Os planetas exteriores e seus ciclos os astros e o amor



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A ASTROLOGIA DO DESTINO

Tradução
CARMEN YOUSSEF



CULTRIX/PENSAMENTO

São Paulo



Título do original: The Astrology of Fate

Copyright ©Liz Greene 1984, 1985.



Ao John, com amor







Edição




1-2-3-4-5-6-7-8-9-10













Ano

89-90-91-92-93-94-95







Direitos reservados
EDITORA CULTRIX LTDA.
Rua Dr. Mário Vicente, 374-04270 São Paulo, SP-Fone: 63 3141

Impresso nas oficinas gráficas da Editora Pensamento

S
"A morte ê certa, e quando se cumpre o destino de um homem, nem mesmo os deuses podem salvá-lo, por mais que o amem."
Homero

"E Deus-a-Mente, sendo macho e fêmea ao mesmo tempo já que a Luz e a Vida existiam, criou uma outra Mente para dar forma às coisas, a qual, por ser Deus constituído de Fogo e de Espírito, formou os Sete Poderes que abarcam o universo percebido pelos sentidos. Os homens os chamam de seu Destino regente"


Corpus Hermeticum "Não se deve falar sobre o destino. É uma palavra ímpia demais."
Oliver Cromwell, dirigindo-se ao Parlamento do Primeiro Protetorado
"O livre-arbítrio é a capacidade de fazer com alegria aquilo que eu devo fazer."

C. G. Jung
umário



Introdução 6
Primeira Parte — MOIRA 13

1 O Destino e o Feminino 14

2 O Destino e Plutão 23

3 O Plutão Astrológico 30

4 O Destino e a Família 46

5 O Destino e a Transformação 60

6 A Criação do Mundo 74
Segunda Parte — DAIMON 76

7 O Destino e o Mito 77

8 O Mito e o Zodíaco 83
Terceira Parte — PRONOIA 121

9 O Destino e a Sincronicidade 122

10 O Destino e o Self 141

Notas 153

Glossário de Nomes Mitológicos 156

Introdução

Aquilo que está determinado é senhor dos deuses e de vós Eurípides

Era uma vez, conta a história, um rapaz que vivia em Isfahan como criado de um rico mercador. Uma bela manhã, despreocupado e com a bolsa cheia de moedas retiradas dos cofres do mercador para comprar carne, frutas e vinho, ele cavalgou até o mercado; aí chegando, deparou-se com a Morte, que lhe fez um sinal como que para dizer alguma coisa. Aterrorizado, o rapaz fez o cavalo dar meia-volta e fugiu a galope, pegando a estrada que levava a Samara. Ao anoi­tecer, sujo e exausto, chegou a uma estalagem dessa cidade e, com o dinheiro do mercador, alugou um quarto. Nele entrando, prostrou-se na cama, entre fatigado e aliviado, pois lhe parecia ter conseguido lograr a Morte. No meio da noite, po­rém, ouviu baterem à porta, e no umbral ele viu a Morte parada, de pé, sorrindo amavelmente. "Por que você está aqui?", perguntou o moço, pálido e trêmulo. "Eu só a vi esta manhã na feira, em Isfahan" E a Morte respondeu: "Ora, eu vim buscá-lo, conforme está escrito. Pois quando o encontrei esta manhã na feira, em Isfahan, tentei lhe dizer que nós tínhamos um encontro esta noite em Samara. Mas você não me deixou falar e simplesmente fugiu em disparada."

Essa história popular é curta e graciosa e dela poder-se-ia inferir muitos temas. Mas, nas entrelinhas falsamente simples, sem dúvida está incluído um comentário sobre o destino: o fato de ser este irrevogável e de, no entanto, por um paradoxo, depender da vontade humana para a sua realização. Esse tipo de narrativa, por ser paradoxal, dá margem a toda espécie de especulação filosófica e metafísica, do género que não desperta a atenção de pessoas sensatas. Por exemplo: Se o criado tivesse ficado e falado com a Morte, ainda assim estaria fadado a morrer em Samara? O que aconteceria se tivesse tomado outra estrada? Ele poderia ter tomado uma outra estrada? Em caso negativo, então, que poder, interior ou exte­rior, conduziu-o até o lugar aprazado? O que sucederia se, assim como o cavalei­ro no filme O sétimo selo, de Bergmann, ele tivesse desafiado a Morte? Ou, em resumo — esse estranho enigma que o Oriente sempre tratou com tanta sutileza

e que, no entanto, o Ocidente persiste em reduzir a uma escolha exclusiva, simples e direta: somos predestinados ou livres?

