Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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Capítulo XV

O tição fatídico

Enquanto estes fatos, de 'que viemos de dar conta, se passavam na povoação, sucessos não menos importantes se davam na gruta de Irabussu.

À hora, em que Maurício era distrai do violentamente da sua entrevista com Leonor pelos rumores do assassinato do Minhoto, os insurgentes, já reunidos em grande número, uns sentados em roda do fogo, outros movendo-se e conversando misteriosamente pelos recantos da caverna escassamente alumiados, esperavam com impaciência a vinda de Maurício, e de Gil, seu chefe, que ainda não tinham aparecido.

Estendido sobre um grande pedaço de estalagmite a alguns passos da fogueira, fazendo travesseiro de um dos braços e com o rosto voltado para o fogo, Antônio dormia tranqüila e profundamente. O clarão da fogueira aluminava-lhe as faces bronzeadas e os musculosos membros, que se desenhavam em linhas vivas e harmoniosas sobre a rocha branquicenta; dir-se-ia estátua de lavor admirável, moldada em bronze e servindo de ornato a um catafalco de mármore. Junto dele um negro e um bugre, sentados no chão um do, lado dos pés, outro da cabeceira, o cotovelo firmado sobre a pedra, que servia de leito ao prisioneiro, e a cabeça encostada a uma palma da mão, formavam com Antônio o mais pitoresco e curioso grupo escultural. Estavam encarregados de guardar Antônio com a maior vigilância afim de estorvar-lhe qualquer tentativa de fuga. Se conhecessem bem o caboclo, se soubessem a que ponto chegava sua dedicação e lealdade, e a confiança fanática, que depositava em seu patrão, ter-se-iam forrado a tantas vigílias e precauções.

- Com mil diabos!... que demora! - diziam os insurgentes impacientados. - Isto ainda nos põe a perder; e se nos acontecer algum transtorno, a culpa, já se sabe, é de Gil ou desse tal senhor Maurício, que só Serve para nos atrapalhar. Não sei que mais esperam.

- Com Maurício ninguém deve contar; a filha do capitão-mor o traz pelo beiço, e muito será, que ele nos não entregue...

- Tão digas isso!... pois ele será capaz de deixar morrer esse pobre bugre, que por ele dá a cabeça ?...

- Eu sei, lá, homem!... o amor é mais forte que a amizade, e portanto não é de admirar que ele cá não venha.

- Vem, - afirmou um paulista no tom da mais firme convicção; - Maurício é incapaz de uma traição; e não vindo ele seria duas vezes traidor, traidor à amizade, traidor a seus patrícios.

- E vindo, - replicou outro, - também será duas vezes traidor; atraiçoa a amizade do capitão-mor, que foi quem o fez gente, e ao amor, que tem à sua filha.Traição por traição é bem possível que antes queira atraiçoar a nós.

-Com efeito!... vejam em que talas está metido o pobre homem!... não tem por onde se mexer...

- Talvez ache meio de safar-se sem trair a um nem a outros; não o julgo capaz de uma infâmia.

- Venha ou não venha, o certo é que não podemos contar com ele; mas o Gil... não sei por que tanto se demora... mas ei-lo que chega!... ainda bem!... já não nos falta tudo.

- Já não nos falta nada, deverias dizer.

De feito Gil vinha entrando na gruta. Sua presença foi saudada com demonstrações de prazer e entusiasmo por aqueles infelizes, que suspiravam pelo momento de libertarem-se da bárbara opressão, que os esmagava. Gil, vítima não menos perseguida e maltratada do que eles, jovem cheio de franqueza e lealdade, de altivez e resolução, inspirava-lhes a mais decidida confiança.

