Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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CAPÍTULO XI

FATAL IRRESOLUÇÃO

Maurício tinha ido ao conciliábulo da gruta, como tomado de vertigem, como quem se deixa arrastar por torrente fatal, que o vai despenhar por abismos pavorosos.

O tratamento seco e ríspido, que recebera da parte do capitão-mor, não havia posto fim senão momentaneamente a suas cruéis perplexidade. Ainda não se resolvera, nunca se resolveria a levar o ferro e fogo à habitação do benfeitor, que lhe amparara a infância desvalida, o asilo do anjo puro, de quem dependia sua felicidade na terra. Também não lhe era permitido declarar-se contra seus caros compatriotas oprimidos, que nele depositavam tanta confiança, que tantas provas de extrema dedicação até ali lhe tinham dado. Abandoná-lo somente naquelas graves conjunturas seria uma cobardia, uma deslealdade, senão uma traição. Fugir para longe do teatro de tão deploráveis disjunções, e abandonar as duas facções ao seu destino, lavando as mãos sobre as conseqüências de qualquer conflito, era o único alvitre, que lhe restava entre os dois terríveis extremos, em que o destino lhe prendia o espírito em angustiosa perplexidade como entre as garras de tenaz ardente. Mas esse alvitre, se é possível, ainda repugnava mais a seu coração, do que qualquer dos outros dois. Só a idéia de abandonar o capitão-mor e Leonor expostos ao furor e canibalismo daqueles homens sedentos de sangue e de vingança lhe gelava o coração, e arrepiava-lhe os cabelos; seu espírito não ousava deter-se na consideração de tão horríveis calamidades.

- Não, não; eu nunca a desampararei, - refletia consigo; - velarei noite e dia a sua porta como o cão fiel; não me reunirei a seus inimigos, nem irei ao encontro deles; meu posto é aqui, e ai daquele que ousar tocá-la, paulista, ou índio, negro ou forasteiro!... mas Ah ! meu Deus! terei talvez de brandir o ferro contra os meus mais ,caros amigos!... Deus! como é possível achar-se um homem em tão horríveis conjunturas!...

não posso dar um passo, que não encontre um abismo diante de mim ! ... Leonor! ó Leonor! ... inspira-me, anjo do céu! vem me mostrar o caminho, por onde eu possa sair deste infernal labirinto, em que me vejo fatal mente enredado pela mão do destino!

Assim cismava Maurício debruçado à janela de seu aposento olhando tristemente para a casa do capitão-mor. Era na manhã que seguiu-se à noite da reunião na caverna de Irabussu..

- Em que pensas, Maurício? - veio interrompê-lo uma voz conhecida, enquanto mão amiga lhe pousava sobre o ombro. - E' tempo de pôr-se a gente em atividade, e não de ficar aí assim pensativo e a ver moscas voarem.

Maurício, a quem a presença de Gil causava sempre vivo prazer, desta vez sentiu um terrível abalo e estremeceu desde os pés até a cabeça. Sabia que seu amigo vinha exprobrar-lhe suas eternas hesitações, e emprazá-lo ainda uma vez para a reunião na gruta de Irabussu. Pálido e abatido olhou para Gil sem ousar responder-lhe cousa alguma. Dir-se-ia que Gil era um carrasco, que vinha conduzi-lo ao patíbulo.

- Maurício, ou estar conosco ou fugir, - insistiu Gil com voz grave e severa, - não te resta outro recurso.

- Fugir! ... isso nunca! - replicou Maurício estremecendo.

- Bem; pois fica sabendo, que esta noite nos reuniremos outra vez no lugar, que bem conheces. Com parecerás ainda? ficarás outra vez mudo e quedo como um estafermo? ... olha que o teu silêncio pode inspirar desconfianças.

- Não tenhas receio... comparecerei, e exporei francamente tudo que sinto.

Maurício tinha ido àquela reunião noturna, como já dissemos, como que arrastado pelo ascendente fatal que a voz de Gil e a força das circunstâncias iam tomando sobre o seu espírito. Bruxuleava-lhe também no fundo d'alma um pensamento confuso, uma inspiração vaga, que o impelia ir tomar parte ativa na revolta. Em pensamento ainda não tomara forma distinta em seu espírito, e não era mais que um pressentimento, um palpite, a que cedia cegamente. Quando, porém, no seio da espelunca sinistra contemplou os torvos e sanhudos semblantes dos conspiradores, e ouviu-lhes a linguagem exaltada e feroz; e a sede de vingança e de sangue, que lhes estuava no peito e reluzia nos olhos em medonhos lampejos, seu coração gelou-se de pavor antolhando as horríveis conseqüências daquela sanguinolenta revolta.

Muitas vezes tentou erguer a voz não para acompanha-la em suas furibundas execrações e brados de vingança mas para moderar-lhes a sanha e propor planos menos sanguinolentos. Um embaraço inexplicável, porém, um terror il1Sensível o detinha a pesar seu, e Maurício saiu daquele lúgubre subterrâneo ainda mais desanimado, inquieto e abatido que nunca. Todavia a voz de Gil vibrou-lhe n'alma despertando nela um pensamento vago, que a dominava.

