Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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Capítulo XXIV

A prece de trás anjos

O delíquio, a que de novo sucumbira Leonor cruelmente sobressaltada com o estrondo da temerosa catástrofe, que se despenhava sobre a casa paterna, não fora de longa duração. A vozeria e o estrugido infernal, que aturdia e abalava todo o edifício, em breve a fez voltar a si, como quem acordava de um horrível pesadelo. Ao abrir os olhos viu ajoelhadas junto ao leito suaS duas companheiras Helena e Judaíba, que trêmulas e transidas de pavor lhe tomavam as mãos banhando-as de lágrimas, e procuravam com carinho despertá-la do seu delíquio, que ela ignorando o que sucedera julgavam não ser mais que um profundo sono.

O interior da casa estava completamente deserto; os homens, que nela habitavam, aclamavam-se todos na varanda empenhados no combate; as escravas tomadas de pavor invencível tinham-se escapado para o quintal, ou refugiado no fundo das senzalas. As duas pobrezinhas, vendo-se desamparadas, vaguearam longo tempo desvairadas pelos ermos compartimentos da vasta habitação, como duas rolas prisioneiras sem acharem por onde fugir, nem onde abrigar-se das garras do gavião, que esvoaça ameaçador em volta de sua prisão. Não vendo uma só pessoa, a cujo lado se asilassem, e que pudesse alentá-las e protegê-las em transes tão horríveis, correram para junto de Leonor; bem viam que esta era também como elas uma fraca donzela que também precisava do apoio e proteção de um ser mais forte, mas viam nela como que uma natureza superior, um anjo de pureza e de bondade, que como em outras ocasiões já tinha feito, não deixaria de abrigá-las eficazmente à sombra de suas asas.

- Que é isto, meu Deus!?... que estrondo é este ?... perguntou a moça ao despertar erguendo-se sobressaltada.

- Ah ! senhora, não sabe? ! - respondeu Helena, - estamos perdidas!... briga-se aí fora a fogo e sangue. É uma guerra de morte!... ah! valei-nos, valei-nos por piedade...

- Ah! já sei, já sei!... e meu pai ?... e Maurício ? onde estão?... oh !... meu Deus! tende piedade de nós! - disse Leonor passando pela testa a mão convulsa como querendo reatar suas idéias perturbadas, e lançando para trás do colo as longas e negras madeixas, que lhe obumbravam o rosto.

Leonor compreendeu logo todo o horror de sua situação, mas em vez de esmorecer em presença da temerosa catástrofe, que desabava sobre a casa paterna ameaçando esmagá-la com todos os seus habitantes, sentiu-se revestida dessa resolução heróica, dessa sublime coragem, que é o apanágio das almas puras e elevadas nas ocasiões supremas.

- Minhas amigas, - disse com voz firme e calma à suas duas companheiras, - tranqüilizem-se; nenhum perigo corres, Helena, nem tu tão pouco, minha Judaíba. São teus próprios parentes e amigos, que as vem arrancar desta casa, onde vivem prisioneiras e contra a vontade. Mas eu, meu pai, meu irmão... ai de nós!... seremos sacrificados sem remério ao seu furor, se Deus não amercear-se de nós, e se não defendermos a nós mesmos... Fiquem neste quarto; não se arredem daí, que eu volto neste momento.

Ditas estas palavras Leonor saiu rapidamente, e dirigiu-se ao aposento do capitão-mor; estava ele deserto; seu pai ainda não fora ferido, e combatia na varanda.

Aí entre diversas armas, que examinou rapidamente, escolheu um pequeno e buido punhal, e um florete; guardou aquele no seio, e empunhando este dirigiu-se de novo à sua câmara.

- Para que essas armas ? - perguntou Helena atônita e consternada; quer também arriscar-se...

- Não tenhas susto, minha amiga; atalhou Leonor; - em primeiro lugar vamos rezar e pedir a Deus que afaste de nós esta tormenta horrorosa. Se porém ele não compadecer-se de nós com esta espada irei combater e morrer junto de meu pai, e este punhal servirá para traspassar-me a mim mesma o coração, se tiver a desgraça de cair viva em poder deles.

- E por que razão, - replicou Helena, - não trouxe armas para nós também ?... ficaremos nós aqui a chorar e a rezar, enquanto a senhora tão mimosa e delicada vai combater ?...

- Como! ? pois querem combater contra seus pais e seus amantes, que as vem libertar ?... Helena poderá combater contra Calixto, e tu, Judaíba, terás ânimo de cravar um punhal no peito do teu Antônio ?...

- Que diz, senhora! pois esses também serão contra o senhor capitão-mor, e contra a senhora ?

- Pois quem mais, senão eles ... quem mais senão esses muitos desgraçados tão vexados e perseguidos por Fernando poderiam revoltar-se ! Contra meu pai ?...

- Então também o senhor Maurício... ia ponderar Helena.

- Maurício!... - atalhou Leonor como assustada;

- Maurício!... que disseste, Helena!...

A filha do capitão-mor ficou por momentos imóvel e silenciosa como fulminada por uma súbita e pungente idéia. Uma cruel suspeita lhe havia despontado no espírito. A linguagem obscura e misteriosa de seu amante nas entrevistas, que com ela tivera, seu ar sombrio e preocupado, seu afastamento da casa do capitão-mor, suas resoluções reveladas a meio e em termos vagos e inquietadores vinham ter súbita e manifesta explicação naquela simples frase não terminada e ingenuamente proferida pela filha de Bueno. Em vão Leonor se esforçava por expelir da mente esse odioso pensamento; ele se apresentava teimoso com todos os indícios da evidência, e o desventurado Maurício começava a ficar infamado até mesmo no espírito daquela por quem nesse momento arriscara a todos os azares não só a vida, como o nome e a reputação expondo-os ao mais infamante e abjeto conceito. Poucos momentos durou o embate desses dolorosos e encontrados pensamentos; o tempo e a ocasião urgiam, e a resolução de Leonor tornara-se, se é possível, ainda mais inabalável. Queria ir morrer combatendo ao lado de seu pai em defesa do lar doméstico e a morte lhe seria ainda mais grata, se a recebesse das mãos de Maurício; seria melhor, que ele, que com sua infame perfídia vinha trazer-lhe o gérmem da morte aos seios do coração, lhe terminasse de um só golpe uma existência que a lembrança de tão mal empregado amor iria encher de remorsos, de o próprio e de vergonha.

Passados estes curtos instantes de amarga reflexão, Leonor abriu um lindo oratório, que aí tinha sobre um bufete de pau cetim, acendeu dois círios junto a ele, depôs a espada e o punhal sobre o tapete, e ajoelhou-se.

- Vamos, minhas amigas, de joelhos! - disse às duas companheiras com acento de voz meigo e calmo, - vamos rezar e rogar a Deus, que nos proteja e ampare a nós a todos os nossos.

Helena e Judaíba prontamente se ajoelharam aos lados de Leonor, e enquanto ali bem perto estrugia a fúria do. combate vertiginoso entre pragas, gemidos e ranger de dentes, e corria sangue a jorros, aquelas três almas cândidas e puras, prostradas aos pés do crucificado, erguiam ao trono de Deus a prece, única arma que pode desarmar a cólera Celeste, e imploravam ao Deus de paz, de amor e de misericórdia para que pusesse termo a tantos horrores e desgraças. Quem as visse ali mudas e consternadas, com as vestes em desalinho e -os cabelos em desordem, julgaria estar vendo as três santas e piedosas mulheres, que a lenda cristã nos apresenta ajoelhadas aos pés da cruz erguendo olhares repassados de angústia e de dó para o corpo sangrento e macerado do Redentor do mundo.

Nessa piedosa e tocante postura veio Maurício ali encontra-las. Com as mãos ensopadas em sangue ainda fumegante não ousou penetrar naquele aposento, que parecia um santuário defendido pelos anjos; parou à. porta e, contemplando por um instante aquele grupo angélico, adormeceu-se em sua alma a angústia e desespero, que a ralavam, para dar lugar a um momentâneo enlevo de ternura e amor, de respeito e adoração. Congratulou-se interiormente, porque se não fora ele, aquele santuário teria sido invadido, profanado e inundado em sangue, e julgou-se feliz por ter conseguido com o sacrifício de toda a sua felicidade, de todo o seu futuro expondo-se ao extermínio e ao ódio geral, salvar sua adorada Leonor. Enfim rompendo o silêncio.

- Não rogueis mais por vós, senhora, nem por vosso pai; - disse com voz branda, mas repassada de amargura. - Estais salvos; rogai por mim, que estou perdido !... para sempre!...

A esta voz Leonor e suas companheiras voltaram o rosto e ergueram-se sobressaltadas.

- E, a quem devemos a salvação? - perguntou Leonor.

- Em primeiro lugar, - respondeu Maurício apontando para o oratório, - a esse Deus de misericórdia, que não podia deixar de ouvir a prece de três anjos; depois a este desgraçado, que vem pedir-vos perdão e dizer-vos um... derradeiro adeus !...

Um eterno adeus - ia Maurício dizer; mas esta cruel palavra amargava-lhe aos lábios, e repugnava-lhe ao coração, em cujos seios pululava-lhe talvez ainda um gérmem de esperança.

