Os pintores naîves representam os últimos ecos da alma coletiva em vias de desaparecer



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Arte Naîf – O espírito livre e espontâneo da arte


Introdução

“Os pintores naîves representam os últimos ecos da alma coletiva em vias de desaparecer”

Jung

Enquanto a arte contemporânea provoca estranhamento e pede um código para ser compreendida, a arte naîf toca simplesmente ao primeiro contato, evocando uma emoção.



Ingênua, primitiva, singela e pura são características que descrevem este tipo de arte, que apreende as coisas do mundo que a cerca através de um vocabulário plástico criado e construído a partir da própria sensibilidade. As técnicas utilizadas são pobres e simples, não pretendendo o artista conceitualizar mas simplesmente mostrar. Ao documentar plasticamente a vida, a dor e o prazer de viver, aproxima-se da arte universal.

Poderíamos entender a arte naîf como uma criação ingênua, baseada na emoção, cujo artista surge do meio popular e possui apenas uma cultura rudimentar.

A simplicidade, a espontaneidade – poucos traços singelos, não contaminados pelo racional ou acadêmico, são atributos importantes nesta forma de representação que nos toca em profundidade.

É preciso diferenciar vários tipos de arte que se confundem com a naîf: primitiva, bruta, infantil, folclórica ou popular – todas elas tendo em comum um contato muito próximo ao inconsciente.

Dizia Nise da Silveira:
“... os pintores ingênuos formam outra família. São movidos pela tendência a empatizar com os objetos do mundo externo, neles encontrando prazer e inspiração, ao contrário daqueles, que se voltam para representações interiores por mais inquietantes que sejam.”
Na arte primitiva observa-se a tendência a se afastar do convencionalismo cultural, opondo-se à arte culta e acadêmica. Ela fala da cultura de seu povo e se dedica a rituais religiosos e sociais trazendo em suas raízes a herança indígena e negra.

Arte Bruta foi o conceito dado por Jean Dubuffet para produções artísticas espontâneas e fortemente inventivas executadas por pessoas sem qualquer cultura artística. Fala por vezes do que é bizarro, chocante, estranho e diferente- enfim, tudo que poderia se chamar de anticultura e antiarte.

Diz Dubuffet:

“Operação artística inteiramente pura, bruta, reinventada em todas as suas fases pelo autor, a partir somente de seus próprios impulsos, não sendo poética e nem agradável de se ver.”


A arte incomum ou bruta é considerada marginal e contrasta com algumas manifestações artísticas como o surrealismo, o pré – cubismo, o expressionismo, o fauvismo e o outsider art.

Uma outra denominação desta forma de arte é arte virgem que segundo Mário Pedrosa é um tipo de criação espontânea, mais generalizada e realizada simplesmente pela irredutível vontade de se expressar.

Observa-se com grande freqüência o uso da arte marginal como sinônimo dos termos: arte incomum, arte bruta e arte patológica, ligadas a produção de doentes mentais.

Entende-se por arte infantil produções espontâneas e impulsivas das crianças, sem intenção figurativa e que denotam grande sensibilidade à procura de expressão. O que caracteriza este tipo de arte é a transitoriedade e a não apropriação da criança que a realiza. A arte das crianças é efêmera, pois desaparece pós – infância.

Na arte popular o artista não trabalha com total liberdade pois ele está comprometido com referências étnicas e históricas. A arte popular está ligada à tradição, com estilo bem demarcado, submetido a regras e transmitidos de geração em geração.

Já a arte folclórica é uma arte coletiva e anônima, como a arte popular, seguindo algumas referências culturais. O artista folclórico ignora a criatividade individual, trabalhando com as formas e moldes que lhe foram destinados.


“A arte naîf é a expressão mais autêntica da ingenuidade, vinda diretamente das profundezas de nossa vida ancestral. Expressa nossa cultura mestiça, puro impulso do coração.”