O primeiro cuidado de Gil foi perguntar por Maurício. Sabendo que ainda não era chegado anuviou-se lhe a fronte e tornou-se pensativo. Antes de sair do povoado para dirigir-se à gruta tinha ido à casa de Maurício justamente ao tempo em que este galgava a serra do Lenheiro para dar aviso a Bueno e Calixto do que se passava. Gil, que ignorava ainda a terrível ocorrência dessa noite, não achando em casa o seu amigo, supôs muito naturalmente que já teria partido para a gruta, e para lá botou-se também com toda a presteza. Pode-se imaginar qual não seria a sua inquietação e ansiedade não o encontrando ali. Tinha plena e íntima convicção de que Maurício era incapaz de uma traição; mas a sua ausência incutia-lhe as mais graves apreensões pensando em mil funestas eventualidades, que poderiam motivar aquela falta. Não estando em casa, não se achando com Calixto ou Bueno, que ali estavam presentes, onde poderia ele achar-se? não era possível ter-se transviado ele que melhor que ninguém conhecia não o caminho, que nenhum havia, mas a direção da gruta. Inquieto e altamente contrariado, Gil estava a ponto de sair de novo em procura do amigo; mas não o .consentiram os companheiros, a quem o ar sombrio de Gil começava a inspirar graves desconfianças por conta de Maurício.

- Passamos bem sem ele, - diziam, - um homem assim também, quando não seja um perigo, é sempre um estorvo em empresas desta ordem...

- E se nos atraiçoar? - dizia outro.

- Nunca o fará; eu o juro por minha alma, - replicou Gil com vivacidade.

- E se o fizer, tanto pior para ele; a vida lhe há de custar. Tenho pena é desse caboclo, que ali está a dormir tão sossegado, coitado! e nem sabe quanto à cabeça lhe está mal segura sobre os ombros.

- É mais um penhor seguro, - insistiu Gil, - de que Maurício mais tarde ou mais cedo aqui se achará conosco, salvo se alguma fatalidade...

O diálogo é neste momento interrompido pelo súbito e quase maravilhoso aparecimento de um vultozinho ligeiro, franzino e leve como um sagüi, que saltou no meio deles como por encanto sem se ver donde viera, nem por onde havia entrado.

Vinha extravagantemente trajado com roupa listrada de cores vivas e carapuça vermelha.

- Virgem santa!... que é isto! - exclamavam recuando espavoridos. - É o capeta! - cruz!... credo!... ave Maria!

E todos aterrados pensaram ver um duende, ou o filho de Satanás em pessoa surgindo no meio deles.

- Não se assustem; sou eu, - gritou o vulto fazendo uma pirueta e dando uma gargalhada - pois não conhecem o Tiago ?...

- Fora! fora este maroto! - bradaram alguns, - quem te chamou aqui, malandro?...

- Fora não, - replicaram outros. – Acabemos com ele; se sair daqui, este patife é bem capaz de nos ir entregar.

Antes de prosseguirmos, digamos por que maneira o mameluco tinha vindo à gruta, e quais suas intenções. Esse diabrete, que em tudo se metia imperceptivelmente como piolho por costuras, com o seu tino e perspicácia diabólica tinha cismado, como já dissemos, que se tramava uma sublevação, e comunicara a Fernando suas desconfianças. Instigado pela natural malvadeza e também pelas promessas do amo, assentou de seguir os vestígios da conspiração a fim de descobri-la a toda luz, e entendeu que o verdadeiro meio para isso era procurar tomar parte nela.

Uma vez conseguido isto fácil lhe seria atraiçoar uma ou outra parte, ou a ambas. Como tinha cabimento em todas as casas o velhaquete, assim como lisonjeava todas as paixões de seus amos, simulando por eles a mais submissa e afetuosa dedicação, entre os paulistas aplaudia-os e instigava-os em seus ressentimentos, mostrando-se um dos mais encarniçados inimigos dos emboabas, no que não mentia, pois o diabrete parecia odiar todo o gênero humano.

Para dar começo a seus planos foi ter com mestre Bueno, com quem tinha relações antigas, e deu-se por sabedor de tudo. Com desmarcado atilamento, e com instinto quase divinatório e, como se costuma dizer, plantando verde para colher maduro, mostrou que estava ao fato de quase tudo, que se tramava.

Bueno, que conhecia o mameluco desde S. Paulo, e nunca se iludira a respeito de sua índole treda e perversa, ficou surpreendido e inquieto ao último ponto com as declarações do rapaz.

- E como soubeste disso tudo ?... perguntou-lhe com desconfiança.

O velhaquete deu-lhe a mesma resposta, que já havia dado a Fernando:

- Tenho aqui um dedinho, que me conta tudo. Mas não se assuste, meu velho; sou eu só quem sei, eu só e mais ninguém, e juro-lhe, que me arrancarão antes a língua do que uma só palavra a tal respeito.

