Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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Capítulo XII

A aparição e o refém

Maurício ficou transido de horror e indignação com essas vociferações de feroz canibalismo, e de braços cruzados e olhos fitos no chão esperava, que se amainasse a tormenta, que o ameaçava. Foi em vão; a fúria recrescia, e Maurício amaldiçoava a hora, em que se lembrou de abrir a boca para falar àquela gente bárbara e desvairada pelo ódio. Debalde Gil, Antônio e alguns paulistas mais assisados e prudentes procuraram acalmar os ânimos; a repressão cada vez mais os irritava. Os negros vociferando brandiam por cima da ;cabeça suas facas reluzentes, e os arcos dos indígenas em contínua agitação chocavam-se um nos outros como em suas danças selváticas, com estrépito medonho. A todo este tumulto mesclavam-se gritos imprudentes e doestos provocadores contra os moderados, e principalmente contra Maurício.

- Como em casa do capitão-mor, louvado seja Deus, não tenho ninguém, que me queira bem, - bradou uma voz de entre a multidão, - a primeira cabeça que peço é a do capitão-mor.

- Nem eu, - respondeu outra voz, - não tenho lá nenhuma Leonor... Este terrível doesto foi certeiro ferir o coração de Maurício como uma séta envenenada. O mancebo ficou hirto, pálido, e trêmulo de cólera, de indignação e de asco. Não quisera por cousa nenhuma que a lembrança somente de sua idolatrada Leonor pairasse pelo horror daquelas espeluncas malditas, e muito menos que seu nome fosse profanado por esses lábios satânicos sedentos de sangue. Vibrou olhares ardentes e lampejantes de cólera pela multidão, mas não lhe era possível reconhecer donde partira aquele brado insolente, soubesse, quem o soltara, que no mesmo instante se teria arrojado a ele como a. hiena e o teria cosido a punhaladas.

- Saiba o infame, que acabou de me achincalhar, e que não tem ânimo de apresentar-se, - bradou com acento de furor concentrado, - que é verdade, que existe em casa do capitão-mor uma pessoa, a quem idolatro de todo o meu coração; não tenho escrúpulo nem receio algum de o declarar alto e bom som diante de todos que aqui se acham, e ai daquele, que em minha presença ousar já não digo tocar-lhe as mãos, mas somente proferir-lhe o nome com menos respeito.

- Está tudo perdido I - murmurou Gil consternado, e depois achegando-se de Maurício e tomando-lhe o braço:

- Maurício, - disse-lhe em meia voz e com acento angustiado, - tua imprudência nos perde!...

- Oh! Gil, - respondeu-lhe Maurício no mesmo tom voltando do terrível assomo, que lhe perturbava o espírito, - que hei de eu fazer?... Estes covardes me insultam, não, não posso acompanhar-te com esta turba de feras indomáveis...

Não pôde continuar; suas palavras imprudentes tinham levado ao cúmulo a exaltação e furor, que já lavrava no meio daquela horda ingovernável. Nem a autoridade e prestígio de Gil, nem as diligências de Antônio, nem a intervenção de mais alguns paulistas conseguiram aplacar-lhes a sanha, que cada vez mais recrudescia.

Assim, quando o caçador ao partir para a caça embocando a buzina chama os cães e disparando um tiro dá o sinal da partida não há mais conte-los na impaciência de sair, nem gritos, ordem, nem pancadas, que imponham termo ao alarido infernal de seus uivos, ganidos e incessante ladrar.

Traidor! Traidor! Morra o traidor! - vociferava uma multidão de vozes, e alguns já avançavam sobre Maurício ameaçadores e de arma feita. Gil, Antônio, Bueno e Calixto rodearam Maurício, que imóvel e de braços cruzados se oferecia calmo e resignado ao furor selvático de seus agressores, como quem desejava ali acabar aos golpes daquela turba esvairada para pôr fim a sua tão cruel e angustiosa situação.

