Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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CAPÌTULO XXI

O ASSALTO

Apenas os insurgentes se viram fora do antro pavoroso, toda a vozeria cessou como por encanto, e o mais discreto silêncio sucedeu às altercações e pocemas sanguinárias. Antes de se porem em movimento estiveram alguns instantes parados junto à entrada da gruta tomando em voz baixa algumas deliberações e combinando o plano do ataque. Quem visse de alguma distância aquele grupo de cerca de cem homens remoinhando e murmurando em uma noite tenebrosa ao pé de uma rocha escarpada, cuidaria não ver mais que uma moita de arbustos, que se agita e sussurra ao sopro das virações da noite.

Os índios a princípio quiseram prorromper em seus gritos selváticos e entoar seus horríveis cantos de guerra. Mas Antônio dirigindo-se a eles em sua própria língua lhes fez ver, que naquelas conjunturas o silêncio era a primeira condição do sucesso. Também lhas tinha feito largar seus arcos e flechas, que na ocasião de bem pouco lhes poderiam servir; deixou-lhes somente os tacapes, e deu-lhes partazanas e zagais, de que na caverna, graças aos cuidados de mestre Bueno, havia sobeja provisão. Ainda que quase nus alguns se armaram também de espadas e escopetas; eram em número de vinte e tantos a trinta.

Os negros em número pouco mais ou menos igual, além de escopetas e zagais levavam também à cinta suas largas e compridas facas, arma terrível de que com tanta destreza sabem servir-se.

Os paulistas armados de espadas, escopetas e duas pistolas ao cinto formavam o grupo mais formidável e numeroso.

Esta falange vista a luz do sol faria rir a quem não soubesse os nefários e sinistros desígnios, que levavam em vista.

Dos Índios poucos tinham injúrias pessoais a vingar, mas fervia-lhes n’alma o ódio instintivo, que os açulava contra os europeus, que lhes queriam roubar a liberdade e a terra, que Tupã lhes tinha dado. Os negros, todos escravos fugidos, queriam vingar-se dos golpes do azorrague desumano, que ainda lhes ardia nas carnes, e ao mesmo tempo quebrar os ferros da escravidão. Dos paulistas não havia um só, que não trouxesse altamente gravada no coração uma cruel afronta, um esbulho o mais iníquo, a mais clamorosa injustiça. Compreende-se pois com que sofreguidão e sede de vingança marchava aquela troça de bandidos sobre a povoação já submersa em sono profundo. Avançavam todos animados e resolutos, e cheios de ardor e confiança aceleravam o passo quanto podiam, ansiosos por tomarem sanguinolento desfôrço das violências e afrontas até ali tragadas com tanta paciência e resignação.

Antônio, porém, a quem a ausência de Maurício causava a mais viva inquietação, não participava do cego e vertiginoso entusiasmo, que arrastava seus companheiros. Não seriam ainda dez horas, quando os insurgentes se puseram em marcha. Restava ainda ao índio a esperança de encontrar Maurício em caminho. Durante a marcha aplicava continuamente a um lado e outro seu ouvido fino e exercido à escuta de algum tropel de cavaleiro, e de quando em quando com incrível rapidez e agilidade, infatigável como um cão perdigueiro, batia mato e campo à direita e à esquerda em longas distâncias a fim de impedir que Maurício, se acaso tivesse tomado trilho diferente, não se desencontrasse deles.

Mas tudo era baldado; nem notícia, nem tropel, nem sombra de Maurício aparecia. Nem só se inquietável o fiel e generoso índio com a sorte de seu amo, aliás altamente comprometida; ainda mesmo que o soubesse salvo e livre de perigo, a sua ausência era um terrível contratempo, que poderia dar em resultado as mais desastrosas catástrofes. Além de excitar contra si as suspeitas e o ódio dos insurgentes, a que perigos não iam ficar expostos Leonor e seu pai sem a presença daquele, que somente podia protegê-los contendo a fúria de uma horda desenfreada, que só respirava vingança e carnificina !... Ai de Leonor, ai de Diogo Mendes, para os quais não haveria entre aqueles entes obcecados pelo ódio nem a mínima parcela de compaixão. E ai de Maurício, cuja existência seria esmagada pelo mais violento golpe, e que com razão se queixaria dele Antônio, e de todos os seus amigos e patrícios, que por sua imprudência e precipitação os iam sacrificar podendo salvá-los. Em sua extrema dedicação o generoso índio esquecia-se do rancor, que votava ao capitão-mor, esquecia-se de si mesmo, e até de sua querida Judaíba, para so pensar em Maurício e Leonor. Estes pensamentos o torturavam, e cada passo, que os insurgentes avançavam em sua marcha precipitada, dobrava-lhe os sustos e a inquietação.

