Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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Capítulo VII

Turpe senilis amor

O capitão-mor, apesar dos seus cinqüenta e tantos anos, era ainda homem vigoroso e bem disposto; o coração palpitava-lhe ainda quente e alvoroçado ao aspecto da mulher formosa, e era com bastante pesar seu, que se resignava à insipidez e isolamento da vida celibatária.

De a muito pensava em contrair segundas núpcias, e se até então não o fizera, de certo não era, que lhe tivessem faltado noivas. Rico e ilustre de nascimento, tendo enviuvado ainda moço, não lhe faltariam vantajosas alianças; mas à força de querer muito escolher foi deixando correr o tempo e procrastinando a satisfação desta necessidade de seu coração até a idade, em que o achamos, isto é, já um pouco tarde. No isolamento em que se achava colocado em um país novo, bronco e sem sociedade, ainda mais triste se lhe tornava a solidão do lar doméstico, ao passo que lhe era impossível achar naquelas regiões um consórcio na altura de seu nome.

Nestas conjunturas, uma singular fantasia apoderou-se de seu espírito. Judaíba, como já vimos, era um dos tipos mais belos e regulares de sua raça; catequizada, doutrinada e enfeitada por Leonor, que cada vez mais se esmerava na educação da filha de Irabussu, ia-se transformando em gentil e engraçada rapariga. À força de vê-la todos os dias em companhia de sua filha, o capitão-mor foi pouco a pouco se deixando cativar dos encantos de sua linda e voluptuosa figura, e ficou verdadeiramente enamorado de Judaíba.

Uma vez rendido o coração todas as mais conveniências, todas as considerações de qualquer ordem que sejam, cedem-lhe o passo e transigem facilmente com as exigências desse caprichoso tirano chamado amor. Diogo Mendes, que enfatuado de sua fidalguia fora até ali o mais difícil e escrupuloso na escolha de uma esposa para si ou para qualquer pessoa de sua família, sem grande relutância concebeu e afagou em seu espírito a idéia de desposar uma pobre selvagem, apanhada a laço no mato. Cumpre todavia notar que para pô-lo de acordo com os seus preconceitos nobiliários, com a sua consciência de fidalgo, havia uma circunstância mui favorável e justificativa. Segundo muitas vezes tinha ouvido dizer a Antônio, Judaíba também era fidalga, senão de escudo e braça d'armas, ao menos de kanitar e tangapema. Irabussu, seu pai era um ilustre pajé, o que era entre os indígenas um título da mais alta distinção, e se quisessem bem esmerilhar-lhe a linhagem, talvez descobrissem, que descendia dos troncos dos famosos Anhanguéras e Tibiriçás. Diogo Mendes, além disso, tinha a seu favor o exemplo de seu conterrâneo, o Caramurú, Ilustre cavalheiro, que não teve escrúpulos de desposar a gentil Paraguassú.

Entretanto, o velho fidalgo, posto que estivesse inabalável no seu propósito, não ousava comunicá-lo nem a Fernando nem a seus filhos, receando que tentassem demovê-lo de sua idéia. Pretendia não lhes dar parte de cousa alguma, senão depois que tudo estivesse concertado e preparado, e surpreendê-la com o fato consumado.

Estava em sua mente resolvido o problema de seu himeneu; só faltava comunicar à noiva esta sua resolução e este passo no seu espírito estava em último lugar, porque não lhe passava pela cabeça, que a índia recusasse a sua mão, e mesmo quando mostrasse alguma repugnância, forçoso lhe seria obedecer à sua autoridade.

No dia, portanto, em que Judaíba esbaforida se apresentara em casa de mestre Bueno, ao cair da noite, o capitão-mor', aproveitando uma ocasião oportuna, havia falado a sós com a índia, e com termos insinuantes e maneiras afagadoras a fizera ciente de seu projeto. Custou

muito a Judaíba entender a verdadeira intenção do capitão-mor, e só depois que este, pondo sua destra sobre a dela, fez-lhe sentir bem ao vivo que queria casar-se com ela procurando abraçá-la, foi que ela compreendeu tudo, e fitando nele os olhos espantados disse-lhe abanando vivamente a cabeça:

- No ! no! no! Judaíba é de Antônio, - e voltando-lhe as costas fugiu precipitadamente e foi refugiar-se trêmula e assustada junto de Leonor, como a tenra veadinha, que ouvindo rugir a pantera corre e abrigar-se junto de sua mãe. Embalde Leonor vendo-a assim ofegante e sobressaltada, interrogou-a com a maior instância, a desconfiada e arisca caboclinha nada lhe quis responder; foi-se afastando sorrateiramente do lado de sua ama, e daí a meia hora, quando a procuravam por toda a casa, tinha desaparecido.

Judaíba, aterrada com a proposta do capitão-mor, como se tivesse sido ameaçada de açoites, tinha fugido. A fuga lhe foi fácil; por sua docilidade e bom comportamento gozava a muito tempo da mais ampla liberdade em casa de Diogo Mendes, e também nenhum interesse tinha em fugir daquela casa, onde era tratada com toda a bondade e carinho, e onde via todos os dias o seu querido Antônio.

Judaíba em primeiro lugar dirigiu-se à casa de Gil, mas encontrando-a deserta e trancada, correu à de Maurício; o mesmo dissabor ali a esperava. Refletiu um momento e lembrou-se de mestre Bueno, cuja casa, uma das raríssimas, que lhe eram conhecidas na povoação, sabia que costumava ser freqüentada por Antônio, Gil e Maurício, únicas pessoas, a cuja sombra poderia encontrar algum amparo. Para lá correu, e lá a vimos chegar arquejante e extenuada de susto e de cansaço.

Antônio, sabendo da boca de sua amante as intenções do capitão-mor, ficou transido de espanto e de indignação e quase não podia dar crédito ao que ouvia.

- Deveras, Judaíba ? ! - exclamava ele; - o capitão-mor, o senhor Diogo Mendes te disse isso? ... como pode ser isso? ... ouviste bem o que ele disse? ... ah ! - continuou voltando-se para os companheiros, - estão ouvindo, meus patrões! ... chegou também a vez de Antônio. O patrão velho quer também roubar-me Judaíba para casar-se com ela! ah perros! cães malditos! ... agora é com Antônio, que vos haveis de haver!... De hoje em diante, meu amo senhor Maurício, minha raiva não faz mais escolha de ninguém; minha primeira flecha é para o coração do maldito velho.

- E o meu primeiro tiro é para a cabeça de Afonso, - disse Calixto.

- E o seu, patrão, e o seu ? - perguntou vivamente Antônio.

- Todos os meus tiros não serão empregados senão contra nossos inimigos, mas...

Nova tropelada de gente, que se aproximava, veio ainda uma vez interrompê-los; desta vez porém o rumor era mais intenso e ruidoso, e entremeado de vozes de homens que falavam entre si. Era uma escolta de esbirras, que o capitão-mor', tendo dado pela falta de Judaíba, tinha expedido em procura dela. Depois de a terem procurado em vão por todo o povoado, enfim por indicação de alguém, que a tinha observado, vieram ter à casa de mestre Bueno. Quatro malsins completamente armados penetraram bruscamente na varanda do ferreiro, enquanto outros quatro cercavam a casa por todos os lados.

- É aqui, camaradas! - bradou um deles, - é aqui que a lebre se amoitou.

- Cá está ela, se me não engano, - gritou outro lançando mão de Judaíba, que tinha lobrigado nas trevas; - é ela, não pode ser outra; toca a amarrá-la.

- Alto lá ! - bradou Antônio avançando de um pulo e com um empurrão atirando para longe o esbirro, que segurava Judaíba.

- Quem é este atrevido! ? - rosnou o alguazil arrancando a chavasca e atirando-se para Antônio.

- Sou eu, que não consentirei nunca, que vossemecês ponham as mãos nesta mulher, nem que me façam em postas, ouviu ? ...

- Oh ! isso é o que vamos ver! como está valentão ...

- Se sou valente ou não, cheguem-se e verão, replicou Antônio puxando a faca e colocando-se como um bularte diante de Judaíba.

- Que vais fazer ... Antônio ! - disse Maurício em meia voz achegando-se do índio. - Por essa maneira te pões a perder a ti e a nós todos. Deixa-os levar Judaíba; eu te asseguro, que ela nunca será do capitão-mor.

- Oh! bem os estou conhecendo a vossemecês todos, senhor Maurício, senhor Gil! - disse um esbirro.

- Foram vossemecês por certo, que desencaminharam esta cabocla, e a induziram a fugir; o senhor capitão-mor há de ser sabedor de tudo.

- Pouco me importa, senhores malsins, - respondeu Gil com indignação, - que o capitão-mor seja ou não sabedor do que está se passando; esta índia me pertence, e eu estaria em meu direito, se a tirasse da casa do capitão-mor, que m'a roubou. Não tenho que lhes dar satisfações, mas sempre lhes direi, que ela aqui apareceu não há muito tempo sozinha e de seu moto próprio, e sem: conhecimento nosso.

- Seja lá como for, - replicou o esbirro, - quer vossemecês queiram, quer não, donde saiu, para lá tem de voltar neste momento. Anda, rapariga! ... toca para a casa.

- Devagar com isso, senhores esbirros ! - tornou Gil com ligeiro e sarcástico sorriso, - olhem que essa menina não se toca assim como uma rez do campo; mais comedimento ! ... não sabem que ela é a mimosa de D. Leonor, e está para ser a esposa do ...

- Nunca! nunca o será! - atalhou com um brado furioso Antônio, a quem o sarcasmo de Gil, que os esbirros não compreenderam, havia amargado cruelmente. - Nunca o será; eu o juro por este punhal, e por Deus, que nos escuta.

Depois de alguns instantes de silêncio acalmando-se e voltando-se para a índia:

- Vamos, minha Judaíba, - disse-lhe em voz baixa; volta para a casa de nossos patrões; ainda não é tempo de sair de lá. Antônio te vai acompanhar, para que estes malditos não judiem contigo. Vamos; mas Antônio te jura, ou ele tem de morrer, ou em poucos dias ficaremos livres, livres para sempre deles ... Vamos, camaradas, - continuou em voz alta dirigindo-se aos esbirros, - eu quero acompanhar esta menina, e ai daquele, que tentar maltratá-la.

- E eu também irei.


  • E mais eu, - disseram sucessivamente Maurício e Gil, e os três amigos, seguindo a escolta, desceram o Morro do Lenheiro, e acompanharam Judaíba até a porta da casa do capitão-mor.



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