Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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CAPÍTULO IV

Na floresta

-Ah! não, senhor! não darei nem um só passo para diante!... exclamava uma voz lastimosa de mulher, cujo timbre suave e angélico fazia o mais vivo contraste com o horror daquelas broncas solidões, avesadas somente a ouvir o rugido das panteras e as pocemas selváticas dos aborígenes. -Que empenho tem o senhor em adiantar-se tanto de meu pai? hei-de esperá-lo aqui.

-Esperaremos, minha querida, -murmurava uma voz de homem; -ele não pode tardar.

-Não pode tardar?... já nem se ouve a fala dele... para que havíamos de nos adiantar tanto nestas matas horríveis!... não ouço nem o menor tropel, nem a menor fala... quem sabe se estamos errados! ah! meu Deus!... valei-me... que medo!...

-Medo de quê, minha adorada Leonor?... não estou eu aqui ao seu lado? quem a poderá ofender, homem ou fera, que não sinta logo o alento deste braço e o denodo deste coração consagrado ao teu amor e ao teu culto.

-Ah! Sr. Fernando, que triste lugar, que triste hora para se falar em amor? eu tremo e sou toda medo...

-Não tem confiança em mim? não me ama, senhora?...

-Eu?... algum dia disse que o amava?... ah! Sr. Fernando, por piedade, falemos de outra coisa, ou fiquemos calados até que meu pai chegue... meu Deus! e como tarda! quem sabe se lhe aconteceu alguma coisa?...

-Tranqüilize-se, senhora; nada lhe pode ter acontecido; mas enquanto não vem, minha querida prima, permita-me que lhe fale de meu amor. Que melhor ensejo, que esta solidão profunda e o mistério das trevas, que nos rodeiam? Oh! Leonor! minha prima! recompensa por piedade este amor tão leal, tão puro e tão ardente, que vos consagro; deixa que em penhor de minha lealdade e constância eu imprima nessas faces adoradas este primeiro beijo...

-Ah! não, não!... deixe-me, deixe-me, senhor!...

-Ah! cruel!... um beijo só, um abraço...

-O senhor é um infame, um desleal... eu grito... mas quem me valerá... meu pai!...

Estas últimas palavras foram gritadas com voz pungente e aguda.

O coração de Mauríco pulava-lhe no peito com tal violência, que parecia querer arrebentar-lhe.

-Pára, infame!... foi o grito, que lhe estourou dos lábios e reboou por aquelas pavorosas brenhas.

No mesmo instante Maurício e seus companheiros, atirando os cavalos através da escuridão e da espessura, se achavam ao pé dos dois viajantes.

Apesar do susto e da surpresa, que devia sentir, Fernando, ao ouvir aquele brado estranho e inesperado, esporeou seu cavalo, e dando dois ou três arrancos para adiante, com a espada em uma das mãos e uma pistola engatilhada na outra, esperou resoluto o assalto de quem quer que fosse. Disparou a ermo a pistola, porque naquela escuridão não podia fazer mira; foi talvez para dar o alarma ao capitão-mor e sua gente, que não podiam estar longe.

Leonor, transida de medo, mal se podia suster sobre a cavalgadura, e deixando-se escorregar foi cair meio desfalecida a um lado do caminho entre as urzes úmidas da espessura.

No mesmo instante Fernando se achava envolvido e apertado entre os cavaleiros, que apeando-se com toda rapidez, lançaram mão às rédeas de seu animal e agarrando-o vigorosamente pelos braços o impossibilitaram de tentar a mínima resistência.

-Senhores, -bradou Fernando com voz rouca e convulsa, -pelo que vejo, estou irremessivelmente entre as garras de uma quadrilha de salteadores; podem largar-me; estou em seu poder e não tenho meio algum de livrar-me. O que trago comigo, a minha liberdade, a minha vida, disponham de tudo, como quiserem. Mas ali está uma infeliz moça, que vinha em minha companhia; se ainda lhes resta no coração lagum sentimento de humanidade, tenham piedade dela, respeitem-na, eu lhes suplico.

-Basta, senhor! -atalhou vivamente Maurício. -Essa senhora em nossa companhia está muito mais segura do que o estava ainda há pouco, e será mais respeitada do que o era até aqui.

A esta inesperada exprobação Fernando empalideceu nas trevas, e ficou mudo e fulminado por alguns instantes.

-E quem são os senhores, -pergunta enfim reanimando-se, -que de modo tão descortês me assaltam, e me põem mãos violentas?...

-Sossegue, Sr. Fernando!... não somos salteadores, como apraz a vossa mercê acreditar. Somos pacíficos habitantes do novo povoado de S. João, que viemos ao encontro do nosso capitão-mor o Sr. Diogo Mendes, que esperávamos esta tarde, e como não chegasse, receando que a tempestade e maus caminhos lhe tivessem ocorrido algum contratempo, viemos ao seu encontro a despeito do mau tempo e da escuridão.

-Ah! mas isso não os autorizava a virem tão brutalmente...

-Perdão, senhor; ouvimos suas falas e a voz de uma mulher, que pedia socorro. Outro não podia ser o nosso procedimento, e se lhe pusemos as mãos, foi para estorvá-lo de fazer alguma loucura contra pessoas que o não queriam ofender. Agora queira vossa mercê dizer-nos, onde deixou o Sr. capitão-mor?...

-Ficou um pouco atrasado; não pode tardar, -respondeu secamente Fernando.

-Iremos a encontrá-lo.

Ditas estas palavras, Maurício dirigiu-se para a moça, que a alguns passos de distância jazia quase desfalecida encostada a um pau à beira do caminho embaixo de sua cavalgadura, repassada até a medula dos ossos de frio, chuva e medo.

-Senhora D. Leonor, -lhe diz Maurício em tom respeitoso, -sossegue seu coração; nenhum mal viemos lhe fazer; pelo contrário viemos para encontrá-la e guiá-la, e ao senhor seu pai.

-Quem me fala? exclamou Leonor com vivacidade e alongando o colo, -bem estou reconhecendo esta voz!... não é o Sr. Maurício?...

-É ele mesmo, senhora; um humilde servo de vossa mercê...

-Ah! quanto lhe sou grata!

-Não vejo muito por que, senhora minha; -desempenhei o meu dever...

-Oh! devo-lhe muito, Sr. Maurício... como veio vossa mercê a propósito... nunca mais me esquecerei...

A moça não teve ânimo de dizer mais; Maurício, porém, compreendeu todo o seu pensamento.

Durante este diálogo Maurício dava a mão a Leonor, que toda ensopada e tiritando de frio mal podia suster-se, erguia-a e ajudava a montar a cavalo.

Fernando, que a certa distância não deixava de compreender aquela cena, humilhado e forçado a devorar o seu despeito, mordia os beiços em desespero a ponto de tirar sangue.

Nesse momento ouviram-se gritos e tropear de animais.

-Leonor!... Fernando!... minha filha!... vinha gritando o aflito e desatinado capitão-mor, que tendo ouvido o tiro precipitava os passos através da escuridão e dos horríveis empecilhos daquele caminho.

-Oh! meu pobre pai! como não há de estar aflito!... por favor, Sr. Maurício, corra, vá depressa tranqüilizá-lo!...

Maurício não quis ouvir mais; num momento saltou a cavalo, e, deixando seus companheiros junto a Leonor e Fernando, acompanhado só de Antônio, foi ao encontro do capitão-mor.

Poucos minutos depois já estava de volta com o capitão-mor e sua comitiva. Este, ao ver a filha, apeou-se e foi apertá-la estreitamente nos braços.

-Oh! minha Leonor, que susto mortal!... que cruel ansiedade me causaste! felizmente nada foi, louvado Deus! já o sei da boca de Maurício. Foi um pânico ali do meu sobrinho Fernando, que é a verdadeira causa do susto terrível, que rapei. Mas, tu, minha filha, e tu, Fernando, fostes bem imprudentes em vos adiantardes tanto da comitiva em uma hora destas, por estas matas escuras.

-Desculpe-nos, meu tio -acudiu Fernando, -foi insensivelmente; quando demos fé já estávamos longe; nossos cavalos são mais ligeiros.

Ah! vilão! -murmurou Maurício entre si, -se teu tio soubesse de tuas tenções danadas não abandonaria assim a filha!... Estes velhos são bem cegos!... mas a este um dia eu abrirei os olhos.

O generoso Maurício, contando ao capitão-mor a causa do tiro, ocultara a circunstância mais grave. Fernando, confuso e aniquilado, não teve remédio senão aprovar com seu silêncio a explicação do pânico tão pouco honrosa à sua valentia, e não ousou abrir a boca para dizer uma palavra a respeito do ocorrido. Também o que poderia ele dizer?

Toda a caravana montou de novo a cavalo e se pôs em marcha. De caminho o capitão-mor contou a Maurício os motivos que lhe haviam retardado a viagem. O seu guia lhe havia assegurado que nessa tarde poderia estar facilmente em S. João, mas tendo sobrevindo alguns contratempos e transvios, demoraram-se mais do que esperavam, e sendo surpreendidos por um horrível temporal sem achar onde abrigar-se, viram-se obrigados a vir prosseguindo a marcha esperando encontrar ao menos alguma choupana, a que se acolhessem.

Descendo a noite escuríssima, sem que nada encontrassem, sem saber como se achavam embrenhados naquela escura mata, e como lhe asseguravam, que era esse mesmo caminho, assentou que o melhor partido a tomar era vir rompendo ainda que mui lentamente, até que o dia alvorecesse.

Maurício espreitava com ansiedade e procurava mesmo ajeitar um ensejo, em que pudesse dizer duas palavras a Leonor, sem ser ouvido do resto da comitiva. Como a cavalgata marchava nas trevas desordenadamente, avançando uns a sondar o caminho, outros se atrasando em razão de embaraços, que encontrava em uma estrada esburacada de diferentes trilhos, como o são até hoje todos esses caminhos do interior de Minas, a desejada oportunidade não tardou muito a oferecer-se.

-Senhora, -disse o mancebo à filha do capitão-mor. -Quanto sou feliz de torná-la a ver, e, sobretudo por assinalar este encontro prestando-lhe um pequeno serviço. Ah! esta noite afortunada nunca mais me sairá da lembrança...

-Nem da minha, Sr. Maurício. A sua presença fez-me esquecer todos os sustos e horrores, porque tinha passado... Parece que vossa mercê foi enviado por Deus para me proteger...

Não puderam dizer mais; o tropel de um cavaleiro, que se aproximava, os interrompeu; mas foi bastante para entornar gozo inefável no coração do mancebo, que daí em diante não falou mais, pois ia absorto e como que levado nas asas de um sonho, que o inebriava de venturas.

O cavaleiro, que se aproximava, era Fernando, que mordendo-se de raiva pelo incidente humilhante, de que fora vítima, procurava também tomar de parte a Maurício. Apenas o conheceu, Leonor tangeu seu cavalo para junto de seu pai que cavalgava a curta distância.

-Senhor cavaleiro, como quer que se chama, -disse Fernando apenas achou-se a sós com Maurício, -há de reconhecer que foi bem descortês para comigo. A ocasião não é própria, não digo para tomar satisfação, mas para castigar a sua ousadia; mas espero que não faltará ensejo para ajustarmos nossas contas. Vossa mercê não sabia com quem tratava; cuidava, por certo, que era um dos seus iguais. Estou que para diante saberá respeitar-me, como deve.

-Meu caro fidalgo, -replicou tranqüilamente Maurício, -se vossa mercê souber dar-se ao respeito, esteja certo, que sempre o respeitarei; mas quando se comportar com ainda há pouco ali na mata, eu saberei cumprir o meu dever, ainda que vossa mercê seja o filho do rei.

-Atrevido!... bradou Fernando; mas um tropel de cavaleiros, que os acostou, veio pôr ponto final a seus doestos5.

Os dois mancebos, que ainda não se conheciam, pois apenas haviam trocado algumas palavras nas trevas, já se odiavam com ódio de morte.

Estes dois curtos diálogos, de que acabamos de dar conta, um de amor e outro de ódio, foram os dois únicos incidentes dignos de nota, que ocorreram no caminho.

O dia começava a alvorecer pelas verdejantes cimas da serra de S. José, quando o capitão-mor e sua comitiva em longa caravana desfilaram pelas colinas, que dominavam S. João d’ El-Rei, e molhados até os ossos, tresnoitados, opressos de fadiga e tiritando de frio, faziam sua entrada na povoação entre foguetes e repiques de sino.

Os emboabas e paulistas interpretaram por modos bem diversos o aguaceiro diluviano, que assinalou a chegada do capitão-mor.

-Tudo que vem do céu é de bom agouro, -diziam aqueles. -Esta espantosa chuva quer dizer que teremos paz, fartura e riqueza.

-O mundo escapou do dilúvio para um dia acabar pelas chamas, diziam os paulistas.

O governo deste homem, que começa com água, é sinal de que há de acabar com fogo.



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