Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



Baixar 1.07 Mb.
Página6/47
Encontro29.07.2016
Tamanho1.07 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   47

CAPÍTULO VI

Aprestos de caçada

Mostrou-se o capitão-mor mui satisfeito com tudo quanto fizera Maurício, o qual em verdade lhe havia preparado uma vivenda a mais cômoda e agradável, que o tempo, de que dispunha, e as circunstâncias do país permitiam. Além de outros acessórios, que tornavam sumamente aprazível aquela habitação, Maurício tinha tido o cuidado de construir do lado oposto a grande varanda de entrada, que já conhecemos, um pequeno e formoso terraço de alvenaria guarnecido de grandes vasos de barro e flores.

Desse terraço avistavam-se as lezírias e vargedos, por onde corre o Rio das Mortes, e aqui e ali o veio do rio brilhando ao sol, como a escama cintilante da jibóia, que se esgueira por entre as moitas.

Embaixo do terraço estendia-se um bonito jardinzinho já todo coberto de flores. Maurício, que andava mostrando ao capitão-mor e sua filha um por um todos os cômodos e compartimentos da casa, demorou-se com certa complacência no terraço. Leonor adivinhou o pensamento íntimo, antes o sentimento delicado, que tinha inspirado o mancebo na construção daquele gracioso acessório. Agradeceu-lhe com um olhar e com leve sorriso, que o capitão-mor não viu e que Maurício compreendeu perfeitamente, pois lhe penetraram até o íntimo da alma.

-A vista que daqui se goza, disse Maurício respeitosamente, talvez faça a senhora D. Leonor lembrar-se de S. Paulo, das margens do Tietê e dos passeios e brinquedos de...

O moço ia dizendo, -de nossa -mas reportou-se e concluiu -de sua infância.

-É verdade; suspirou Leonor, não deixa de ter certos longes de parecença...

-Neste ponto compareceram no terraço Fernando e Afonso, que também andavam examinando a casa por todos os cantos. Maurício, que já votava ódio de morte ao primeiro, e antipatia profunda ao segundo destes cavalheiros, tratou de ir-se retirando polidamente.

Passados alguns dias, durante os quais nenhum incidente ocorreu digno de menção, o capitão-mor, que era um extremos apaixonado pelas caçadas, ordenou uma grande correria de veados, antas, pacas, enfim de tudo, que desse e viesse, pelas faldas da serra de S. José, que diziam ser muito farta de caça de toda qualidade.

No dia aprazado, ao romper d’ alva, já se achava reunida no grande pátio toda a cavalgata, que devia tomar parte na caçada.

Era uma caçada à fidalga, que o capitão-mor queria, com certa regularidade e aparato, assim à guisa das grandes montarias, a que tinha assistido em sua terra. Pretendia por essa forma ostentar-se aos olhos do povo, que vinha governar, julgando ser esse um dos meios de fazer respeitar o seu poder e autoridade.

Além disso, como valente guerreiro daqueles bons tempos, apraziam-lhe todos os exercícios e divertimentos fragueiros e aventurosos , uma vez que neles reinasse certa ordem e disciplina. Mas foi em vão que ele e seus monteiros se esforçaram para manter alguma regularidade na disposição e marcha da turba de caçadores.

Eram mais de quarenta cavaleiros emboabas e paulistas, fora alguns índios, camaradas e escravos, uns a pé, outros montados, conduzindo provisões, armas e cães se seus senhores ou patrões. Era indizível a algazarra e alvoroto, que reinava no pátio apinhado de homens, cães e cavalos.

Os caçadores, berrando, altercando, chamando os cães com gritos e assovios, escorveando suas armas, os cães em número extraordinário, açulados pelos tiros, a ladrarem e ganirem desesperadamente, os cavalos rinchando e dando patadas faziam um alarido infernal.

No meio dessa balbúrdia e confusão, onde ninguém se entendia, como era possível introduzir ordem e disciplina?

À exceção do capitão-mor, Fernando e mais alguns poucos portugueses de melhor condição, que já tinham visto caçadas européias, a maior parte dos emboabas eram aldeões vindos há pouco de Portugal, que nunca em dias de sua vida haviam caçado nem lá nem cá. Os paulistas e alguns forasteiros de outras capitanias eram em geral caçadores adestrados, mas à moda americana, e que nada compreendiam da disciplina e etiqueta, que o capitão-mor queria que se guardasse; caçadores rudes e incansáveis das montanhas e das florestas virgens, e não de préstitos aristocráticos.