Tenho constatado que a palavra destino soa muitas vezes ofensiva para muitas pessoas neste esclarecido século XX. A morte acabou sendo separada de sua unidade original com o destino e foi transformada num fenômeno clínico, mais do que metafísico. Nem sempre, porém, foi assim. O destino era chamado Moi­ra pelos gregos e constituía desde os tempos mais primitivos um daimon de con­denação e de morte, um grande poder que se havia originado antes dos mais an­tigos deuses. A filosofia grega tinha muito a dizer sobre o destino, tema que iremos examinar no devido tempo. Todavia, a menção à morte parece atualmente implicar uma perda de controle, um sentido de inutilidade, de impotência e de humilhação. Quando Cromwell se dirigiu ao Parlamento dizendo que não se devia falar sobre o destino, expressou um sentimento que desde então tem impreg­nado nossa perspectiva social e religiosa. A história da filosofia gira em torno da intrincada questão do destino e da liberdade humana; no entanto, filósofos mo­dernos como Bertrand Russell consideram o "fatalismo" e seus inevitáveis ra­mos criativos — as artes mânticas ou divinatórias — como uma espécie de nódoa produzida por Pitágoras e Platão sobre o pensamento puro e racional, uma man­cha que ofuscou o brilho da construção, não fosse isso, da mente clássica grega. Onde quer que haja uma preocupação com o destino, há também uma preocupa­ção com a astrologia, pois o conceito de Moira evolui a partir da visão de um cos­mo ordenado, interligado; e a astrologia, em particular, encontra descrédito na moderna escola filosófica encarnada por Russell. Como diz o prof. Gilbert Murray: "A astrologia atacou a mente helenista assim como uma enfermidade nova ataca os habitantes de uma ilha remota." Russell cita essa passagem na sua Histó­ria da Filosofia Ocidental, rematando-a com uma observação própria:


A maioria até mesmo dos melhores filósofos concordava com a crença na astrologia. Ela implicava, visto considerar o futuro previsível, uma crença na necessidade ou no destino.1
A teologia cristã também considerou esse assunto do destino um grande pro­blema. A negação de Moira, ou Heimarmenê, como às vezes é chamada nos pri­meiros textos astrológicos, tem sido um tema popular do cristianismo, e não é preciso ter uma inteligência excepcional para suspeitar que essa negação baseia-se em razões um tanto mais sutis do que o argumento de que o destino é uma coisa pagã. Apesar de os cristãos da Idade Média, de Boécio a Dante, reconhecerem que a tradição pagã da deusa do destino corria paralelamente com a onipo­tência da Trindade, a Reforma trouxe consigo a convicção de que a simples idéia dessa figura representava um insulto à supremacia divina. Deus por vezes - age com uma graça que anula a influência dos céus, afirma Calvino com confian­ça, e as pessoas sentem-se quase sempre renovadas pela experiência da conversão. Assim como a Reforma rejeitou o "culto" de Maria, assim também o fez com o outro numinoso poder feminino no cosmo. E conforme Cromwell ordenou, des­de o século XVII não temos falado sobre o destino.

O argumento teológico que substituiu a deusa antiga e que ainda hoje é viável constitui a doutrina da Divina Providência. Até mesmo os melancólicos adeptos

de Calvino hão de protestar se se der o nome de destino à salvação predestinada aos eleitos, coisa em que acreditam. As pessoas com uma tendência mais cientifi­ca revertem à terminologia de "lei natural", mas a ironia disso é que Moira, tal qual se formou no pensamento de Anaximandro e na mais "científica" escola jônica da filosofia grega, que Russell prefere em detrimento dos ingênuos e místi­cos platônicos, é nada mais nada menos do que a lei natural, elevada ao status de divindade.

Moira, é verdade, era uma força moral; ninguém, porém, precisava fingir que ela era exclusivamente benévola, ou que tivesse alguma consideração para com os interesses paroquianos e os anseios do gênero humano. Ademais — e este é o ponto mais importante — não lhe atribuíam os méritos de previsão, de desíg­nio e de finalidade; esses méritos pertencem ao ser humano e aos deuses humanizados. Moira é a força cega e automática que permite que seus propó­sitos secundários e desejos ajam livremente dentro de suas próprias e legíti­mas esferas, mas reage com certa turbulência contra eles quando atravessam suas fronteiras... Ela é uma representação que enuncia uma verdade sobre a disposição da Natureza, e ao enunciado dessa verdade nada acrescenta senão que a disposição é ao mesmo tempo necessária e justa.2

Anaximandro e seus companheiros imaginavam o universo como que dividido, dentro de um plano geral, em províncias compartimentadas ou esferas de poder. A própria palavra Moira quer dizer "porção" ou "sorte". O universo ori­ginalmente era uma massa primária e indiferenciada; quando os quatro elementos surgiram, eles receberam seu "quinhão" não de uma deusa personificada, mas do eterno movimento no interior do cosmo, o que era considerado não menos divi­no. No entanto, interpretar a lei natural como um nume não nos atrai hoje em dia. E quando consideramos outros aspectos da lei natural, tais como a heredita­riedade e a filogenia das doenças, estamos pouco propensos a ver esses processos como algo relacionado ao destino.

Tornou-se até mesmo aceitável, em alguns círculos, falar de karma, ao mesmo tempo que se evita a palavra destino. Karma, por um lado, ao que parece, é um termo mais simpático porque implica uma cadeia de causa e efeito, dando-se al­guma importância às escolhas individuais em determinada encarnação. Destino, por outro lado, parece, no conceito popular, ser obra do acaso, não tendo a pes­soa absolutamente qualquer escolha. Esse, porém, nunca foi o conceito filosófico de destino, nem mesmo aos olhos dos estóicos, que eram, conforme seu nome su­gere, extremamente estóicos com relação à ausência de liberdade no cosmo. O es­toicismo, a mais fatalista das filosofias, reconhecia o destino como um principio de causa e efeito; ele postulava simplesmente que nós, seres humanos, em geral somos cegos demais e estúpidos demais para perceber os resultados implícitos em nossas ações. De acordo com o preceito hindu, o homem lança suas sementes e não presta nenhuma atenção ao seu crescimento. Então elas germinam e por fim amadurecem, e cada pessoa deve comer do fruto de sua própria terra. Essa é

