Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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Capítulo XIV

Trágica interrupção de uma entrevista amorosa

Maurício tinha razão; o único meio eficaz, que lhe restava, de proteger o capitão-mor e sua família contra o furor dos revoltosos era pôr-se ele próprio à testa da revolta. Tomada esta resolução extrema imposta por sua situação desesperada, não pôde entretanto resolver-se a ir tomar a direção da empresa fatal sem ir ver a sua Leonor, sem dizer-lhe um adeus, que talvez será o derradeiro, sem explicar-lhe. Mas o que poderá ele explicar-lhe?... nada lhe poderá revelar; mas é forçoso dizer-lhe alguma cousa, que a tranqüilize, e que justificando-o aos olhos dela faça com que para o futuro não venha a duvidar de seu amor e lealdade. Irá mentir, embora!... dirá, que compelido pelas circunstâncias e para fugir ao ódio de Fernando, que o persegue, vai desaparecer por algum tempo, ou talvez para sempre, se a sorte lhe não for propícia.

Para isso lhe é precisa uma entrevista particular com Leonor, idéia a que jamais se abalançara a ousadia do mancebo. Esse passo é de extrema dificuldade e quase impossível; Maurício, porém, o considera absolutamente necessário, imprescindível. Em vista do tratamento, que ultimamente recebera de Diogo Mendes, vedava-lhe o pundonor apresentar-se em casa dele; portanto nem lhe era possível avisar Leonor deste seu intento e pedir-lhe a permissão, bem como lugar e hora para a entrevista.

Tinha porém Maurício um grande e excelente recurso à sua disposição para achar-se em presença de Leonor a sós e sem ser visto por ninguém, no jardim que ficava por baixo do terraço, que, como sabe o leitor, era o lugar de recreio ou de recolhimento, em que Leonor costumava desabafar na solidão as magoas e saudades, que lhe oprimiam o coração. Era este jardim cercado por altos muros; não seria por cima deles que Maurício procuraria ingresso. Enormes e ferozes cães o vigiavam por fora, e pelo menos dariam alarma por toda a casa, se alguém tentasse galgar esses muros.

O jovem paulista ao construir a casa de Diogo Mendes tinha por ordem expressa dês te feito praticar nos aposentos do capitão-mó r uma porta oculta, e uma escada, que descia a um caminho subterrâneo, que ia respirar muito longe por fora dos muros da quinta...

Os esconderijos, portas e escadas secretas eram nos tempos coloniais muito comuns nas casas e fazendas dos homens ricos e importantes para terem um. refúgio ou meio de evasão em caso de perseguição política, ou de alguma sublevação do povo, ou dos escravos, ou de alguma irrupção de índios. A um desses esconderijos um dos inconfidentes de 17... deveu escapar às garras dos ferozes agentes do governo da metrópole.

O caminho subterrâneo passava por baixo do jardim de Leonor, e não seria preciso a Maurício mais do que levantar uma das lages não mui pesadas, que serviam de pavimento às, ruelas do pequeno jardim, para nele se apresentar como um fantasma surgindo da campa. Ora como sobre este jardim só davam as janelas dos aposentos de Leonor, nenhum perigo havia de ser visto senão por ela. Esta comunicação secreta só era sabida pelo capitão-mor e Maurício; a própria Leonor não tinha ainda conhecimento dela.

Por largo tempo hesitou Maurício em sua escrupulosa consciência, se deveria aproveitar-se desta facilidade por ele mesmo criada não para fins indignos, pois respeitava Leonor, como se respeita o que há de mais santo. e sagrado, mas somente na previsão de futuras eventualidades. E de feito as circunstâncias especiais, em que a vinda de Fernando veio colocar a infeliz Leonor, iam em ordem a justificar as apreensões de Maurício.

