Os paulistas em s. João d’ el-rei bernardo guimarãES



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CAPÍTULO X

Apreensões


O capitão-mor ao chegar da caçada cumpriu lealmente a sua palavra de fidalgo. Gil foi imediatamente posto em liberdade.

Mas se Gil foi perdoado, nunca mais em seu coração poderia perdoar ao capitão-mor a prisão, ou melhor, o suplício ignominioso por que passou, embora este não tivesse durado mais que algumas horas.

Já ele, como todos os paulistas, tinham aversão e ódio terrível contra os emboabas. Irritado por aquele ultraje, seu rancor não conheceu mais limites.

Além de tudo, Gil era sumamente estimado e benquisto entre os paulistas. Além de possuir alguma coisa de seu, era ele um rapaz robusto, denodado e de índole muito independente. Tanto a sua bolsa, como o seu braço valente estavam sempre à disposição dos amigos. Tinha defeitos, mas eram eles de tal natureza, que o tornavam ainda mais simpático a seus patrícios.

Se era de gênio assomado e irascível, turbulento e estouvado, era em compensação o mais serviçal e generoso dos homens.

Não podia ver de sangue frio o menor desaforo feito a seus patrícios, e arrostaria mil mortes para desafrontá-los. Também os portugueses fracos e desprotegidos o viram muitas vezes defendê-los com valor e coragem não só contra os vexames de seus próprios compatriotas, como também contra alguns caprichos por demais odientos dos mesmos paulistas. Os emboabas muitas vezes tiveram de sentir a força de seu braço, mas também muitos deles, mormente os desvalidos, lhe deveram serviços e proteção em casos apertados.

Como bem compreende o leitor, Gil devia ser idolatrado por seus patrícios e muito respeitado e mesmo temido entre os emboabas.

O primeiro ato de tirania do capitão-mor, recaindo fatalmente sobre esse moço, veio exacerbar de modo desastroso os ódios, que de há muito existiam entre paulistas e emboabas. Foi uma ofensa, que doeu profundamente no coração daqueles, e encheu de assombro e de terror a muitos destes.

Apenas Gil se viu solto, correu logo à casa de Maurício, não só para agradecer-lhe, como também para desabafar no seio do amigo a mágoa e o rancor profundo que lhe entumecia o coração.

Maurício tinha construído para si uma linda casinha, pequena e modesta, mas asseada e com cômodos necessários para um homem solteiro. ficava a umas duzentas braças da vasta e magnífica vivenda de Diogo Mendes, e dela se avistava toda esta do lado do pequeno terraço de Leonor e dos aposentos interiores.

Nessa casinha vivia ele em companhia de Antônio, que lhe bastava para todos os misteres domésticos.

Convidando e instado pelo capitão-mor para ser seu comensal, Maurício raras vezes aceitava essa honra. Amava muito sua independência, e além disso, se tinha supremo prazer em se achar na presença de Leonor, sentia ao ver Fernando tal repugnância e asco, que mal podia disfarçar. Demais, tinha cabal certeza de ser amado por Leonor. A presença assídua de seu rival junto dela não lhe causava inquietação, pois bem sabia que essa presença importuna ainda mais sensível tornaria a sua ausência. É quando temos defronte de nós um ente aborrecido que mais saudades sentimos do objeto que nos é caro.

Todavia um grande receio, uma grave apreensão se havia apoderado do espírito de Maurício. Esse receio era como um pesadelo, que o atormentava dia e noite, e o trazia em contínuo sobressalto. Desde a noite em que foi ao encontro de Diogo Mendes, ficou conhecendo até que ponto podia chegar a perversidade de Fernando. Sua imaginação, exaltada pela paixão, exagerava ainda a malvadez daquele homem devasso, atormentado pelo amor e ciúme, pela ambição e cobiça, sem nobreza nem energia de alma para sofrear os ímpetos de tão violentas e ruins paixões.

O capitão-mor, em negócios de certa ordem, era homem de alma cândida e simples ao último ponto. Como Fernando era português, e era seu parente, e era fidalgo de nascimento, entendia que devia ser um cavalheiro de lealdade e pundonor a toda prova, e não duvidava em confiar-lhe tudo, até mesmo a honra de sua filha. Entretanto, Leonor tinha-lhe aversão e medo mais do que a uma onça, pois já tivera ocasião de conhecer a quanto chegava a sua audácia e perversidade.