No meio da confusão de pessoas e animais, que inundavam o pátio, uma coisa havia que causava bastante estranheza aos circunstantes, e maior causará talvez ao leitor, porque ele não está e nunca esteve em nossos usos. Era um lindo e garboso cavalo negro, um verdadeiro palafrem, com ricos e elegantes jaezes próprios para senhora, seguro pela rédea por engraçado pajenzito negro e agaloado.

Isto em uma caçada pelas broncas e selváticas regiões da América, em um sertão apenas descoberto, era de feito caso para causar expectação e surpresa.

Quem seria a Diana ousada e aventureira ? que amazona gentil iria cavalgar o elegante ginete ?

Era sem mais nem menos a jovem e formosa filha de Diogo Mendes; era Leonor !...

Tinha ela forte predileção pelo exercício da caça, -mania talvez herdada do pai. Já em sua terra natal tinha assistido com ele algumas corridas de veado nas belas planícies de Piratininga. Vendo portanto os aprestos extraordinários daquela grande caçada, seu co­ração bateu de entusiasmo. Justo com o pai para que consentisse que ela também tomasse parte na caçada, não só para assistir a um divertimento, de que tanto gostava, como para ver o país em derredor, que tinha muita vontade de conhecer.

-Minha Leonor, diz-lhe o pai, pensas por ventura que as caçadas por aqui são como aquelas, em que estiveste nas Campinas abertas e planas de Piratininga. Aquilo lá era um brinquedo; mas aqui temos de nos enfiar por meio de brenhas e lugares escabrosos e des­conhecidos ; isso não é para ti.

-Não é porque, meu pai? atalhou com vivacidade a moça, pois quem viajou de S. Paulo até aqui com os trabalhos e perigos, que meu pai bem sabe, pode mais ter medo de brenhas, barrancos, nem montanhas ?...

-Mas em viagem, minha filha, caminha-se pausadamente e tem-se tempo de escolher caminho, e na caçada é preciso galopar...

-E por ventura tenho eu medo de galopar?

-Sei que cavalgas admiravelmente; mas galopar por meio dessas matas e barranceiras, minha filha !...

oh ! não serei eu que o consinta.

-Não é preciso que me meta nesses perigos...

-Mas onde ficarás ? sozinha, enquanto os caça­dores se embrenham ?...

-Ora, meu pai !... ficarei em companhia de Afonso, do Sr. Maurício e de... mais alguém. Estou certa, que não se recusarão...

Aqui a moça perturbou-se e corou; nomeando Mau­rício e não querendo falar em Fernando, viu que involun­tariamente havia traído o segredo de seu coração. Mas o capitão-mor nem disso deu fé, de preocupado que an­dava com a sua grande caçada, e mesmo porque os olhos do pai não são tão perspicazes como os do amante. Ah ! se Fernando tivesse ouvido aquele colóquio !

-Eu sei, minha filha ! respondeu o pai hesitando; tenho medo...

-Medo de que, meu pai ? mais medo tenho eu de ficar aqui sozinha neste casarão, apenas com alguns escravos, no meio de uma povoação, onde, — creia-me, meu pai, — há alguns perversos, que nos querem mal. Antes nas brenhas a seu lado e junto dos nossos, do que aqui sozinha.

-Não tenhas susto... mas, enfim, quero fazer-te a vontade, minha filha. Demais vejo que no meio de tão boa gente, que nos acompanha, nenhum risco podes correr.

Além disso o velho refletiu consigo, que a presença da menina contribuiria para dar maior realce e esplendor àquela caçada festival e lhe comunicaria certos ares das montarias dos antigos castelões de sua terra.

Estando tudo e todos prontos, o capitão-mor' com sua filha, seguidos de Afonso e Fernando, se apresenta­ram na varanda.

-Toca a montar a cavalo, bradou o capitão-mor, debruçando-se sobre o parapeito.

