Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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CAPITULO XX

Feitiço contra o feiticeiro

Para explicarmos a origem do horroroso tumulto, que viera tão brusco e violento interromper os angélicos e suaves sonhos de Maurício e Leonor no momento da despedida, enchendo de pavor e consternação a casa do capitão-mor, nos é mister levar ainda uma vez o leitor à gruta de Irabussu. Deram-se aí nessa tarde importantes acontecimentos, que, como vamos ver, anteciparam o rompimento da revolta e a fizeram precipitar-se furiosa sobre a residência de Diogo Mendes.

O assassinato do Minhoto e os vexames e perseguições, a que deu ocasião, levaram ao cúmulo a exaltação e impaciência dos conspiradores, e contribuíram em grande parte para acelerar a explosão daquela desasada insurreição, mal dirigida e pior organizada por homens de todas as raças e de todas as condições, e eram eles que jogavam interesses e paixões tão desencontradas.

No mesmo momento em que o mameluco Tiago denunciava a revolta com a maior individuação, e apontava a Fernando um por um os seus principais chefes, os insurgentes em grande número já se achavam reunidos na gruta de Irabussu em uma sessão tumultuária e tempestuosa. Na ausência de Maurício e de Gil, únicas pessoas que por sua firmeza e resolução e pelo prestígio de que gozavam podiam exercer algum ascendente e conter os excessos daquele bando selvático e insubordinado, não havia mais dique ao transbordamento do mais anárquico e odiento fanatismo.

Calixto, o jovem e fogoso paulista, também lá se achava. Sabendo, por um feliz acaso, que fora indigitado como assassino do Minhoto, pôde escapar a tempo das perseguições dos esbirros. Dotado de indomável altivez, assomado, vingativo e rancoroso sobravam-lhe além disso motivos para fazer-lhe arder o peito em sede de vingança. Bueno, seu velho querido mestre e protetor, que desde a véspera não comparecia, constava que tinha sido preso e que estava sendo posto a tratos para dar conta dele Calixto, e revelar o que soubesse a respeito da insurreição. Sua adorada Helena lá se achava detida em casa de seus perseguidores, roubada violentamente ao seu amor, sujeita aos desacatos e talvez às violências de um rival poderoso e dissoluto, que estava como que de posse dela.

É fácil compreender como não devia ferver o sangue ao pobre moço, como não estaria ansioso por correr à casa do capitão-mor com o punhal em uma das mãos, e o facho aceso na outra não só para desafrontar-se das injúrias passadas, como para arrancar à ignomínia e à morte sua amante e seu benfeitor; situação bem semelhante, porém não tão complicada como aquela, em que se achava Maurício.

- Não há tempo a perder, meus amigos! - gritava ele com a exaltação de um possesso, - se não formos já e já fazermo-nos justiça por nossas próprias mãos à custa do sangue desses perros infames, tudo está perdido. É escusado esperar por Maurício, nem por Gil, nem por quem quer que seja. Que precisão temos nós de chefes ? Porventura não sabemos o caminho da povoação e da casa do capitão-mor ? Para matar emboabas precisamos de quem dirija nossos golpes !... Os nossos perseguidores já andam de prevenção; a morte desse miserável Minhoto acabou de pô-los de sobreaviso, e agora ainda de mais a mais não sei por que artes veio meter-se entre nós esse mamelucozinho, um Judas, que mais hora menos hora irá nos entregar nas mãos de nossos tiranos. As coisas têm chegado a um ponto, que de um momento para outro em vez de sermos assaltantes, podemos ser assaltados aqui, e aqueles de nós, que escaparem à matança, irão para o tronco e do tronco para a forca a servirmos de regozijo e chocata a nossos opressores. Camaradas, não devemos perder um só instante; se não formos hoje mesmo e sem mais perda de tempo dar cabo deles, amanhã darão cabo de nós.

Assim falava o moço interrompido a cada passo por aplausos estrondosos e por gritos de morram! morram os emboabas !... Entretanto, grande parte dos paulistas amigos de Maurício e de Gil entendiam que nada podiam empreender sem ordem deles, e empregando em vão os últimos esforços para acalmar os ânimos, instavam, para que se esperasse ao menos até meia noite, hora em que Maurício dera palavra de se achar entre eles. Eram interrompidos por gritos frenéticos e pocemas sanguinárias.

- Aos emboabas! aos emboabas já e já! – Morram esses malditos! - era a única resposta que obtinham.