a lei do karma. Ela não difere de Heimarmenê, que é descrita com eloqüência pe­lo Prof. Murray a seguir:
Heimarmenê, no espantoso símile de Zenão (o fundador do estoicismo), é co­mo um fio delgado que atravessa toda a existência — o mundo, devemos nos lembrar, era para os estóicos uma coisa viva —, como o fio invisível da vida que, hereditariamente, nas espécies vivas, se transmite de geração a geração, mantendo-as vivas; ele se move produzindo, incessantemente produzindo, tanto o infinitesimal como o infinito. . . e é um tanto difícil distingui-lo da Pronóia ou Providencia, que é o trabalho de Deus e, com efeito, sua verda­deira essência.3
Não só é difícil distinguir o destino da Providência, como também é difícil dis­tingui-lo do karma e da lei natural. Essa situação encontra unia irresistível analo­gia com o uso de palavras tais como "cópula", "fornicação" e "coito", com a fi­nalidade de evitar você sabe o quê. .

A psicologia também inventou uma outra e mais atraente terminologia ao se defrontar com a questão do destino. Ela fala de predisposição hereditária, de padrões de condicionamento, de complexos e de arquétipos. Todos esses são termos úteis e, sem dúvida, mais apropriados ao século XX; eu mesma vou usá-los do começo ao fim deste livro, e talvez seja conveniente que nossa visão do desti­no tenha evoluído, no decurso de dois ou três milênios, de uma deusa personifi­cada para uma qualidade da psique inconsciente. Mas fico sempre impressionada com a aversão que os profissionais da medicina parecem sentir — em particular o psiquiatra, que deve ser capaz de perceber a relação existente quando faz o prognóstico de esquizofrenia incurável e afirma que ela é hereditária — quando a palavra destino é servida à mesa como um prato frio, sem molho ou acompanha-mento. Não é de estranhar que o astrólogo moderno, que deve se servir do desti­no toda vez que estuda um horóscopo, se sinta constrangido e tente formular al­guma outra maneira de expressá-lo, falando, em lugar dele, com elegante ambi­güidade, de potencialidades e de projetos em embrião. Ou então pode buscar re­fúgio no velho argumento neoplatônico que sustenta que, embora possa haver um destino representado pelos planetas e signos, o espírito do homem é livre e pode fazer suas escolhas à vontade. Margaret Hone é uma típica representante desse ponto de vista:

A sincronização com um esquema planetário aparentemente nega o livre-arbítrio por inteiro. . . Visto que um homem se identifica com seu ser físi­co e com o mundo material em torno dele, ele é, pois, parte indissolúvel dele e está sujeito ao seu padrão de mudança que é formado pelos planetas em suas órbitas. Somente pelo reconhecimento daquilo que ele percebe ser maior do que si mesmo poderá ele sintonizar com aquilo que se situa além do pa­drão terrestre. Dessa forma, embora não possa se livrar dos acontecimentos terrenos, pela doutrina da livre e espontânea "aceitação" ele pode "querer" que seu ser real seja livre na sua reação a eles.4

Jeff Mayo, por outro lado, parece pertencer à escola das "potencialidades":

É razoável achar que se o futuro pode ser previsto, então não temos nenhum livre-arbítrio e calamos enredados num irrevogável destino do qual não podemos nos desvencilhar. O astrólogo não pode predizer todos os fatos... Um aspecto astrológico pode corresponder a qualquer uma dentre várias possibilida­des, dependentes na maior parte da "liberdade de escolha" da pessoa em ques­tão, não obstante aquele aspecto ainda constituir um prognóstico sobre a real tendência das circunstâncias ou sobre a natureza da reação dessa pessoa à situação.5
Essas duas interpretações são características da reação atual da astrologia ao problema do destino. Ou ele é considerado apenas uma tendência, um conjunto de possibilidades, em vez de algo mais definido, ou é realmente definido, mas só se aplica à natureza corpórea ou "inferior" do ser humano e não contamina o seu espírito. Uma abordagem é pragmática; a outra é mística e pode ser remontada até Platão. Ambas, contudo, são suscetíveis à contestação. Por um lado, a expe­riência deixou-me a impressão de que alguns fatos bem específicos da vida são obra do destino e inevitáveis, sendo difícil classificá-los de tendência ou atribuí-los à escolha ativa da pessoa. Alguns dos relatos neste livro ilustram isso um tan­to dolorosamente. Por outro lado, parece que a vida subjetiva do ser humano — o espírito de que fala Margaret Hone — é tão matizada pelo destino quanto sua vida exterior, na forma de complexos inconscientes que até mesmo influenciam a natureza do Deus que ele cultua, e que modelam suas escolhas ainda mais fortemente do que qualquer ato de volição consciente. De fato, a concomitância de complexos subjetivos e de circunstâncias externas sugere que a divisão em "físi­co" e "espiritual" que Hone está fazendo é arbitrária. Não tenho a intenção de responder a esses dilemas, nem gostaria de insinuar que um ou outro desses dois talentosos e experimentados autores está "errado". Mas fica-me a sensação de que alguma coisa está sendo escamoteada.

