Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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CAPITULO XIX

Horroroso despertar de um sonho de delícias

O Capitão-mor e Fernando tinham tido o maior cuidado em ocultar a Leonor as graves e sinistras ocorrências daquele dia, não só para não inquietá-la, como também para evitar a intervenção, que não deixaria de querer exercer em negócios e resoluções que reclamavam a maior firmeza e energia. Já por mais de uma vez, - pensavam eles... A intercessão de Leonor os tinha embaraçado no emprego de medidas rigorosas, que talvez tivessem obstado a que as coisas chegassem ao estado crítico e melindroso, em que agora se achavam. Apesar dessa precaução, bem longe estava ela de ter o espírito tranqüilo, não podia deixar de notar certa agitação e surdo murmurinho, que fazia como que arquejar aquela habitação à semelhança do enfermo, a quem falta à respiração. À morte do Minhoto e as diligências, a quase procederam para descobrir os assassinos, não eram a seus olhos motivo bastante para explicar o contínuo a mal disfarçado alvoroto e revoltear de gente, que impossível era se lhe ocultar, e a grave e sombria preocupação, que via estampada no semblante de seu pai.

Lá muitos dias via Maurício arredado da casa do capitão-mor; a última vez, que o avistara, lia-se-lhe na fronte a expressão da mais angustiosa inquietação. Na noite anterior lhe aparecera misteriosamente como um espetro quebrando a lápide do sepulcro, e quando ia talvez fazer-lhe importantes revelações, um lúgubre e fatal incidente viera interromper suas confidências. Esse mesmo arrojo, a que até ali nunca se abalançara, de procurar falar-lhe a sós, bem indicava, que as circunstâncias eram críticas. Tudo isto a enchia de sustos e das mais cruéis e sombrias apreensões.

Debalde procurava distrair-se com a companhia de Helena e Judaíba; suas duas prisioneiras não se achavam em muito melhores condições de espírito. Helena tremia por seu pai e por Calixto, foragido e perseguido por causa do assassinato do Minhoto, e retraída em obstinado silêncio não fazia mais que soluçar. Judaíba não vendo mais o seu Antônio, andava também taciturna e amuada como rola prisioneira, ferida na asa pelo chumbo do caçador.

Assim sozinha, sem ter a quem comunicar suas cruéis inquietações, lembrou-se de dirigir-se a Afonso... A quem também em razão de sua indiscrição e pouca idade coisa nenhuma tinham ainda revelado a respeito da denúncia dada por Tiago, nada soube responder-lhe.

- Eu sei lá, minha irmã, - respondeu-lhe com a mais fria indiferença; - creio que se trata de enforcar o Calixto, e há de ser bem feito.

Dirigiu-se depois timidamente a seu Pai.

- Que há de novo, meu pai, que vejo hoje Vm. agitado, e mais ativo e preocupado que de costume?

- Oh! minha filha!... pois podemos deixar de estar inquietos depois do lamentoso sucesso desta noite?... É nosso dever vingar a morte do infeliz Minhoto, e fazer tudo por descobrir o assassino para puni-lo com todo o rigor da lei.

- Será só isso, meu pai?

- Tranqüiliza-te, minha filha; nada mais há do que isto.

Tais respostas não podiam acalmar o espírito de Leonor, profundamente abalado e apavorado como pelo pressentimento íntimo de alguma catástrofe iminente.

Acompanhemos agora a Maurício, o qual, depois que Gil, desesperado de o arrancar dali, o deixou abandonado ao seu destino, disse a Antônio:

- Arreia o meu cavalo e fica-te por aí por ora; mas toma cuidado de ocultar-te. Daqui a pouco também irás para a gruta.