- Que necessidade temos nós aqui de Gil, nem de Maurício ! - exclamou Calixto num acesso de humor atrabilário. - Podemos nós contar com eles ?... um é rico, e não quer arriscar os seus tesouros; o outro é criatura do capitão-mor, vive de rojo aos pés da filha dele, e bem se vê que, se nos acompanha, não é de muito boa vontade...

- Cala-te, Calixto, - atalhou um grave e sisudo paulista já algum tanto avançado em anos. - És muito criança, a paixão te exalta e cega; por isso perdoamos-te... as palavras loucas, que acabas de pronunciar. Onde ouviste dizer, que um paulista faltasse à sua palavra! Quando te constou, que um paulista atraiçoasse aos seus a quem quer que fosse !... Esperemos, camaradas; Maurício prometeu, Maurício hoje à meia noite estará conosco.

- Não ponho em dúvida a lealdade de Maurício, nem de Gil, - respondeu o mancebo um pouco reportado com a severa reprimenda do velho paulista; mas é certo que Maurício, perdido de amores pela filha de nosso , tirano, não percebe que nos vai pondo a perder com suas prudências e demoras. E depois quem nos diz que a esta hora não estarão eles metidos em um tronco? Quem mesmo nos pode assegurar, que estão vivos ou mortos!...

Esta conjetura era com efeito mais que plausível, e abalou profundamente e consternou o ânimo dos próprios paulistas, que ainda nisso não haviam pensado.

- A eles! a eles, enquanto é tempo! morram! morram os emboabas !... foi o grito geral.

Assim em tumultuosas altercações e horríveis algazarras passaram-se algumas horas, até que baixou a noite, e com ela surgiu entre eles a figura satânica de Tiago, sem que ninguém visse quando, nem por onde tinha entrado.

- Meus amigos, - disse ele com ar consternado, - porque estão aqui ainda a perder tempo em falatórios!... saibam que estão entregues e atraiçoados, e se não correm já e já a dar cabo daquela corja, estão perdidos !... Fernando e o emboaba velho já estão inteirados de tudo e muito por miúdo. Amanhã pela manhã eles têm de dar nesta caverna com sua gente. Meu aviso ainda vem a tempo; tratem de fugir, se têm medo, ou de dar sobre eles nesta noite mesmo, e isto já sem demora.

- Que estás a dizer, anãozinho dos mil diabos!... quem te contou essas patranhas?...

- Estou dizendo a pura verdade...

- E quem será o traiçoeiro, também não saberás dizer-nos?...

- Eu sei? !... imaginem lá bem, e vejam, quem poderá ser.

- Além de mestre Bueno, - ponderou um paulista, - e mais alguns poucos, que tiveram a desgraça de ficarem presos por causa da morte do Minhoto, só nos faltam aqui Maurício, Gil e o índio Antônio; mas estes, eu dou por eles minha cabeça, são incapazes de uma traição.

- Quem sabe - ousou refletir outro paulista- se mestre Bueno ou algum outro forçado pelas torturas...

- Nunca ! nunca ! - atalhou o primeiro com energia - nenhum dos paulistas, que lá estão, seriam capazes de nos entregar, nem que os botassem a ferver nas caldeiras de Satanás.

- quem poderá ser então ?... fala, mameluco do inferno, que nos atraiçoa ?...

- Não digo, que seja o senhor Maurício - respondeu o marralheiro caboclo - nem o senhor Gil e nem tão pouco o Antonio. No entanto eu moro em casa do homem da casaca vermelha, e meus olhos e meus ouvidos andam ali por todos os cantos, e sei que estamos entregues. Esses três, de que falei, são os únicos que lá andam livres e soltos; os outros, que lá se achavam, foram todos presos. Por que razão esses senhores não se acham aqui ?... isto sempre dá que pensar.

- Deixa-te de meias palavras, maldito! fala o que sabes franca e lisamente, se não queres que aqui mesmo te estrafeguemos. Fala, quem é que nos atraiçoa?...

- Quem mais senão esse birbante mesmo, - bradou uma voz atroadora. - É ele, é esse mameluco infame que hoje mesmo não há muitas horas nos traiu e denunciou.

Todos se voltaram atônitos para a pessoa, que acabava de pronunciar estas palavras. Era Antônio, que naquele momento entrava precipitadamente na gruta.

- Agarremos este patife - continuou o índio, e sofra aqui já sem demora o castigo de sua traição.