O destino significa: isso estava escrito. É terrível pensar em algo escrito com tamanha determinação por uma mão totalmente invisível. Esse fato implica não só impotência, como ainda o obscuro mecanismo de alguma enorme e impessoal Roda ou de um Deus bastante ambíguo que tem menos consideração do que gos­taríamos para com nossas esperanças, sonhos, desejos, afeições, méritos ou até mesmo pecados. De que valem os esforços da pessoa, seus conflitos morais, seus simples atos de amor e de coragem, seu empenho para o aperfeiçoamento de si próprio, de sua família e de seu mundo, se tudo, no final das contas, é tornado vão pelo que já foi escrito? Temos sido nutridos, nos últimos dois séculos, num pábulo bastante suspeito de autodeterminação racional, e essa visão do destino nos ameaça com uma experiência de desespero real ou de caótica catarse na qual a coluna dorsal do homem ético e moral desmorona. Existe igualmente uma difi­culdade com relação à abordagem mais mística do destino, pois ao romper a uni­dade do corpo e do espírito com a finalidade de buscar refúgio contra os estreitamentos da sorte, a pessoa cria uma dissociação artificial de sua própria lei natural e poderá conjurar no mundo exterior o que está evitando no íntimo.

Entretanto, para a mente grega, como para a mente da Renascença, a visão do destino não destruiu a dignidade da moralidade ou do espírito humanos. Se algo aconteceu, foi o oposto. O primeiro poeta religioso da Grécia, Hesíodo, diz

simplesmente que o curso da Natureza não é senão indiferente ao certo e ao er­rado. Ele conclui que há uma definida e simpática relação entre a conduta huma­na e a lei ordenada da Natureza. Quando um pecado é cometido — tal como o in­cesto inconsciente de Édipo — toda a Natureza é envenenada pelo delito do ho­mem, e Moira revida fazendo recair imediatamente uma grande desgraça sobre a cabeça do transgressor. O destino, para Hesíodo, é o guardião da justiça e da lei, e não a fortuita e predeterminante força que dita cada ação de um homem. Esse guardião fixou os limites da original ordem da Natureza, dentro dos quais o ho­mem deve viver porque é parte desta; e ele aguarda para cobrar a penalidade por cada transgressão. E a morte, visto ser a declaração definitiva de Moira, o "qui­nhão" ou o limite circunscrito além do qual os seres mortais não podem trans­por, não é uma indignidade, porém uma necessidade que deriva de uma fonte di­vina.

Ter-se-ia a impressão de que desde a Reforma perdemos muito desse sentido de união com a Natureza e a lei natural; esquecemo-nos do que sabíamos a res­peito do significado de destino e por isso as vicissitudes da vida, incluindo a morte, se nos afiguram no Ocidente uma violação e uma humilhação. Quando uma pessoa idosa falece, já não mais falamos de "causas naturais", mas antes, confor­me está escrito no atestado de óbito, de "parada cárdio-respiratória", inferindo daí que, se não fosse por essa parada ou falha, a morte nunca teria ocorrido. Eu, no entanto, não acho que tenhamos perdido o medo do destino, apesar de zombarmos dele; pois, se o homem moderno fosse realmente tão esclarecido a ponto de superar esse conceito "pagão", não teria o hábito de ler furtivamente a seção de astrologia no jornal, nem de mostrar compulsão a ridicularizar, sempre que possível, os porta-vozes do destino. Tampouco ficaria tão fascinado pelas profe­cias, que são as criadas da sorte. As Centúrias de Nostradamus, essas fantásticas visões do futuro do mundo, jamais deixaram de ser impressas, e cada nova edi­ção vende uma quantidade astronômica de exemplares. Quanto ao ridículo, sou de opinião de que o medo, quando não admitido, disfarça-se muitas vezes de desprezo agressivo, e de tentativas um tanto forçadas para desaprovar ou dene­grir a coisa que causa ameaça. Todo quiromante, astrólogo, cartomante ou viden­te já se deparou com esta peculiar mas inequívoca ofensiva dos "céticos". E, lamentavelmente, ela ocorre com não menos furor dentro do campo da própria astrologia. Os contornos dessa aparição podem ser vistos de relance nas mais resolutamente "científicas" tentativas dos astrólogos para provar seu estudo unica­mente através de uma maré de estatísticas, ignorando ou recusando-se a reconhe­cer os mistérios que escapam a seus cálculos, pleiteando desavergonhadamente o reconhecimento para sua ciência (se é que for isso mesmo) de uma obstinada comunidade científica e, finalmente, desculpando-se até mesmo por chamar a astrologia pelo seu próprio nome e substituindo-a por termos difíceis e empolados como "cosmobiologia", na esperança de que isso a torne mais aceitável. Não estou desmerecendo a pesquisa legítima que tem como objetivo a clareza ou a verdade com essa observação, antes, porém, chamando a atenção para uma ati­tude que me parece ser uma supercompensação fanática que joga fora o bebê junto com a água do banho. A comunidade dos modernos profissionais da astro­logia muitas vezes dá a impressão de se sentir muito envergonhada por ter que transacionar com o destino.

