e cai também desmaiada. Aflito e pressuroso Bueno corre em socorro dela, e a levanta ... nos braços vigorosos. Aquele triste e angustioso espetáculo aterra e compunge todos os espectadores. O próprio capitão-mor condoeu-se dos míseros mancebos, e exprobrou-se a si mesmo sua dureza e crueldade. Os emboabas mesmo naquele momento esqueceram sua animosidade contra os paulistas, e acercaram-se dos dois

jovens desmaiados cheios de solicitude e comiseração.

Mas foi sobretudo no coração de Afonso, que essa deplorável cena produziu a mais amarga e violenta impressão. Não tinha ele ainda perdido os seus naturais bons instintos a despeito do quotidiano cuidado que Fernando empregava para corromper-lhe o coração. Considerava que ele fora o provocador, a causa primordial e culposa daquele triste acidente, que sem ele não se teria dado, e sentia remorso e pejo de si mesmo. Queria perdoar de todo, não como a pouco para ter ensejo de vingar-se por se mesmo, mas para reparar uma desgraça, que lhe pesava na consciência. Foi portanto impelido pela mais sinistra e profunda emoção, que se resolveu a falar a seu pai intercedendo por suas desditosas vítimas.

- Meu pai - exclamou ele com voz comovida mas firme e resoluta, - o perdão ou deve ser completo ou nenhum. Se julga que merece a pena da lei, aplique-a em todo o seu rigor; desterre esse moço. Mas se quer perdoar, como é o meu desejo, mande já pô-lo em plena liberdade, e quando não, castigue-me a mim também, que eu tão culpado como ele.

Os circunstantes acolheram estas palavras com murmúrio aprovador. Fernando olhou de esguelha para seu primo.

- Que parvalhão ! - refletiu ele, - mas enfim que me importa! porque me embaraça, que esse biltre seja ou não castigado. Fique por cá a Helena, e as coisas irão seu caminho.

O capitão-mor, que a muito custo representava o papel de homem severo e rigoroso naquele negócio, sentia abrandar-se a sua cólera e folgou de achar um pretexto de mostrar-se mais humano e misericordioso.

- Pois bem, - disse ele depois de ter conversado em voz baixa com Fernando por alguns instantes, - acabemos com isto; já que assim o querem, soltem esse mancebo juntamente com o velho. Helena porém ficará por enquanto em nossa casa.

Em vão Bueno rogou, e Maurício e o próprio Afonso intercederam, para que Helena acompanhasse seu pai; o capitão-mor entendeu que tanta condescendência era excessiva, e revelava nímia fraqueza de sua parte. Por tanto mostrou-se inabalável, com o que Fernando, que o insuflava, muito folgou.

Maurício, que ali viera também para interceder em favor das vítimas, viu com prazer aquele negócio terminar-se felizmente sem ser precisa sua intervenção. Helena, com os socorros que lhe prestaram, em poucos instantes recobrou os sentidos; mas Calixto, hirto e lívido, conservava-se imóvel estendido sobre a pavimento como um cadáver, a que só faltava a mortalha.

Helena, mal abriu os olhos, lançou-se sobre ele ululante e em soluços, e com suas lágrimas e beijos conseguiu chamar à vida o amante, a quem socorros estranhos nada tinham aproveitado.

- Vai-te em paz, bom velho, - disse o capitão-mor a Bueno; - não te dê cuidado a tua filha que aqui nenhum perigo corre, e nem será maltratada. Toma cuidado, em que tua casa. não se torne mais ponto de reunião de vadios e turbulentos, e vai-te em paz tratar de forjar teus ferros.

- Sim, maldito emboaba, - resmungou consigo o velho bronte; - esse será o meu cuidado; tratarei de forjar ferros bem agudos e temperados, que te rasguem as entranhas a ti e a todos os teus.



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