E saindo com sua filha ao lado pela cancela, que Fernando abrira com toda a cortesia, foi descendo com ela vagarosamente a escada, parando de degrau em degrau para dar algumas ordens, de que se havia esque­cido. De repente uma espantosa assoada de vaias e apupos veio-lhe ferir os ouvidos.

-Olhem o Minhoto ! ah ! ah ! ah !

-Lá caiu o Minhoto ! ó lê !

-Vejam que triste figura ! chiii !

-Olha a piruca !... lá ficou no chão !

-O diabo montou de uma banda e caiu da outra... ah ! ai !...

Estas surriadas e outras muitas partiam de uma multidão de bocas quase ao mesmo tempo. O capitão-mor olhou para o páteo; a princípio ficou surpreendido, depois indignado com a cena que viu, e que vinha perturbar de modo tão cómico a gravidade de sua nobre caçada.

O caso é este.

Os paulistas, como excelentes cavaleiros, que eram e são até hoje, à voz do capitâo-mór, montaram a cavalo com toda agilidade. Os emboabas, porém, dos quais uns raras vezes e outros nunca haviam montado a cavalo, viram-se bastante embaraçados naquele tumulto, e deram aos paulistas, que os contemplavam, o mais risível espetáculo, que se pode imaginar.

Um aqui quer montar pelo lado direito, o animal,

que não está acostumado a isso, afasta-se, negando o estribo, e o traz por muito tempo atrapalhado.

Outro, que não soube apertar bem as silhas, lá escor­rega no chão com a sela, tendo levado desta um furioso sopapo no queixo.

Outro mais adiante monta sem se lembrar das rédeas, e lá vai o cavalo desgovernado, arrastando-as pelo chão, e levando para onde quer o cavaleiro.

Outro lá enfia no estribo o pé direito, e quando dá fé de si, acha-se montado a cavalo com a cara para trás.

Quem souber que as bandeiras, que varejavam e po­voavam nossos sertões, à exceção de alguns chefes, viajavam a pé, e que na Europa as classes baixas não sabem o que é cavalgar, não estranhará que a maior parte dos emboabas, que se achavam no pátio do capitão-mor, não soubessem absolutamente montar a cavalo, e represen­tassem as cenas cômicas, que acabamos de desenhar.

Os paulistas estouravam com vontade de rir; mas em respeito ao capitão-mor e com medo de provocar al­guma estralada, continham-se o mais que podiam, con­tentando-se em soltar alguns motejos em voz baixa, cochi­chando entre si e rindo-se a sorrelfa. Quando foi, porém, da vez do Minhoto, não puderam mais conter-se; as vaias e surriadas romperam com irresistível explosão.

Antes de contar como o caso foi, é bom saber quem era o Minhoto.

Davam-lhe este nome os seus patrícios por ser o único da terra do Minho, que andava entre eles. Era um português de meia idade, corpo grosso e baixo, pernas demasiadamente curtas em relação ao tronco, enorme carão pálido e comprido; como era de todo pelado, usava uma peruca muito mal arranjada, que lhe dava ao rosto, grosseiramente talhado, visos de um cepo coberto de capim.

Além destes dons corporais, com que o dotara o céu, era de caráter baixo, aleivoso e intrigante e, portanto, o alvo do ódio dos paulistas, sem ser muito bem quisto dos emboabas.

Em compensação de tão belas qualidades, tinha ele sabido adquirir por meio da usura e rapacidade alguns bens da fortuna, o que, a despeito de ser ele da mais baixa extração, dava-lhe entre seus patrícios posição al­gum tanto respeitável. O próprio capitão-mor, que já o conhecia de S. Paulo, o tratava com alguma conside­ração .

Este Minhoto era, nem mais nem menos, aquele emboaba, que já vimos conversando mui lépido e prasen-teiro com o velho ferreiro mestre Bueno.

Para tornar mais ridícula a cena, montava ele um magro murzéio lazarento, mal e andrajosamente arreado. Acontece que quando o pobre homem vai galgar a sela, sem que o animal fizesse o menor movimento, perde o equilíbrio e cai para o outro lado, e com tal infelicidade, que não sei como a escopeta que tinha na mão agarra-lhe . o chapéu e a peruca, e os atira longe, deixando-lhe inteiramente à mostra o crânio amarelo e hediondo.