Maurício conservou-se em casa até o cair da noite. Interrompido na entrevista da véspera, não tivera tempo de explicar-se com Leonor, e não havia consideração alguma que o pudesse resolver a retirar-se talvez para sempre da presença de sua amada sem dizer-lhe um extremo adeus, sem protestar-lhe seu amor, revelar-lhe as fatais circunstâncias, que o forçavam a desaparecer, e procurar banir do espírito dela toda e qualquer suspeita, que porventura nutrisse a respeito de sua lealdade para com ela e para com seu pai. Era difícil sua posição em face de Leonor, a quem nada podia revelar do que havia de real e positivo na resolução fatal, que havia tomado. Não sabia e nem mesmo pensava no que devia lhe dizer; esperava que em presença dela o amor o inspiraria. Meia hora, um quarto de hora mesmo de entrevista lhe seria suficiente; depois voaria a reunir-se a seus companheiros e a entregar-se a todas as contingências da melindrosa situação, em que o destino o havia colocado.

Antes que as trevas de todo se cerrassem, depois de ter feito um pacote de alguns artigos de valor e de objetos de primeira necessidade, fechou as portas de sua modesta habitação, e com o coração opresso e repleto de amargura:

- Toma, Antônio, estes objetos, - disse ao índio; - talvez nos sejam necessários, pois não sabemos se voltaremos ainda a esta casa. Daqui em diante as selvas serão talvez nosso único abrigo. Corre à gruta, onde nossa gente deve já achar-se reunida. A meia noite, ao mais tardar, lá me acharei.

- Oh! meu amo, por que não iremos juntos?... - Não é possível, é de absoluta necessidade demorar-me ainda algumas horas.

- Nesse caso o esperarei aqui.

- Não, Antônio; é preciso que partas já, para tranqüilizar nossos companheiros a respeito de minha demora. Só tu e Gil poderão conter esses homens impacientes e sedentos de vingança. Dize-lhes, que o sol de amanhã nos encontrará vingados ou mortos.

Antonio não replicou mais; saiu, e daí a instantes Maurício também montou a cavalo, saiu cautelosamente e entranhou-se por uma vereda estreita e tortuosa, que através de um matagal espesso ia ter às margens do Rio das Mortes. Depois de ter-se afastado cerca de um quarto de légua do povoado, deixou o trilho por onde avançava, embrenhou-se no mato e aí conservou-se amoitado à espera que a noite se adiantasse algum tanto para poder levar a efeito seu projeto. Teria decorrido meia hora depois que ali se achava, quando ouviu passos e vozes de pessoas, que avançavam pela mesma estreita vereda por onde ele viera.

- Mil dobras! - exclamava um deles; - já fiz a conta, anda por cousa de trinta mil cruzados!...

- Trinta mil cruzados!... já não é para desprezar-se ! - ponderava outro; - e isto pela cabeça de um perro de paulista!...dois proveitos em um saco; temos a pitança e ficamos livres do chefe desses malditos...

- Mas dize-me; estás bem certo que ele veio por aqui mesmo?

- Sem dúvida; foi por aqui que ele meteu-se; vi enfiar-se por êste caminho um cavaleiro, e juro que não é outro senão o Maurício.

- Maurício!... se vai a cavalo, não nos será tão fácil apanhá-lo.

- Não há dificuldade; ele vai muito de vagar e descuidado; de certo ainda nada sabe da sorte que o espera. O ponto é apertarmos o passo, que agora mesmo o pilharemos.

- Foi bom, quando a escolta deu-lhe em casa, já não encontrá-lo; senão já lá estaria trancado, e nós sem esta soberba empreitada.

- Calados, meus amigos!... arre com tanto palrar !... o que convém agora é olho vivo, pé ligeiro e boca calada!... Apenas dermos com os olhos nele, é escusado querer prendê-lo; nada de contemplações; é descarregar-lhe na cabeça todas as nossas escopetas, se é que querem que as mil dobras sejam nossas.

Os sujeitos passaram adiante, deixando Maurício ciente de que se 8ichava condenado e sua cabeça posta a prêmio.

