Os planetas exteriores e seus ciclos os astros e o amor



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Malaquias II, 10

Já conhecemos a figura feroz de Ares-Marte, o deus da guerra, regente do signo de Áries. Precisamos agora considerar o próprio Carneiro, pois as constelações associadas aos signos zodiacais são complexas e muito antigas, e contêm muitos temas que acrescentam surpreendentes dimensões às interpretações tradicionais da astrologia. Provavelmente nunca saberemos qual foi o processo que levou um determinado animal ou figura a ser associado a um determinado grupo de estrelas. Porém, da mesma forma que acontece com os nomes atribuídos aos planetas, existe uma curiosa "correção" sincrônica nessas associações arcaicas. Os egípcios conheciam o Carneiro como o deus primitivo Amon ou Amun, cujo nome significa "o escondido". Essa antiga deidade de cabeça de carneiro, dizia-se, era a força por trás do vento invisível. Era também chamado "aquele que habita em todas as coisas", imaginado como a alma de todos os fenômenos terrenos. Os gregos associavam Amon, o deus criador, com o seu Pai Zeus, pois o Amon fálico personificava as forças da geração e da fertilização, inician­do e depois mantendo a continuidade da vida criativa.

O numinoso poder procriativo do deus egípcio de cabeça de carneiro sugere que em Áries existe mais do que o mero combate. Essa divindade é uma imagem do poder fálico, quer no homem, quer na mulher, pois Amon é o espírito criativo original que gera o universo manifesto a partir de si mesmo. Não existe "ra­zão" para esse ímpeto dinâmico — ele é simplesmente um atributo de Áries, assim como o poder fálico é um atributo inato do Amon egípcio e do Zeus grego, e também do Javé bíblico. Zeus, ou Djeus, na antiga língua indo-européia, significa "luz do céu", e Zeus é, portanto, o iluminador, o daimon,: da luz e do raio, da iluminação e do esclarecimento. Muitas vezes me pergunto por que os textos tradicionais sobre Áries parecem omitir a visão e o poder intelectual que encontro com tanta freqüência nesse signo. Já vi muito mais arianos (e aí incluo ascendente Áries, Lua em Áries etc., e não apenas Sol em Áries) dedicados à ilu­minação

mental e espiritual do que os tradicionais esportistas combativos — aria­nos que vivem para a luta física.

Quando os gregos começaram a tecer seus contos míticos mágicos em torno das constelações herdadas da Babilônia e do Egito, criaram para a imagem do Carneiro a história do carneiro sobrenatural que, mandado por Zeus, salvou Frixo e Hele da madrasta malvada e os conduziu de volta a Cólquida. Hele caiu e afogou-se no mar, que recebeu o nome de Helesponto por causa dela, mas Frixo conseguiu chegar intato a Cólquida onde ficou sob a proteção do rei Eetes, um feiticeiro, filho do deus solar Hélio. Frixo sacrificou o carneiro e pendurou seu tosão num bosque sagrado guardado por um dragão, onde ele se transformou em ouro; e foi esse mesmo tosão de ouro que Jasão e sua tripulação de argonautas foram buscar em meio a grandes perigos. O tosão foi consagrado a Zeus, e mais uma vez nos deparamos com essa conexão inesperada entre Áries e o ígneo rei dos deuses. Esse tosão de ouro, e a luta de Jasão para obtê-lo, parecem retratar o tema do assassinato do Velho Pai e da luta pela identidade espiritual individual, que acredito ser o cerne do drama de Áries, o Carneiro.

A história de Jasão é importante na nossa exploração do padrão de desenvol­vimento Inerente a Áries. O tosão velo de Iolco, terra natal de Jasão, e é em certo sentido um símbolo de seu "verdadeiro" pai, seu próprio espírito inte­rior. O conto de Jasão é um típico mito de herói. Ele era o legítimo herdeiro do trono de Iolco na Tessália, mas seu tio perverso usurpou o poder e a vida do menino estava ameaçada. Foi mandado, em segredo, para o centauro Quíron, que o criou e lhe ensinou as artes da guerra. A usurpação da herança real e a infância ameaçada, como ressalta Campbell em seu trabalho sobre o mito do herói, são padrões arquetípicos que aparecem em todas as histórias de herói. Ele não nasce automaticamente herói, mas se torna herói através de provações e sofrimentos — para descobrir o que sempre foi seu, mas ele não sabia. Jasão, em sua saga, precisa enfrentar dois homens destrutivos, dois reis, e aqui nos deparamos com a luta arquetípica com o Pai Terrível. Neumann, em sua obra The Origins and History of Consciousness, escreve sobre "os pais" como representantes da lei e da ordem, transmissores dos mais elevados valores da civilização. Personificam o mundo dos valores coletivos, que se manifestam na estrutura psíquica como "consciência". O herói, portanto, precisa tornar-se um trans­gressor da antiga lei, porque é Inimigo do velho sistema de governo e do espaço de consciência existente. Assim, ele necessariamente entra em conflito com os pais e seus porta-vozes pessoais, que na história de Jasão são primeiro o tio malvado Pélias e depois o rei-feiticeiro Eetes.