À vista de espetáculo tão eminentemente cômico, bem se vê que os paulistas tinham razão de prorromperem naquela estrondosa surriada, em que também desabafa­ram seu ódio.

O capitão-mor foi às nuvens de cólera e despeito. Fernando, espumando de raiva, sustentava que aquilo era um desacato solene e premeditado feito não só aos portugueses, como à pessoa e autoridade do capitão-mor ali presente.

O jovem Afonso, se bem que rindo-se a goela des­pregada à custa do cômico incidente, sustentava a mesma opinião, e pedia a seu pai severos castigos.

O capitão-mor bem queria punir o atentado; mas refletindo que a gargalhada era geral, não só de paulis­tas, como de portugueses, como o estava mostrando seu próprio filho, que ali pertinho dele soltava risadas ho­méricas, limitou-se em dirigir aos paulistas uma exemplar reprimenda, e como era a primeira, contentou-se em chamá-los de pícaros, desordeiros e malcriados.

Estes, posto que indignados ao último ponto, soube­ram conter-se sem fazerem manifestação alguma de revol­ta, mas ficaram compreendendo que o governo de um homem, que assim principiava, lhes seria pelo tempo adiante insuportável, e murmuravam entre si vozes surdas de descontentamento, de revolta e de vingança.

Abafado este incidente, e montados todos a cavalo, abriram-se de par em par os pesados batentes do grande portão de cangerana para dar passagem à cavalgata. Apenas esta começava a pôr-se em movimento, eis novos rumores se propagam entre os cavaleiros, e gritos de — misericórdia ! aqui d’el-rei ! — chegam aos ouvidos do capitão-mor, que à frente dos cavaleiros já tinha trans­posto o portão. Este, enfurecido, volta as rédeas ao cavalo e torna a entrar a ver o que era.

Era ainda o mísero Minhoto, que de novo viera ao chão, mas desta vez de modo mais trágico, tão maltra­tado e contuso, que foi mister ajudarem-no a levantar-se.

O autor desta brincadeira fora o Gil, aquele com-pauheiro e amigo de Maurício, a quem já conhecemos. O Gil era um belo rapaz, de nobre e generoso coração, mas de gênio extremamente fogoso e assomado, a quem mais tarde conheceremos melhor.

Como ele se achasse por detrás do Minhoto no mo­mento em que a cavalgata se abalava, e o cavalo deste, que lhe embargara o caminho, de maneira nenhuma quisesse mover-se, impacientado com isto e já de antemão altamente agastado com o atrevido repelão do capitão-mor, o moço lascou tão forte guascada nas ancas do ani­mal do emboaba, que este deu um violento arranco para diante e o atirou de costas no chão.

Desta vez não podia haver remissão. O atentado era mais grave, o delinqüente um só e determinado indi­víduo; a vítima o tinha indicado, e muitos outros emboabas, que tinham presenciado o caso, o denunciavam em altas vozes.

Em vão Maurício procurou interceder, alegando al­gumas razões em favor de seu amigo. O capitão-mor, i eu já cólera ainda era açulada por seu filho e seu sobri­nho, estava inexorável.

Leonor, a boa e compassiva Leonor, também tentou balbuciar algumas palavras em defesa do infeliz Gil.

Os gritos ásperos e atroadores do irmão e do primo abafaram-lhe a meiga voz.

Gil foi recolhido a um quarto forte da casa do capitão-mor, feito de propósito pa:'a servir de prisão a livres e escravos, e aí foi ele metido em um tronco.

O Minhoto foi conduzido em braços para sua casa, e posto em sua cama, donde não pôde sair por muitos dias.

Ambos ficaram presos. Era um par de menos na funçonata vexatória.
CAPÍTULO VII

A marcha para a caçada


Deixemos o infeliz Gil, essa primeira vítima da tira­nia do capitão-mor, sentado sobre o soalho de um cala­bouço com ambos os artelhos embebidos em uma grossa prancha de madeira, que se estendia ao longo do quarto, crivada de buracos, e onde havia cômodo para os artelhos e pescoço de muitos outros. Deixemos o nobre moço devo­rando sua raiva e arrancando rugidos surdos, como o leão cativo.

Deixemos também em sua cama o pobre Minhoto,

com uma costela quebrada, soltando urros de dor, vomi­tando pragas contra os paulistas e dando a todos os dia­bos quanta caçada há por esse mundo.