- Miseráveis! – pensou ele; - por um pouco de ouro não hesitam em tirar a vida a quem nunca os ofendeu, e antes muitas vezes lhes tem servido de amparo contra a sanha de meus patrícios justamente indignados. Talvez no meio daquela perrada vá mais de um, a quem eu tenha valido. Corja vil!... e como julgam fácil cortar-me a cabeça... mal sabem que

mais cedo talvez a deles terá de rolar a meus pés!...

- Oh! é preciso, é indispensável, que nesta noite mesmo vibre-se o golpe, que vai decidir do meu destino. Mas antes cumpre-me a todo o risco ir ter com ela, dizer-lhe um adeus... o derradeiro?... ah! meu Deus! Quem sabe !...I

Maurício, depois de ter esperado ainda algum tempo engolfado em suas tristes reflexões, deixou seu cavalo atado a um tronco no mato, em que se escondera, e cortando cautelosamente por matagões e desvios não batidos transportou-se para as imediações da quinta do capitão-mor.

Leonor por seu lado tinha também o espírito agitado da mais cruel. inquietação. Eram mais de nove horas, e em vão procurava no leito um pouco de repouso para seu coração atribulado. Com a cabeça a arder veio ao terraço pedir às auras da noite algum refrigério à sua fronte fatigada de tão longo e penoso cismar, ou quem sabe talvez, seu coração adivinhava, que seu amante não deixaria de surgir de novo de por baixo da pedra do jardim para continuar a confidência, que um funesto incidente viera na noite antecedente bruscamente interromper. Mas o céu estava tão triste, pesado e lúgubre como o seu coração; nem estrelas, nem luar, nem brisas, nem rumores. A terra como o céu era um limbo silencioso. O torvo dorso das serras e colinas não se distinguia da abóbada tenebrosa. Debruçada ao peitoril Leonor mal divisava embaixo de seus olhos os canteiros e ruelas alinhadas de seu pequeno jardim. Enfim, depois de ali ter estado a cismar por algum tempo, viu elevar-se do chão o vulto de Maurício como fantasma evocado do sepulcro pelo condão de um nigromante. À emoção de Leonor foi extrema; se bem que já esperada ou pressentida a aparição misteriosa de Maurício naquela ocasião produziu nela mais violento e profundo

abalo do que na noite anterior. Parecia-lhe que aquela sombra surgida do seio da terra vinha revelar os terríveis segredos de um futuro de lágrimas e infortúnio. Apesar de todo o seu amor, de toda confiança, que .depositava no mancebo, quando o viu envolto em seu largo manto, o chapéu calcado sobre os olhos, subir um por um a passos lentos e cautelosos os degraus da escadinha, que do jardim galgava ao terraço, e parar silencioso ao lado dela, o coração gelou se lhe de terror, fez um gesto de medo e recuou espavorida. Maurício percebeu o terror da donzela.

- De que se arreceia, D. Leonor ? - disse-lhe com voz meiga pousando-lhe brandamente a mão sobre o braço; - já não conhece Maurício...

- Ah! senhor Maurício, bem o estou conhecendo... Mas que estranho motivo o faz assim procurar-me às escondidas por duas noites, arriscando-se a si, expondo-nos a ambos a conseqüências funestas ?...

- Pode estar tranqüila, senhora; não é por certo nem um pensamento criminoso, nem uma esperança de felicidade, que me traz a seus pés por este modo estranho...

- O que pretende então ?...

- Dizer-lhe adeus, senhora, e vê-la talvez pela última vez.

- Pela última vez? !... meu Deus!... e por que ?...

Porque ?... porque não quer o meu destino, que eu viva junto da senhora... porque hoje tudo aqui conspira contra mim até mesmo vosso pai. Ah! D. Leonor! hoje nesta casa só me resta o seu afeto, e esse mesmo quem sabe se amanhã me faltará... oh! talvez!... talvez amanhã D. Leonor também me amaldiçoará !...

- Eu amaldiçoá-lo ?! nunca! nunca! que razão haverá para isso !...