A astrologia, ao lado do tarô, da quiromancia, da cristalomancia e talvez também do I Ching que agora se estabeleceu firmemente no Ocidente, são os moder­nos mensageiros da antiga e digna função de vidência. Essa tem sido, desde tem­pos imemoriais, a arte de interpretar as intenções obscuras e ambíguas dos deu­ses, embora possamos chamar isso agora de intenções obscuras e ambíguas do inconsciente, e está voltada para a apreensão de kairos, o "momento certo". Jung usou o termo sincronicidade com relação a essas coisas, como um meio de tentar lançar luz sobre o mistério da coincidência significativa — quer se tra­te da coincidência de um acontecimento externo aparentemente não relacionado com um sonho ou estado subjetivo, ou de um acontecimento com o esquema de cartas, de planetas, de moedas. Mas seja qual for a linguagem que usemos, a psicológica ou mítica, a religiosa ou "científica", no cerne da adivinhação está o esforço para interpretar o que está sendo ou foi escrito, quer expliquemos esse mistério pelo conceito psicológico de sincronicidade ou pela muito mais antiga crença no destino. Para o leigo não-iniciado, sem experiência dessas coisas, na sua enorme sutileza de múltiplos níveis, o conhecimento de Moira está limitado às predições do signo solar nas seções de horóscopo e a ocasionais visitas à ex­cêntrica velhinha que vive em Neasden junto com dezessete gatos e que estava realmente certa sobre a operação de mamãe. Nossas tipicamente concretas inter­pretações ocidentais do destino revelam-se nessas expressões, em toda a sua gló­ria esquizóide. Ou acreditamos sinceramente que a semana vindoura trará a sorte inesperada, o novo namorado, más notícias pelo correio, ou a promoção de car­go, ou, por vezes, ao contrário, zombamos com crueldade do nosso amigo por ser estúpido, ignorante ou bastante ingênuo a ponto de achar que ele ou ela po­deria realmente obter ajuda dessa espécie de ridícula mistificação. A afirmação feita por Novalis de que o destino e a alma são dois nomes para o mesmo princí­pio é, naturalmente, incompreensível apesar dessa concretização. No entanto, o astrólogo, que deveria ser mais bem informado, pode ainda ser pego fazendo afirmações concretas, e não apenas sobre um novo namorado e sobre más notícias pelo correio: os signos do zodíaco e os aspectos planetários significam com­portamento e somente comportamento a partir dessa perspectiva literal, sem qualquer pensamento voltado para a "alma" subjetiva de que fala Novalis.

Não tenho a intenção de convencer o leigo nem das artes mânticas nem do destino. O que me interessa é a abordagem do profissional da astrologia. Não estou satisfeita nem com a abordagem relacionada com "tendências" do horós­copo, nem com a abordagem neoplatônica que afirma que "o destino afeta o corpo, mas não a alma". Na minha opinião, a primeira contorna a questão dos fatos misteriosamente significativos que provocam o desenvolvimento individual, e a última contorna a questão da responsabilidade individual. Pelo que tenho ob­servado nos meus pacientes e clientes astrológicos, não há dúvida de que existe algo — quer o chamemos de destino, Providência, lei natural, karma ou incons­ciente — que se vinga quando suas fronteiras são transgredidas ou quando não encontra respeito ou empenho na relação, e que parece conter uma espécie de "conhecimento absoluto" não só sobre o que a pessoa precisa, mas ainda sobre o que ela irá precisar para o seu desenvolvimento na vida. Essa coisa parece fa­zer as mais singulares e espantosas combinações, aproximando uma pessoa de ou­tra ou provocando uma situação externa justamente no momento certo, e dá a

impressão de fazer parte tanto do homem subjetivo quanto do homem objetivo. Além disso, dá a idéia de ser ao mesmo tempo psíquica e física, pessoal e coleti­va, "superior" e "inferior", podendo usar o disfarce de Mefistófeles tão facilmen­te como pode se apresentar como Deus. Não tenho a pretendo de saber o que "ela" é, mas estou francamente disposta a chamá-la de destino. E sou de opinião de que se compreendêssemos melhor essa coisa, teríamos condições de prestar muito mais ajuda aos nossos clientes, sem falar de nós mesmos.

O propósito deste livro, à maneira dos próprios fados gregos, é tríplice. Pri­meiro, ele se destina a confrontar e a levantar a questão do destino com certa minúcia. Não tenho nenhuma resposta ao problema básico de saber se somos pre­destinados ou livres; tampouco jamais se chega a uma conclusão parecida de modo definitivo nesta exploração. Sinto-me inclinada, quando defrontada com uma questão tão vasta assim, a responder vagamente: ambos. Não sei o que é destino num sentido metafísico definido ou num sentido teológico; a filosofia e a religião ocupam-se desse problema em termos muito mais eruditos do que minha capacidade permite. Quando Apuleio de Madaura faia com convicção do destino dualista — como energia e como substancia — ou quando Chrysippos propõe que até mesmo os nossos pensamentos são predeterminados, fico numa posição difí­cil para contestá-los. Tem havido muitas tentativas, no decurso de séculos, para definir o destino e, por vezes, as conclusões diferem. Não sei com certeza se é possível mudar o destino, ou se o próprio destino muda, ou o que poderia signi­ficar "mudança", apesar de ter levantado algumas questões exatamente sobre o que é que se "transforma" durante processos como a psicoterapia. Tampouco sei se algumas pessoas são mais predestinadas que outras, embora certamente pareça ser assim num nível exterior concreto. Entretanto, em algumas ocasiões, é a for­mulação do problema que abre as portas, em vez da busca determinada por uma resposta inequívoca.

