Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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CAPÍTULO V

Ligeiro retrospecto

Não podemos prosseguir na presente narrativa, sem determos por alguns momentos a atenção do leitor, a fim de informá-lo sobre quem era o capitão-mor Diogo Mendes, sobre alguns antecedentes de sua filha Leonor e de várias outras pessoas, que compunham o seu doméstico.

O capitão-mor era um português e o leitor já terá adivinhado, que era fidalgo de boa linhagem, de solar e cota d’ armas.

Era um homem de seus cinqüenta e tantos a sessenta anos, de estatura regular, robusto, reforçado e mesmo valente. Já se tinha distinguido em seu país na carreira militar, quando veio para o Brasil, e estabeleceu-se na capitania de S. Vicente, onde em breve adquiriu considerável riqueza e casou-se com uma gentil paulista, de quem teve diversos filhos, entre os quais eram os últimos Afonso e Leonor, que o acompanhavam às Minas.

Quanto ao moral era um desses caracteres mui sediços em todas as histórias e romances de todos os tempos, muito comum nos séculos passados, e que ainda hoje não são raros. Zeloso ao último ponto de sua fidalguia, enfatuado de pertencer à pátria de Fuas Roupinho, João de Castro, Albuquerque e outros lidadores por glória, tinha para si que a nobreza do nascimento é o primeiro dote do homem, e o valor marcial a principal virtude.

Posto que avezado a atos de mando e despotismo, nem por isso era de más entranhas, e aninhava no coração sentimentos de humanidade e às vezes mesmo de generosidade.

Tendo recentemente perdido a esposa, os mais ternos afetos de sua alma se concentravam agora em sua filha Leonor, única, que tinha desse sexo, e em Afonso, que era o seu mimoso Benjamim. Os filhos mais velhos há muito que se haviam desgarrado do ninho paterno.

Nascida em S. Paulo de Piratininga, nas veias de cujos habitantes parece que circula grande dose de sangue espanhol, Leonor tinha esse admirável tipo de beleza que caracteriza as filhas de Cadiz ou de Sevilha, com esses toques de lânguida suavidade, que o céu da América tropical imprime na fisionomia de suas formosas filhas.

Negros e longos cabelos de seda, olhos ora cheios de fulgores deslumbrantes, ora embaçados de meiga languidez como lâmpadas veladas, boca pequena e voluotuosa, porém grave sempre e avara de sorrisos, o que os tornava ainda mais preciosos e sedutores, porte esbelto e nobre, telhe incomparável, tudo isso, e outros mil encantos mais, faziam de Leonor uma das mais perfeitas entre as filhas de Eva.

Desabrochando à vida debaixo do céu risonho da heróica Paulicéia, entre os largos e esplêndidos horizontes da América, onde o espírito de liberdade como que circula na atmosfera, cicia nas asas da brisa, e murmura pela grenha das florestas, Leonor não podia partilhar os preconceitos de seu pai, mas respeitava-os como filha submissa e afetuosa.

Em sua infância, que correu com aquele resguardo dos antigos tempos no interior do lar, na escola ou no templo, ela só conheceu, além de seus irmãos, um único companheiro, um órfão desvalido, que seu pai havia recolhido por compaixão, tendo o pai dele morrido em uma expedição em serviço do mesmo Diogo Mendes, e deixando na miséria a mãe, que não lhe sobreviveu muito tempo.

Era um belo menino, cheio de vivacidade e inteligência. Interessando-se vivamente pelo órfão, que de dia em dia desenvolvia novos dotes de espírito, e excelentes qualidades de coração, Diogo Mendes o fez entrar para o colégio dos jesuítas, a fim de ser educado para o estado clerical. Aí esteve ele por três ou quatro anos, durante os quais aqueles padres, apreciando a inteligência clara, o espírito vivaz e penetrante, e a índole audaciosa, que o menino então já adolescente ia revelando em sumo grau, achando que ali havia massa para se formar um excelente missionário de Loyola, empregaram grandes esforços para atraí-lo ao seu grêmio. Foi tudo embalde; o menino não tinha nascido para a roupeta. Havia nele um elemento, que se opunha diametralmente à obediência passiva, essa condição cardial imposta aos discípulos de S. Inácio. Era um extremo amor da independência, uma rebeldia indomável contra todo e qualquer jugo.

Em conseqüência, forçoso foi a Diogo Mendes retirá-lo do colégio com bastante pesar seu, mas nem por isso se revoltou contra seu pupilo, antes procurou outros meios de lhe assegurar no futuro próspera e honrosa posição.

Conhecendo então melhor as tendências do rapaz, que reclamavam vida ativa e aventurosa, associou-o a uma bandeira, que partia para as minas. Saído apenas da infância, Maurício se distinguiu entre os mais bravos e inteligentes, e nessas longínquas, fragueiras e perigosas excursões teve ocasião de desenvolver todo o vigor de sua feliz organização, todos os dotes de seu entendimento claro e atilado.

Nessa expedição Diogo Mendes deu a seu protegido um companheiro, antes um amigo, que lhe foi de imenso auxílio. Um célebre chefe de bandeira amigo de Diogo Mendes, Antônio Dias, o valente e ousado Taubateno, que descobriu as minas de Ouro Preto, lhe tinha enviado de mimo um belo columim ou caboclinho de dez a doze anos da tribo dos Aimorés, que ocupavam as cercanias da serra do Itacolomi. Batizado como escravo de Diogo Mendes, trocou na pia o nome selvático de Itaubi (que parece que quer dizer filho dos rochedos) pelo de Antônio.