Mas eram poucos contra a multidão, que se arrojava furiosa contra Maurício, continuando a bradar morra! Morra o traidor! ...

Gil, vendo que aquele fatal incidente ia levar ao mais desastrado malogro a empresa começada com tão felizes auspícios, reassumiu uma energia suprema. Torvo e imponente, vibrando olhares imperiosos e chamejantes sobre a turba, que o rodeava, alçou-se sobre ela de toda a altura de seu soberbo porte. Dois impulsos, cada qual mais poderoso, a amizade, que lhe mandava salvar o amigo do furor brutal daquela horda enfurecida e o receio do malogro, em que vias prestes a naufragar a causa da insurreição, davam à sua fisionomia um ar terrível, a sua alma uma energia e denodo irresistível.

- Calem-se! Calem-se! Calem-se! - bradaram três vezes com voz estrugidora ferindo rijamente o chão com o pé.

A este brado o revolutear dos vultos e a vociferação frenética cessou como por encanto.

- Loucos, - continuou Gil, - o que pretendem com semelhantes motinarias ?! Se estamos aqui para empregarmos nossas armas um contra os outros, adeus! Que eu e todas as pessoas de algum siso os vamos deixar entregues a si mesmos. O capitão-mor terá pouco ou nada que fazer por que antes de se apresentarem diante dele, já todos aqui se terão estrafegados uns aos outros!

Eu desejo saber quem manda aqui? Temos ou não um chefe? ...

- Temos, sim, - bradaram todos; - és tu, Gil, és tu...

- Nesse caso obedeçam-me. Ai daquele, que levantar a mão contra Maurício! ... Fiquem tranqüilos a respeito de sua lealdade. Maurício têm motivos nobres para querer poupar o capitão-mor e sua família, mas é incapaz de ser contra nós e de atraiçoar-nos... Sim, é incapaz, eu vos afianço, e dou-vos em penhor a minha cabeça.

- Antônio também oferece a sua, - acudiu o índio, - cortem-me esta cabeça como a um vil, se algum dia meu amo nos atraiçoar. Mas por Deus! Não o ofendam, ele não irá dizer nada ao capitão-mor, não; mas saltará sobre vós como o canguçu, e Antônio será com ele.

Dominados pelo tom e atitude imponente e prestigiosa de Gil, secundado pelos esforços de Antônio e de alguns paulistas dispostos a aplacar ou rebater um conflito eminente, os revoltosos se acalmaram por instantes.

Mas a questão, que dividia os ânimos, não estava ainda decidida, e era mister tomar uma deliberação. Continuaram a altercar viva e calorosamente, se deviam ou não assaltar incontinenti a povoação, ou esperar que se reforçassem com maior número. Novas cenas tumultuosas prorromperam, já não provocadas por Maurício, que cheio de angústia e inquietação se recolhera de novo ao silêncio, mas pelos outros, que se exaltavam de mais em mais. Foi Antônio quem desta vez tentou aplacar as procelas intermináveis e sempre renascentes, com sua linguagem tosca, e sua exaltação selvática, mas enérgica e pitoresca

- Que é isto, minha gente! - bradou ele do alto de um pilar quebrado de estalagmite, que galgara de um salto; - que é isto! ... se for só para fazer este berreiro e matinada, que aqui viemos, Antônio vai-se embora; não contem mais com ele. Tenham mais respeito a este lugar; esta é a caverna de Irabussu, meu tio do mato, pajé sagrado, que conversava com Tupã. Irabussu falava pouco e não gostava que berrassem a seus ouvidos. No entanto ele era o terror dos emboabas; por artes de Irabussu cinco deles morreram por estas buracadas, e aí ficaram para sempre sepultados; suas ossadas ainda por aí andam espalhadas pelo chão; suas carnes foram comidas pelas onças e outros bichos do mato. Irabussu também quis aqui morrer. Seu espírito de certo volteia por essas sombras a pedir vingança; vingança por ele e por sua filha, que lá está gemendo na escravidão em poder do emboaba! Se Irabussu fosse vivo, ele apareceria entre nós, e nos viria ensinar o que devemos fazer para dar cabo de nossos opressores. - Ó Irabussu! Irabussu! - bradou com toda a força o jovem índio voltando-se para o fundo da caverna, como pitonisa inspirada sobre a trípode evocando as sombras dos mortos.