Maurício de sua parte estremecia ao lembrar-se que Leonor, filha sem mãe, morava debaixo do mesmo teto com aquele homem perigoso.

De feito, Leonor estava confiada unicamente aos cuidados de uma portuguesa, mulher algum tanto idosa, que desde a infância lhe servia de aia. Esta mulher, como boa criatura que era, desempenhava sempre com pontualidade os deveres de criada particular da menina, mas não tinha aquele zelo e dedicação, aquela solicitude e afeto maternal, de que tanto hão mister as moças quando chegam a essa quadra da vida, em que o coração vai devassando um mundo novo e desconhecido, cheio de flores e harmonias, mas também todo cortado de abismos e despenhadeiros.

A aia, porém, velha celibatária, que nunca tivera outros amores mais do que o seu rosário e o seu livro de orações, desconhecia esses perigos, e como boa e fiel servente contentava-se em desempenhar fria e maquinalmente os seus deveres materiais.

Confiada à inexperiência e indiferentismo dessa mulher, e à descuidadosa e cega confiança do capitão-mor, pode-se dizer que Leonor estava entregue a si mesma, e não tinha outro escudo senão o seu pudor, a energia e nobreza de sua alma para amparar-se dos perigos, de que a rodeava a paixão insensata e desordenada de seu parente.

Na exaltação de seu amor puro e desinteressado, Maurício entendeu que, uma vez que nenhuma esperança lhe restava de ser um dia esposo de Leonor, devia ser ao menos o seu gênio tutelar, velar constantemente sobre ela, amparando-lhe a vida e a honra, sem que ela, sem que seu pai, Fernando ou quem quer que fosse, o percebessem senão na hora oportuna. Já duas vezes o destino lhe havia deparado ocasião de desempenhar essa nobre missão; ele acabou por acreditar que ela lhe era confiada pelo céu, e foi esse sempre daí em diante o único e ardente anelo de seu generoso coração.

De volta da caça Maurício nem apeou-se em casa do capitão-mor; foi logo encerrar-se em casa para dar livre desafogo aos pensamentos, que lhe turbilhonavam no cérebro. Estava em verdade contente e ufano por lhe ter a sorte deparado ocasião de a um mesmo tempo salvar a vida à sua amada, e restituir a liberdade a seu amigo. Mas essas suaves emoções não eram bastantes para arrancarem sua alma do estado inquieto e aflitivo, em que se achava. A posição em que se via era das mais difíceis e embaraçosas, em que um homem se pode achar.

Com a nomeação de Diogo Mendes para capitão-mor de S. João d’ El-Rei, Maurício havia concebido as mais lisonjeiras e esplêndidas esperanças. Essa nomeação, e a escolha que dele fez o seu protetor para auxiliá-lo em seu novo estabelecimento, como pessoa de sua maior confiança, abriram-lhe de par em par aos olhos da imaginação as portas de um futuro cheio de venturas e prosperidades.

Maurício tinha o capitão-mor em conta de homem prudente e atilado, e reputava o mais próprio possível para acalmar e extinguir mesmo de todo a cizânia, que a longo tempo lavrava entre paulistas e emboabas. Gozando ele da confiança de Diogo Mendes e de grande estima e popularidade entre seus patrícios, estava em circunstâncias de poder servir de intermediário e conciliador entre o espírito independente e revolto de um, e a autoridade despótica de outro, e contribuir para que o governo do capitão-mor corresse sempre tranqüilo, próspero e benéfico.

Demais, com os relevantes serviços que esperava e podia prestar ao seu benfeitor, contava por tal modo captar-lhe a benevolência e a gratidão, que o velho fidalgo, em despeito de seus preconceitos nobiliários, não duvidaria em conceder-lhe o preciso galardão, pelo qual unicamente suspirava -a mão de sua filha; -a mão somente, porque o coração dela desse estava ele bem certo que já o tinha conquistado.

Com a chegada do capitão-mor, porém, o moço viu com indizível desgosto, que as coisas iam saindo ao invés do que havia calculado.