Tiago, fulminado por tão inesperada revelação, ficou por alguns instantes perturbado sem saber o que replicar a quem tão bruscamente o vinha desmascarar.

- Este meu parente está louco de certo, camaradas, - redargüiu enfim reassumindo sua natural protêrvia e ar petulante. - Eu atraiçoá-los !... seria galante eu atraiçoar-me a mim mesmo!... se eu quisesse entrega-los, com que interesse eu viria agora às carreiras avisa-los do perigo, que estamos correndo ?...

- Com que interesse ? ! - replicou Antônio colocando-se diante do mameluco de braços cruzados e com um riso de feroz sarcasmo. - Olha bem para mim, maldito!... sabes com quem estás falando?... tu não pareces gente; tu és um filho de Satanás, que só queres nos ver a todos nos despedaçando uns aos outros para poderes vir e folgar em cima de nossos corpos e atolado em nosso sangue. Mas tu não nos enganas mais, miserável; antes que possas ver a cor do nosso sangue, o teu estará derramado até a última pinga.

- Isso não é tão fácil de fazer, como de dizer.

- Eu te mostro, - retrucou Antônio em tom seco é breve, e desembainhando a faca deu um pulo de onça sobre o mameluco, e agarrou-o pela gorja. Alguns paulistas, porém, detiveram-lhe os braços.

- Estás louco, Antônio! - disseram-lhe; que pretendes fazer ?... se principiarmos assim derramando o sangue dos nossos antes de vertermos uma só gota do de nossos inimigos, mal agourada vai a nossa empresa...

- Dos nossos? !... nunca !... é o sangue de um miserável traidor, que quero derramar...

- Mas que certeza tens, de que ele nos traiu?...

- A certeza, que me deram estes olhos e estes ouvidos. Sim, senhores, por felicidade nossa ouvi e vi tudo.

Antônio então relatou minuciosamente em vivas e rápidas palavras o motivo e o modo por que se introduzira furtivamente em casa do capitão-mor, e como presenciara sem ser visto à delação do mameluco. Tiago, esmagado por aquela revelação, não podia opor-lhe senão uma simples negativa; entre a sua negação, porém, e a afirmação do bom e leal Antônio nenhum dos que ali se achavam presentes, hesitaria um momento.

- Morra o infame traidor!... acabe-se já com ele, antes que nos arme outra! morra! morra o mameluco ! - assim bradava uma multidão de vozes, e já as facas e punhais relampeavam fora das bainhas. Tiago, vendo-se perdido, lembrou-se então de implorar um pequeno prazo apelando para os acontecimentos. Ele tinha presenciado as ordens rigorosas e terminantes, que dera o capitão-mor para trazerem à sua presença Maurício e Gil, vivos ou mortos; contava portanto quase como certo, que os dois mancebos àquelas horas, se não estivessem

mortos, estavam pelo menos presos e metidos no tronco. Ignorava, porém, que Antônio os fora avisar, e que Fernando de propósito havia obstado a que fossem presos naquele dia.

- Deixem falar esse bugre, - gritou o mameluco; ele há muito tempo me tem ódio não sei por que. Sou eu o traidor? ! pois bem; eu aqui me acho no meio de vossemecês pronto a receber o castigo, que merecer; e eles o que estarão fazendo?.. porque não se acham aqui?... esperem por eles...

- Eu juro, -exclamou Antônio, - que à meia noite meu amo aqui se há de achar conosco.

- E eu juro, que não. Se acontecer o contrário, então sim, podem matar-me, estrangular-me como e quando quiserem.

- Até à meia noite!... isso nunca! nunca! bradou Calixto altamente impacientado. Uma hora só de demora pode nos arrastar à perdição. Que estamos atraiçoados não resta dúvida, seja lá quem for o traidor.

Que mais esperamos? que eles ajuntem gente e nos venham aqui amarrar como negros fugidos?.. Não, meus camaradas, nem um minuto devemos mais perder; partamos já e já. É loucura esperar por Maurício e Gil, que ninguém sabe se estão presos, nem se estão vivos ou mortos...

- Posso afiançar que não foram presos, - replicou Antônio; - apenas acabei de ouvir a denúncia deste maroto, corri a avisá-los, e eles puseram-se a salvo.

- Mas tu lá os deixaste ainda, Antônio, e Deus sabe o que terá acontecido.