- Irabussu! - respondeu uma voz longínqua e surda das profundidades da caverna. Todos cuidaram ser um desses ecos, a que já estavam habituados, e que do seio das cavidades repercutia a última palavra de Antônio.

- Irabussu! - reboou de novo a mesma voz, como rugido surdo da pantera, porém já mais visinha e mais distinta. Todos volveram olhos espantados para o lado, donde partia aquela voz estranha. Daí a instantes, por entre as sombras do limbo tenebroso foram-se desenhando as formas confusas de um fantasma colossal, esguio e pavoroso, que avançava lentamente para eles.

Aqui está Irabussu!... que querem dele ... rosnou o espetro com voz fúnebre e gutural. Ninguém duvidou que era a sombra ou o espírito de Irabussu, que surgia daqueles túmulos cavados pela natureza, e todos espavoridos, com os cabelos hirtos e o coração gelado de pavor encaravam o temeroso fantasma, sem que ninguém ousasse dirigir-lhe a palavra. O próprio Antônio, que nunca pensara que o velho bugre acudisse à sua evocação, estava oprimido de assombro. Gil, Maurício e outros, que nunca haviam tremido diante de cousa alguma deste mundo, estavam transidos de pavor até à medula dos ossos. Foi entretanto o próprio Antônio, quem se abalançou a falar ao medonho fantasma.

- Já que nos apareces, Irabussu, - balbuciou o índio com voz trêmula e apavorada, - estejas vivo ou morto, dize-nos o que devemos fazer para vingar-nos de nossos tiranos, e revela-nos também o segredo dessa mina, que contigo guardavas, e que levaste contigo para a sepultura. Não temos sede de ouro, como esses malditos emboabas, tu bem sabes; mas precisamos dele para vingarmos a ti, a nós iodos, e livrarmos a tua Judaíba, que até hoje lá geme na escravidão.

- Quando os filhos da terra de Tupã tiveram derramado a última gota do sangue do emboaba, Irabussu lhes dará ouro aos montões, - disse pausada e solenemente o espetro, e de novo embrenhou-se pelas lôbregas sombras, donde surgira, e onde ninguém ousaria penetrar.

Repassados de assombro os insurgentes ficaram por largo tempo silenciosos entreolhando-se espantados. O pavoroso fantasma viera lançar-lhes nos ânimos mais tenebroso e poderoso incentivo para excitar a fúria da vingança.

Esse ouro, que lhes prometia aos montões, tornou ainda mais ardente a sede, que tinham ao sangue do emboaba. Recresceu o tumulto e a gritaria, e muitos, queriam naquele mesmo instante abalarem-se para assaltar a povoação.

O assombro porém e a consternação, que lançou sobre o espírito de Maurício a fatal aparição, é o que a custo se poderia imaginar. Tudo se lhe afigurou então com as cores as mais lúgubres e sinistras. Não era mais possível conter a lava impetuosa, que brotava daquela cratera incandescente. Pintava-se lhes na imaginação aquela horda feroz e desenfreada, sedenta de sangue e de ouro caindo de chofre sobre a povoação, massacrando tudo sem piedade, entrando furiosa em casa do capitão-mor com os pés cobertos de lama sangrenta, penetrando nos recatados aposentos de Leonor, ultrajando-a, trespassando-a de punhaladas, ou talvez pior ainda ... talvez com brutal cinismo violando-lhe a pureza imaculada! Entre tão horríveis imagens o sangue lhe aflui a à cabeça, sentia calafrios, um suor gélido lhe porejava da fronte, e os objetos se lhe apresentavam aos olhos desvairados como cingidos de uma auréola de sangue. Não pôde mais se conter, soltou um grito de alucinação:

- Tirem-me daqui !... tirem-me daqui, ou matem-me, - bradou com o acento do terror e do desespero.