Não contava com o aparecimento desse personagem intruso, que vinha com tanto orgulho e arrogância interpor-se entre ele e o capitão-mor, entre ele e Leonor!... Perspicaz como era, Maurício entrevou logo sua futura situação, e compreendeu que esse homem trazia nas entranhas perversas o germe de sua própria ruína e de toda a família de Diogo Mendes, ou de grandes calamidades e desastres para a nova povoação. O ódio, que existia entre forasteiros e paulistas, algum tanto sopitado13 pelo tempo, como faísca debaixo das cinzas, ia reviver e levantar-se como labareda irresistível ao sopro satânico daquele gênio do mal, e essa labareda não se poderia apagar senão com sangue entre cenas terríveis de furor e canibalismo14.

E nesse caso o que faria Maurício? Abraçar franca e resolutamente a causa de seus patrícios, revoltar-se contra o seu benfeitor, contra o pai de sua adorada Leonor e expô-los ambos às mais horríveis catástrofes? Ou, desleal a seus conterrâneos, que tanto o amavam, ajudar o capitão-mor a oprimi-los, vexá-los e esmagá-los?

Em tão apertada e dolorosa colisão, que decisão tomaria ele?

Restava-lhe só um meio de furtar-se a qualquer dessas alternativas. Era retirar-se, desaparecer, fugir para bem longe, e deixar o capitão-mor, Leonor, Fernando, paulistas e emboabas entregues ao destino, que a Deus aprouvesse dar-lhes.

Mas esse passo repugnava igualmente ao seu nobre coração, mais talvez do que qualquer dos outros.

O amor, que votava a Leonor, a gratidão e respeito, que devia a Diogo Mendes, a amizade, que o ligava a Gil e tantos outros seus patrícios, não lhe permitiam abandoná-los assim covardemente, expostos a uma conflagração, que só ele talvez poderia conjurar.

Maurício compreendia vagamente a cruel conjuntura em que ia achar-se enleado, e só entrevia trabalhos, angústias e perigos, que vinham como um borrão negro apagar o risonho panorama que sua fantasia havia debuxado com tão formosas cores na tela do futuro.

Tais eram as reflexões, que passavam tumultuosas pelo espírito do mancebo, que ora se debruçava a uma janela e ali ficava largo tempo imóvel e silencioso com a cabeça entre as mãos, ora passeava rápido e agitado ao longo da pequena sala em que se achava, exalando de quando em quando em exclamações soltas as preocupações que o atormentavam.

-Isto vai mal!... Bem mal estreado vai o teu governo, meu capitão-mor!... Pões-te a perder a mim, a ti e a todos... Bem sei que a culpa não é tua... Mas quem te mandou trazer contigo esse infame... Guardas no seio uma víbora... Em breve lhe sentirás o dente!... Ah! Leonor! Leonor!... Se soubesse em que cruéis apuros vai me pôr teu pai!... Teu pai, não, esse maldito Fernando!... Oh! Se eu fosse um canguçu, com que prazer não devorava aquele coração? ... Por ora esperar... Vejamos as coisas em que dão... Tenho coragem para tudo... Hoje tenho mesmo a coragem da paciência, essa que tanta falta faz a meu bom amigo Gil... Ah! Gil!... Meu pobre Gil...

Maurício foi interrompido pelo tropel de uma pessoa que entrava. Era quase noite fechada e a sala se achava em quase completa escuridão.

Era Gil, que, apenas se viu posto em liberdade, correu à casa de Maurício para agradecer-lhe e desabafar no seio da amizade a sua cólera e justo ressentimento.

-Parece-me que ainda agora falavas no meu nome, disse a pessoa que ia entrando.

-Ah! És tu, Gil?... É verdade, lembrava-me de ti neste momento.

-Com quem estás conversando?...

-Comigo mesmo; aqui não há ninguém.

-Estás às escuras, e eu fui entrando... Desculpa-me.

-Não faz mal; às escuras ou às claras a casa é sempre tua, Gil... Eu estava cismando...

-Em teus amores de certo, não é assim?

-Não; penso também neles muito, mas agora eu estava a cismar no que hoje te aconteceu e na triste sorte que nos espera, se as coisas continuarem assim...

-Pois eu cá, só penso numa coisa; é no modo por que hei de vingar-me daquele cachorro.

-Sim! Tens razão de sobra, mas...

–Mas o quê?... Tarde ou cedo aquele casmurro há de me pagar. Tenho muita gente por mim, louvado seja Deus, e aquele patife ou há de sair bufando e pinoteando com três nós no rabo pelo caminho por onde veio, ou há de aqui largar a casca.

-Mas... Esquece por ora essa ofensa, meu Gil... Foi um ato precipitado, de que ele parece estar arrependido...