Na noite antecedente, como ela já ia adiantada, e convinha que o dia os não surpreendesse na gruta, os insurgentes tinham emprazado nova reunião para a noite seguinte afim de tomarem uma decisão final e decisiva sobre o dia e modo de levarem a efeito sua terrível empresa.

A noite seguinte viu pois de novo reunidos debaixo daquelas broncas e gigantescas abóbadas esses homens sinistros meditando vingança e carnagem, como um bando de lobos esfaimados esperando com impaciência o dia para se arrojarem pelos campos a saciarem sua fome voraz.

Como devia suceder em uma assembléia composta de elementos tão heterogêneos, logo se manifestou a divergência de opiniões, e após ela a confusão e a discórdia. Queriam uns - e esses eram mais numerosos, - que desde já dessem assalto à casa do capitão-mor levando tudo sem piedade a ferro e fogo, tomassem conta da povoação, e apoderando-se de todas as riquezas e belezas dos emboabas se fortificassem ali reunindo mais gente, que não faltaria, pois que em Caeté, Sabará e Ouro Preto sobejavam descontentes, que só aguardavam ocasião oportuna para se sublevarem. Entendiam que só assim, por um levantamento geral, enérgico e vigoroso poderiam quebrar o jugo ignominioso, a que viviam sujeitos.

Estes planos grandiosos, já se vê, não podiam partir' senão de alguns paulistas mais inte1igentes, e nimiamente exaltados, que já pensavam talvez na emancipação da terra natal; os bugres e negros boçais os aplaudiam de todo o coração.

Outros mais modestos e moderados, formando porém um grupo insignificante, opinavam, que eles deviam poupar o sangue o mais que fosse possível, porque as atrocidades dos massacres tornariam odiosa a sua causa; que formando um levantamento imponente pelo número, escudados como se achavam pela boa razão eles imporiam a lei aos emboabas, que não eram em grande número, e conseguiriam, completa reparação das injustiças, vexames e danos sofridos, e se fariam respeitar mais eficazmente de então em diante. Para esse fim convinha dilatar por mais alguns dias a execução do plano, até que se reunisse mais gente; Itabajuna podia ainda reforçar o seu contingente, e pelas imediações havia ainda grande número de paulistas e escravos fugidos prontos a se insurgirem, mas que não eram sabedores daquele plano de sublevação.

Este alvitre, porém, era repelido pela maioria com clamores de reprovação, e até com vaias. Julgavam-no perigoso e com razão, porque os portugueses, que já andavam algum tanto ressabiados, poderiam desconfiar da sublevação, ou mesmo serem dela informados por algum traidor; entendiam que deixar para mais tarde o rebentamento da insurreição era o mesmo que preparar o pescoço para uma corda.

Maurício, todavia, acoroçoado pelas manifestações daquela pequena fração, que aconselhava prudência e moderação, animou-se enfim a pronunciar-se. Exagerando as tendências de moderação, disse que era possível fazer-se uma resistência eficaz e respeitável sem violência alguma, e sem derramar uma só gota de sangue; que o único autor das desgraças, que sobre ele pesavam, era Fernando, o homem mais tredo e perverso que pisava sobre a terra. Procurou justificar o capitão-mor, tendo um lisonjeiro retrato de seu caráter e afiançando suas boas intenções. O algoz era Fernando; era sobre este somente, que chamava os ódios e vinganças. Removido este gênio do mal, as coisas por si mesmas entrariam no seu estado normal; todos gozariam de paz e liberdade, e cessariam todos os vexames, de que até ali tinham sido vítimas. Era de parecer, pois, que reunidos em número suficiente, que pudesse impor, cercassem a casa do capitão-mor, e lhe intimassem com ai !! armas na mão a expulsão de Fernando. Terminou dizendo que um assalto inopinado e traiçoeiro aos emboabas para cometer barbaridades e depredações seria um crime revoltante, um ato de canibalismo, só próprio de selvagens ou de feras bravias, para o qual nunca deveriam contar com ele. Um sinistro sussurro de desaprovação acolheu estas palavras.

- Estamos perdidos! - murmurava um dali, este homem quer nos entregar amarrados de pés e mãos, em poder do capitão-mor.

- Fernando é o braço, - dizia outro dacolá, - o outro é a cabeça; E corte-se a cabeça, que não haverá mais braço para nos ferir.

- Abaixo a cabeça do capitão-mor, de Fernando e de tudo quanto é emboabas, - bradavam todos. - Nada de contemplações! - morra tudo, quanto é emboabas! morra o velho das lantejoulas, e da casaca vermelha!

-Morra !!

- Morra ! morra ! - repetiam os ecos das cavernas com medonhas repercussões.



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