Jorge Amado



Arte naîf no Brasil

“Gênero de pintura ingênua e às vezes primitiva, os

“naives” podem pintar sem regras, ousar tudo.Eles são

os “poetas anarquistas do pincel”

MIAN

(Museu Internacional de arte



Naîf)

Histórico

O movimento naîf iniciou-se na França no final do século passado com o aparecimento de Henri Rousseau (1844 -1910) e a princípio provocou polêmicas.

Os artistas foram acusados de ignorar regras elementares de desenho, composição e perspectivas, além de usar as cores de forma arbitrária.

Este tipo de arte espontânea traz a leveza de uma criança visceralmente alegre que brinca com suas habilidades e ousa. Arte nova como o Brasil, tem muito a ver com nossa cultura.

Os artistas são marginalizados e isentos de qualquer conservadorismo e as obras mostram uma grande diversidade de elementos. A experiência vem pela prática, ao longo dos anos, não acontecendo um aprendizado estético. A inspiração vem da própria experiência de vida do artista.
“Os artistas querem encarar a tela branca e se expressar sem interferências, movidos pelo impulso e pela vontade vital. Há uma inocência encantadora e contagiosa.”

Jacques Ardies

(crítico e curador de

Arte naîf)


A arte naîf brasileira surgiu sob o impulso da arte sagrada, introduzida no país no século XVI pelos missionários portugueses e não se submeteu às regras eruditas que a destruiria. Estas obras são documentos da vida popular brasileira – Brasil, país de ricas tradições populares, captadas e expressas nas telas dos pintores, que extraem suas cores do folclore de seu povo. Considera-se este tipo de arte uma das vertentes mais significativas da produção nacional que não vem de formas pré-determinadas e que encontra na simplicidade uma forma de expressão da sua riqueza.

Os primeiros modernistas na sua guerra contra o academicismo, atribuíram importância à arte colocada à margem dos valores dominantes, ou seja a arte das crianças, dos primitivos ou dos alienados, foram os precursores da pintura naîf.

Torna-se difícil diferenciar todos estes tipos de arte como já foi citado anteriormente. Falamos da pluralidade brasileira e da diversidade de etnias que levam a diferenças marcantes de produção visual e ao hibridismo entre culturas. A ausência de repetições, de imitações e a falta de interesse comercial imediato, diferenciam esta arte da arte convencional.

A tentativa de se definir e de se conceitualizar os mais diferentes tipos de arte, passa por critérios já estabelecidos, sejam culturais, acadêmicos ou mercadológicos, contaminados de pré-conceitos.

Podemos dizer que as diferentes vertentes estéticas são formas de se compreender e de se representar o mundo.

A arte naîf é um gênero de manifestação estética não erudita, de aprendizagem auto-didata. Os artistas se exprimem com valores próprios e uma linguagem que fala de uma realidade interna comum a todos.

É a arte da espontaneidade, da criatividade autêntica e de um fazer artístico sem escola e orientação, portanto é instintiva. O artista não se preocupa em preservar as proporções naturais das figuras que representa – utiliza muitas cores e técnica rudimentar; há uma ausência de aspectos formais com relação à composição, perspectivas ou cores reais.

Identifica-se nas telas composições estéticas mais rústicas e criativas, representadas por vezes com enorme sensibilidade - outros momentos com simplicidade e singeleza, alegria e lirismo.

Os temas abordam grandes festas populares, animais, paisagens típicas de várias regiões. Também são observados temas religiosos e cenas noturnas, com muita freqüência feitos à guache e por vezes utilizando a pintura pontilista.

A arte naîf brota do inconsciente coletivo e está em constante renovação, mas conserva sua própria natureza. Há uma autonomia no uso do espaço pictórico propiciando um toque onírico.

Diz Marcel Proust: “aquilo que vocês chamam de pintura naif é o sonho de um sonho”.