O "rei malvado" ou figura do pai pessoal, representando o velho sistema de governo, manda o herói combater o monstro — a Esfinge, as bruxas, os gi­gantes, as feras selvagens etc. — na esperança de que isso seja sua perdição.... Entretanto, com a ajuda de seu pai divino, o herói consegue vencer o monstro. Sua natureza superior e sua nobreza natal saem vitoriosas, e provam-se na vitória. A ruína desejada pelo pai negativo redunda em sua glória e na própria ruína do pai negativo. Dessa forma, a expulsão do filho pelo velho rei, a luta do herói e a morte do pai entrelaçam-se de forma significativa, Constituem um encadeamento necessário de fatos que, simbólica e factualmente,

são um pressuposto da própria existência do herói que, como portador do novo, precisa destruir o velho.85


Quando Jasão chegou à idade de combater, voltou a Iolco, decidido a reivin­dicar sua herança. Durante a viagem perdeu uma sandália ao ajudar uma velha (que na verdade era a deusa Hera disfarçada) a atravessar um rio. O tio malvado Pélias, enquanto isso, tinha recebido um oráculo advertindo-o para se preca­ver contra um homem de uma sandália só. Quando os dois se encontraram, Pélias recebeu-o hipocritamente, reconheceu-o como legítimo herdeiro e imediatamente mandou-o resgatar o tosão de ouro que seu antepassado Frixo tinha levado a Cólquida, para que a alma agoniada de Frixo pudesse descansar em paz. Dessa forma o Pai Terrível manda o filho para o perigo, esperando, como diz Neumann, que isso seja seu aniquilamento. Jasão, em resposta, reuniu a famosa tripulação de Argonautas e, com a ajuda dos deuses Atena, Posêidon e Hera, fez sua viagem à corte do rei Eetes, em meio a grandes perigos. Lá chegando, matou o dragão, com a ajuda de Medéia, a filha do rei, sacerdotisa e feiticeira, roubou o tosão, voltou a Iolco, onde se livrou do tio Pélias, e tornou-se rei.

O impulso de lançar-se em situações perigosas para provar a masculinidade é característico de Áries e, mesmo que possa a princípio parecer estranho, é característico tanto das mulheres como dos homens de Áries. O Pai Terrível, e a procura do "verdadeiro" Pai criativo interior, não se limita aos homens. O tosão, emblema desse conjunto individual e "interior" de valores espirituais, parece, como vimos, ser a representação teriomórfica ou animal do deus "ocul­to". O rei Eetes, o guardião, está um pouquinho acima de Pélias, pois é semi-divino, e é um feiticeiro; é o Pai Terrível arquetípico, enquanto Pélias é o pai pessoal. O fato de isso ser um destino e não um mero exercício de imaginação me é sugerido pela grande quantidade de pessoas de Áries que conheci que foram jogadas na vida vítimas de problemas com um pai pessoal tirânico ou restritivo e destrutivo. Esse pai, muitas vezes, emasculou o filho, foi demasiadamente crítico e eliminou a "herança" natural do filho, ou bloqueou qualquer expressão criativa independente do filho. Uma situação semelhante parece ocorrer muitas vezes na vida das mulheres de Áries, onde o pai é igualmente dominador ou restritivo, e o marido — inconscientemente escolhido porque se parece com o pai e é um personagem necessário ao mito — assume o papel de quem nega permissão para uma vida independente. O Pai Terrível pode reaparecer, muito depois da infân­cia, na forma de instituições ou superiores hierárquicos no trabalho, ou como uma competição masculina por um amante ou um prêmio desejado. Esse padrão não é "patológico"; é mítico e, no mesmo nível, é a imagem da necessidade de Áries. Aqui o Pai surge tanto como o obstáculo quanto como o meio de crescimento.