Nessa noite Leonor, como era de costume antes de recolher-se, foi debruçar-se ao alpendre do terraço, e ali demorou-se largo tempo acabrunhada de cuidados, e entregue às mais sombrias e dolorosas imaginações. Era em agosto, fazia calor, e um escasso luar penetrando a custo através da espessa caligem, que toldava a atmosfera, mal alumiava as formas vagas das montanhas e os vales silenciosos, onde nem a mais leve brisa agitava os topes dos arvoredos naquelas desoladas regiões. A povoação sepulta na mais profunda mudez parecia completamente erma, posto que fossem quando muito nove horas. A opressão, que Fernando fazia pesar sobre os habitantes do lugar recalcava mudos e desalentados no fundo de seus lares sem alegria aqueles, que não andavam pelos matos aguçando o punhal da revolta. Nem uma cantiga, nem o som de uma guitarra, nem o rumor de uma conversação acordavam aqueles ecos como que recolhidos ao silêncio de uma pavorosa expectação.

Leonor também sentia sua alma apavorada e entregue às mais lúgubres apreensões. Ignorava o rompimento de seu pai com Maurício, e a falta de freqüência deste em sua casa, bem como o desaparecimento de Antônio ,causavam-lhe a mais dolorosa e pungente inquietação.

- Ai de mim! - gemia ela consigo na solidão de sua alma; - nunca me vi tão sozinha e desamparada! que terá havido entre meu pai e Maurício, que este não aparece mais aqui ?... e Antônio, que aqui vinha sempre tão alegre e esperançoso festejar a sua índia, o que será feito dele ?... Só vejo em volta de mim rostos sombrios e ferozes. Essas duas companheiras, que aqui vivem prisioneiras junto comigo, a pobre Helena, e a coitada da Judaíba, são duas crianças, mas assim mesmo são elas somente, que às vezes me sorriem e me consolam! são mais felizes que eu; conversam, brincam, riem, e eu não tenho boca senão para lastimar-me, não tenho olhos senão para orar neste desterro, a que vivo condenada!... Oh! minha boa terra de S. Paulo!... ah ! meu pai! ah! Maurício! Maurício!... por que desgraça viemos parar aqui !...

Súbito viu erguer-se como por encanto uma pedra, que lajeava uma das ruazinhas do jardim, e logo após surgir a cabeça e o vulto de um homem.

- Jesus!... exclamou Leonor pálida e trêmula recuando espavorida.

- Não se assuste, D. Leonor, - apressou-se em responder o vulto com voz abafada; - sou eu, Maurício.



  • Maurício!... ah !... mas como!... e para que fim vem aqui ?...

- Perdoe-me, senhora, perdoe-me este atrevimento... Declare-me primeiramente, que me perdoa; depois eu lhe explicarei tudo.

- Perdôo, sim, perdôo, - disse Leonor balbuciante de emoção, - perdôo, mas...

- Ah! senhora, muito tenho a dizer-lhe, mas permita-me, que suba, ou ,desça a senhora ao jardim: se alguém nos ouvisse a voz...

- Mas, senhor Maurício, eu não devo... - balbuciou a moça hesitando.

- Tranqüilize-se, D. Leonor; eu a respeitarei como se respeitam os anjos, como se respeita a própria divindade, - replicou Maurício subindo os degraUB da peque.... na escada de cantaria, que subia ao terraço.

- D. Leonor, - continuou ele, - é preciso que falemos baixo e que nos envolva o maior mistério, que for possível. D. Leonor, perdoa-me !...

E dizendo isto o mancebo postava-se de joelhos aos pé de Leonor perturbado, arquejante e trêmulo de emoção. EI:a a primeira vez que se via assim a sós e misteriosamente em face dela.

- Levante-se, senhor!... oh ! presença aqui !... meu Deus!... nando sabem...

- Nada saberão, senhora; ninguém pode adivinhar esta entrevista, porque só eu sei do caminho, que aqui me conduziu. Não foi de certo para lhe fazer uma declaração de amor, que me animei a dar este passo; oh ! não era preciso; a senhora sabe, que eu adoro-a, mas... de circunstâncias fatais...

O mancebo interrompia-se e hesitava sem saber o que diria a Leonor.

- Ah! diga, - atalhou esta na mais viva inquietação, - diga, o que há demais?...

- Bem me custa dizer-lhe, mas é forçado a deixá-la, e venho dizer-lhe derradeiro!

- Que diz, senhor!... quem o obriga a deixar-nos !...