Perguntas que lidam com questões tão insondáveis copio a liberdade humana ou a falta dela, contudo, têm tendência, se consideradas seriamente, a suscitar no questionador uma ambivalência um tanto desconfortável. É como se não fosse seguro perguntar, mas apenas ignorar ou ridicularizar, pois, ao se indagar, no ato de compor a questão, arranca-se a pele protetora de um profundo e misterioso dilema humano e de uma fonte de sofrimento. Uma vez consciente desse dilema, se nenhuma resposta imediata estiver prestes a surgir, a pessoa fica suspensa en­tre os opostos como alguém que está crucificado. Esse problema traduz-se em termos humanos numa questão falsamente simples: se alguém é fortemente pres­sionado por impulsos ou desejos que irrompem da psique, ele os expressa no cor­po pelo fato de serem predeterminados, ou procura reprimi-los e controlá-los? Ou pode haver uma terceira possibilidade, que admita a inevitabilidade da expe­riência, mas também ponha à prova o ser humano total em termos de suas esco­lhas morais? A questão não é fácil, e qualquer psicoterapeuta sabe disso, pois, às vezes, uma pessoa não pode ajudar a si mesma c, outras vezes, pode; algumas ve­zes, ela não precisa se ajudar e, outras vezes, ela deve. Esse verdadeiro dilema permeia, de fato, a história da traição e da crucificação de Cristo. Esse tipo de dúvi­da pode aprofundar e enriquecer, mas pode também paralisar. Aprofundamento e superação não são para todos, do contrário dificilmente nós, enquanto um ser coletivo, evitaríamos, como tão claramente fazemos, a questão. A dúvida priva-nos



da certeza, quer esteja do lado da moralidade ou da amoralidade, do destino ou da liberdade. E quantos de nós teriam a coragem de Sócrates em admitir que a raiz de toda a sabedoria reside no fato de saber que nada sabemos?

O segundo propósito deste livro é uma tentativa de compreender a repulsa e até mesmo a ira que o assunto destino suscita, de modo particular, nos meus co­legas estudantes e profissionais de astrologia e nos meus colegas analistas. Não existe nenhuma profissão moderna que aproxime mais uma pessoa da experiên­cia do destino do que a prática da horoscopia, exceto a do psicoterapeuta. A dis­cussão a respeito de "potencialidades" e de "tendências" é bastante válida para o sujeito cuja vida não tenha sido violentamente tocada pelo destino: a pessoa sau­dável, física e psicologicamente, que se acha "numa encruzilhada", deseja orien­tação vocacional, está "à procura de um rumo" ou quer "aprender mais" sobre si mesma. Mas não são esses os únicos clientes que vêm em busca de aconselhamen­to astrológico. Se fossem, nosso trabalho sempre seria prazeroso e nunca nos desafiaria. Todavia, existem pessoas atormentadas por algum daimon ou compulsão íntimos, debatendo-se em vão contra o que experienciam como seu próprio mal; que estão quase irreconhecivelmente desfiguradas por experiências que não esco­lheram na sua infância; que se encontram dilaceradas por alguma experiência transcendental ou transpessoal que exige um sacrifício de alguma coisa que mais prezam; que estão fisicamente mutiladas devido a acidente, doença ou defeito congênito; que sofreram perdas injustificadas e separações imerecidas, ou foram colhidas por horrores coletivos como a Alemanha nazista, ou a Tchecoslováquia e a Irlanda do Norte do pós-guerra; que foram estupradas, roubadas, pilhadas e usadas; que ficaram, estão ou vão ficar loucas porque suas famílias insanas as escolheram como portadoras de sintomas ou bodes expiatórios. Tampouco a pessoa bem-dotada está livre de sofrimento, pois a posse de talentos e de inteli­gência e até mesmo o que chamamos de "sorte" marca um ser humano tão certamente como o faz uma deformidade, e o afasta da comunidade num isolamento espiritual que exige também uma determinada resposta. Não acho fácil propor expressões plausíveis quando me vejo diante desse catálogo de vicissitu­des humanas aparentemente indignas. Certa vez, durante um seminário, uma mulher com voz de fátua convicção disse-me que as pessoas nunca recebem mais do que podem suportar. Uma breve visita, porém, a um hospital ou a uma clínica psiquiátrica tende a mostrar o absurdo desse tipo de declaração. Não sou capaz de discorrer com fluência sobre o karma como fazem muitos astrólogos e chegar à conclusão de que ele tem algo a ver com suas prévias encarnações; logo, não se preocupe, simplesmente feche os olhos e pense na Inglaterra; tampouco sou capaz de concluir que a pessoa "fez" com que essas coisas acontecessem a partir do que era meramente uma "tendência", pelo fato de ser uma pessoa mais estúpida ou mais culpada do que as outras. Tenho honestamente que admitir que não sei e, por não saber, estou empenhada numa tentativa de compreender mais a fundo a natureza do que quer que "isso" seja. Como acontece com a maior parte das pessoas, a presença de extremo sofrimento suscita em mim a pergunta sobre o significado. Para mim, no entanto, os caminhos da perversidade e catástrofe hu­manas não levam, no final das contas, aos confortadores braços paternos de um bondoso Deus judeu-cristão a quem não devemos questionar; nem sequer levam

à indiciação da sociedade como fonte de todos os males. Antes, porém, levam ao destino.