Deixemo-los, visto que por agora não lhes podemos valer, e acompanhemos a brilhante montaria do nobre capitão-mor através dos montes e vales, brechas e Campinas.

A cavalgata, ao sair do portão, ia com efeito guar­dando uma tal ou qual ordem processional, que dava-lhe ares de uma caçada real em miniatura, ou antes em caricatura.

Abriam o préstito quatro batedores armados de gran­des facas, fouces e outras peças além das armas de fogo. Os dois da frente inchavam as bochechas soprando o corno venatório, ou busina.

Seguia-se o capitão-mor ao lado de sua filha, que atraia a atenção geral por sua formosura e porte dono ao, e pelo garbo e desembaraço com que sabia governar o seu lindo ginete.

Vinham imediatamente Fernando e Afonso, cujos luzidos trajes de caça e bonitos corcéis ricamente ajae­zados faziam abrir a boca aos pobres sertanejos.

Sucediam-lhes alguns emboabas mais ricos, homens de fidalgia dúbia, mas que em todo caso formavam a aristocracia do lugar e que sabiam cavalgar um pouco melhor do que Minhoto.

Atrás destes vinham os homens do povo, cerca de trinta cavaleiros brasileiros e emboabas promiseuamente. Estes tinham mais ares de aldeões, que iam a feira, do que de caçadores.

Maurício, a quem o capitão-mor tinha conferido as honras de seu monteiro-mór naquele dia, foi por este convidado a tomar lugar entre os fidalgos. Maurício recusou-se, pretestando que, como diretor da caçada, lhe era mister estar em toda a parte, e ficou entre o povo, mas colocou-se na frente para não perder de vista a filha do capitão-mor.

Rematavam o préstito camaradas, pagens e escravos índios e africanos, uns a pé, outros a cavalo, levando pela mão as matilhas treladas, as quais ganindo, uivando e ladrando formavam a mais apropriada orquestra para aquele saimento venatório.

Entre os pagens notava-se o índio António, montan­do um robusto cavalo arreado apenas com uma encherga sem estribos e puxando uma cela de dois lindos rafeiros.

Faltavam os falconeiros com os seus falcões e nebris em punho.

Mas o espírito fértil do capitão-mor engenhou um meio de suprir essa falta. Ordenou que alguns de seus pagens levassem ao ombro ou ao punho araras e papa­gaios domésticos, a protesto de que aquelas aves com seus gritos atraíram os companheiros do mato, e assim aqueles que quisessem passarinhar, teriam com que se divertirem. A população dos arredores, que já não era pequena, acudia em peso para gozar de tão estranho, quão curioso espetáculo, e se achava estendida em alas de um e outro lado do caminho. Era isso justamente o que queria o capitão-mor. Uns, -principalmente os bugres, -queriam ver que qualidade de bicho é um capitão-mor. Outros queriam ver a filha, pois a fama de sua beleza já corria mundo. Outros tinham especial curiosidade de ver o aparato da caçada, cujo programa, se bem que não impresso, há muitos dias andava de boca em boca excitando a expectação geral.

-Queremos mostrar como se faz uma caçada em regra, dizia o capitão-mor todo orgulhoso, e não da maneira brutal por que elas aí se fazem. Em S. Paulo já quis ensaiá-la; mas aqueles paulistas são uns cabeçudos, uns emperrados... Quando embicam para um lado, não há quem lhes torça o nariz. Aqui, porém, tenho a faca e o queijo na mão; quero doutrinar meu povo.

O seu povo com efeito viu muita coisa, que lhe encheu os olhos; porém o que mais o surpreendeu e embasbacou, foi ver uma moça tão bonita, tão mimosa e tão bem trajada como a filha do capitão-mor, metida em uma caçada no meio de tantos homens através das brenhas selváticas e desertas.

Enquanto não saíram das ruas, antes caminhos ou avenidas da povoação, que era ainda um esboço informe, a cavalgada foi guardando mais ou menos a ordem marcada. Mas depois que se achavam no deserto, e se enfiaram no caminho, que serpenteando através de uma extensa planície coberta de arbustos e carrascais, vai ter ao Rio das Mortes, tudo se desmanchou.