- Fernando, que me persegue, e acabará por me perder, e seu pai, que desconfia de mim, que me ameaça e me expele de sua casa. Sim, senhora, é preciso sumir-me, fugir para bem longe, e que ninguém saiba de mim para que não seja vítima das negras perfídias maquinações infernais de seu indigno primo.

- Oh ! - meu Deus! meu Deus! ainda mais este golpe!...

Exclamando assim Leonor cravava os olhos no céu com a mais angustiada expressão e apertava consultivamente as mãos sobre os seios ofegantes. Seu porte altivo e esbelto dobrava-se ao peso da dor, que a oprimia, e desenhava-se junto ao alpendre como a estátua da angústia nos mais ideais e harmônicos contornos.

- Oh! não; não é possível, que me deixe assim desamparada, - continuou ela; - tem ânimo para isso, senhor Maurício?!... pois não nos será possível desconcertar as intrigas e' perfídias de Fernando, desfazer-lhe as maquinações e resistir a suas perseguições?...

Maurício a contemplava sem responder; sua esplêndida beleza naquela penumbra misteriosa inspirava-lhe já não só amor, mas certo assombro, certa emoção solene, como até ali nunca sentira. Já ia de novo lançar-se a seus pés, tomar-lhe a mão e cobrindo-a de ardentes beijos dizer-lhe: - Não, não, Leonor! nunca te abandonarei; aqui ficarei a teus pés velando noite e dia...

Um rumor longínquo, que pouco a pouco vinha se aproximando, os veio sobressaltar e interromper-lhes as confidências. Era uma vozeria confusa de altercações, gritos e lamentos, e dentre em poucos momentos os dois amantes puderam ouvir mais distintamente algumas palavras e frases soltas.

- Foram os malditos paulistas, que o mataram, não há dúvida, - bradavam as vozes. - Pobre Minhoto !... ainda hoje de manhã tão contente, tão cheio de vida, e agora... - Ai, meu Deus!. nesta terra anda-se com um pé na sepultura,!... Terra de ladrões e assassinos!... enquanto não dermos cabo destes paulistas !...

Ouvindo estas vozes soltas Leonor e Maurício compreenderam tudo que havia. Percebendo que o grupo se dirigia para a casa do capitão-mor, e viria pôr em alvoroço todos os seus habitantes:

- Adeus, D. Leonor ! - disse Maurício com rapidez; - é preciso separarmo-nos já e já. Voltarei amanhã; permite?...

Leonor não respondeu, mas estendeu a mão a Maurício, que nela imprimiu um beijo repassado de respeito e de amor.

A filha de Diogo Mendes correu consternada a encerrar-se em sua câmara, e Maurício de novo desapareceu como um duende debaixo da lajem do jardim, e correndo com toda a presteza foi mais de perto espreitar sem ser conhecido, o que significava aquele rumor e ajuntamento. Alguns emboabas conduziam um cadáver em uma rede; a estes vieram se ajuntando pelo caminho muitos outros, que formavam em torno da fúnebre rede aquele préstito sinistro, e aquele coro de imprecações, gritos, blasfêmias e lamentos. O cadáver era do Minhoto, que já conhecemos como um dos mais opulentos mineiros do lugar, e como um dos mais avaros e abjetos de entre os mortais. Tinha ele nessa manhã saído a caçar veados em companhia de mais três ou quatro de seus patrícios dirigindo-se pelas margens do Rio das Mortes águas acima. Tendo ficado sozinho em uma espera, seus companheiros, que se tinham ido postar em outras em pontos muito remotos, aí se conservaram por largo tempo em seus postos atendendo ao toque dos cães. Por fim perceberam que o veado, ou qualquer que fosse a caça, se dirigia para o lado do Minhoto, e ouviram-no atirar. Correram para o ponto, onde ficara de espera, e ali não encontraram nem Minhoto, nem veado, e nem a cavalgadura, e só ouviram a batida dos cães, que lá iam perseguindo um veado pela floresta além, Sobremaneira aflitos entraram a gritar, a dar tiros, a ver se o homem acudia; foi debalde, A tarde inteira assim andaram gritando e campeando por todos os cantos sem resultado algum. Enfim, à boca da noite, guiados pelos cães, que voltavam do mato, foram dar com o pobre homem já cadáver, estendido à beira de um córrego, banhado em sangue, e com o peito atravessado de muitas zagaiadas. Consternados, cheios de dó e terror os caçadores atravessaram o cadáver sobre um dos animais, e o vieram conduzindo, enquanto um deles a toda pressa corria ao povoado dar parte do ocorrido, e trazer uma rede para poderem levar o cadáver com mais decência e comodidade para a povoação, onde chegaram à hora avançada, em que os vimos entrar.

