Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



Baixar 1.07 Mb.
Página32/47
Encontro29.07.2016
Tamanho1.07 Mb.
1   ...   28   29   30   31   32   33   34   35   ...   47

Capítulo IX

Rompimento

No outro dia Maurício, apesar das ocorrências que sobrevieram, não faltou ao que havia prometido a seus amigos, e bem cedo apresentou-se em casa do capitão-mor. Ia resolvido, como se sabe, a expor-lhe sem o menor rebuço toda a verdade, pintar-lhe ao vivo todos os sofrimentos e o profundo descontentamento de seus patrícios, e mesmo dos indígenas, que trabalhavam nas lavras dos portugueses; dizer-lhe, que aqueles não podiam descobrir uma data um pouco abundante de ouro, que os portugueses não a cobiçassem e não procurassem arrancar-lhes, já alegando falsos direitos, que sempre eram atendidos, já provocando conflitos, que sempre traziam em resultado a perseguição e prisão dos paulistas; que os bugres, esses, coitados! não podiam guardar para si nem um grão do imenso ouro, que tiravam, e gemiam debaixo do mais atroz e vigilante cativeiro. Representar-lhe-ia vivamente o perigo, a que se expunha oprimindo uma população inteira sem outra proteção, nem meios de defesa. senão os que são inspirados pelo desespero. Queixar-se-ia do novo sistema de opressão mais doloroso e vexatório ainda, que se ia introduzindo, qual era o bárbaro costume de arrancar as filhas a seus pais e a seus protetores natos para as terem em custódia em casa sem se saber por que, nem para que. Dir-lhe-ia, que os paulistas eram dóceis, e que com muito prazer tinham aceitado o governo do capitão-mor esperando que os viesse proteger contra as violências e esbulhos, de que de longa data eram vítimas da parte dos portugueses; mas que o contrário ia acontecendo, e cada vez mais pesado e insuportável ia se tornando o jugo, que os oprimia. Enfim pretendia fazer-lhe ver, que tudo isto provinha da funesta e maléfica influência, que sobre o espírito dele o capitão-mor exercia um homem embusteiro e perverso, que para desgraça daquela terra tinha vindo em sua companhia; que esse homem, que caprichava em torná-lo odioso a toda a população, era Fernando, seu secretário.

Por fim, pediria em nome de todos os paulistas providências, que pusessem termo àquele deplorável e assustador estado de coisas, e declararia que, se as não obtivesse, ver-s-ia obrigado a retirar-se, porque não desejava envolver-se nem responsabilizar-se por futuras calamidades.

A mais tempo Maurício deveria ter tomado essa nobre e enérgica resolução; agora já vinha um pouco tarde. Sabemos em que disposições vinha encontrar o espírito do capitão-mor profundamente impressionado pelas falas de Fernando.

Todavia solicitou e obteve ainda a honra de uma conversação com o seu velho protetor, mas foi recebido com tão desusada frieza e altivez, que cortou-lhe todo o aso de desenrolar a longa série de queixas e acusações, que trazia na mente.

- Então, que pretende de nós, senhor Maurício ? - perguntou secamente o capitão-mor. Este modo cerimonioso já começou a desconcertar a Maurício, não que este temesse o capitão-mor, mas estava acostumado a ser tratado por ele como um filho, com toda a lhaneza e afabilidade.

- Venho, - respondeu Maurício algum tanto embaraçado, - primeiramente cumprimentar à vossa mercê, e depois. também... representar-lhe contra os abusos, agravos e violências, de que meus patrícios têm sido vítimas ...

- Ah! já sei, já sei, - interrompeu bruscamente o capitão-mor; - é escusado ir por diante. Seus patrícios já tomaram o pulso à minha nímia bondade, ou antes à minha fraqueza, desde que deixei impune a afronta revoltante, que fizeram a meu filho. Não vejo de que se possam queixar senão de seu próprio gênio turbulento e rebelde a todo jugo e disciplina legal. Querem viver a lei da natureza como dantes; isso não pode ser, por que não somos selvagens e nem viemos aqui para tolerar a continuação de semelhante estado. Quer queiram, quer não, hão de submeter-se ao rigor de nossas leis.

- Engana-se vossa mercê, - replicou Maurício, com dignidade, - estamos prontos a nos submeter ao império das leis; mas para nós outros paulistas não há lei, há só capricho e arbítrio para nos oprimir e vexar ao último ponto...

- Ah ! ... e é por isso que vossemecês se reúnem fora de horas a conchavar tramas e projetos de revolta ! ... O que fazia vossemecê senhor Maurício, ontem, a horas mortas, em casa de mestre Bueno com o Gil e outros amigalhões ? ...

- Pois, será também um crime achar-se um homem em casa de seu amigo?

- Sem dúvida!... a tais horas e em tal companhia, se ainda não é um crime, pelo menos faz desconfiar. A noite foi feita para o descanso, e quem a tais horas se acha em uma reunião dessas, a não ser em algum folguedo, dá muito que entender de si.

- Pode ser, senhor capitão-mor, mas eu protesto ...

- Não tem que protestar. O proíbo-lhe de hoje em diante toda e qualquer convivência com os seus patrícios se quiser vir ainda aqui e gozar de minhas boas graças. Também lhe ordeno, que me entregue o índio Antônio, que está ficando perdido no meio desse bando de aventureiros, com quem vossemecê anda.

Vê-se que o capitão-mor, apesar de nesta ocasião. procurar formalizar-se, tratava a Maurício como um fâmulo, ou como criança criada em sua casa.