Os emboabas quase todos, uns de propósito e por medo, outros por diversos acidentes, foram-se deixando ficar no caminho.

Aqui um caiu à toa e nunca mais pode apanhar sua cavalgadura, que se embrenhou no matagal.

Acolá outro, a quem coubera por sorte um animal manhoso e empacador, cansado de esporear sem conseguir tangê-lo para diante, nem para trás, apeou-se desesperado, largou-o no caminho e voltou para a casa dando a todos os diabos o cavalo e a caçada.

Além, um cavalo arisco e ligeiro, aborrecido da carga, voltou rapidamente sobre os pés, largou o cavaleiro de costas no chão, e disparou para trás a todo galope.

Enquanto os emboabas assim se iam ficando esparramados pelo caminho, os paulistas ao contrário se iam agrupando e isolando deles, à exceção de Maurício e mais dois outros fiéis companheiros seus, que se conservavam sempre a pouca distância do capitão-mor.

Maurício não podia abandonar a vanguarda, e tinha boas razões para isso. Não queria perder de vista a filha do capitão-mor, e não era isto só pelo amor de contemplá-la, mas principalmente para ampará-la de qualquer acidente, de qualquer perigo que a ameaçasse, fosse qual fosse a sua natureza. Bem sabia que alma perversa tinha Fernando; aquela cena sinistra da floresta no dia da chegada do capitão-mor não lhe saía da lembrança e o punha de sobreaviso.

Demais disso era seu dever marchar sempre na frente, pois que ele e Antônio eram os únicos que podiam servir de guia à comitiva, os únicos que estavam práticos nas mal trilhadas veredas daquelas broncas e mal conhecidas paragens.

Maurício sempre previdente e acautelado agregara a si dois dos seus mais valentes e resolutos patrícios, e dos que mais lhe eram afeiçoados e mais confiança lhe mereciam. E que falta não lhe estava fazendo Gil, esse companheiro sempre tão fiel e dedicado!

O grupo dos paulistas, vendo-se livre dos emboabas, que iam ficando atrás, e achando-se bastantemente distanciados da comitiva do capitão-mor, que já ia longe diante deles, começou a desabafar seus ódios e ressentimentos.

-Para princípio não estava mau, começou um. Principia pelo tronco por uma leve falta, se é que falta houve; por onde acabará ele?

-Pela forca de certo, meu caro, retorquiu outro. Preparemos nossas gargantas para a corda, ou quando não, aprontemos nossas espadas e escopetas para darmos cabo desta corja de emboabas.

-Isso sim; e devemos preparar também uma boa corda para a garganta daquele velho casmurro, que tanto berra. Que desaforo! Chamar-nos pícaros e malcriados, como se fôssemos negros de sua senzala!...

-Isso ainda é nada! E o tronco no pobre Gil!... Amanhã será bolos; depois açoites; e assim iremos de martírio em martírio até a forca. Nada! Isto não vai bem; é preciso bater-lhe o pé.

-Quando ele estava hoje lá na varanda a nos xingar como os cães, estive por um triz a meter-lhe pela boca adentro a bala de minha escopeta para fazê-lo calar.

-E eu, se não é o Maurício, que estava perto de mim a me puxar pelo braço e a dizer -tenham paciência! Tenham paciência! -Eu... Não sei o que faria.

E não me dirão vocês que sal achou o Maurício naquele esturro de emboaba para andar lhe fazendo tanta zumbaia? ... Estão vendo?... Larga de nós e lá vai juntinho com eles, que não se afasta um dedo.

-Você é bem simples; cuida então que é por amor dele...? Tão asno não é o Maurício.

-Por amor de quem, então?

-Por amor da filha, pateta; pois você não percebeu desde o dia da chegada?...

-Ai! Ai! Ai! Pior é essa. Logo vi; não devemos mais contar com ele.

-Isso é que é; não viram como ele, que é todo lá do capitão-mor, deixou o Gil ir parar no tronco, o Gil, que é capaz de dar alma e vida por ele?

-Lá isso não, patrício. Eu bem ouvi o Maurício querer punir por ele; mas a corja de emboabas com suas berreira nem o deixava falar.

-Seja lá como for, bradou com mais força uma voz, se Maurício é amigo deles, não pode ser a nosso favor, e em todo caso morram os emboabas, e leve o diabo ao Maurício.