- É que eu vejo minha vida em iminente perigo... Esse infame Fernando, que vosso pai para aqui trouxe, põe tudo em conflagração, e eu vejo um vulcão prestes a estourar debaixo de vossos pés e dos meus.

- Oh! meu Deus! meu Deus!... não era em vão, que meu coração se enchia de inquietação e de amargura... e é nesta ocasião, que pretende deixar-me tão sozinha e desamparada !

- De que posso eu valer-te, Leonor ? !...

- Oh! de muito, de muito, Amo já tantas vezes me tem valido.

- Como ? se nem me é dado aparecer ?...

- Por que motivo ?

- Ah! não sabe ainda!? não sabe os riscos, que aqui mesmo às ocultas estou correndo !... pois sabe, D. Leonor, que agora mesmo procuram-me por todos os cantos para cortar-me a cabeça a troco de algumas moedas.

- Que horror!... que infâmia!... será possível, meu Deus!... por que razões assim te perseguem?...

- Não sabes, Leonor, que Fernando e eu não podemos existir ao lado um do outro ? que um de nós deve morrer impreterivelmente para sossego e felicidade do outro ?...

- Desgraçadamente assim é; mas que crime cometeste? que fizeste para merecer a morte?...

- Meu ,crime, ah !... Meu crime é amar-te, Leonor; meu crime é ter merecido o teu amor. É essa felicidade suprema, que me invejam, e que não me podem perdoar. Devo morrer, por que tu me fizeste o mais feliz dos homens.

- Nesse caso eu participo do teu crime, a culpa é minha também, também eu devo morrer... mas não; não pode ser só isso; para te votarem à morte, é preciso, que te imputem algum crime, verdadeiro ou falso... falso por certo; jamais eu amaria um homem capaz de ação criminosa... a morte do Minhoto... quem sabe se é te atribuída ?...

- A mim, Leonor ? !... que necessidade tinha eu do sangue desse miserável !?... não; é de outro que tenho sede, e esse ...

Maurício, num transporte de indignação, ia quase trair-se; ia terminar: - bem cedo será vertido até a última gota. - Estas palavras, porém, morreram-lhe na garganta como um murmúrio surdo, que Leonor não pode compreender. Ela contemplava com terror o amante, que por seu lado ao mesmo tempo lhe desejava tranqüiliza-la não sabia como explicar-lhe sua cruel situação, e a custo sopeava a explosão das tormentas, que lhe estuavam na alma.

- Falas em sede de sangue!... oh! oh! meu Deus! que palavras horríveis!... ah! Maurício, tu tens algum pensamento sinistro, que procuras esconder-me !...

- Nenhum, Leonor. Já o disse, não querem que eu viva; pois bem, irei morrer, mas não às mãos desses miseráveis algozes; não quero dar-lhes esse prazer; irei morrer bem longe, de saudade, de dor e desespero. Eu bem vejo que este meu amor é um amor sem esperança, um sonho de loucura; mas não posso extinguí-lo em meu coração; só a morte poderá arrancá-lo daqui.

- Não fales assim, Maurício; se nenhum ato cometes-te indigno e criminoso, que te faça perder a estima de meu pai, por que desesperar ?... Eu, eu mesma irei falar-lhe, irei pedir justiça, e desmascarar esse homem funesto, que nos acompanha para nosso flagelo; tudo declararei sem medo e sem rebuço; direi a meu pai que te amo tanto, quanto detesto esse miserável Fernando...

- Não, por quem és, Leonor, não faças nada disso, - atalhou Maurício. Assim, em vez de ser eu só a vítima, seremos duas, e eu jamais consentirei que sofras por amor de mim.

- Tudo sofrerei com firmeza e coragem. Se não me é dado gozar contigo da felicidade, seja-me ao menos permitido partilhar o infortúnio da pessoa a quem amo.

- Não, Leonor; com isso não farás mais do que tornar-nos mais infelizes, e perder-me para sempre irremediavelmente. Deixa-me entregue ao meu cruel destino... esperemos, talvez o céu nos conceda melhores tempos; talvez um dia, quem sabe si bem cedo, desapareça o odioso obstáculo, que se opõe à nossa felicidade.