- Olha que te matamos, se fizeres alguma tratantada !...

- Como hei de fazê-la, se eu quero também ser da partida, e é para isso que o vim procurar...

- Ah !... tu queres ser dos nossos!... umh ! resmungou o velho; - não sei!... que mal te fizeram teus amos para seres, contra eles ? ... olha, que os queremos matar a todos um por um.

- Tal é também meu desejo; tenho sede do sangue dessa canalha... Vm. não faz idéia do quanto me fazem sofrer; se eu fosse lhe contar agora seria um nunca acabar... mais tarde lhe contarei tudo... mas diga-me, aceitam-me ou não ? olhem, que posso ajudá-las mais do que ninguém.

- Disso estou eu certo; és o macaco mais ardiloso, que conheço.

- Pois então?

- Pois então... não sei o que te diga.

- Como não sabe? !... não está tudo pronto?... mais um companheiro que mal faz?...

- Eu sei lá, rapaz; bem vejo que só a ferro o que se pode levar essa canalha, que nos quer por o pescoço; mas por ora não sei de nada; vai-te com Deus!

- Não sabe!... mas se eu lhe digo, que sei de tudo.

- De que sabes, maldito?... bradou Bueno perdendo a calma.

-Ora de que sei!...já não lhe disse ... Vossemecês, seja lá onde for, se ajuntam todas as noites, e de certo não é para nenhum folguedo. Se vossemecê não quer ser da partida, eu cá hei de ser por força.

- Infame ! - ia bradar o ferreiro com o punho fechado sobre a cabeça do mameluco; mas reportou-se a tempo, calou-se e ficou pensativo. Depois de refletir alguns instantes convenceu-se que não havia remédio senão admitir aquele novo adepto na sublevação, que projetavam. Era um sócio na verdade, mas como recusá-lo, se de tudo estava informado e tinha-se iniciado a si mesmo?...

Tiago ficou pois inteirado da existência de um plano de revolta contra os emboabas, ou antes suas suspeitas tornaram-se certeza; só lhe faltava saber o lugar, onde se reuniam os insurgentes. Bueno não lho quis revelar, mas o matreiro caboclo jurou consigo que havia de descobri-lo. A poder de espionar fora de horas, e de acompanhar invisível, como um silfo noturno, os vultos, que via, na noite do mesmo dia, em que estivera com Bueno, soube da existência e do caminho da caverna de Irabussu. No dia seguinte lá foi de novo examinar.Já

melhor à luz do sol por fora e em derredor, não ousando entrar por ter ouvido uns sons como de voz humana no interior. Depois flanqueando o morro, em cuja base se abre a gruta, galgou-lhe o tope, e penetrando no mato, que lhe cobre o cimo, aí examinou tudo com minucioso cuidado. Viu as frestas, que se abriam na cúpola, notou as grossas raízes, que árvores gigantescas embebiam pelas fendas dos rochedos, e que estendendo-se de alto a baixo pelo vão da abóbada como as cordagens de um navio vinham cravar-se no rochão úmido da gruta a beber o suco, com que alimentavam por cima de áridas rochas calcáreas

a mais viçosa e robusta vegetação. Empoleirando-se em um friso dessas broncas claraboias, quê se abriam no cimo, da cúpola e derramavam no interior uma frouxa luz crepuscular, agarrando-se às raízes e aos cipós e suspenso a vinte metros rucima do chão não sem grande perigo pôde examinar a gruta e formar uma tal ou qual idéia de seu interior, e o que mais é, pôde bruxulear e reconhecer naquela pavorosa penumbra alguns dos vultos, que lá se achavam, e ouvir-lhes as falas, pois falavam alto e bom som na crença, em que estavam, de que era impossível que algum ser humano os pudesse ver ou ouvir.