Sempre na esperança de que Maurício viria a topar com eles em caminho, Antônio, que tanto por sua audácia e atilamento, como pelo traquejo, que tinha daqueles lugares, tinha-se tornado senão o chefe, ao menos o guia da expedição, aproveitava-se de todos os pretextos possíveis para retardar-lhe a marcha. Ora parecia hesitar sobre o trilho, que se devia tomar, ora propunha u.ma. questão sobre o modo por que deveriam atacar os emboabas; mas tudo era baldado; a horda marchava incessantemente e avançava sempre com o mais denodado arrojo e velocidade. A voz de Irabussu troava ainda aos ouvidos de todos, e os impelia às cegas com vertiginosa impetuosidade como folhas secas arrebatadas pelo sopro do furacão.

Estavam já nas imediações do povoado; entretanto a meia noite vinha longe; Maurício, montado em seu valente e rápido corcel, partindo naquele instante, podia ainda apresentar-se na gruta à hora aprazada. Refletindo nisto Antônio desesperava e quase endoidecia; apresentavam-se-lhe de tropel e confusamente ao espírito todas as funestas conseqüências daquela precipitação de seus companheiros, e já não sabia que meios empregar para detê-los. Tentou ainda um derradeiro esforço. Antes de entrar no povoado fez parar um momento a coluna dos insurgentes.

- Eu peço só meia hora, - disse dirigindo-se a Calixto; - um quarto mesmo talvez me baste. - Vou procurar meu amo, saber se é vivo ou morto, se está livre ou preso. Se está vivo e livre, neste momento estará aqui conosco; e ele só vale por cem. Se porém está em poder de nossos inimigos, neste momento também estará livre e vingado; é Antônio quem o jura.

- Aí temos mais delongas! - retrucou Calixto com mau humor, - e tudo por causa desse inconcebível Maurício, que tanto já nos tem atrapalhado!... Deixa-te disso, Antonio; tu vais te arriscar debalde; talvez te agarrem também, e ficaremos sem Maurício e sem Antônio. Nada de demoras! avante, camaradas!...

- Avante ! avante ! - esta voz partindo dos lábios de Calixto remurmurou como um eco surdo por toda a fila dos revoltosos. Por fim, vendo que eram inúteis todos os seus esforços, e que a todas as suas rogativas e observações se respondiam com a voz de avante, Antônio perdeu a paciência.

- Podem ir, - murmurou com voz abafada de despeito e indignação, - mas hão de arrepender-se de semelhante loucura!... avancem, mas veremos o que poderão fazer sem Maurício e sem Antônio. Onde não vai Maurício, Antônio não se mete.

E escapando-se sem ser sentido, apadrinhando pelas trevas, separou-se do bando, e com a rapidez do gamo dirigiu-se para a povoação.

O capitão-mor e Fernando, posto que não julgassem tão iminente o rompimento da sublevação, depois da, formal e minuciosa denúncia do mameluco, trataram de tomar medidas sérias de precaução, como o caso reclamava. Além dos esbirros, que tinham a seu serviço, apenaram também cerca de quarenta homens dos mais valentes e bem dispostos. Destes uma parte ficou de guarnição à casa do capitão-mor', e outra se distribuiu em patrulhas encarregadas de rondar durante a noite. O povoado e suas imediações, a fim de darem sinal ou aviso de qualquer novidade, que ocorresse. Com eles todos contava Fernando ir na manhã do dia seguinte guiado por Tiago atacar os revoltosos na gruta em que se refugiavam. Além disso os escravos também receberam armamento, e tiveram ordem de conservarem-se sempre alerta nas suas alas e com a maior cautela e vigilância possível.

A horda dos revoltosos, sem dar pela falta de Antônio, continuou a alcançar para a povoação debaixo do maior silêncio e com todas as precauções. Os vedetas emboabas, que tiveram a infelicidade de encontrar-se com eles, caíram debaixo de seus golpes silenciosos sem terem tempo de soltar nem um ai. Assim às vezes um vulcão negro e carregado impelido pelo furacão atravessa silencioso grandes espaços para ir despejar mais longe saraiva de raios e torrentes diluvianas.

Em poucos minutos chegaram à casa do capitão-mor sem serem pressentidos, nem encontrarem embaraço algum. Aí prorrompendo em furiosa gritaria em breves instantes arrombaram a golpes de machado o grande portão, e precipitaram-se de tropel pelo pátio a dentro. A gente, que estava de guarnição, saiu valorosamente a rechaçar o assalto, e travou-se no meio das trevas um medonho combate tornando-se o pátio o teatro da mais horrorosa carnificina. Os escravos armados também saíram de suas senzalas; mas que interesse poderia estimulá-los e acender-lhes no peito coragem para se arrojarem ao meio de tão medonho e mortífero conflito?...