- Mas que pretendes fazer?.. ainda não me disseste...

- Já te disse, Leonor; vou sumir-me não sei onde.

Dentro em pouco saberás notícias minhas; e ou seremos felizes, ou estarei perdido para sempre. Antes, porém, de arrojar-me a uma resolução desesperada quis vir arrojar-me a teus pés, protestar-te meu amor, minha lealdade e dedicação, pedir-te perdão... oh! eu te suplico, Leonor, pelo nosso amor, pelo nosso passado tão saudoso, pelas suaves recordações de nossa infância, não dês crédito às calúnias, com que queiram infamar o meu nome e tornar-me odioso a ti e a teu pai!... e se eu morrer, oh! por piedade, Leonor, não amaldiçoes minha memória...

- Não te compreendo, Maurício. De que pedes perdão ? quem quer amaldiçoar-te? quem pôs em dúvida a tua lealdade?...

- Quem ?... ainda perguntas!... quem pôs a prêmio a minha cabeça ?...

-Ah!...


- A noite se adianta, Leonor; procuram-me por toda parte para matar-me; preciso fugir. Ai de mim, e ai de ti, se somos aqui surpreendidos !... Leonor, adeus! tem compaixão do infeliz Maurício, que tanto te adora!... Adeus, Leonor!... adeus talvez para sempre.

Falando assim o mancebo beijava a mão de Leonor, onde deixou cair uma lágrima de fogo.

- Para sempre! ?... ah! não! não! soluçou... a donzela;

- não pronuncies mais semelhante palavra, senão queres matar-me.

Leonor sentia-se desfalecer ao embate de tão pungentes emoções; seus olhos se turvavam, a voz a custo lhe rompia do peito, e seu corpo esmorecia e dobrava-se vacilante como a haste do lírio acoitada pelo tufão.

Pousou as mãos sobre os ombros de Maurício, e debruçou a fronte sobre seu peito.

O mancebo cingiu-lhe o corpo com o braço; a fronte da moça tombou-lhe para traz, e os cabelos soltos e em desordem desceram ondeando a beijar o pavimento.

Estava ali como a frágil palmeira, a quem o temporal depois de ter-lhe rompido e derriçado os donosos leques, debruçou sobre os galhos robustos do cedro secular. Por largo tempo conservou-se Maurício naquela posição, e como embebido em um êxtase celeste esqueceu-se de si, da gruta, dos amigos, que o esperavam, do tempo, que rápido se escoava, dos perigos, que o rodeavam, e só vivia para sentir a inefável voluptuosidade de ter pela primeira vez cingida em seus braços a amante idolatrada, que neles se lançara. Mas Leonor conservava-se imóvel, pálida, a boca entreaberta, os olhos cerrados, e presa a respiração. Maurício assustou-se.

- Leonor! Leonor! - murmurou agitando-a brandamente .

Leonor não se moveu, nem respondeu.

- Oh! desmaiada!... desmaiada, meu Deus!... que transe! - pensou o angustiado mancebo; - deixa-la aqui neste estado, não... não é possível... esperar aqui a pé que rodeado de perigos para mim e para ela ?! meu Deus! que devo eu fazer! Esperam por mim... já talvez me tenho demorado mais do que devia... Leonor!... Leonor!... repetiu o moço agitando-a de novo; mas Leonor permanecia muda e imóvel, pendente de seus braços como a cecêm, que se debruça esmorecida à borda do vaso, que a contém.

Maurício refletiu um instante contemplando aquele busto angélico então frouxamente iluminado por uma fraca luz, que se escoava do céu através de nuvens entreabertas, inclinou seu rosto sobre o dela como para reanimá-la com seu hálito, e seus lábios roçaram pelos de Leonor em um primeiro e tímido beijo de amor. Aquele contato a virgem estremeceu ligeiramente; Maurício estreitou-a contra o coração na ânsia de uma emoção pungente e voluptuosa a um tempo.

