Os pecados dos médicos



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Encontro06.08.2016
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Os pecados dos médicos

Os médicos saíram a perder no diferendo com o ministro da Saúde, Ivo Garrido. Primeiro porque, quer queiram, quer não, vão ter que cumprir as decisões do ministro. Segundo, porque deixaram a sua imagem chamuscada a nível da opinião pública e passam a ser vistos como uma classe pouco coerente nas suas posições, ao começarem por reivindicar algo através do Dr. Zilhão para, duas semanas depois, através do seu presidente, virem a público espalhar dúvidas.

Na verdade, no lugar de esclarecer, as entrevistas do presidente da Associação dos Médicos de Moçambique, Dr. Rafiko Momed, à TVM e à STV, esta semana, adensaram ainda mais as dúvidas sobre as reais motivações do levantamento dos médicos e deixaram perceber que talvez não fosse “aquilo” que, efectivamente, preocupa os médicos, neste momento.

Em sentido inverso, Ivo Garrido fortaleceu a sua posição, transpondo com inequívoco sucesso uma crise que chegou a ser incómoda para a sua posição, ao ponto de o levar a quebrar alguns dos seus princípios e fazê-lo disponibilizar-se, com uma facilidade pouco habitual, falar aos órgãos de comunicação social.

Mas é importante deixar vincado que os médicos não perderam por falta de razão, mas sim porque não souberam explicar a sua razão. Primeiro, ignoraram a sua própria associação e preferiram agir “a solo”, levando o assunto ao nível associativo quando o caldo estava claramente entornado. O Dr. Aurélio Zilhão começou por parecer o porta-voz da revolta e, quando todos se aperceberam da infelicidade dos seus argumentos, acabaram por o isolar e colocá-lo num patamar de quem estava a emitir opiniões... pessoais e não de toda uma classe.

Em relação ao encerramento das clínicas e atendimento especial nos hospitais públicos, também não foi por falta de razão que perderam, pois está claro que não foram os médicos que decidiram a sua criação, mas sim o Governo, através do ministro da Saúde de então, e os pressupostos levantados para a existência destes serviços não podem, hoje, ser pontapeados em nome de princípios morais, éticos e religiosos, como se as pessoas tivessem, num ápice, perdido a memória e estes nobres princípios acabados de inventar. Quando se decidiu criar as clínicas especiais nos hospitais públicos, os princípios morais, éticos e religiosos, agora evocados, existiam. Talvez o contexto de interesses à sua volta fosse outro.

Não foi pela falta de razão que os médicos perderam, porque, na questão dos horários, é lícito que exijam que lhes dêem um esclarecimento de como vai funcionar este novo modelo em hospitais com internamentos e outras coisas afins. Mas, convenhamos, isso dispensava que um médico, por sinal ex-ministro, corresse para uma televisão a levantar polémica.

Os médicos não souberam é expor as suas razões e inquietações, porque nunca, ao longo desta crise, foram capazes de produzir uma argumentação suficientemente coerente para as questões em que esta(va)m em desacordo com o ministro. Aurélio Zilhão escudou-se nas três horas a mais que, aparentemente, o despacho do ministro lhes estava a impor. Mais tarde, eles próprios, os médicos, mostraram que, afinal, trabalham bem mais do que 40 ou 43 horas. Ou seja, o despacho não ia mudar significativamente nada ao que já estava a acontecer.

Por outro lado, nas entrelinhas, alguns médicos levantaram questões relacionadas com os (baixos) salários que auferem nos hospitais públicos e deixaram no ar dúvidas sobre as reais causas deste braço-de-ferro com o ministro: seriam mesmo os horários? A eliminação das clínicas privadas? Ou seria isto apenas pretexto para mais coisas inconfessas que os médicos foram acumulando e queriam aproveitar esta ocasião para a descarga emocional?

Seja como for, ao abrir a confrontação através do Dr. Zilhão e a seguir fazerem um recuo estratégico, passando a adoptar um discurso de vítimas neste imbróglio, os médicos perderam uma soberana ocasião de exporem, com clareza, os seus pontos de vista à opinião pública sobre um dos sectores mais sensíveis da nossa vida. Muitos preferem falar em surdina. Assim, em nada contribuirão para resgatar a dignidade que dizem ter perdido neste caso...



Jeremias Langa

O PAÍS – 23.03.2007
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