- Que tem, Maurício, que tem ! - exclamou Gil acudindo inquieto e pressuroso ao seu amigo.

- Oh! arranquem-me daqui por piedade. Não; não serei eu nunca, que mancharei minhas mãos no sangue dos...



  • Cala-te, Maurício, - atalhou sofregamente Gil, - cala-te, por piedade também te peço ... mais um pouco de paciência...

  • Não puderam continuar; uma grita enorme abafou lhes as falas. A exclamação de Maurício tinha de novo despertado todas as desconfianças dos insurgentes.

- Morra! morra o traidor! - bradaram de novo.

- Já disse, - gritou Gil, - que respondo por ele com minha cabeça; serei também traidor?... O dia não pode tardar; é tempo de nos dispersarmos; na noite próxima veremos o que se deve fazer...

- Sim! Sim! - responderam muitas vozes, - mas esse homem ou deve morrer, ou daqui não há de sair, enquanto não acabarmos a nossa empreitada. Fiarmo-nos nele, oh ! ... nunca! nunca mais!...

- Nunca! nunca mais!... repetiram muitas vozes. - Matem-me, ou deixe-me sair, bradou Maurício em desespero.

- Sair nunca!... morra! morra! Vociferaram alguns já avançando para Maurício de punhal alçado.

- Não morrerá enquanto Antônio viver, - exclamou o índio saltando em defesa de Maurício e colocando-se diante dele.

- Pois então aqui ficará preso até levarmos a cabo a obra de nossa vingança...

- Nunca! Rugiu Maurício como tigre enfurecido; - ou hão de matar-me, ou hão de deixar-me sair livremente.

- Nesse caso morra!...

- Não há de morrer! - replicou Antônio com voz firme e imperiosa; - deixem-no sair; eu ficarei por ele aqui nesta gruta, bem guardado e vigiado, sem comer nem beber, amarrado de pés e mãos, se o quiserem ... Eu aqui ficarei e no momento em que souberem que meu patrão Maurício nos atraiçoou, cortem imediatamente a cabeça de Antônio.

- Que fazes, meu bom amigo ! - disse-lhe Maurício; - deixa-os, que me matem; eu sou um desgraçado que para nada posso mais ser útil neste mundo; a vida de hoje em diante me é um peso insuportável. Deixa que me matem.

- Vá-se embora, patrão; vá, eu ficarei por Vm.

- Vamos, vamos, Maurício, - disse Gil travando-lhe fortemente do braço, e arrastando-o quase à força para fora da caverna.

Os insurgentes atônitos e comovidos com a dedicação do generoso índio o aceitaram em. refém e fiador da lealdade de seu patrão, e não ousaram mais opor-se à saída deste.

Assim pois se debandou anarquicamente ainda a reunião daquela noite sem nada ter-se resolvido definitivamente.

Distando a gruta cerca de légua e meia do povoado, os paulistas, que nele residiam, precisavam entrar ainda com as sombras da noite, um por um e com todas as precauções afim de não despertar, em suspeitas. 0s índios e negros fugidos embrenharam-se pelas matas procurando seus coutos conhecidos.

Se bem que o refúgio daquela espelunca fosse até ali completamente ignorado dos emboabas, Gil todavia julgou prudente estacionar ali alguns vigias permanentes, afim de que, se por acaso alguém viesse a descobri-la, os insurgentes pudessem ter aviso e tomar as medidas convenientes.

Era ali pois o quartel e o depósito de armamentos e munições. A essa escolta ficou entregue Antônio, não amarrado de pés e mãos, porém guardado com a mais severa vigilância.




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