- Não sei, mas meu amo é nosso comandante; ele deu palavra de estar aqui até à meia noite; devemos esperar por ele. E que mal faz isso? Da meia noite até o romper do dia temos tempo de sobra para marchar até a povoação, e em poucos instantes varremos de lá tudo quanto é emboaba.

E se antes disso eles vierem nos atacar? - ponderou Calixto.

- Isso não pode ser. Escuta branco; eu estive lá, vi e ouvi tudo, e a boca de Antônio não sabe mentir. Nenhum deles sabe o rumo, nem o caminho desta fuma.

É este maldito, que aqui está, que não sei por que artes nos veio descobrir aqui, é este capetinha do inferno, que amanhã ao romper do dia devia guiá-los a esta gruta. Não é verdade?... fala, cão tinhoso, mameluco de Satanás.

Tiago nada ousou responder; em vista das declarações do índio, já não duvidando que de um momento para outro Maurício e Gil pudessem comparecer, via desvanecerem-se suas esperanças. Já não lhe restava outro recurso senão esgueirar-se sorrateiramente, como o fizera da primeira vez, e para esse fim, olhando para todos os lados com seus olhos de víbora, espreitava sutilmente a ocasião oportuna. Mas Antônio, que já lhe adivinhava a intenção, sempre de olho vivo, não se arredava de ao pé dele.

- Mas felizmente ele aqui está em nossas mãos, - continuou Antônio, - não o deixemos escapar, e por esta noite ao menos nada temos que recear.

Os paulistas, que se interessavam por Maurício e Gil, e que receavam que aquele movimento, composto em grande parte de uma horda de bárbaros insubordinados e furiosos e dirigido pela cabeça esquentada e inexperiente de Calixto não passasse de um ato de feroz canibalismo, que viria ainda mais agravar sua sorte, exultaram com as revelações de Antônio e o aplaudiram vivamente .

-Tem Antônio toda razão, - diziam eles, - e ninguém aqui pode por em dúvida sua lealdade e boa fé; à vista do que ele nos diz, podemos esperar até meia noite a vinda de nossos chefes sem inconveniente algum. Só eles nos poderão dirigir de modo conveniente e eficaz nesta arriscada empresa, e antes esperar mais algumas horas do que dar um golpe desalertado, que poderá recair sobre nossas cabeças. Eles lá se acham livres e soltos, e por certo terão conhecimento do que por lá tem ocorrido, e melhor do que ninguém saberão o que se pode fazer. Se vierem até meia noite, devemos obedecer-lhes como a chefes por nós escolhidos; se porém até então não aparecerem, não poderemos mais esperar a nossa situação não o permite; devemos marchar a todo transe.

Estas considerações produziram algum efeito, e acalmaram até certo ponto a agitação e impaciência dos ânimos com grande desgosto de Calixto, a quem tantas delongas e hesitações desesperavam. Um sussurro de aprovação se propagava por aqueles grupos movediços e fantásticos, que se amainavam gradualmente, como a selva que murmura e balanceia-se brandamente depois da passagem do furacão.

- Seja lá como quiserem, - bradou Calixto estorcendo-se de raiva e de impaciência; - do que estou certo é que toda esta demora nos será fatal, se é que já não o tem sido. Mas já que assim o querem, esperemos; esperemos que o cutelo do carrasco caia sobre nossas cabeças.

- Esperem outros, - exclamou Tabajuna, o chefe dos indígenas, erguendo-se em toda sua colossal estatura e levantando os braços musculosos acima de toda a turba; - esperem outros, mas Tabajuna e seus guerreiros não esperam mais nem um momento. Esta furna é a ocara de um pajé; ainda esta noite Tabajuna ouviu a voz dele, que falava do fundo dessas cavernas. A voz do pajé falava assim: "Os filhos da floresta não devem esperar o conselho do filho do emboaba. E' tempo de vibrar o tacape sobre a cabeça do inimigo, e mandar-lhe ao coração a flecha voadora". Levantei a cabeça e olhei; quem me falava assim era Irabussu, Irabussu, que conversa com os manitós, e é querido de Tupã. Não é verdade Irabussu ? Terminou o cacique voltando-se para o interior da caverna e reforçando a voz com medonha entoação. Todos os olhos se volveram para aquele lado, onde passado um instante surdiu uma pavorosa figura humana, que mais parecia um espetro. Era um índio quase nu, alto, seco e delgado como um coqueiro calcinado pelo raio e despojado de seus leques de verdura. Apareceu um instante a boca de uma fuma interior entre duas estalagmites, como um esqueleto entre as duas colunas de um nicho de mármore. Dir-se-ia a múmia de um cacique, que ali se achava em pé, se não lhe cintilassem no fundo das órbitas solapadas dois olhos vivos como carbúnculos.