-Arrependido!... Que esperança!... Não digas tal, Maurício. Se não fosses tu, ainda agora eu estaria com os pés entalados no tronco!... Ah! Maurício! Maurício!... Isto é duro!... É insuportável!...

Dizendo estas palavras o moço chorava de raiva e desesperação. À vista de tão justa indignação, Maurício não sabia o que dizer.

-Meu Gil, diz ele, enfim, depois dum longo silêncio, as coisas deveras vão tomando um péssimo caráter, e tu bem sabes, sinto tanto o ultraje que sofreste, como se fosse feito a mim próprio. Mas não acho prudente tomarmos já uma resolução extrema; esperemos...

-Esperemos para quando ele nos levar à forca, não é assim?... Ah! Maurício, beijo-te as mãos por me teres restituído a liberdade, mas tenho dó de ti.

-Por quê?...

-Não tens os pés em um tronco, é verdade; mas tens no pescoço uma canga pior e mais pesada, que quanto tronco há... Pobre Maurício!... Não podemos contar contigo...

-E por que não? -Replicou Maurício com vivacidade, um pouco magoado das palavras de seu amigo; -é verdade que tenho sumo interesse e desejo ardente de que se acabem estas nossas fatais desavenças, e que o capitão-mor seja respeitado e querido de todos. Mas se assim não puder ser, se ele continuar a nos acabrunhar com injustiças, ultrajes e perseguições, pensas acaso que eu hei de ser traidor a meus patrícios?...

-Traidor, não; se eu te suspeitasse capaz de uma traição, nunca mais queria nem ver-te a cara. Mas não é isso, Maurício...

-Se não é isso, nada mais pode ser. Já te disse; eu hei de procurar todos os meios, empregar todos os esforços para que haja paz e boa harmonia nesta terra, e para que não haja motivo de queixa do nosso capitão-mor. Ele tem boas intenções e é bom homem, mas o tal senhor Fernando... Esse... Esse é que o há de pôr a perder e a nós todos; se não procurarmos meio de nos desfazermos dele. Desapareça de entre nós o tal fidalgote, e tu verás como tudo se endireita.

-Qual Fernando, nem meio Fernando!... É toda essa caterva! É preciso dar uma boa lição mestra a toda essa corja de emboabas. De outra sorte não teremos redenção...

-Não é tanto assim, escuta-me Gil. Tu estás muito apaixonado, e eu sei encarar as coisas com mais sangue-frio. Tu não fazes idéia do veneno que o capitão-mor nos trouxe na figura daquele homem. É ele, eu te afianço, a causa única do transtorno que vai aparecendo. Vejamos se podemos dar cabo dele, seja como for, e tu verás como as coisas tomam caminho...

-Mas se ele é carne e unha com o capitão-mor!... Para dar cabo de um, é preciso acabar com o outro.

-Talvez não seja. O capitão-mor não sabe bem ainda quem é o tal Fernando, que poucos meses há que veio de Portugal. Mas eu... Eu o conheço já como as palmas de minha mão, e talvez um dia possa abrir os olhos do velho...

-Tu!... Que esperança! A gratidão e o amor te cegam, meu caro Maurício.

-Pode ser, mas também é certo que tu não podes conhecer o capitão-mor melhor do que eu, que fui criado em casa dele. É um pouco grosseiro, arrebatado, fanfarrão, e todo cheio de sua fidalguice; mas não deixa de ter boa alma. É o tal Fernando quem lhe está virando a cabeça...

-Seja como for, o certo é que o teu homem já não é o mesmo. Foi o teu protetor, é verdade, e lhe deve ser grato; mas toma tento, Maurício; um dia talvez o raio te caia em casa, e então nesse caso respeitarás teu carrasco, porque já foi teu benfeitor, e continuarás a beijar a mão que já foi benfazeja, mas que agora te esbofeteia?...

-Não; mas nesse caso evitarei, como puder, os golpes dessa mão, que não posso cortar.

-Se tiveres tempo para isso, se ela não cair sobre ti imprevista e veloz como o raio.

-Tu me farias pensar, meu Gil, se já desde o momento de tua prisão eu não tivesse esta cabeça fervendo em mil pensamentos, que me acabrunham. Mas eu conto ainda com a tua amizade, e peço-te, em nome dela; -vamos prudenciar por enquanto. Mais um pouco de paciência; por ora não acho bom que nos revoltemos. Desgraçadamente talvez em breve nos acharemos cobertos de razão, e então -terminou Maurício, suspirando -então não haverá remédio...