Jasão conseguiu encontrar seu tosão e levá-lo de volta para casa por intermédio de uma mulher. Isso também é característico do mito do herói, pois a "mulher" é a anima, o inconsciente disfarçado de "ajudante" ou "noiva", que encontra soluções quando o ego individual é incapaz de achá-las. Se Jasão fosse um personagem feminino, sem dúvida teria sido ajudado pelo filho de Eetes, pois o animus, na psique da mulher, parece desempenhar a mesma função em termos de desenvolvimento. Jasão, efetivamente, recebeu a ajuda de mais de uma

mulher, pois embora a tripulação dos Argonautas fosse exclusivamente de homens guerreiros, foi a deusa Hera, em gratidão por um serviço anterior de Jasão, que o tirou das terríveis confusões que ele enfrentou na viagem. Medéia, com sua feitiçaria e poderes ocultos, ajudou-o a escapar da ira do rei Eetes, guardião do tosão. Mas Jasão mostrou um típico problema ariano quando retornou a Iolco, pois cansou-se de Medéia e cortejou a filha do rei de Corinto, abandonando a aliança com a anima interior "meio bruxa" que o tinha ajudado, desejando, em seu lugar, uma mulher que pudesse trazer-lhe poder coletivo e reconhecimento. Não estava contente com o que tinha; precisava de mais, mais e mais. Dessa forma, Jasão enfureceu Medéia, que não era mulher para ser tratada levianamente. Como vingança, ela assassinou não apenas a nova noiva, mas também seus próprios filhos, e fugiu numa carruagem conduzida por dragões alados, deixando o antigo amante com uma maldição. Depois disso, Jasão entrou em ininterrupta decadência, envelhecido e impotente, e acabou morrem do quando um pedaço de madeira de seu navio arruinado caiu sobre sua cabeça.

Não estou insinuando que o vergonhoso fim de Jasão seja necessariamente o destino de Áries. Mas sem dúvida é um problema seu. É uma ironia, bem de acordo com as sutis nuanças tragicômicas do mito, que o jovem herói que combate o Pai Terrível para inaugurar uma nova ordem deva repudiar seu self feminino interior para cortejar aquele mesmo poder coletivo que precedeu sua busca da luta. Aqui está implícita a misteriosa identidade entre o herói e seu inimigo, pois Jasão, no fim da história, se transforma no Pai Terrível, e a nemesis que o persegue é a morte de seus filhos. Num nível interior, talvez esse final triste para um conto glorioso seja uma passagem necessária para Áries, antes de começar um novo ciclo e uma nova busca de um novo tosão. Pode ser que muita coisa seja destruída antes que Áries se levante de sua desintegração para partir no encalço de outro desafio. Áries, como pai ou mãe, e não como filho ou filha vítimas de um pai dominador, pode descobrir que o mito é o mesmo, mas os papéis mudaram, e seus filhos se rebelam contra sua recente tirania.

Há outros carneiros míticos que foram associados ao signo de Áries, além do tosão de ouro fálico de Zeus. Luciano, o poeta romano, identificou o car­neiro com o cordeiro dourado que consta na história de Atreu e Tiestes, de que falamos anteriormente. Quando esses irmãos disputavam o trono de Mikenai, de acordo com uma das versões da história, Zeus decidiu acabar com a briga em favor de Atreu, mandando-lhe um cordeiro dourado, símbolo de sobera­nia. Tiestes, porém, seduziu a mulher de Atreu e convenceu-a a roubar o cor­deiro dourado para ele. Zeus, então, mandou um presságio ainda mais impressionante — o Sol mudou seu curso no céu, e o dia transformou-se em noite. Isso ninguém podia questionar; Atreu foi devidamente entronizado e Tiestes foi banido. Já vimos o que aconteceu em seguida. Mas aqui, novamente, encontramos a imagem do carneiro consagrado a Zeus, o símbolo da potência e do domínio do deus, e objeto de disputa entre dois irmãos. Essa é mais uma disputa entre a potência e a supremacia masculinas, das quais o carneiro é o emblema, e o roubo da mulher e do carneiro dourado refletem outra dimensão do destino de Áries: o triângulo amoroso, menos centrado no objeto desejado do que na competição envolvida. Também é interessante observar que o

carneiro é o principal animal de sacrifício no Velho Testamento. É o animal oferecido a Javé, que tem muita semelhança com Zeus e Amon — principalmente com o último, "o oculto". O Javé do Velho Testamento é um Pai altamente ambíguo, e seu relacionamento com seu bom servo Jó é tão ambíguo quanto o relacionamento entre heróis como Jasão e os Pais Terríveis que precisam combater.