-Cala a boca, minha gente; deixem o Maurício; vocês não sabem em que talas ele se meteu. Deixem-no, que ainda um dia ele mesmo há de ir ao tronco, levar bolos da mão do capitão-mor, depois... Talvez dançar nos três paus.

-Por quê?

-Pois ainda perguntam?... Por ter o atrevimento de andar fazendo foscas à filha do capitão-mor.

-E há de ser bem feito...

-Calem a boca; vocês estão falando à toa; eu conheço bem quem é o Maurício, e juro por minha alma, que ele não é capaz de ser contra nós...

-E eu também! Eu também, acudiram uma porção de vozes.

-Mas nem por nós...

-Sempre por nós, eu o juro ainda...

-E eu também! Eu também! Repetiram as mesmas vozes.

-Mas eu não era capaz de ter amor à filha do carrasco de meus patrícios, quanto mais de um meu amigo particular.

-É porque vocês nunca tiveram amor a mulher nenhuma, murmurou um belo e esbelto mocinho que pela primeira vez falava. Eu dou desculpa ao Maurício.

-Quem fala aí? ... Ah! É o Calixto!... Logo vi que era algum namorado. Mas você, meu menino, quer bem a filha de um pobre ferreiro, nosso patrício, e ele tem amor à filha do homem, que nos quer levar todos a tronco, a bolos e a chicote. O Gil foi o primeiro, que tomou tronco, e você está me parecendo que será o primeiro a levar bolos.

O mocinho raivou com o gracejo.

-E eu sangro a quem me vier dar bolos, bradou ele, rubro de cólera.

-Se tiveres faca, se tiveres mão...

-Eu mordo.

-Quebrante-te os dentes...

-Eu morro de raiva, gritou o moço trincando os dentes e quase a chorar, como se já fosse uma realidade o caso figurado.

-Não, não morras já, não, meu Calixto; temos ainda muito que fazer. É preciso viver ainda, e ver as coisas como marcham. Mas se as coisas continuarem como principiaram, -continua o mesmo interlocutor, avolumando a voz, -então, meus amigos, em vez de morrermos nós, morra o capitão-mor.

-Morra! Repetiram uma multidão de vozes.

-Morra tudo quanto é emboaba!

-Morra!...

-Morra também Maurício, se com eles estiver!...

-Morra!...

Nisto ouviram o tropel de um cavaleiro, que lhes vinha a galope pela frente. Logo o reconheceram; era dos companheiros de Maurício.

Embrigados pelo ódio, aqueles paulistas, moços quase todos nem se lembravam que poderiam ser ouvidos pelo capitão-mor, que talvez não andasse muito longe, e davam livre expansão ao seu ressentimento.

Como de fato estava por bem pouco. Os dois paulistas, que iam na frente com Maurício, tendo-se atrasado um pouco para poderem conversar a seu gosto, começaram a ouvir a imprudente algazarra de seus patrícios. Um deles, homem circunspecto e respeitável, partiu a todo galope para trás a fim de avisá-los e contê-los.

-Que é isto, patrícios! Bradou-lhes ele, apenas chegou à distância de poder ser ouvido. O capitão-mor vai aí muito perto e está quase a ponto de vos ouvir, e...

-E que nos importa a nós que ele nos ouça ou não! Atalhou com vivacidade. Tomara eu apanhá-lo a um canto, que hei de ensinar-lhe a não ser tão malcriado.

-Prudência, meus amigos! Replicou o encontradiço, que já tinha parado diante deles; -prudência por agora! Nós todos temos motivo de sobejo para andar com esse homem pela gorja. O ultraje que nos foi feito por esse perro vil não é coisa que se ature a sangue frio; ninguém mais do que eu o compreende, e queira Deus não seja o sinal para outros agravos e vexames ainda mais atrozes. Porém, por enquanto, paciência, meus amigos!... Ainda não é ocasião de nos vingarmos; tudo tem seu tempo.

O cavaleiro proferia estas palavras em tom quase baixo, porém com voz seca e vibrante, com o acento da cólera concentrada. Pela figura, pelo porte e pela linguagem parecia ser homem de distinção e dotado de nobres qualidades.