Sou de opinião de que todas as vocações ou "tendências" genuínas têm, aci­ma delas, uma figura arquetípica ou mítica, vaga e muitas vezes invisível, fasci­nante e irresistível em si mesma, ainda que inconsciente, que, de algum modo, é o símbolo do significado interior ou da "retidão" dessa vocação. Ou poder-se-ia expressá-la de outra maneira: a imaginação humana formula essas figuras es­pontaneamente como um meio de dar voz a alguma misteriosa santidade ou numinosidade a respeito de uma função particular na vida que o intelecto não con­segue entender por inteiro. Jung pensava que essas figuras eram imagens arquetípicas, percepções de padrões humanos inatos ou processos de ordenação cuja origem permanece um mistério e cuja experiência transmite um sentido do divino. Tomemos o médico como exemplo. Podemos saber perfeitamente que ele é falí­vel, que tem o hábito de não atender ao telefone nos fins de semana, que seus honorários profissionais são caros demais. (se ele mantém uma clínica particular), que ele também fica doente, que não pode curar os casos incuráveis. Todavia, quando uma doença nos apavora, não é ao médico particular que bradamos, e sim ao Xamã, ao Pajé, ao coxo Asclépio que recebeu sua sabedoria dos deuses e é ele próprio um deus e o santo sacerdote que atende aos apelos desesperados do corpo e da alma. Jung e outros sugeriram que o Curandeiro é uma figura subjeti­va, que pode ser encontrado nos sonhos e que expressa esse profundo mistério da capacidade do corpo e da psique de se curar. Nós, porém, não raciocinamos em termos de figuras arquetípicas subjetivas; estendemos a mão para o telefone e chamamos o médico. O playboy um tanto insensível, que há pouco acabou de se formar em medicina, e está às voltas com um casamento desastroso, filhos negligenciados e uma grande quantidade de problemas sexuais, financeiros e emocionais, não é o rosto que vemos na sala de consultas; o que vemos, em vez dele, é alguma coisa brilhante, poderosa, capaz de infundir esperanças apesar da desesperança, que oferece uma serena aceitação diante até mesmo da morte imi­nente.

O médico mais sensível também sabe sobre esse Doutor, e está bem conscien­te de que a cura, em muitos casos, depende de que a imagem subjetiva seja crista­lizada; pois, se não o for, o paciente não melhorará, apesar das habilidades técni­cas e do conhecimento do profissional. O médico interior e o médico exterior trabalham assim de mãos dadas, embora freqüentemente ninguém, na relação médico-paciente, seja o mais sábio. Se não colocássemos essa confiança de inspi­ração divina ou arquetípica em nossos profissionais médicos, talvez jamais os visitássemos, a não ser nos casos de fraturas ósseas e pequenas contusões da vida cotidiana. E o próprio médico? É de se supor que ele obtenha uma considerável recompensa financeira na América e na Inglaterra, se conseguir adquirir uma prática oriental em Harley Street; e também o status que suas referências propi­ciam, um lugar na comunidade e uma sensação de segurança no "círculo" de seus colegas. Mas tanto os padrões morais como os técnicos da profissão médica têm um grau altíssimo de exigência, e não há nenhum prazer em lidar todos os dias com tecidos necrosados, desintegração física e morte, isso sem mencionar o que o Príncipe de Gales, em seu discurso à Associação Médica Britânica, referiu como

”o espírito afetado que surge... com sua alma doente disfarçada de enfermidade física”. Que justificação pode o médico oferecer à sua própria alma, quando ele finalmente tiver que se defrontar com ela, se não existir um Outrem bruxuleante por detrás de suas muitas vezes genuína, mas freqüentemente insuficiente dedica­ção e desejo de ser útil, quer a chame de compaixão, integridade, serviço ou ne­cessidade de viver uma vida plena de sentido?

A psicologia analítica fala com razão dos perigos de identificação com um arquétipo. O médico não é o Médico e está em melhor situação para lembrar-se dis­so, a fim de não correr o risco de arrogância e mesmo de psicose potencial se a imagem divina subjugar a sensação do ego consciente de falibilidade e de limita­ção humanas. Essas figuras arquetípicas, porém, mesmo quando abordadas com consciência e humildade, ainda assim pedem uma oferenda de seus filhos. Comer do fruto dos deuses exige uma compensação, que aqueles que prestam "servi­ços", em vez de serem inspirados por uma vocação, não precisam dar. Talvez seja a sensação disso que forme a lógica interna do juramento de Hipócrates na medi­cina. Esse ato de retribuir algo ao ser divino — o ato de reconhecer a existência de algo sagrado do qual se é uma espécie de recipiente — diferencia a vocação do trabalho, ou diferencia a percepção da pessoa a respeito do seu trabalho. O ner­vosismo experimentado em círculos esotéricos com relação à cobrança de dinhei­ro pela elaboração de horóscopos ou "orientação espiritual" constitui uma intui­ção válida, se bem que às vezes totalmente mal empregada, de que em alguma parte Alguém deve alguma coisa. E que figura se encontra por trás do astrólogo, se não o destino?