- Quanto a Antônio, - respondeu Maurício, dar-lhe-ei a ordem de vossa mercê. Quanto porém ao que exige de mim, com pesar lhe digo, senhor capitão-mor, me é impossível obedecer-lhe. Não posso, não quero e nem devo renegar meus patrícios. Vivo no meio deles, me procuraram, me estimam, me rodeiam...

- Queres então ficar no meio de meus inimigos, e por conseguinte ser um deles ! ...

- De modo nenhum; eles não são seus inimigos; são perseguidos e queixam-se; são oprimidos e gemem, porque doe-lhas o jugo, que o senhor seu sobrinho faz pesar sobre eles mui de propósito para os atassalhar e levá-los ao extremo afim de melhor poder perseguí-los de novo e exterminá-los.

- Demos de barato, que assim seja; mas tu, Maurício, tu o que sofres ! não tem sido sempre estimado e considerado por mim quem te persegue? quem te ameaça ? ...

- Por certo não é vossa mercê, senhor capitão-mor; porém seus patrícios e principalmente o senhor seu sobrinho me consagram ódio maior do que a nenhum dos meus, e eu não serei de certo poupado mais que os outros no dia da vingança e do extermínio; oh! estou bem certo disso ! ...

- E por que te envolves no meio deles ? ...

- Por que entendo que é meu dever; por que entendo que devo protegê-los e ampará-los nas conjunturas, em que se acham; por que entendo que seria uma infâmia abandoná-los.

- Pois então, senhor Maurício, haja-se lá com eles e não 'conte mais comigo, - replicou asperamente o capitão-mor enfadado com a linguagem altiva e independente de Maurício. - Quem é por eles, é contra mim...

O jovem paulista respeitava ainda e estimava muito o seu velho benfeitor, e sentiu-se profundamente magoado com aquelas ríspidas e duras palavras, quais nunca as havia ouvido de sua boca. Vinham elas lançar sinistras sombras em todo ó seu porvir, onde via eclipsarem-se todas as suas esperanças em carregada escuridão.

Maurício, porém, sumamente altivo e nobre, leal a toda prova, era incapaz de comprar sua futura felicidade a troco de uma infâmia. Não se quis humilhar, e com voz comovida, mas sonora e resoluta, disse:

- Senhor capitão-mor, sinto bastante que me retire a sua amizade e confiança; mas nunca me resolverei a conservá-la à custa de uma baixeza, abandonando e atraiçoando meus patrícios no infortúnio. Se não sou contra vossa mercê, também não posso ser contra eles. Nesta horrível conjuntura não sei o que faça; mas espero, que Deus me inspirará o que for de dever e de honra.

E sem esperar resposta comprimentou e saiu. Ao passar pela varanda encontrou-se com Fernando, que o saudou com um sorriso de maligno e pungente escárneo, como quem lhe dizia - vai-te, que de hoje em diante aqui nada vales.
Maurício retirou-se com o coração oprimido de despeito e de dolorosas e sinistras previsões. Começava a convencer-se de que tudo estava perdido, e que não restava meio algum regular e pacífico de conjurar a sua desgraça e a de todos os seus patrícios. Em casa encontrou Gil e Antônio, que o esperavam em ansiosa curiosidade.

- Não há remédio, - disse-lhes ao entrar; - é-me impossível de ora em diante deter a lava, que ameaça devorar-nos; deixo-os livres e entregues às inspirações de seu justo ódio; não há de ser mais Maurício que os estorvará na carreira da vingança; façam o que entenderem.

- Por essa já esperava eu ! - exclamou Gil; - mas tu, :Maurício, o que pretendes tu fazer ? ...

- Não sei, não sei, meu amigo, - murmurou o moço com voz angustiada lançando-se sobre um assento e escondendo a cabeça entre as mãos. Tenho a cabeça em brasa, e parece que se me rebenta o coração.

- Entretanto é preciso tomar uma resolução ... – Mas ... que devo eu fazer, Gil ? ... neste momento tenho o coração tão angustiado e a cabeça tão perturbada, que não sei deliberar ...

Pois bem, já que não te decides, vou declarar-te o que temos resolvido. Hoje, depois das dez horas da noite, na caverna de Irabussu, que bem conheces, estaremos reunidos eu, Bueno, Calixto e outros amigos afim de concordarmos nos meios que devemos empregar para sacudir o odioso jugo que nos vexa. Comparecerás aí, Maurício ? ...

- Lá estarei, - respondeu resolutamente Maurício levantando-se depois de alguns instantes de silêncio. Em todo o caso é esse o meu dever e o meu posto de honra.

- Muito bem ! - disse Gil abraçando-o; - muito bem, meu amigo! ... nem era de esperar de ti outro procedimento .

- E Antônio também lá se achará a seu lado, patrão, - exclamou o índio.

- Sem dúvida, Antônio; nunca me abandonaste no perigo ... Mas agora me lembro que o capitão-mor exige de mim que eu te entregue a ele, e bem sabes que não me pertences...

- Deveras ! ... e o patrão quer que eu seja entregue ? ...

- Eu não Antônio; bem sabes, que nunca te considerei escravo, como nenhuma criatura humana o pode ser. És livre, como eu e como ele; faze-o que quiseres...

Nesse caso Antônio breve lá irá, não para entregar-se, mas com o joelho cravado sobre o peito e o punhal alçado sobre o coração desse velho estonteado lhe irá bradar aos ouvidos: Entrega-me a minha Judaíba!

1   ...   28   29   30   31   32   33   34   35   ...   47


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal