Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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Capítulo VI

Começo de conspiração

É impossível descrever o estado, em que Bueno e Calixto voltaram para a casa. Iam silenciosos, arrancando das entranhas, de quando em quando, surdos e profundos suspiros. Nada tinham que dizer, nem explicar um ao outro; o fel, que estava no coração de um, também fervia no coração do outro; ambos esses' corações sangravam igualmente ao golpe do mais vivo e cruel ultraje, e sem se falarem compreendiam-se admiravelmente. Assim foram caminhando sempre taciturnos, ora cabisbaixos e sombrios, ora fitando os olhos no céu como invocando o castigo de Deus sobre a cabeça de seus perseguidores.

- Que iremos fazer agora, padrinho - perguntou Calixto ao chegarem em casa.

- Ainda perguntas ? - replicou o velho. – Que havemos de fazer senão armas? ... armas bem fortes e agudas para rasgarmos o coração de nossos perseguidores. Nossas afrontas têm de ser lavadas no sangue do emboaba, meu filho, e isso mais breve do que pensas.

- Pronto! pronto! padrinho, mãos à obra! também eu mais que ninguém tenho sede desse sangue...

Passaram-se alguns dias de morno e lúgubre sossego. Havia entretanto no fundo desse aparente remanso, a cousa como um sussurro surdo e profundo, que pressagiava próximo temporal. Fernando. reativava suas medidas vexatórias contra os paulistas. As reuniões e caçadas lhes eram de novo proibidas, e só às escondidas e misteriosamente podiam agrupar-se para se queixarem dos males e perseguições, que sobre eles pesavam, e consultarem-se sobre os meios de lhes opor um dique.

Os forasteiros tornados cada vez mais insolentes provocavam e insultavam constantemente aos paulistas. Estes, por conselho de seus chefes, procuravam conter-se e abafavam seu ódio; mas nem por isso deixava de ir todos os dias um deles, por delações de seus inimigos, encher a prisão e alisar o tronco.

Gil julgava-se já desobrigado da promessa, que fizera a Maurício, de nunca provocar, antes procurar acalmar as animosidades. Tornara-se todavia mais avisado e discreto, e tratava de preparar os elementos para uma resistência mais séria e bem combinada. De todos os

seus patrícios, à exceção de Maurício, já não havia um só, que não votasse mortal aversão a tudo quanto português, e que não esperasse impaciente por um grito de revolta, viesse donde viesse, para lançarem-se como lobos esfaimados sobre os emboabas, e estrangulá-los como as víboras. Estavam todos persuadidos, que se não quisessem ser algozes, seriam inevitavelmente vitimas de seus adversários. Podiam contar também como auxiliares muitos escravos índios e africanos, que comungavam no mesmo ódio contra os emboabas, e que estariam prontos a insurgirem-se ao primeiro sinal. Faltava-lhes porém combinação; faltava-lhes um chefe hábil e resoluto, que os pudesse levar à revolta com esperança de feliz resultado. Os elementos de discórdia se acumulavam de dia a dia, e ameaçavam prorromper em breve em terrível explosão. Gil bem o via, e atilado como era, bem compreendia, que se uma tal revolta viesse a rebentar por si mesma, sem combinação, sem plano traçado de antemão, em vez de melhorar a condição dos paulistas, viria por falta de resultado tornar ainda pior a sua já. tão deplorável situação.

Seu pensamento fixo foi pois organizar a insurreição de modo a garantir-lhe um pleno sucesso. Nesse intuito dizia continuamente a seus conterrâneos impacientes.

- Esperem; tenham um pouco de paciência; preparem-se, que em breve tomaremos cabal desforra desses zangões.

O chefe, que se apresentava ao espírito de todos como o mais popular, simpático e hábil, era seguramente Maurício; mas suas relações pessoais, e seu fatal amor pela filha do capitão-mor o manietavam, sopeavam-lhe os brios de paulista, e o tornavam suspeito à maior parte dos seus com grande mágoa e desgosto de Gil. Esperava este, contudo, que os acontecimentos arrojariam por fim a Maurício em hostilidade aberta contra o capitão-mor. A rivalidade e ódio de Fernando não tardaria em Cavar um abismo de separação entre ele e a família de Diogo Mendes. Este fenômeno todavia já por demais se fazia esperar. O negócio de Helena, tendo-se resolvido por uma maneira aparentemente pacífica, deixava Maurício nutrindo ainda suas vãs esperanças de quietação e concórdia, e sem ânimo de romper definitivamente com os emboabas.

Também por seu lado Gil, preso pela estreita e íntima amizade que o ligava a Maurício, via-se bastantemente embaraçado. Compreendia a melindrosa situação de seu amigo, e repugnava-lhe tomar uma atitude, que o iria colocar em hostilidade contra ele, fazendo guerra de morte àqueles, por. quem Maurício tanto se interessava, e a quem a todo transe procurava salvar do tédio de seus patrícios. Para ele, era claro que Maurício tomava a seu cargo uma tarefa impossível, querendo por meios regulares e prudentes compor as animosidades e acalmar os ódios; mas o amor é cego, e uma alma, que se alimenta essencialmente de amor, nada julga impossível. Impacientado soberanamente, Gil todavia deliberou esperar mais algum tempo, certo de que da casa do capitão-mor não tardaria a partir contra Maurício alguma afronta, que o fizesse voltar-se enfurecido contra aqueles a quem afagava.

Por prévio ajuste achavam-se reunidos na casinha de mestre Bueno, este, Maurício, Gil, Calixto e Antônio.

Era alta noite; em razão das medidas vexatórias e da espionagem exercida pelos agentes de Fernando não podiam os paulistas reunirem-se senão clandestinamente e com grandes precauções. O motivo, que agora reunia os cinco personagens, reclamava especialmente o maior segredo e circunspeção; iam tratar dos meios de se livrarem da opressão e vexames, que os emboabas, cada vez mais ávidos e insolentes, faziam pesar sobre os paulistas; era já o começo de uma conspiração. A noite estava tenebrosa, e eles achavam-se na varanda e às escuras. Posto que a casinha fosse bastante afastada e segredada do resto da povoação, era de lá avistada, e qualquer luz ou fogo, que acendessem àquelas horas, poderia despertar suspeitas.

O jovem Calixto, até ali tão lesto, jovial e expansivo, depois da afronta, de que fora vítima, e depois que não via mais Helena a seu lado, tornava-se sombrio e taciturno; aquele golpe o havia fulminado; em sua alma sonhava rancor e pesadume, e mais parecia um ancião desventurado, do que o belo e vigoroso mancebo de há poucos dias.

O leitor não deve estranhar que Antônio, sendo um pobre índio escravo, tomasse parte em conchavo e deliberações de tanta importância e melindre como as de que se ocupavam nessa ocasião. O leitor terá compreendido que Antônio não era propriamente um escravo, Mas o companheiro fiel, o amigo de Maurício. Discreto e perspicaz, além de fiel e dedicado, merecia-lhe toda a confiança. O capitão-mor, que era o seu verdadeiro senhor, ou porque pouco se importasse com Antônio, ou porque atendesse à afeição, que desde menino o ligava a Maurício, lho tinha inteiramente abandonado, e o índio, aproveitando-se desta liberdade, jamais se separara de seu patrão moço. A cooperação de Antônio na empresa, a que pretendiam atirar-se, era não só útil, como mesmo, indispensável.

- Creiam, meus patrões, - dizia o velho ferreiro batendo com a mão áspera e tisnada sobre o peitoril da varanda, - é só a força de ferro e fogo que estes lobos esfaimados de ouro nos darão sossego e liberdade. Já tenho mais de quarenta zagaias com suas competentes choupas bem aguçadas para vararem as tripas de quarenta emboabas, e estou concertando um resto de escopetas, punhais e espadas, que aí tinha; por falta de armas não havemos de nos sair mal. Velho assim mesmo ainda conto mandar ao inferno uma boa dúzia desses cães tinhosos.

- Cá por mim, - exclamou Calixto, - só espero que se dê a voz de mata emboaba. - Ninguém mais do que eu tem sede do sangue desses malditos.

- E Antônio também está pronto, - disse o índio a seu turno. - Sua escopeta não nega fogo e sua flecha, que vara o couro rijo da anta e da suçuarana, é capaz de trespassar dez emboabas de um só tiro ... Mas contra meu patrão velho, - Antônio não sabe mentir e fala.

com o coração na boca, - contra ele e minha sinhá Leonor, Antônio nunca há de levantar a mão. Ele é meu pai; foi ele quem me deu este irmão, que aqui está, - terminou apontando para Maurício.

- Ah! sim! - retorquiu vivamente Calixto, tu esperas ainda, que essa mão, que hoje te afaga, te esbofeteie, para amanhã te vingares! ... espera, Antônio, espera, que não tardará a tua vez. Ainda arrancando-lhes o coração não cevo bastante o ódio, que tenho a esses malditos. Se ainda se contentassem com o ouro, que nos roubam ... mas não; querem nos governar dentro de casa; querem ter o direito de vir requestar em nossas casas e a nossos olhos nossas noivas, nossas mulheres, nossas filhas, e se os repelimos, somos castigados com prisão, com tronco, com bolos, além de no-las roubarem !... Ah! isto não se pode aturar por muito tempo sem rebentar de raiva e desespero ! ...

- Calixto diz a pura verdade, - ponderou Gil. - Aqui estão três, que lá têm enclausuradas as suas amantes por um mero capricho de nossos tiranos. Maurício, julgas que jamais poderás obter a tua Leonor, por mais que ela te ame, sem mover guerra aberta e implacável ao capitão-mor, ou pelo menos a esse Fernando, que te disputa com a superioridade, que lhe dá o Merecimento, o parentesco e a posição, que ocupa junto a Diogo Mendes? .. E tu, Antônio, saberás me diz, qual a razão porque nos não querem restituir Judaíba ? ...

- Não sei, - respondeu o índio, - mas eu vou lá sempre, e sei que Judaíba é e será sempre de Antônio, e ai de quem tiver o atrevimento de querer tomar-lha !... sinhá Leonor já prometeu que Judaíba havia de se casar com Antônio.

- Que esperança! - exclamou Gil; - o capitão-mor não duvido, que condescenda com esse inocente desejo da filha; mas lá está o implacável inimigo de teu amo; lá está Fernando, que te detesta pelo simples fato de tua amizade e dedicação a Maurício, e Fernando é ali quem põe e dispõe de tudo. Dá graças a Deus, Antônio, se abusando de sua simplicidade de selvagem não tentaram pervertê-la ...

- Não fale assim, meu branco, - bradou o índio, levando a mão convulsa ao cabo da faca; - ai daquele, que ousar tocar em um só fio dos cabelos de minha Judaíba! esta faca irá beber-lhe todo o seu sangue.

- E tu, Calixto, - prosseguiu Gil, - consentirás que lá fique a tua Helena em poder deles, em companhia de dois moços dissolutos e libertinos? poderás dormir tranqüilo um só momento, sem que te sangre o coração de rancor, de inquietação e de angústia mortal, enquanto a noiva de tua alma se acha entregue às mãos daqueles algozes, ladrões da propriedade, do sossego, da honra e da felicidade de nós todos ? ... Não, não pode haver mais contemplação; já demais temos tragado o fel da humilhação, do desprezo e da mais tirânica perseguição. Ficam-nos três partidos a escolher; ou havemos de nos retirar todos abandonando à cobiça e ambição de nossos perseguidores estas ricas minas, que nossos patrícios descobriram arrostando mil riscos e fadigas; ou nos devemos entregar a eles como escravos, nós e tudo quanto é nosso, trabalhando para enriquecê-los, sujeitando-nos pacientemente ao tronco, aos bolos, aos açoites e a todas as ignomínias; ou por fim havemos de nos rebelar contra tão odioso jugo, e obrigá-los à viva força a respeitar nossas pessoas e nossos direitos. Destes três alvitres o primeiro iria satisfazer plenamente os desejos de nossos opressores; o segundo é impossível; nenhum de nós, eu o afianço, nenhum haverá, que o não repila imediatamente, e que não repute uma afronta só o propô-lo. Não nos resta pois senão o terceiro.

Maurício, sombrio e triste, escutava silenciosamente aqueles desabafos de cólera e indignação, que rompiam dos lábios de seus amigos como lavas ardentes arrojadas ..de uma cratera em terrível explosão. Bem via que estava cheia a medida da longanimidade e paciência de seus conterrâneos, e que não lhe seria mais possível ''Opor um dique aos ódios, que ameaçavam irromper com furiosa exaltação. Sua situação era a mais crítica e ,difícil que se pode imaginar. Homem de grande importância e altamente considerado entre seus patrícios não podia conservar-se neutro em qualquer conflito, que rebentasse entre eles e os emboabas muito menos lhe era permitido abraçar o partido destes sem cobrir-se de opróbrio incorrendo na mais infame deslealdade para com seus patrícios. Por outro lado estavam a gratidão e lealdade, que devia a Diogo Mendes, e o amor extremoso, :;profundo, imenso, que consagrava à sua filha. Acabrunhado pela situação difícil e inextricável, em que seu destino o colocara, Maurício embaraçado não sabia o que deveria dizer a seus companheiros, nem como acolher suas frases repassadas de ódio e espírito de vingança. Bem quereria guardar silêncio; mas esse silêncio seria mais significativo que tudo, e era forçoso que se explicasse francamente afim de não inspirar desconfianças.

- Meus amigos, - disse ele por fim, - eu também participo de vossa indignação e ressentimento contra nossos opressores: o jugo de feito está se tornando insuportável, e não serei eu que tentará amortecer vossos brios de paulistas aconselhando à humilhação e a ignomínia; não; mas espero, que não porão em dúvida minha lealdade e dedicação, se eu lhes disser, que ainda não perdi de todo a esperança de terminar pacificamente estas desavenças e opor sem luta um paradeiro aos vexames, de que somos vítimas.

- Mas como ?... como ?... como ? ... esta pergunta rompeu simultaneamente dos lábios dos companheiros.

- Como ? ... eu já lhes digo. Amanhã irei jogar a última cartada; procurarei o capitão-mor e lhe pedirei audiência particular; tentarei abrir-lhe os olhos falando-lhe com toda a franqueza, expondo-lhe sem rebuço o que sinto. Pedir-lhe-ei, que sejam postos em liberdade Helena e Judaíba, e que ponha cobro às insolências e desaforos de seus patrícios, que nos querem roubara um tempo a fazenda, o sossego e a honra. Se me ouvir com atenção e benevolência, ainda o mal não é sem remédio; se porém fizer pouco caso de minhas advertências e requisições, fica-nos a liberdade de lançar mão de recursos extremos para nos desforçarmos e defender nossos direitos ofendidos e espezinhados. Portanto, lhes aconselho ainda um pouco de resignação e paciência. E só por um dia, meus amigos; espero que por tão pouco tempo não lhes será difícil conter sua justa impaciência.

Bueno e Calixto abanaram. a cabeça.

- Vá lá, patrão, - exclamou mestre Bueno; é mais um dia perdido, mas ... paciência!... tão, certo como eu ser filho de minha mãe, Vm. vai perder seu tempo; no entanto, para não perder de todo o meu, vou malhar os meus ferros e dar têmpera as nossas armas, por que estou certo, que só quando elas falarem, o capitão-mor nos dará razão.

- Qual capitão-mor, padrinho! - retorquiu Calixto; - não há de ser ele, que nos há de dar razão. Depois que lhe cortarmos a cabeça e a toda sua gentalha ...

Neste ponto Calixto foi interrompido por um singular rumor, que vinha do lado de fora da varanda. Era'o tropel de uma pessoa, que se avizinhava arquejante e a passos acelerados. Ainda durava o sobressalto, que naquela ocasião naturalmente produziria tão inesperado rumor, quando a pessoa, que se avizinhava, penetrou rapidamente na varanda. Todos sobressaltados levaram a mão às armas.

- Ah! és tu, minha Judaíba ! - exclamou Antônio, que primeiro que todos reconheceu a sua amante, e precipitando-se ao encontro dela sustinha nos braços a índia quase a desfalecer de fadiga.

- O que te aconteceu ? ... fala Judaíba ... o que vieste fazer aqui ? ...

A índia não respondia; arquejante e opressa de cansaço deixou-se escorregar dos braços de Antônio e sentou-se no chão. Os circunstantes se acercaram dela cheios da mais ansiosa curiosidade e inquietação dirigindo-lhe perguntas sobre perguntas; mas a pobrezinha . esteve por muito tempo a arquejar sem nada poder responder. Enfim, depois de repousar alguns momentos instada por Antonio, contou-lhe em poucas palavras e com voz entrecortada e balbuciante em dialeto carijó, o que vamos narrar ao leitor mais por miado no seguinte capítulo.



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