- É verdade! - bradou Irabussu; com voz rouca e lúgubre, e de novo desapareceu na escuridão dos profundos recessos da caverna.

Ainda desta vez a aparição do velho índio a todos pareceu sobrenatural. A exceção dessas duas noites, em que aparecera instantaneamente como um morto evocado do sepulcro, ninguém mais o vira depois daquela noite tremenda, em que deixando desvairados nas trevas da medonha lapa os míseros portugueses, que o conduziam, se sumira também como um duende nas profundas células daquela colossal colméia de estalactites.

O próprio Antônio ficou assombrado com tão extraordinária visão, mas superando o seu pavor:

- Pai de Judaíba, - bradou, - escuta; tu te enganas...

- É verdade! - remurmurou mais longe e mais sumida a voz de Irabussu.

A aparição de Irabussu pôs termo às discussões, e acabou com todas as hesitações. Os próprios paulistas, ou porque vissem que não era mais possível conter a exaltação dos companheiros, ou porque também se sentissem abalados pela voz lúgubre daquele espetro, que parecia falar como um oráculo do seio dos túmulos, acompanharam o arrastamento geral.

- Aos emboabas !... morte aos emboabas !... eram os únicos sons que ecoavam pela gruta, e cada um dispondo-se a despejar a caverna corria com açodamento a empunhar suas armas.

- Esperem, camaradas; um momento ainda! exclamou Antônio, que se conservava sempre ao pé de Tiago sem dele desviar os olhos com receio que se escapasse de entre eles com a sutileza do costume para de novo ir atraiçoá-los. - Antes de sairmos é preciso ver o que se ha de fazer deste maldito mameluco. Levar conosco um velhaco, um traidor deste quilate... não é possível; deixá-lo aqui livre e solto vem a dar na mesma. O melhor é deixá-lo aqui pendurado pelo pescoço; é o 'Único meio de nos vermos livres de semelhante víbora.

Enquanto assim falava Antônio ,tinha o mameluco agarrado pelo braço.

- Matá-lo já não é, justo, - intercedeu um paulista; - o melhor é deixá-lo aí fora amarrado a uma árvore.

- Ele roerá a corda com os dentes, - retrucou Antônio.

- Amarremos-lhe os pulsos, e o suspendamos por tal forma, que mau toque o chão com as pontas dos pés, e quero ver como há de roer a corda.

- Qual! nada disse serve, - disse Antônio depois de um instante de reflexão. - Lembra-me uma coisa; estão vendo aquele buraco, que ali está? - continuou apontando para uma abertura, que se via ao rés do chão em um canto da gruta à maneira da boca de uma fornalha, e onde um homem para entrar teria necessidade de curvar-se não pouco.

- Estamos vendo e depois?...

- Aquele buraco não tem mais entrada, nem saída senão por ali; já entrei por ele adentro, e a não ser no inferno não sei aonde irá acabar. Prenda-se ali este biltre, tape-se a entrada com três ou quatro pedras bem pesadas, e deixemos aí o menino na enchova, já que o não querem matar. Se morrermos por lá e não pudermos soltá-lo, ele também que morra aí entaipado, pois não é mais bonito que nenhum de nós. Se formos relizes, cá viremos soltá-lo, e então ajustaremos contas.

O alvitre foi aplaudido e aprovado com grandes vozerias. O pobre mameluco, que até ali escutava imóvel, silencioso e com os olhos estatelados de pavor discutir-se em ar de chacota sua vida ou morte, ao ouvir proclamar-se e confirmar tão horrível sentença rompeu em brados e alaridos lastimosos, ora soltando horríveis imprecações, ora implorando misericórdia, e rojando-se por terra em miserandas contorções.

Mas seus juízes foram inexoráveis; as circunstâncias eram imperiosas. Agarraram o mameluco à viva força, e o empurraram para dentro do buraco. Imediatamente quatro grandes pedaços de estalagmites, carregados cada um por quatro homens dos mais vigorosos, foram ajustados à boca da furna; por traz destes acumularam-se ainda outros, e só quando já mal se ouviam os uivos lastimosos e desesperados do infeliz emparedado, deram por terminada a obra, e evacuando a caverna trataram de por-se em mancha.



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