Eles, que de muito mal grado e tangidos pelo azorrague do feitor maneavam sem descanso a enxada e a alavanca para enriquecerem seu senhor, podiam estar dispostos a combater expondo-se a uma morte quase certa para defender a vida e a fazenda daquele que os calcava sob o jugo da mais pesada escravidão?... não de certo e a maior parte deles, tomados de invencível pavor à vista, de tanta carnagem, largaram as armas e fugiram espavoridos para longe daquele teatro de horror e matança.

Naquele recinto, estreito para tanta gente, combatia-se com todas as armas. Ouvia-se troar o arcabuz, silvar a espada, a choupa da zagaia embeber-se nas entranhas do inimigo, o tacape do índio roncar nos crânios, que se despedaçavam. Em poucos minutos a guarnição da casa tinha morrido quase toda, mas também tinha deixado por terra mais de um terço dos insurgentes. O capitão-mor, Fernando e Afonso, acompanhados de uma dúzia de esbirros e criados valentes e dedicados, tinham acudido à varanda desde o primeiro alarma, e depois de terem despejado suas armas de fogo sobre os inimigos, enquanto lhes foi dado distingui-las dos amigos, ali se conservaram animando os seus e dispondo-se para uma resistência desesperada. Vendo enfim que sua gente ia sucumbir toda esmagada pelo número e furor dos assaltantes, deram-lhes ordem que se retirassem à varanda, o que de pronto trataram de escoltar, mas foram seguidos de perto pelos insurgentes, que também subiram as escadas escorregando no sangue e tropeçando em cadáveres. Travou-se então na varanda uma luta tremenda, indescritível. Uma lâmpada quase a extinguir-se suspensa bem alto ao teto derramava frouxa claridade naquele recinto, e balouçada pelo estrupido dos combatentes, que agitava o ar, abalava o pavimento, e fazia tremer todo o edifício, ondulava luz vacilante sobre aqueles vultos sinistros, que avançavam uns sobre os outros aos pulos e de arma feita. No meio do infernal alarido e confusão entre pragas, ranger de dentes e tinir de ferros ouviam-se gritos de dor e gemidos de agonia.

Ao entrarem na varanda uma parte dos insurgentes dirigiu-se para o lado das prisões, arrombaram as portas, fizeram em pedaços troncos, cadeias, algemas e todos os instrumentos de suplício que encontraram, e soltaram os presos, que vieram reforçar ainda o número dos assaltantes.

O capitão-mor, gravemente ferido logo no começo do conflito, fora recolhido quase à viva força para o interior da casa. Fernando e Afonso, com os poucos companheiros que lhes restavam, de espada em punho, a muito custo podiam conter a onda crescente dos agressores, cuja frente rota continuamente por seus bem manejados golpes era logo preenchida por novos combatentes. Os dois jovens fidalgos, cedendo e recuando continuamente diante do número e da fúria dos inimigos, viram-se forçados a abandonar a varanda, onde não lhes ficava mais espaço para combater, e refugiaram-se no salão das recepções. Aí havia mais largueza e claridade; o salão era vasto, e um candelabro de bronze, com quatro bugias acesas suspenso ao teto de estuque dourado, derramava bastante luz por todo ele. Para aí também os seguiu e arrojou-se de tropel a uma invasora disposta a penetrar até os mais íntimos recessos do lar doméstico tudo arrasando e trucidando. Tudo estava perdido; só restava a Fernando e seus companheiros a esperança, de que os poucos habitantes do povoado capazes de pegar em armas despertados pelo estrondo daquele terrível assalto corressem espontaneamente a prestar-lhes auxílio. Mas eles não apareciam; os escravos desde o começo da travada tinham-se posto em fuga, e a guarnição da casa quase toda tinha sucumbido aos golpes dos insurgentes. Não havia mais esperança; oprimidos e encantoados por um número três vezes superior, Fernando, Afonso e mais uns dez ou doze companheiros, que restavam, desesperados de sua sorte e resolvidos a vender cara a vida, combatiam como leões em fúria.

De repente a cena mudou-se; os que atacavam Fernando e os seus, viram-se também inesperadamente atacados pela retaguarda. Ao mesmo tempo ouviram-se ressoar estes gritos: - traidor! traidor! morra o traidor! morra Maurício!... Os assaltantes viram-se obrigados a formar duas frentes de combate, uma para fazer face aos golpes desesperados de Fernando e sua gente, outra para resistir ao brusco e violento ataque de um grupo de cerca de quinze emboabas, que os acometiam pela retaguarda. Deu-se então a mais horrorosa confusão; no meio do remoinhar desses homens furiosos, que se atropelavam, abalroavam e entrevelavam-se naquele apertado recinto, por muito tempo ficaram os combatentes sem saber quem era amigo, ou inimigo, e muitos caíram aos golpes de seus próprios companheiros.



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