Era ele mais velho talvez dois anos do que Maurício. Este encarou logo com o mais vivo interesse aquele novo e estranho hóspede do lar de Diogo Mendes. Por uma natural simpatia e mesmo como não tinha companheiro algum para seus brincos de infância, foi-se achegando ao caboclinho. Os filhos de Diogo Mendes quase sempre fora de casa, na escola, nos colégios, em passeios, e mesmo por um certo orgulho inato de fidalguice, pouco se congraçavam com Maurício.

A vinda do columim foi portanto uma preciosa aquisição, um tesouro para o órfão desvalido.

A princípio o pequeno selvagem mostrou-se desconfiado e esquivo; mas dentro de em pouco foi-se deixando catequizar por Maurício, e no fim de alguns meses tinha-se estabelecido entre eles a mais viva e íntima afeição. Parece que a identidade dos destinos desses dois meninos, ambos desvalidos, ambos não conhecendo nem pai, nem mãe, nem família, ligava-lhes as almas pelos laços de uma instintiva e secreta simpatia, que não deviam romper-se senão com a morte.

Maurício não se cansava de mirar o jovem Aimoré, de interrogá-lo, e de procurar todos os meios de fazê-lo desenvolver-se. Como o caboclo ainda muito ainda6 pouco entendia do português, Maurício por sinais e outros meios lhe ia explicando tudo, e ensinando-lhe a língua dos brancos, ao passo que sempre curioso e vivo ia com ele também aprendendo muitos vocábulos e frases da língua túpica, bem como alguns usos e costumes das tribos americanas.

Graças à sua inteligência e docilidade e aos esforços de seu oficioso mestre, dentro de um ano Antônio estava completamente transformado. Já nada restava do selvagem senão o tipo fisionômico, a força e agilidade juntas ao amor da independência.

Antônio era trêfego e turbulento, e muitas vezes incorria em severos castigos por seus atos de selvática rebeldia; mas Maurício corria imediatamente a interceder por ele com as lágrimas nos olhos, e desarmava a cólera de Diogo Mendes justamente irritado.

Quando Maurício foi para o seminário dos jesuítas, Antônio pensou morrer de paixão. Para matar as saudades pedia licença amiudadas vezes para ir visitar a seu jovem patrão; e como essa licença bem raras vezes lhe era concedida, os dois combinaram entre si um meio de se verem mais freqüentemente.

Às horas mortas da noite, um vulto ágil e flexível como um silfo aéreo grimpava ligeiramente por uma corda para uma alta janela do convento e penetrava na sela do estudante, como faria o mais extremoso amante para introduzir-se furtivamente no aposento de sua bela.

Foi indizível o prazer de Antônio, quando seu senhor o designou para acompanhar Maurício na expedição às minas.

Tornar a ver as montanhas, que o viram nascer e onde passou o tempo da primeira infância, era um gozo, que já de antemão o embriagava, e não fosse a amizade, esse laço mais forte, que o prendia àquele a quem ia servir de companheiro e guia, ele procuraria meios de por lá deixar-se ficar para sempre.

De volta ao seu país, no fim de três a quatro anos, Maurício, traquejado nas fadigas, riscos e asperezas da vida sertaneja, na primeira flor da mocidade, possuía já todos os predicados de um homem talhado para as grandes e árduas empresas da época, todas as qualidades de um chefe de bandeira.

Diogo Mendes, nomeado capitão-mor para uma região nova, bronca e selvática, onde faltavam não só os confortos, como mesmo muitas vezes os recursos indispensáveis à vida, mas onde, segundo as informações dos bandeirantes, lhe sorria a espectativa de uma assombrosa riqueza, não quis todavia transportar-se para ali, antes que tivesse lá preparada uma habitação digna dele e todas as comodidades possíveis naquele sertão. Tendo Maurício em casa e à sua disposição, inepto seria ele, se encarregasse a outro daquela delicada comissão.

Maurício partiu com plenos poderes para esse fim, levando consigo Antônio, diversos oficiais de pedreiro, carpinteiro e ferreiro, e grande número de escravos indígenas e africanos. Apenas chegou tratou com atividade e ardor da construção do edifício, que já conhecemos, bem como da fatura de roças, plantios e de tudo que era mister, a fim de que, quando chegasse o capitão-mor, achasse abundante provisão de víveres e todas as comodidades possíveis.

Resta-nos informar ao leitor a respeito de Fernando, o que faremos em poucas palavras. Era um parente de D. Mendes, que veio ao Brasil procurar fortuna à sombra deste. Moço, gentil e fidalgo, era muito natural que se apaixonasse por sua linda prima, e a considerasse logo como boa e certa presa. Assim ficava feita a sua fortuna sem trabalho nenhum, e ele já de antemão bendizia a hora em que pôs o pé nas plagas de Cabral.

Este pensamento apossou-se de sua alma com toda a força, e cumpre confessar que não esvoaçava longe das vistas de Diogo Mendes.

Fernando acompanhava o capitão-mor na qualidade de seu secretário particular. Tendo chegado de Portugal há poucos meses, Maurício o não conhecia.

É quase escusado dizer que Maurício e Leonor se amavam desde a infância, e sabe-se que os amores, que têm raízes no berço, só podem extinguir-se no túmulo.

O leitor agora compreenderá melhor o motivo da solicitude que esse moço empregava em receber bem o capitão-mor, sua inquietação e sua surpresa, e os rugidos de raiva que arrancou ao presenciar na floresta aquela cena entre Fernando e Leonor.

Quanto a Afonso, filho do capitão-mor, é inútil ocuparmo-nos dela agora; brevemente ele dará o pano de amostra no decurso desta história.



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