Existem outros mitos relativos a Áries, mas gostaria de finalizar com o que começou este capítulo: a história de Édipo. Isso pode parecer surpreendente, pois Édipo, graças a Freud, tornou-se o símbolo do filho que precisa lutar contra o pai para conquistar seu prêmio incestuoso (a mãe) há muito desejado. Para Freud, o problema de Édipo é o problema do desejo-fantasia do homem de unir-se com a mãe (ou, como rótulo de "complexo de Electra", o desejo-fantasia da mulher de unir-se ao pai). Assim, a morte de Laio representava, para Freud, o medo do filho de ser castrado pelo pai, e o ciúme assassino surgido de seu desejo de reivindicar a mãe. Mas evidentemente Freud não leu o mito inteiro, ou preferiu ignorar alguns aspectos salientes. Édipo matou o pai sem ter encontrado a mãe. Foi a raiva que tomou conta dele; ficou furioso porque o velho rei insis­tiu em passar primeiro na estrada estreita. Édipo, na história, é fogoso, tem o cabelo vermelho e é notoriamente raivoso. Desde o começo, seu conflito é com o Pai: recusa-se a aceitar o oráculo de Apoio, acreditando que sua própria vontade é capaz de refutar os ditames do deus e do destino. Talvez a irônica revelação feita por esse conto seja que a violenta batalha entre os machos, derivada do próprio relacionamento e identificação oculta entre os dois, e não da luta por uma mulher ou um prêmio, acabe levando à mesma fonte da vida. Parece que Freud não deu muita importância à origem da maldição que caiu sobre Édipo, mas creio que ela é extremamente importante. O rei Laio cometeu um pecado; esse pecado foi cometido contra um macho e sua vítima foi outro macho. Assim, ele violou as leis da hospitalidade, violentando o filho de Pélops, e também vio­lou as leis do seu próprio sexo, por causa da violência do ataque. Foi essa infração das "regras" masculinas que acabou levando ao nascimento de Édipo e ao terrível destino que o aguardava. Aqui, o "pecado ancestral" é por parte de pai, não de mãe, e deve ser expiado pelo filho. O pai não tem uma relação "correta" com o princípio masculino; tornou-se realmente terrível, e seu filho precisa combatê-lo. No meu entender, o mito de Édipo é, desde o começo, uma história de pai e filho.

A batalha edipiana nas famílias parece ser uma primeira encenação do padrão de Áries, cujo desdobramento tenho visto tanto em homens quanto em mulheres. Porém, o foco da batalha não é tanto a posse do pai ou da mãe. É a derrubada da velha ordem e a afirmação do espírito individual, independente; sua encenação leva a marca da feroz competitividade do signo. Javé declara que seu povo não deve adorar nenhum outro deus; o mesmo faz Áries, muitas vezes incapaz de tolerar um companheiro do mesmo sexo, a não ser que esse companheiro seja tão diferente que não entre em competição com ele, ou tão inferior que não constitua uma ameaça. Assim como os triângulos amorosos são comuns com libra, por razões que vamos investigar mais tarde, também são comuns com Áries, por razões diferentes. O resgate da donzela em desgraça (ou do homem sensível em desgraça) é um dos padrões de vida prediletos dos arianos, assim

como a defesa dos desfavorecidos e das causas perdidas. Porém o amante em desgraça é menos importante que a batalha em si. Se não houvesse batalha, é duvidoso que Áries se incomodaria com a donzela. É claro que não precisa ser uma donzela física; com alguns arianos, o que precisa ser salvo das garras do Pai Terrível é uma idéia, ou uma filosofia, ou uma contribuição criativa que não está sendo valorizada pelos "pais" do mundo em geral. É o próprio Áries que sente a desgraça e se projeta no objeto externo, pois o Pai Terrível que castra o filho o faz não lhe permitindo chegar à auto-realização e à vitória. Diz Neumann:


Ele (o Pai Terrível) age, por assim dizer, como um sistema espiritual que prende e destrói a consciência do filho por trás e por cima. Esse sistema espiritual aparece como a força constrangedora da velha lei, da velha religião, da velha moralidade, da velha ordem; como consciência, conven­ção, tradição ou qualquer outro fenômeno espiritual que se apodera do filho e obstrui seu progresso em direção ao futuro. Qualquer conteúdo que opere através da dinâmica emocional, tal como a garra paralisante da inércia ou a invasão do instinto, pertence à esfera da mãe, da natureza. Porém todos os conteúdos passíveis de percepção consciente, um valor, uma idéia, um cânone moral, ou alguma outra força espiritual, se relacionam com o sistema do pai, nunca com o sistema da mãe.86

O drama pai-filho vai aparecer novamente no zodíaco, principalmente nos signos Leão e Capricórnio. A dimensão que encontramos aqui, no primeiro signo, é a batalha inicial pela liberdade, pois no céu só há espaço para um deus. A potência de Zeus, Amon e Javé não teria sentido se houvesse várias outras divindades com o mesmo cargo; para Áries, não há e nunca pode haver mais que una divindade, "a oculta", que se manifesta como o seu próprio poder fálico. Como sua batalha é com Deus, o Pai, Áries precisa estar plenamente consciente do que está fazendo, e precisa reverenciar a divindade contra a qual luta. Em outras palavras, precisa ser um "devoto", e não simplesmente ter raiva. Se agir com a arrogância da hubris, como fez Jasão quando deixou Medéia de lado e tentou desajeitadamente apoderar-se do reino de Corinto, seus feitos inevitavelmente darão em nada. Mas se seu encontro com o Pai Terrível cria personali­dade e "autoridade" interna, ele se torna capaz de lidar com a responsabilidade do reinado pelo qual lutou. Sem essa luta, ele permanece como o eterno filho de seu pai, o eterno rebelde que joga pedras nas janelas do lado de fora, nunca conseguindo entrar no lugar onde jaz o tosão oculto, que personifica sua própria masculinidade.

TOURO
Mãe de Deus / Não és senhora: Mulher comum da terra comum/

Mary Elizabeth Coleridge

Três diferentes touros míticos reivindicam a honra de estarem associados a Touro. Um é o touro branco que levou Europa de seu lar, em Tiro, para Creta; esse touro era o próprio Zeus, transformado em animal com o propósito usual de raptar ou seduzir as mulheres que lhe agradavam. O segundo é uma vaca, não um touro, a forma animal de Io, outra concubina de Zeus, que Hera, enciumada, mudou para forma bovina. O terceiro, e o mais famoso, é o touro de Creta, por quem Pasífae, esposa do rei Minos de Creta, se apaixonou, e que gerou o monstruoso Minotauro, que o herói Teseu teve que matar. Vamos considerar o simbolismo do touro em si, de Afrodite-Vênus de "olhos de touro" regente planetário de Touro, na devida ocasião; primeiro, vamos começar com a história do touro cretense, que parece ter uma profunda relação com o destino de Touro.

O rei Minos era filho de Europa e Zeus, filho do deus enquanto touro. Era o rei de Creta e, de sua ilha, exercia muito poder sobre todas as ilhas gregas e partes do continente. Quando jovem, tinha lutado com seus irmãos Radamanto e Sarpédon pelo trono, defendendo sua reivindicação por direito divino. Orou ao deus Posídon, senhor do mar e dos terremotos, para que fizesse sair um touro do mar, como sinal, e encerrou a oração com a promessa de sacrificar imediatamente o animal, como oferenda e símbolo de servidão. Posídon, que também é retratado em forma de touro, aquiesceu; o animal apareceu no momento devi. do; Minos subiu ao trono. Mas ao contemplar a majestade do animal, pensou nas vantagens que teria em incluí-lo em seu rebanho, e arriscou uma substituição, supondo que o deus não notaria ou não se importaria. Ofereceu no altar de Posídon o melhor touro branco que possuía, e juntou o touro marinho sagrado ao seu rebanho.