O paulista não quis, nem pode dizer mais uma palavra. Os portugueses, que de todos os lados acudiam em socorro do capitão-mor, já começavam a invadir a casa. Maurício, deixando Leonor e suas companheiras atônitas e enleadas, sumiu-se da porta, entrou por uma porta da frente, abriu rapidamente uma janela, e saltou à rua.



Capítulo XXV

Epílogo

Maurício parou um instante em baixo da janela e ali não sabendo para onde caminhava seus passos. Felizmente para ele ninguém o vira saltar senão Gil e Antônio, que como sabemos escondidos em um canto tinham ficado de espreita o esperando. Apenas o viram, em um instante se acharam ao pé dele.

- Que faremos, meus amigos? perguntou Maurício.

Achava-se na verdade em uma situação estranha e inextricável. O futuro mesmo o mais próximo era para ele um enigma, cuja decifração só podia esperar do acaso. Exceto aos dois amigos, que ali se achavam ao pé dele, a ninguém podia inspirar daí em diante senão ódio e desprezo; todos os corações se lhe fechariam, e todos os braços se levantariam contra ele.

Entretanto, no meio de tão horrível desolação dois pensamentos lhe davam algum conforto e consolação: tinha salvado Leonor, e tinha visto subjugado e abatido a seus pés seu pérfido e insolente rival..

- Fugir, meu amo, - disse Antônio respondendo à. pergunta de Maurício; - fugir, e já.

- Sim, foge, Maurício, - disse-lhe Gil também, - foge, enquanto é tempo. Bem estás vendo, à exceção de mim e de Antônio, todos são contra ti; a morte cerca-te por todos os lados.

Efetivamente, à esquerda grande número de emboabas se aglomeraram junto ao portão vociferando imprecauções, e pedindo em altos brados a morte de todos os paulistas e a cabeça de Maurício. À direita os paulistas, negros e bugres, que haviam escapado à matança, retirando-se para o lado do Rio das Mortes, iam-se reunindo em distância erguendo brados furiosos não tanto contra os emboabas, como contra Maurício.

- Morra! - gritavam eles, - morra hoje mesmo esse traidor infame, causa de todas as nossas desgraças !... morra o carrasco, que nos chamou ao matadouro para nos degolar com suas mãos.

Por esse mesmo lado um vivo e medonho clarão começou a iluminar de repente toda a estrada: Era a casa de Maurício, que começava a arder; os insurgentes fugitivos tinham-lhe lançado fogo e sumiam-se em fuga acelerada pelas trevas de além.

- Bem estás vendo e ouvindo tudo, Maurício, disse Gil, - foge enquanto é tempo.

-Deixem-me, deixem-me morrer, - murmurou Maurício, tomado do mais amargo e profundo desalento.

- Não te deixaremos enquanto não te virmos livre de perigo; quando não morreremos contigo.

Maurício não insistiu mais; entregou seu destino a mercê de seus amigos.

Como os insurgente em sua fuga já iam longe, os três, cosendo-se às sombras do morro da quinta, que se estendia até quase a casa de Maurício, encaminharam-se para esse lado, que por ser deserto lhas proporcionava mais facilidade para a fuga.

- Não me resta mais abrigo sobre a terra; só debaixo dela poderei achar descanso !... murmurou tristemente Maurício ao passar pela frente dessa casa, que havia construído com tanto amor e embalado por tão lisonjeiras esperanças, e que agora via com elas - esvaecer-se para sempre em chamas, fumo e cinzas!...

Seguiram sem encontrar embaraço algum pela estrada avante até a um estreito trilho, que desviando-se dela cortava à direita um espesso matagal. Aí Maurício parou.

- Adeus, Gil! - disse com acento da mais pungente emoção; - estou fora de perigo; não quero que participes mais de minhas desgraças. Aqui perto tenho meu cavalo arreado; eu e Antônio saberemos pôr-nos a salvo. Cuida em salvar-te também adeus ...

E sem esperar resposta enfiou-se rapidamente pelo trilho, e acompanhado por Antonio sumiu-se no matagal.

Na manhã do dia seguinte os habitantes de S. João d’el Rei cavavam a terra não para extrair dela o ouro que tanto cobiçavam, mas para depositar em seu seio uma multidão de cadáveres, que eram conduzidos por dezenas em carros de bois.

E Logo depois do horrível e sanguinolento conflito. Fernando, apesar de ferido e extenuado de fadiga sempre ativo em sua odienta perseguição, expediu patrulhas a pé e a cavalo por todos os arredores em perseguição de Maurício e de todos os insurgentes que encontrassem.

Uma dessas patrulhas, já o sol ia alto, - seguindo um rastilho de sangue, encontrou à margem do Rio das Mortes pouco acima da ponte, que conhecemos, uma cova aberta de fresco ;sobre essa cova estavam um chapéu e armas, que reconheceram ser de Maurício.

Mão piedosa, decerto a de Antônio, tinha plantado sobre essa cova uma cruz de madeira toscamente lavrada, e nos braços, dela em falta de outra tinta tinha escrito com sangue estas palavras:

- Orai por ele !

Quase todos entenderam, que Maurício havia morrido em conseqüência de golpes, que recebera em combate. Mas os poucos, que o conheceram de perto, e sabiam a história Íntima de seu coração, julgavam mais provável que ele tivesse posto fim a seus dias por suas próprias mãos.

Entretanto a infeliz Leonor, treda e insidiosamente informada por Fernando sobre o procedimento de Maurício e sobre a morte por ele dada a seu irmão Afonso, não tinha senão maldições para a memória de seu desditoso amante. Nesse mesmo dia, que seguiu-se à temerosa noite, sentada à cabeceira de seu pai ferido e prostrado no leito, confessava-lhe cheia de vergonha e remorso o louco amor que concebera pelo jovem paulista, e pela alma de seu irmão, cujo cadáver ia dar-se à sepultura, implorava-lhe perdão abjurando para sempre tão funesta paixão.

Por fim rogava-lhe com as lágrimas nos olhos, que para expiação de sua fatal fraqueza a fizesse professar freira no convento de Nossa Senhora da Luz em S. Paulo.

Veremos depois, minha filha, - respondia-lhe o bom e honrado pai; - estou muito fraco e tu muito magoada para podermos, pensar nisso agora.


O leitor, que até aqui tem acompanhado benigna e pacientemente esta tosca narração, se deseja saber qual foi realmente o fim de Maurício, e qual a sorte de seus companheiros de infortúnio e outros personagens que nela figuram, deve ler outra história, que servirá, que de seguimento a esta com o título de Bandido dos Rios da Mortes.

FIM



ÍNDICE
I S. João d'EI-Rei

II Os mineiros

III Saída ao encontro

IV Na floresta

V Ligeiro retrospecto

VI Aprestos de caçada

VII A marcha para a caçada

VIII A caçada

IX Fim da caçada

X Apreensões

XI ódios e amores

XII A mina misteriosa

XIII O índio bruxo e sua filha

XIV Diligência malograda

XV O gato do mato

XVI Ir buscar lã e sair tosquiado

XVII Rapto e violência

XVIII Antônio e seus amores

XIX O interrogatório

XX O anjo do lar e o anjo das selvas

XXI Em busca do Eldorado

XXII A gruta de Irabussu

XXIII Sepultados em vida

XXIV A catecúmena

XXV El dorado sem ouro

A insurreição

I Estréias de um jovem fidalgo

II Um Páris mal sucedido com a sua Helena,

III Processo sumaríssimo a meia-noite

IV Noite de vigília e angústia

V Perdão pior que a pena

VI Começo de conspiração

VII Turpe senilis amorvm

VIII Indícios e suspeitas

IX Rompimento

X Conciliábulo na gruta

XI Fatal irresolução

XII A aparição e o refém

XIII Tiago, o mameluco

XIV Trágica interrupção de uma entrevista amorosa

XV O tição fatídico

XVI Entusiasmo e confiança

XVII Invencível obstinação

XVIII Mil dobras pela cabeça de Maurício

XIX Horroroso despertar de um sonho de delicias

XX Feitiço contra o feiticeiro

XXI O assalto

XXII Combate pró e contra

XXIII Ela salva e ele condenado

XXIV A prece de três anjos

XXV Epílogo



ASSOCIAÇÃO ACERVOS LITERÁRIOS

EM COLABORAÇÃO COM O CELLB/UFOP
Esta publicação contou com o apoio do CNPq.
Edição e informática: Ednaldo Cândido Moreira Gomes

1 Boleadas:

2 Lizerias

3 Almocafre:

4 Cangerana

5 Doestos:

6 Repetição consta na edição;

7 Desforço:

8 Coeva:

9 Venatória:

10 Absalão:

11 Molossos:

12 Opimos:

13 Sopitado

14 Canibalismo: no contexto da obra de Bernardo Guimarães, canibalismo não possui o sentido usual, ou seja, de antropofagia, devoração de carne humana; a expressão toca sempre o campo semântico relativo à violência corporal e derramamento de sangue.

15 Saquitel

16 Abrenúncio

17 Rifão

18 Protervo

19 Colínea:
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