Ali conservou-se largo tempo a espreitar e escutar; pelas conversas, que ouviu posto .que mal e confusamente, e pelo que já sabia e desconfiava ficou plenamente informado de todos os segredos da sublevação. Tinha conhecido perfeitamente não tanto a figura, como a voz de Calixto, de Bueno e outros paulistas, que depois do assassinato do Minhoto ali se conservavam noite e dia sem ousar voltar à povoação. Conheceu também a Antônio e depreendeu de várias falas os motivos especiais, por que Antônio ali se achava detido, a desconfiança, que havia contra Maurício, e várias outras particularidades. E assim ali ficou o perverso diabrete durante toda a tarde e um bom pedaço da noite espiando e escutando para melhor inteirar-se de tudo até o momento, em que o vimos, escorregando por uma das raízes, que se prendiam a cúpula da 'Caverna, pular entre os insurgentes com toda a audácia e seguridade, de quem tinha entre as mãos a sorte deles.

- Se soubessem o motivo, que aqui me traz, - respondeu ele às ameaças dos insurgentes, - em vez de me tocarem e quererem me matar, haviam de cair a meus pés de joelhos para me agradecer. Mas se quiserem, matem-me, e verão o resto.

- Isto é um velhaco, um embusteiro de primeira força, que virá enredar-nos a nós todos. Nada de ouvílo; a melhor coisa, que podermos fazer, é enforca-lo neste instante.

- Não, não, - gritou Bueno; - melhor é deixarem-no falar; quem sabe o que será.

- Se me dão licença antes de me matarem quero dar-lhes um aviso da maior importância.

- Qual é ?... qual é ?... perguntaram todos no auge da ansiedade.

- Pois saibam todos que aqui se acham presentes, que estão sendo atraiçoados, - disse pausadamente o mameluco.

- Atraiçoados!... tu mentes, mameluco !...

- É tão verdade como o estar eu agora aqui, insistiu com firmeza o caboclo. - O capitão-mor e Fernando, se ainda não sabem de tudo com certeza, pelo menos têm notícia deste levante, e sabem muito bem quais, são os cabeças.

- E qual será o denunciante ?... não sabes ?... qual o vil, que nos atraiçoa ?...

- Ora quem é ?... pois ainda perguntam! ?...

- Quem é 1?... fala depressa, maldito!...

- Um, que é carne e unha com aquele, que ali está a dormir, - respondeu. o mameluco apontando para Antônio, que apesar de toda a algazarra continuava a ressonar tranqüilamente em cima de sua pedra.

- Mentes, bradou Gil, - Maurício nunca nos trairá!...

- Verão os que tiverem olhos para ver, - respondeu com firmeza o mameluco.

- Morra o traidor!... morra!... vociferou uma multidão de Vozes.

- Mas onde achá-lo agora?... quem tem de pagar por ele é esse bugre, que ali está a dormir. Bem feito!... quem se sacrifica por um traidor, é tão bom como ele.

- Pois morra o bugre !... tão boa é a corda como a caçamba. Pague-nos o criado, em quanto não ajustamos conta com o patrão.

- Companheiro, acorda! - bradou um dos sinistros vultos, que se achavam de sentinela à Antônio, sacudindo-lhe o braço.

- Que é isso lá, minha gente ! - murmurou Antônio erguendo-se sobre o cotovelo depois de esfregar os olhos, e passeando em derredor de si as vistas turvadas pelos vapores do sono. - Que é do patrão?... não veio ainda ?...

- Ainda não, e é por isso mesmo, que te acordamos; mas é por pouco tempo, meu bugre, por que vais breve pegar em um sono, de que nunca mais acordarás.

- O que há de novo então, gente ! - tornou Antônio a perguntar já um pouco abalado com a vista de uma porção de facas e punhais, que em torno dele brandiam-se ameaçadores entre imprecações e gritos de morra !...

- O que há de novo, - replicou um, com uma das mãos agarrando-lhe o braço, e tendo na outra alçado um punhal; - o que há de novo é que teu amigo atraiçoou-nos, e é hora de morreres. Mas não te dê isso pena, porque te juramos, que ele em breve se achará em tua companhia nas caldeiras de Satanás.

- Meu amo traidor!... quem lhes contou isso?..- Ei-lo aqui está!... não conheces Tiago ?...

- Tiago !...oh? se conheço; isso é o maior embusteiro e mentiroso, que o sol cobre; já se sabe que mentira.

- Olhem, quem se atreve a desmentir-me!... exclamou o mameluco cada vez mais audacioso; - cala-te, bugre de uma figa; não sabes o que dizes... É mentira? !... e como é que eu, que não tenho mancomunado com nenhum de vossemecês, já sei de quase tudo ?!... não é verdade, mestre Bueno ?...

- É0 verdade!... infelizmente é verdade, - respondeu o velho ferreiro com voz lúgubre e pesada.

- E alguém dos que aqui estão, - continuou o mameluco, - contou-me coisa alguma ?.... respondam...

- Ninguém! ninguém!... eu não! nem eu ! nem eu! - responderam uma multidão de vozes.

- Então foi Maurício quem te contou !...

- Não de certo ! mas pior ainda; mas alguém que ouviu da boca dele, e encarregou-me de espiar-vos; mas eu...

- Quem foi? quem foi?... - fala de uma vez. - Quem mais senão o senhor Fernando !...

- Morra! morra o traidor! - foi este o brado, que retumbou horrísono pelas broncas abóbadas da caverna.

- É Antônio quem deve morrer, - exclamou o índio levantando-se calma e solenemente do seu leito de pedra; - e ele morre de coração alegre, porque morre por seu patrão. Mas mesmo assim com a morte diante dos olhos Antônio jura por essa cruz de Cristo, que Maurício não é traidor.

Dizendo isto o índio beijava um pequeno crucifixo de prata, que sempre trazia pendente ao pescoço.

Gil não podia ficar aquém da generosa dedicação do selvagem, e penetrado da mais íntima convicção também jurou por sua cabeça, que Maurício era incapaz de atraiçoa-las. Os outros, porém, à exceção de um pequeno número de paulistas, que conhecendo mais de perto Maurício, sabiam a que ponto chegava a nobreza e lealdade de seu coração, não puderam deixar de dar crédito aos veementes indícios e às fatais revelações, que o condenavam.

- Morram os traidores tanto o escravo como o senhor! - era o grito, que irrompia de quase lodos os lábios.

- Matem-me - bradava Antônio dominando com a voz toda aquela infernal celeuma. - Matem-me, já disse; morro satisfeito por meu patrão; mas antes de morrer sempre lhes quero dar um derradeiro aviso. Não se fiem nesse perverso mameluco. Se não lhe querem matar, prendam-no, amarrem-no bem, e não o deixem sair mais daqui. Quem desconfia de Maurício e de Antônio, pode ter confiança nesse infame embusteiro, fluem aí está?...

- Antônio fala com acerto, - disse Bueno olhando por achar um meio de livrarem-se daquela perigosa criaturinha, que tanto o incomodava. – Agarremos este velhaquete; eu bem o conheço. Seja embora verdade o que ele nos diz, não devemos nos fiar nele.

- De certo, e o melhor meio de nos vermos livres dele, é matá-lo e já, antes que nos escape.

Quando porém todos o procuravam com os olhos, o veloz e esguio columim já se tinha esgueirado e sumido como uma sombra. Em vão o procuraram pelos recantos da caverna; não foi possível encontrar aquele silfo aéreo e veloz como o vento.

- Ah !... mais um traidor que nos escapa, exclamou o negro que estava de sentinela a Antônio.

- Acabemos com este, que aqui está antes que também nos escorregue das mãos!...

- Morra! morra! - responderam muitas vozes, e ao mesmo tempo alguns punhais fuzilaram sobre a cabeça de Antônio.

- É cedo ainda, - gritou Gil arrojando-se por entre a turba e amparando Antônio com seu corpo a fazia recuar com daqui ao romper mos ainda.

- Pois esperemos, meu branco, - replicou o negro acomodando-se; - esperemos; mas olhe bem, - acrescentou atirando ao fogo um grosso toro de lenha; - é só enquanto esse pau acaba de arder... esse pau é ao nossa paciência, que deve ter um fim. Se quando ele ficar em borralho, Maurício não chega, Antônio morre.

- Pois seja assim, - murmurou Gil.

- Seja assim, - concordaram todos...

- Deixemos o tição arder, - disse Antônio, e regurgitando-se tranqüilamente sobre seu leito de pedra de novo adormeceu, enquanto todos com ansiosa curiosidade tinham os olhos fitos no tição, que se consumia crepitando com fatal celeridade.




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