“Norteados por uma força ou necessidade instintiva, os artistas relatam através de seus pincéis, o etéreo mundo dos sonhos, as lendas e as tradições populares”.

Gostaria de citar algumas obras de artistas naîves brasileiros, alguns reconhecidos internacionalmente no circuito de arte naîf (Suíça, Itália, França e Haiti), que inclui o Brasil como um dos cinco países representantes deste tipo de arte.
1 – Waldomiro de Deus – Para Waldomiro cada novo quadro é muito mais do que uma simples exibição. Ele acredita que a arte que realiza é uma forma de consertar o que está desconsertado e sintonizar o ser humano com a luz.

2 – Elza OS, intitula-se “uma artista da alma”

Ela diz:

“Quero que a pessoa ao ver um trabalho meu, perceba a alma dele. Eu sinto como vai ser o quadro na hora de pintar. Vou me entregando ao que sinto, enquanto a mão trabalha.”

3 – Ranchinho de Assis, o “Van Gogh feliz”, viveu a maior parte de sua vida em Assis, lugar presente em seu imaginário psíquico e expresso em suas telas. Sua trajetória de vida dura repleta de limitações e sofrimentos se reflete em sua obra revelando a própria condição humana.
4- Heitor dos prazeres – Suas telas proporcionam um grande prazer visual. Sua enorme paixão foi a música e aos 8 anos já tocava cavaquinho tornando-se mais tarde um grande compositor. Levou esta musicalidade para as telas sabendo como ninguém captar a originalidade do cotidiano.

5- Poteiro – Português, vindo para o Brasil ainda pequeno é um célebre representante da pintura onírica. Sua pintura evoca uma inspiração sonhadora e original. Na parte inferior da tela, Poteiro pinta a si próprio deitado na cama e sonhando com a cena que se desenrola. Ele foi também um grande criador de esculturas.

6- José Antônio da Silva é considerado o “expressionista” da pintura naîf brasileira. Suas obras foram se tornando cada vez mais punjantes, com um intenso e agressivo colorido. Ele também escreveu livros e poesias, criando até sua morte aos 85 anos de idade.

Do circuito internacional gostaria de ressaltar o trabalho de Antônio Ligabue, artista suíço que viveu um grande tempo na Itália terra de seu pai adotivo, sentindo-se o “Estrangeiro em terra estrangeira.”

Artista marginal, primitivo e selvagem cuja força expressiva e técnica incrível, lhe permitiram projetar na tela seus intensos estados de espírito. Sua inquietante capacidade evocativa trouxe-lhe o título de “visionário trágico”

Ligabue, considerado “gênio no estado puro”, não tinha nenhuma noção de técnicas. Além da pintura também foi escultor e em sua modelagem de um primitivismo extremo, expressava sua inquietude, sua angústia e seu desejo de aplacá-las.



A criança interior e o arquétipo do puer

“Na verdade eu vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como as criancinhas, não entrareis no reino dos céus.”

Mateus, 18:3

Diz Bachelard:

“Existe dentro de nós uma criança em potencial e quando vamos em sua busca em nossos devaneios, revivemo-la ainda mais nas suas possibilidades... dentro de nós a infância é um estado de espírito.”
Como uma realidade simbólica a criança interior aparece em nossa imaginação e se expressa como representação da renovação, do entusiasmo de viver, da descoberta, da coragem e da espontaneidade.

Segundo Von Franzs, somente com a nossa ingenuidade estamos inteiros e íntegros diante da vida e damos espaço à nossa voz interior mostrando-nos genuínos e criativos.

Esta voz de nossa criança é essencial no processo de individuação pois ela é o receptáculo da história pessoal e o símbolo presente da esperança e das possibilidades futuras. É com ela que se redescobre a ingênua vitalidade que se perdeu ao longo do processo de crescimento.

Segundo Jung, a imagem da criança representa “a mais poderosa ânsia em cada homem de realizar a si próprio.”