A forma acabada de nosso destino, a linha traçada em torno dele. É a tarefa que os deuses nos reservam e a parcela de glória que eles nos concedem; os limites que não devemos ultrapassar, e nosso termo fixado. Moira é tudo isso.6
Nem todo o conhecimento científico do mundo poderá apagar o que tem existido desde o princípio e que é mais antigo que o mais antigo dos deuses. A ciência também contém uma experiência mítica que exerce um poder numinoso; do contrário, nós astrólogos não ficaríamos tão intimidados por ela, nem a co­munidade científica tão disposta a utilizar a palavra como se fosse uma verdade religiosa, cujas dúvidas a respeito constituem uma heresia. E, paradoxalmente, as experiências míticas da astrologia e da ciência estão unidas numa mesma figu­ra:
Esse genuíno sentimento religioso, tal como se encontra em Homero, diz menos respeito aos deuses do Olimpo do que a entidades mais irreais como a Sorte, a Necessidade ou o Destino, às quais até mesmo Zeus está sujeito. A Sorte exerceu uma grande influência em todo o pensamento grego, e talvez seja uma das fontes de onde a ciência tirou a crença na lei natural.7
Com efeito, trata-se da mesma experiência mítica, embora vestida com uma rou­pagem nova. Às vezes me pergunto se os astrólogos, quando não conseguem con­fiar em mais nada a não ser em estatísticas, não estarão, em parte, simplesmente

trocando a roupa da Velha Rameira a fim de aplacar suas próprias inseguranças, tanto como oferecendo contribuições valiosas para uma compreensão racional de seu próprio estudo. Entretanto, por mais inquietante que possa ser confrontar es­sas formas antigas, ao mesmo tempo em que ainda preservamos nosso conhecimento atual, conseguido com dificuldade, do universo físico e das maiores alter­nativas humanas dentro dele, não obstante é este mesmo conflito que acredito ser a sorte do astrólogo moderno, se assim lhe convier: o conflito com o qual ele deve lutar, cheio de ambigüidade e, no entanto, sempre com a pergunta de Parsifal em seus lábios. A quem, na verdade, servimos? Ao destino ou à liberdade? O astrólogo que aceita a fatalidade com passividade e o seu oposto, o racionalista presunçoso que só examina a causa e o efeito mecânicos e fala em "conhecer a fundo" o mapa astral, talvez estejam entendendo mal — e, mais cedo ou mais tar­de, poderão trair os deuses, o cliente e a si mesmos.

Portanto, para resumir, o segundo propósito desta investigação consiste em dar uma perspectiva mais nítida àquela figura com a qual devemos lidar e que parece provocar esse tipo de ambigüidade: o aspecto antigo do destino, do qual nos apartamos. Para facilitar este esforço, achei útil recuar a um passado bem remoto a fim de reconstituir as imagens e histórias do homem sobre o destino. Boa parte dessa reconstituição parece irrelevante para o astrólogo moderno. Todavia os mitos, como Jung arduamente esforçou-se para assinalar, constituem os padrões perenes da alma humana. Eles estão vivos e atuantes em nossos so­nhos, fantasias, afeições e rancores, na tecedura de nossas vidas; e não menos na sala de consultas do astrólogo mais sensível, onde o profissional com alguma re­ceptividade para a psique invisível e silenciosa pode sentir a presença das formas vestidas de branco de Cloto, a Fiandeira, Láquesis, a Medidora, e Átropos, a Cor­tadeira, pairando vagamente sobre a roda do zodíaco.

O terceiro propósito deste livro consiste, em certo sentido, em evocar, em in­vocar. Com isso quero dizer que qualquer símbolo, astrológico ou não, não pode ser completamente apreendido pelo intelecto apenas. Existem caminhos ardilo­sos, mas igualmente fecundos, através dos quais se poderia abordar o "mapa dos astros" e, por conseguinte, sinto-me tentada a tratar de alguns dos nossos símbolos astrológicos não só conceitualmente, senão também, o que talvez seja mais importante, na linguagem da qual eles costumam se revestir. Dai que, pa­ra a indubitável frustração do leitor mais pragmático, as interpretações astrológi­cas se achem irremediavelmente contidas neste livro, mescladas com contos de fadas, mitos, sonhos e outras excentricidades, juntamente com referências mais sérias provindas da filosofia e da psicologia. Acho difícil resumir um signo ou um planeta com uma palavra-chave, e ainda mais difícil lidar com eles como um dado estatístico. De que forma é possível mensurar os lugares onde o destino se introduz numa vida? Contudo, incluí material de pacientes a fim de fornecer ba­se para os vôos da fantasia, na esperança de demonstrar as manobras do destino nas vidas reais das pessoas.

Tenho constatado que a sorte é uma palavra tão fluida e enganosa quanto amor. Platão achava que eram a mesma coisa e, vale observar, de passagem, que no antigo idioma norueguês a palavra para designar as Parcas é idêntica à palavra para designar os órgãos sexuais. Novalis escreveu que o destino e a alma são dois

nomes para o mesmo princípio. E visto que a mais antiga imagem humana do destino é a imagem de uma mulher, vamos começar por onde podemos encontrá-la pela primeira vez.

PRIMEIRA PARTE

Moira


1
O Destino e o Feminino


Das Ewig Weibliche zeiht uns inan.

O eterno feminino nos acusa.
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