-Senão acabar de vez com essa corja, disse Gil, completando a frase de seu amigo.

-Entretanto é bom excogitar algum meio de nos desembaraçarmos desse homem terrível, que para nosso mal veio em companhia do capitão-mor. Talvez possamos consegui-lo: não desesperemos.

-É bem louca essa tua esperança; mas, enfim, não quero magoar-te; farei tudo por abafar no fundo d’ alma o meu ódio, e mesmo procurarei acalmar os nossos bons patrícios, que estão ardendo por vingar-me. De mais a mais, meu amigo, estou certo que com isso não conseguimos mais do que encher a medida de nossa paciência e retardar a hora da vingança, que tarde ou cedo tem de estalar por força e com tal fúria, que ninguém mais a poderá conter.

-O céu há de permitir que assim não aconteça. Em todo caso, Gil, agradeço-te de todo o coração o sacrifício que faz por meu respeito o teu justo ressentimento, pois bem sei quanto isto te custa; e a mim também, Deus sabe quanto me custa a tragar a tua injúria, que também é minha.

-É verdade, não posso negar; este sacrifício me é bem custoso, mas tu me mereces muito mais, Maurício. Quando estavas nos braços do teu capitão-mor todo ufano e glorioso por lhe ter salvado a filha, a quem aquela turba de patifes não soube acudir, tu te esqueceste de tudo só para lembrar do pobre amigo, que cá gemia em um tronco...

-Ah! Gil! Nem falemos nisso; qual era o meu dever?...

Os dois amigos conversaram ainda por muito tempo sobre o mesmo assunto. Já eram talvez onze horas da noite, quando foram bruscamente interrompidos por um vulto, que entrava pela sala arquejante e desalinhado, trazendo ao ombro uma volumosa trouxa flácida e balofa, e que tresandava horrivelmente a sangueira e carniça.

-Uff! Exclamou o recém-chegado, arrojando ao chão a carga, que fez estremecer o soalho. -Custou, mas sempre veio!... Eu não disse ao patrão que havia de trazer o couro da bicha?

-Eu contava com isso, Antônio; caçador valente como tu não há outro; mas por que não foste levar isto a D. Leonor?... Não foi a ela que o prometeste?...

-A esta hora, patrão?

-Tens razão; mas amanhã hás de levá-la.

-Eu não; isso toca lá ao patrão; ela há de ficar muito mais satisfeita, se o mimo lhe vier das suas mãos.

-Mas foste tu que a mataste...

-Isso não importa... Mas vejam que bicha! -Continuou desdobrando o couro da onça no soalho; -doze palmos da cabeça à ponta do rabo -custou-me a pegá-la; a maldita não quis dar pau senão daí a uma légua; já era boca da noite, quando acuou e dei cabo dela; para descascá-la foi-me preciso acender fogo.

-E foste tu sozinho que mataste este monstro?! Perguntou Gil.

-Sim, senhor! Com a ajuda de Deus, e de meus cachorros.

-Apre! Continuou Gil, és um terrível mata-onças. Assim tu nos desses cabo também de outro bicho ainda mais feroz e traiçoeiro, que anda infestando esta terra...

-Qual bicho, meu senhor?

-Pois não sabes? O emboaba, Antônio.

-Oh! Quem dera!... Desse também tenho eu gana, a não ser de meu senhor Diogo Mendes, pai de sinhá Leonor...

-Pois é justamente da pele desse, que mais precisamos.

-Lá isso não, salvo se meu patrão aqui me mandar...

-Não! Não! Atalhou vivamente Maurício; -não se trata disso agora. Vai descansar, que deves ter bastante fadiga e fome.

-Com efeito, Gil! Disse Maurício, apenas o índio se retirou -começas a cumprir belamente a tua promessa de não assanhar ninguém contra o capitão-mor.

-Tens razão; mas desculpa-me; a ferida ainda está tão fresca, que não pode deixar de sangrar e arrancar-me gritos de dor e de raiva.

Como a noite ia avançada, os dois mancebos se separaram e foram ver se no leito encontravam repouso, um para seu coração ulcerado pelo ódio, e outro para a cabeça fatigada de mil desencontrados pensamentos.

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