- Ah! Maurício! Maurício! - murmurou a moça reanimando-se, lançando um braço ao colo de Maurício e unindo estreitamente a linda cabeça ao peito do mancebo como quem lhe queria falar ao coração, - tem ânimo de me deixar assim sozinha e desamparada em transe tão apertado... não sei... mas parece-me, que tudo anuncia uma grande desgraça... sem ti para me valer não sei o que será de mim!... mas... que estou a dizer... já me esquecia do risco, em que te achas... perdoa-me, Maurício...

Leonor, esquecendo nesse momento todo o seu recato e timidez virginal, abandonava-se sem reserva aos transportes de seu terno e ardente amor. Por seu lado também Maurício deslembrado de todas as suas inquietações e amarguras com o peito arquejante de emoção entregava-se ao enlevo daqueles momentos de inefável ventura vendo reclinada em seu seio a fronte da virgem idolatrada, que tão meiga e confiante se entregava em seus braços procurando não só amor, como abrigo e proteção, qual a tenra trepadeira se enlaça ao tronco que a sustem contra a fúria dos vendavais, e cuidava ver abrir-se diante de seus olhos um céu de delícias sem fim.

- Ah! não, meu anjo, não creias que eu jamais possa resolver-me a deixar-te, - replicou Maurício como acento do mais apaixonado transporte; - embora mil mortes me rodeiam, nunca me afastarei de ao pé de ti.

Ainda, que me não vejas, fica tranqüila e certa, que não estou longe, que velo solicito e sempre alerta em volta de tua habitação, pronto a todo instante a correr em teu auxílio, e a desfazer as ciladas de nosso perseguidor, e que o mais leve ai, que exalares, chegará a meus ouvidos. Ainda que me não vejas estarei sempre junto de ti afrontando todos os perigos para te amparar e defender, porque adoro-te com todas as forças de minha alma, por que em ti consiste toda a minha vida, todo o meu futuro, toda a minha esperança de felicidade neste mundo.

- Os céus te paguem, meu bom, meu generoso Maurício, os céus te paguem tanto amor e dedicação. Eu fraca e infeliz donzela que mais posso oferecer-te senão este coração, que a muito tempo já é teu, senão este meu puro, meu constante, meu eterno amor...

- Oh! Leonor!... só essas tuas doces palavras bastariam para recompensar um século de trabalhos, de perigos, de sofrimentos. Mas como voam rápidos estes momentos!... Leonor, repete-me ainda uma vez, que me amas, e... adeus!...

- Sim, eu te amo, repeti-lo-ei mil vezes; eu te amo... nosso amor é puro, Deus o protegerá... Um dia seremos felizes.

- Seremos felizes !... sim, meu Deus!... és tu quem falas pela boca de um de teus anjos. Sim, Leonor, seremos felizes... adeus!...

Os braços dos dois amantes enlaçaram-se em apertado amplexo. Neste momento um pavoroso estrondo, que partia do lado oposto do edifício por entre uma gritaria infernal veio de chofre ferir-lhes os ouvidos. Os insurgentes assaltavam a casa do capitão-mor, e entre

gritos furiosos tratavam de arrombar o grande portão do pátio a golpes de machado. Os brados de morram os emboabas!... Morra Fernando! morra o capitão-mor ! - chegavam distintamente a seus ouvidos. Maurício ouvia também às vezes o seu nome entre pragas e epítetos afrontosos. Compreendeu no mesmo instante todo o horror de sua situação. Acordava do mais puro e suave sonho de amor para achar-se a braços com a mais tremenda realidade. Leonor não pudera resistir a este novo e terrível abalo, e tornara a desfalecer. Maurício a toma nos braços, entra afoitamente até a sua câmara de dormir, a depõe cuidadosamente sobre o leito, imprime-lhe um beijo na fronte, e com a velocidade do relâmpago desaparece de novo por onde havia entrado. Que irá ele fazer ?...



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