Maurício, postado em lugar onde não podia ser percebido pela multidão, os viu chegarem entre alaridos e lamentações à casa do capitão-mor, e entrarem no pátio. Diogo Mendes, Fernando, e todos de casa imediatamente acudiram de tropel à varanda, e começaram a indagação do fato, que foi exposto de um modo tumultuoso querendo todos falar ao mesmo tempo. Como falavam em altas vozes, Maurício de fora do pátio pôde ouvir tudo e ficar inteirado de todo o ocorrido.

- Isto não é senão obra desses malvados paulistas, - bradavam quase todos; e não pode ser outro senão o Calixto, que a muito tinha sede do sangue deste infeliz, e o tinha jurado por autor da filha do ferreiro.

- Tal e qual, senhor capitão-mor, o Minhoto não tinha aqui indisposição com ninguém mais; era um bom homem, que a ninguém fazia mal; é o Calixto; não pode ser outro.

- Pois bem, - gritou o capitão-mor, - vão depressa à casa do Calixto, e tragam-no já aqui amarrado à minha presença, e bem assim todos os paulistas, bugres ou pessoas suspeitas, que encontrarem por aí vagando.

Imediatamente uma numerosa troça de portugueses entre ameaçadoras vociferações se pôs em marcha para a casa de mestre Bueno. Maurício calculou, que àquelas horas Bueno e Calixto deveriam estar ao menos em caminho para a gruta; mas não tinha disso certeza. Em qualquer das contingências o caso era grave. A ausência deles a tais deshoras seria um indício altamente (comprometedor para eles e para todos os paulistas. A presença porém ainda mais funesta seria, porque iria entregar ao furor e perseguição dos emboabas aqueles bons, prestimosos e valentes companheiros, e em todo caso aquele fatal incidente poderia gorar a revolta com grande dano para seus patrícios. Compreendendo tudo isto Maurício entendeu que lhe cumpria antes de tudo procurar salvar seus dois amigos das garras dos portugueses para depois pensar no que conviria fazer.

A pé como se achava bota-se a caminho, e chega muito antes do que os emboabas à casa de mestre Bueno, onde felizmente já ninguém encontrou. Lembrando-se que também poderia ser procurado para averiguações, e que se não fosse encontrado em casa despertaria também graves suspeitas contra si, voltou com mais celeridade ainda do que tinha ido, desviou-se e escondeu-se cautelosamente dos emboabas, que iam em diligência subindo a encosta, e em menos de um quarto de hora achou-se em casa. Felizmente nem o capitão-mor, nem Fernando se lembraram de chamar a ele, nem o Gil, que também não encontrariam em casa, ficando para o dia seguinte a continuação das averiguações por ir a noite muito adiantada.

Já passava muito de meia noite; Maurício, vivamente preocupado com a idéia daquele incidente e extenuado de fadigas e emoções, ia lançar-se no leito, quando lembrou-se de Antônio, que lá deixara na gruta exposto por amor dele aos punhais, zagaias e flechas de uma turma feroz e desconfiada, e estremeceu ao pensar, que talvez já fosse tarde, amaldiçoando a fatal ocorrência do assassínio do emboaba, que ainda mais arriscada vinha tornar a já tão crítica e melindrosa situação dos insurgentes.

Já se tinham esvaecido todos os rumores, as portas se haviam fechado, e tudo parecia adormecido em profundo silêncio. Maurício correu à cavalariça, arreou a pressa o seu melhor animal, e depois de ter saído lenta e cautelosamente da povoação, meteu esporas ao cavalo e partiu a bom galopar em direção à gruta de Irabussu.




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