O prazer das percepções sensoriais, a riqueza da imaginação, a exuberância, a curiosidade, a exploração audaciosa, são atributos naturais das crianças. A imagem inspiradora da criança interior representa os aspectos criativos da vida tanto no ser humano individual como na coletividade. É um fato em desenvolvimento e também uma nova possibilidade, ligados ao Self.

O poeta, o artista, aproximam-se da alma infantil, com seu olhar que nos remete ao contato com a natureza e ao encontro com a origem.

...”Verdadeira disponibilidade para o início e portanto a possibilidade

de renovação.”

Paolo Pieri

Ao pensar na criança interior somos levados ao arquétipo do puer ligado à vitalidade expansiva e experimental do indivíduo.

É do espírito puer a imaginação, a criatividade que pressupõe uma grande capacidade de ser autêntico e espontâneo. Segundo Von Franzs, a qualidade positiva deste arquétipo é um certo tipo de espiritualidade que vem de um contato próximo com o inconsciente coletivo, tornando-se possível a reconexão com preciosos atributos, tais como espontaneidade, curiosidade e entusiasmo.

A capacidade de simplesmente ser, saber, tão comuns à criança estão presentes na força de sua expressividade e criatividade. A espontaneidade para falar sentimentos e afirmar desejos – a inocência para se permitir viver aquilo em que se acredita.

A vontade de querer descobrir o mundo, fantasiar e ir além das dimensões de tempo e espaço que muitas vezes é visto como uma atividade ameaçadora e inferior da alma humana, segundo Hillman, pode nos conectar ao lúdico, ao imaginal, ao arquetípico, conduzindo-nos ao que é mais profundo e verdadeiro dentro de nós mesmos.

Entre 1948 e 1951 surgiu o Grupo Cobra que deixou rastros importantes na história das artes visuais.

A origem do movimento remonta à Paris, quando artistas de Copenhage (co), Bruxelas (Br) e Amsterdã (A) saíram em defesa da livre expressão. Para eles o gesto espontâneo associado ao imaginário mágico e folclórico culminaria numa explosão de cores, e seria a arte experimental.

Foram surgindo contribuições das diversas vertentes que compunham o grupo. Do surrealismo vieram inspirações fundamentais em defesa do inconsciente como fonte de criação artística, trazendo referências explícitas sobre a importância da espontaneidade na produção da obra. A “action painting” de Jackson Pollock aparece como fonte inspiradora para o trabalho dos artistas ligados ao Cobra. O expressionismo de Edvard Munch além do imaginário fantástico e do folclore nórdico contribui com o uso de cores vibrantes e pinceladas expressivas.

O Grupo Cobra expressa a necessidade de resgate por parte da arte e de seus artistas de valores importantes esquecidos e negados pelos movimentos artísticos ao longo do tempo.

Gostaria de finalizar enfatizando a importância da arte naîf que nos remete ao contato com a fonte primordial existente dentro de cada um de nós e atualiza a força vital natural e a energia avivadora que nos inspira e nos liga aos aspectos criativos da vida.

Ao pintar com simplicidade, descobre-se assim sem saber, o sopro criativo de uma memória ancestral. A pintura espontânea oferece esta oportunidade por vir de níveis psíquicos profundos, próximos a natureza.

Kandinsky designava este tipo de arte de “a grande real” por sua expressividade autêntica, puro impulso do coração.

...”Essa harmonia contemplada tão nostalgicamente pelos homens modernos, essa unidade do ser humano com a natureza para a qual Schiller cunhou o termo artístico “naîf,” não é de modo algum um estado tão simples.

Onde quer que nos deparemos com o “ingênuo” na arte, cumpre-nos reconhecer o supremo efeito da cultura apolínea – a qual precisa primeiro derrubar um reino de Titãs e matar monstros para se fazer presente como uma das formas existentes e reconhecidas no mundo”



Nietzsche


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