Os cavaleiros o ouviram com respeito e abafaram suas vozerias.

-Sigam seu caminho, prosseguiu ele, e falem com a maior prudência e circunspeção; sou eu que lhes peço. Não há de tardar o dia de nosso desforço7.

E esporeando o cavalo foi de novo a galope alcançar seu companheiro.

Os paulistas não berraram mais, e a comitiva foi marchando sem novidade até a beira do Rio das Mortes, onde o capitão-mor havia parado à espera do resto de sua gente, a fim de tomarem alguma refeição.

Havia aí já uma ponte de madeira, tosca mas solidamente construída pelos primeiros exploradores, um pouco acima da que atualmente existe. Era por essa ponte que os habitantes de S. João, rodeando o topo ocidental da serra de S. José, se comunicavam com os da povoação deste mesmo nome, onde já existia também um rico descoberto aurífero.

À sombra de um imenso e frondente sicômoro ou gameleira, talvez coeva8 de Tamandaré, que ficava mesmo à entrada da ponte, o capitão-mor descansava com sua família e seus monteiros à espera da falange venatória9.

Seriam oito horas da manhã. Teve-se de esperar mais de uma hora, apesar de não exceder a uma légua o caminho percorrido. Os paulistas pouco se demoraram. Os pagens com as matilhas também não se fizeram esperar por muito tempo. Os emboabas, porém, à exceção dos que vieram juntos do capitão-mor, foram chegando de espaço em espaço, um a um, dois a dois, e no cabo de uma hora não haviam comparecido senão uns nove ou dez.

Assim, pois, a turma dos emboabas, que era superior em número, tendo perdido mais de metade pelo caminho, ficou sendo muito inferior a dos paulistas, dos quais nem um só desertou. Havia além disso a turba dos pagens, índios e camaradas, gente que não era lá muito afeiçoada aos emboabas.

Fernando atentou sobre este fato, e concebeu sérias apreensões. Os espíritos estavam irritados com os acontecimentos da manhã. Ele, Fernando, tinha ouvido, se bem que mui confusamente, as vozerias dos paulistas. Seria bem fácil a estes, aproveitando do favorável ensejo que a fortuna lhes deparava, vingarem-se cabalmente da afronta, que nessa mesma manhã haviam recebido do capitão-mor.

Fernando, pálido e inquieto, observava os paulistas, como querendo sondar-lhes o pensamento, e vomitando mil pragas contra os fracos e pusilânimes patrícios, que assim os abandonavam em tão graves e delicadas conjunturas, mal podia disfarçar sua agitação, e os cuidados que o preocupavam.

Bem mal conhecia ele esses valentes e leais conterrâneos de Bartolomeu Bueno, e não sabia que jamais seriam capazes de tão torpe e aleivoso antetado.

Bastava ir ali uma donzela, sua patrícia, para não cometerem o menor desacato, o menor ato violento.

Além disso, lá estava Maurício, e posto que sobre sua cabeça começassem a pairar algumas suspeitas, era ele querido e respeitado entre os seus, e Maurício, só no último transe, só em desespero da causa, consentiria em qualquer ato de revolta contra seu benfeitor, contra o pai de Leonor.

Mas Fernando, capaz de todas as perversidades e aleivosias, conforme a regra comum, julgava os outros por si, e portanto sua alma inquieta andava sempre entregue a mil receios e desconfianças. Tão forte era a sua apreensão, que esteve a ponto de chamar o capitão-mor de parte e ponderar-lhe o caso, e fazer-lhe sentir a conveniência de deixar a caçada para outro dia, e voltar para casa. Mas o orgulho sobrepujou o medo; teve pejo de se mostrar covarde aos olhos de Leonor, e sobretudo de Maurício. Este, porém, perspicaz e penetrante como era, bem estava percebendo a inquietação e o medo, que lhe torturavam a alma, e com isso saboreava um certo prazer maligno, que comunicava sorrindo a seus amigos.

Ao contrário, o capitão-mor, tranqüilo e folgazão, com todo o descuido e seguridade, não se preocupava senão com os cuidados de sua caçada.

Isto fazia raiva a Fernando, que dentro em si maldizia a cegueira do tio que não enxergava o terrível e eminente perigo, em que se achavam.



1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   47


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal