Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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Capítulo XVIII

Mil dobras pela cabeça de Maurício

É preciso explicar por que modo Antônio surpreendera Tiago denunciando a Fernando e a conspiração. Lembra-se o leitor, que desde que Diogo Mendes se afeiçoara a Judaíba, sabendo que Antônio era seu rival, e rival preferido e muito amado da jovem carijó, exigiu de Maurício a entrega do índio, que era escravo seu. Avisado por Maurício, Antônio, esperto e inteligente como era, sabendo que seria agarrado, removido para bem longe, e talvez mesmo vendido, julgou prudente acautelar-se, e só aparecia na gruta no meio dos insurgentes, na povoação somente a Maurício e Gil, isso mesmo com precauções, que ele bem sabia empregar com a maior astúcia e agilidade. Entretanto com 'cuidados e saudades de sua ,Judaíba rondava continuamente pelo povoado exposto ao maior perigo em dia claro, porque a noite devia achar-se na gruta.

Na tarde, em que nos alijamos, ele ansioso por falar a Judaíba, alentá-la, tranqüiliza-la, comunicando-lhe seus planos e esperanças, penetrou ousadamente na casa do capitão-mor. A ocasião era propícia; a casa, que até ali se achava atulhada de gente em razão da devassa, agora achava-se quase deserta. A maior parte de seus habitantes, inclusive o capitão-mor e seu filho, tinham ido acompanhar ao último jazigo o cadáver do Minhoto, que ia ser sepultado com todas as honras devidas à sua posição pecuniária na capela, a qual ficava bastantemente distante. Antônio, como dissemos, penetrou ousadamente pela casa a dentro, foi até um pátio interior sem encontrar pessoa alguma, escondeu-se em uma cavalariça, e aí escondido ficou espreitando as janelas, que davam para o pátio esperando ver Judaíba. Mas em vez desta viu assomar a uma das janelas o vulto de Fernando acompanhado de Tiago. Estavam em distância, que Antônio os podia ouvir perfeitamente.

- Que estás aí a dizer, maroto ?... ah! se pretendes enganar-me !... - dizia o fidalgo ao seu pajem.

- Não, senhor; desta feita descobri tudo, tudo... E quer vossa mercê saber ainda mais uma cousa ?...

- O que ?... fala depressa.

- O lugar, onde se ajuntam, pelos sinais não pode ser outra cousa mais do que a mina do tal Irabussu, e onde esse maldito feiticeiro enterrou-se para sempre com cinco dos nossos.

- Não me venhas pregar carapetões, que te passo o chicote, ouviste?... como podes saber isso ?!...

- Pois eu já não disse que estive em uma grande lapa e no meio deles...

- É verdade!... tens razão! - murmurou Fernando como falando consigo. - Oh! a gruta de Irabussu, e dentro dela Maurício e ouro!... A riqueza e a vingança! será possível!... Que achado, meu Tiago ! - continuou voltando-se para o pajem com alegre vivacidade; - quantos proveitos!... se falar a verdade, sou capaz de te fazer príncipe... mas... onde é essa gruta?

- Dizer não é possível; ninguém é capaz de atinar com ela, por mais que se ensine; só eu mesmo indo mostrá-la.

- Pois hás de nô-la mostrar hoje mesmo.

- Hoje, senhor!... não tarda a anoitecer; de dia mesmo é custoso, e de noite, a não serem eles, que já estão mestres no ruim, não há quem possa dar com a tal maldita buraqueira; só amanhã.

- Pois bem; amanhã pela madrugada sairemos com gente a dar no tal quilombo... mas ainda nada me disseste do levante; quais são os principais da troça!

- Além do Maurício, lá está o altanado do Gil e um certo bugre, chamado Antônio... vossa mercê bem o conhece por fora, mas não sabe que alma danada está ali, fica sabendo agora; mil forcas que houvessem para aquele diabo...

- Está bem! está bem!... quais eram os outros...

- Os outros ?... um velho ferreiro enfarruscado, o maroto do Calixto, que teve a petulância de...

- Depressa! dize os nomes e deixa-te de qualificações e observações; eu os conheço a todos. Mais quem?...

- E mais um bando de bugres e negros que não conheço.

- E eram muitos...

- Muitos! Nem nunca!... umas duas a três dúzias de farroupilhas que vossa mercê com dois tiros esparrama num instante.

- Bem! vai-te embora.

O mameluco retirou-se.

- Oh! que excelente achado! - continuou Fernando a falar consigo. - Vou dar parte a meu tio, apenas chegar do enterro. Como há de folgar com semelhante notícia!...

Terminando este breve monólogo Fernando também retirou-se da janela. Antônio não queria, nem precisava ouvir mais. Esquecido de Judaíba saiu de teu esconderijo, atravessou de novo a casa como de um silfo invisível, ganhou a rua e deitou a correr para a casa de

Maurício com a velocidade do gamo, a dar aviso, que já vimos.

O capitão-mor não tardou, e apenas entrou em casa e Fernando correu açodado a informá-lo do que acabava de saber da boca de Tiago. O capitão-mor escutou indignado as revelações de seu secretário, e como que lhe custava dar crédito ao que ouvia, apesar dos caracteres

de máxima probabilidade e quase evidência, que acompanhavam aquela delação.

- Já e já, - bradou em assomo de dolorosa indignação, - quero vê-los aqui presos os três,. Maurício, Gil e Antônio com os pés metidos em um tronco e o pescoço em uma guilhotina !... E ai deles, se for verdade! terão de pagar com a vida.

Fernando triunfante intercedeu ironicamente:

- Não podemos ainda acreditar tão de leve, disse com imperceptível sorriso de malignidade; - o dito desse maroto não é lá grande prova. Além disso, se realmente estão tramando contra nós, havemos de apanhá-los todos de um só lance de rede. Para que assustá-los já !... deixá-los prosseguir.

- Então devemos esperar que a traição se revele em traços de sangue ?!...

- Não se inquiete meu tio; está já preparada a rede, em que todos serão colhidos de um só golpe sem poderem tugir nem mugir. Amanhã ficaremos livres desses perros e vossa mercê desabusado de suas ilusões.

- Praza ao céu, Fernando!... mas Maurício! Maurício traidor!... meu coração revolta-se contra semelhante idéia! - murmurou o velho com voz dolente e abatida. - Não! não!... quero que ele venha à minha presença; quero ainda uma vez ler em seu semblante; quero sondar-lhe o coração. Fernando, manda-lhe à casa dois ou três esbirros, e por bem ou por mal seja conduzido já à minha presença.

Fernando não quis mais insistir; considerava já Maurício e seus amigos completamente perdidos e condenados sem remissão. Tudo quanto o jovem paulista pudesse alegarem sua defesa não podia destruir as provas exuberantes, que já tinha contra ele, e outras, que impreterivelmente esperava colher depois do assalto, que projetava dar à caverna dos insurgentes na manhã do dia seguinte, A prisão de Maurício, portanto, em seu entender não podia mais deter a espada vingadora suspensa por um fio sobre a cabeça de seu rival. Demais calculava e com muito fundamento que em vista das ocorrências daquele dia nem Maurício nem nenhum de seus amigos seriam encontrados na povoação, o que convinha admiravelmente a seus planos.

Portanto, depois de ter cumprido imediatamente a ordem de seu tio, de novo voltou para junto dele. Via que já era tempo de desfechar o último golpe, que tinha a longo tempo de reserva para fulminar seu adversário, isto é, de revelar a Diogo Mendes a violenta paixão que o jovem paulista sentia por sua filha Leonor.

- É tempo, - dizia Fernando com hipócrita gravidade, - é tempo de que vossa mercê. seja informado de uma atroz particularidade, que parece até aqui ter ignorado, e que revela até que ponto chega a perversidade desse moço, que até hoje tem afagado como a um filho.

O capitão-mor sem dizer palavra olhava atônito para seu sobrinho como pedindo explicação.

- Saiba meu tio, - continuou Fernando, - que esse aventureiro ousou levantar suas vistas até sua filha, que teve a infelicidade de inspirar-lhe a mais violenta e louca paixão. É por amor dela, dela tão somente, que não por zelo e gratidão a vossa mercê, que ele o acompanha e o tem servido sempre, não como o amigo desinteressado, mas como o cão esfaimado, que segue por toda parte a quem leva na mão um pedaço de carne. Até aqui nutria talvez esperança de que vossa mercê não lhe recusaria a mão de minha prima, ou projetava, - quem sabe ? Arrastá-la ao opróbrio. Mas depois que me vê a seu lado, seus planos são outros, e mais audazes e atrozes ainda. A fúria do ciúme corroe-lhe as entranhas, e procura levar a efeito seus planos tenebrosos a ferro, fogo e sangue. Não creia que é por dedicação a

seus patrícios, que ele, abusando de sua simplicidade e fanfarronice, os incita a se sublevarem contra o governo de vossa mercê; não: aproveita-se de algumas indisposições, e a pretexto de libertá-los de vexames imaginários intenta vir pisando sobre cadáveres com o punhal ensangüentado na mão arrancar-vos a filha para ir profaná-la em seu covil de salteador. Se não me acredita, espere os fatos; eles não tardarão.

O capitão-mor escutava aterrado a tais revelações, que nunca lhe tinham passado pela mente. Mas agora, perpassando rapidamente pela memória todas às circunstâncias do passado, e as relações de sua filha com o paulista, ia-lhe como que caindo uma névoa dos olhos, e entrevia toda a plausibilidade das coisas, que Fernando asseverava com a maior segurança. A dedicação de Maurício tinha de feito assomos de heróica exaltação e entusiasmo, que pareciam efeitos de um sentimento mais enérgico e violento do que a simples gratidão e amizade. E também lhe parecia que esse sentimento era correspondido, pois lembrava-se que Leonor testemunhava em todas as ocasiões pelo jovem paulista a mais viva simpatia, e sempre o acolhia com o mais fagueiro de seus sorrisos. Estremecia com a idéia da possibilidade de uma afeição recíproca entre os dois jovens, afeição, que agora julgava muito natural, mas que entretanto reputava uma calamidade. Aventurou-se todavia a perguntar a Fernando:

- E Leonor? saberia ela desse afeto do paulista?... não lho levaria a mal ?!...

A esta pergunta Fernando empalideceu; banhou-se lhe em fel o coração, e por alguns instantes sentiu-se desconcertado.

- A esse respeito... - respondeu hesitando, nada lhe sei dizer... mas é impossível... julgo que a prima com sua natural candura e ingenuidade nunca suspeitou a ousadia do paulista. Tenho para mim, que ela vota-lhe a mesma estima, que tem ao seu caboclo Antônio; estima-o como a um cão fiel.

- Quem sabe, Fernando ?!... olha, que Maurício possui dotes de corpo, de espírito e mesmo de coração... ou ao menos certas exterioridades brilhantes, que bem podem fazer forte impressão na alma de uma donzela.

Estas palavras foram punhaladas, que atravessaram o coração de Fernando, mordido cruelmente pela áspide do ciúme. Enfiado e mudo por alguns instantes mudou de cor duas ou três vezes, e por fim respondeu com mau modo:

- Nesse caso, senhor capitão-mor, visto que esse cavalheiro possui tão brilhantes prendas, não sei o que faz que não lhe concede já a mão de sua filha.

O capitão-mor ergueu a fronte com altivez e dignidade, e encarando seu sobrinho com sobrolho carregado:

- Pretende acaso o senhor Fernando galhofar comigo em assunto tão melindroso, e que tanto me magoa o coração.

- Perdão, senhor! - respondeu Fernando curvando-se com fingi da submissão, - perdão! nem de leve eu pretendi molestá-lo. A credulidade de vossa mercê...

- Basta, senhor; não toquemos mais neste assunto. Já deu providência, para que Maurício seja conduzido à minha presença.

- Suas ordens estão dadas, e talvez já cumpridas.

Quando este diálogo assim se terminava, já era quase noite fechada. Daí a poucos minutos os esbirros expedidos por Fernando voltavam trazendo a noticia de que a casa de Maurício se achava fechada, e que por toda a povoação não tinham podido encontrar nem a ele, nem a Gil, nem a nenhum de seus companheiros. Então penetrou no espírito do capitão-mor a plena e dolorosa com vicção de que Maurício era traidor e conspirava contra ele. Tudo quanto Fernando a pouco lhe havia revelado, se lhe apresentou à mente com todos os caracteres da evidência. Foi terrível a crise produzida em sua alma por este doloroso golpe; toda a afeição, que votava ao mancebo, converteu-se de repente em rancor profundo; ,Sua cólera não conhecia mais limites.

- Mil dobras de ouro! - bradou ele erguendo-se bruscamente e batendo de rijo com o punho sobre a mesa, junto à qual se achava sentado. - Mil dobras a quem me trouxer a cabeça de Maurício!... Anda, Fernando, faze apregoar e publicar já por toda a povoação, que quem aqui me trouxer vivo ou morto esse infame salteador receberá incontinenti mil dobras.

- Não será preciso despender um real por sua cabeça, - Respondeu Fernando com toda a calma.

Ele mesmo nó-la entregará.

- Embora!... é preciso empregar todos os meios, para que não nos escape o traidor.


  • Suas ordens serão cumpridas.


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