Posídon, entretanto, não gostou da substituição. Retaliou a blasfêmia convo­cando Afrodite para instilar em Pasífae, esposa de Minos, uma incontrolável paixão pelo touro. Pasífae persuadiu Dédalo, o famoso. artesão, a fazer-lhe uma vaca de madeira, onde ela poderia se unir sexualmente ao touro. Dédalo executou o trabalho, Pasífae entrou na vaca e o touro, por sua vez, entrou em Pasífae. Dessa união nasceu o Minotauro, um hediondo monstro com corpo humano e cabeça de touro, que se alimentava de carne humana. Minos, amedrontado e envergonhado, contratou Dédalo para construir um labirinto onde pudesse esconder essa horrível criatura; ali eram deixados grupos de rapazes e moças vivos para alimentar o Minotauro.

O erro básico dessa história triste não pertence à rainha Pasífae, mas ao próprio Minos, embora a rainha tenha exteriorizado o destino invocado por ele. Joseph Campbell escreve o seguinte sobre o defeito de Minos:

Ele tinha transformado um acontecimento público em ganho pessoal, enquanto o sentido total de sua investidura como rei é que ele não era mais um simples homem particular. A devolução do touro deveria ter simbolizado sua submissão absolutamente altruísta às funções de seu papel. Por outro lado, a sua retenção representou um impulso de auto-engrandecimento egocêntrico. Assim o rei "pela graça de Deus" tornou-se o perigoso tirano Parasita — cada um por si. Assim como os tradicionais ritos de passagem ensinavam a pessoa a morrer para o passado e renascer para o futuro, as grandes cerimônias de

investidura despojaram-no de seu caráter privado e vestiram-no como manto de sua vocação ... Através do sacrilégio da recusa do rito, entretanto, a pessoa se separou, como unidade, da unidade maior da comunidade total; assim o Um se dividiu em muitos, que lutaram um contra o outro — cada um por si — e só podiam ser governados pela força. 87


Campbell continua descrevendo essa figura do tirano-monstro tão comum nos contos de fadas (freqüentemente um gigante, como Fafner e Fasolt no Anel de Wagner); o açambarcador do benefício geral, o monstro ávido dos direitos vorazes do "meu". É interessante observar que Hitler era taurino, assim como Uniu e Marx. Também a rainha Elizabeth 11, que parece ter entendido, a um ponto notável, o significado mais profundo de sua investidura como rainha, e que se mantém como símbolo de estabilidade e firmeza moral de todo o Reino Unido. Mas o tirano-monstro de que fala Campbell é o desafio de Touro, sua face escura que precisa ser enfrentada em alguma altura da vida. O poder terreno que permite ao tirano acumular sua riqueza, como Minos acumulou riqueza e poder sobre os mares, é a dádiva de Touro; mas o dilema reside no relacionamento com o deus, e qual é o deus a que ele serve, a divindade ou ele mesmo. A história de Mines termina numa situação estagnada, com um monstro destrutivo no cora­ção de um reino aparentemente abundante. A estagnação conduz inevitavelmente à chegada de Teseu, o herói que deve solucionar o impasse. A característica ironia do mito, como já vimos em Áries, aparece aqui: Teseu — que, como Minos, é um rei de origem divina — é filho do deus touro Posídon. A criatura que ele precisa enfrentar no coração do labirinto é a forma escura e bestial de seu próprio pai espiritual, bem como o símbolo do pecado de Minos. Assim, Minos, seu Minotauro e o herói Teseu estão unidos pelo mesmo símbolo do touro, pois são aspectos do mesmo cerne arquetípico. Minos e Teseu, em certo sentido, são duplos um do outro, porque um comete o pecado contra o Deus, enquanto o outro precisa redimi-lo.

Mas o que é o touro, o símbolo do poder que precisa ser dedicado ao Deus? Já vimos, nas imagens de Áries, que o carneiro está associado ao Deus oculto, ao poder e potência fálicos e à onipotência do Pai. O touro é um animal totalmente diferente. Não é de fogo; é de terra e, embora esteja associado à fertilidade da terra, esta não ê igual à fértil criatividade do céu. O conto budista da domesticação do touro (às vezes retratado como boi) mostra um homem em vários estágios de desenvolvimento, em que precisa aprender a domar o touro recalcitrante, até que finalmente homem e touro desaparecem e revelam-se como partes da mesma unidade divina, O touro não é mau, mas quando ele dirige o homem, pode levá-lo à destruição, porque nesse caso o homem fica à mercê de seus desejos. Mas a repressão também não é a resposta. Homem e touro precisam executar uma dança onde um respeite o outro. Essas imagens orientais retratam o problema da relação entre o ego e os instintos, problema que jaz no âmago do padrão de desenvolvimento de Touro.

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