Os planetas exteriores e seus ciclos os astros e o amor



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Há outras histórias míticas que descrevem a luta com o touro. Um dos mais poderosos é o homem-deus zoroastriano Mitras, o Redentor, sempre retratado com seu famoso barrete, com as mãos em volta do pescoço do touro. Héracles também precisa vencer um touro. Esses motivos da conquista e do sacrifício do

touro parecem tratar da submissão a um Self maior, e à percepção de que o poder do touro não é "meu", mas precisa ser direcionado para um objetivo mais transpessoal. Seja um touro ou uma vaca, como no mito de Io, é o mesmo animal que examinamos. Não causa surpresa que a associação básica dessa criatura seja com a deusa Afrodite, que tinha "olhos de vaca" e cuja natureza pode revelar-nos muito sobre o significado da besta que Touro está destinado a encontrar e a domesticar.

Afrodite-Vênus tem mais "personalidade" e contornos mais nítidos que praticamente qualquer outra deusa grega. Ela não é simplesmente um conceito abstrato destinado a personificar alguma ordem vagamente percebida no cosmo. Ela é muitíssimo viva, qualidade que transpira nas esculturas que temos dela, anteriores à era grega, remontando à grande deusa Istar do Oriente Médio. Seu afeto é generoso e carnal; ela não tem qualquer ambivalência a respeito de sexo. Paul Friedrich, no livro On the Meaning of Aphrodite, dá a isso o nome de "sexualidade iluminada pelo sol", em contraponto a divindades femininas como Ártemis e Atena, que equiparam o ato sexual e a contaminação. Enquanto o corpo é uma contaminação para a maioria dos olímpicos, para Afrodite é sagrado. Em parte é por isso que ela é sempre retratada nua, ao contrário das outras deusas que quase sempre aparecem vestidas. Parece que ela personifica a natureza nua, não envergonhada. Também age como mediadora entre o mundo dos imortais e o mundo dos homens, exatamente como Zeus, pois ela gosta de se acasalar com os mortais. Geralmente, o mortal que tem relações sexuais com uma deusa é punido com a morte, a castração ou pior. Vimos um exemplo disso com Íxion, que foi punido sendo amarrado para sempre a uma roda de fogo devido à sua tentativa de seduzir a deusa Hera. Afrodite, porém, é a amante em potencial de qualquer deus ou herói que lhe atraia. Nesse sentido, ela está pronta a se encarnar, relacionar-se com o mundo dos vivos e das coisas terrenas. Sua nudez pode ser vista pelos mortais; portanto, ela é acessível à experiência humana, diferentemente de deuses como Apolo e Ártemis, que são esquivos e punem quem os espreita muito de perto.

Afrodite é uma fêmea ativa: assume um papel ativo na corte e na sedução, no amor e no ato do amor. Nunca é violentada ou atacada por um macho; ela é tão poderosa sexualmente que isso seria impossível. De forma alguma ela se assemelha às mulheres-vítimas que Zeus e outros deuses masculinos perseguem, arrebatam, violentam e humilham. Afrodite é uma imagem da igualdade sexual relativa, um ser raro numa época da história quando a predominante maneira coletiva de ver se inclinava na direção oposta. Ela é também a padroeira das cortesãs, embora proteja com igual entusiasmo o sexo apaixonado dentro do casamento. Enquanto Hera, a rainha dos deuses, representa as estruturas e códigos morais que ligam a instituição do casamento ao coletivo, Afrodite incorpora a alegria conjugal e a fertilidade. Procriação, desejo e satisfação, embelezamento e cultura, beleza e artes eróticas: tudo isso lhe pertence. Ela faz amor como uma arte civilizada, ao contrário da violência física e da voracidade de Ares-Marte. Paul Friedrich escreve o seguinte:


Os impulsos da sexualidade são naturais; por outro lado, o ato do amor sofisticado é altamente cultural. Afrodite serve de intermediária entre os dois,

"junta-os". Ou, melhor ainda, ela não os torna idênticos, mas os inter-relaciona e sobrepõe um ao outro em grande medida. Dizendo de outra forma, podemos concordar que ela é a "deusa do êxtase", mas devemos admitir que esse êxtase combina harmoniosamente ingredientes naturais e culturais. 88

A dádivas de Afrodite, entretanto, são uma faca de dois gumes. Por um lado, as artes do amor e a satisfação do desejo podem unir homem e mulher na sexualidade harmoniosa e na vida conjugal feliz. Porém, por outro lado, podem gerar rivalidades, ciúmes e paixões que ameaçam seriamente as relações entre pessoas, grupos étnicos e até nações. Assim, a paixão de Minos pelo touro sagrado leva à paixão arrasadora de sua esposa por esse mesmo touro, e o monstro que daí resulta torna-se um cancro corroendo o reino por dentro. Até a vaca, que parece ser uma criatura tão pacífica, pode levar ao caos e à destruição. Nas primeiras cosmogonias, Afrodite não tinha mãe, tendo nascido da união entre o mar e os órgãos genitais cortados de Urano, castrado por seu filho Cronos. Isso sugere que Afrodite pode ser o que for, mas não é maternal no sentido comum, embora seja fértil. Talvez fosse mais adequado dizer que ela não é de forma alguma uma esposa, embora estimule as alegrias físicas do casamento. Friedrich sugere que ela é a mais "solar" das deusas:
Ártemis e Hera são fortemente lunares, a esfera da primeira sendo caracteristicamente o ar enluarado da meia-noite, a segunda freqüentemente retratada com um crescente lunar. Seu simbolismo tem ricos antecedentes na velha civilização européia, e existe, naturalmente, uma associação psicológica mais geral entre a Lua e a menstruação, a virgindade, e o princípio feminino em geral ... É Afrodite que, mais que qualquer outra deusa, é inequivocamente solar em muitos episódios, e essa solaridade associa-se naturalmente a seu brilho. Observem que ela seduz Anquises à luz do dia. Existe uma oposição, um contraste profundo entre sua sexualidade iluminada pelo Sol e a ansieda­de furtiva e iluminada pela Lua, e a hostilidade de Ártemis com relação ao amor carnal. 89
Tudo isso traça um quadro vivo de um aspecto de nosso touro. Pode-se então perguntar por que é preciso que ele seja subjugado por Teseu ou por Mitras, já que Afrodite parece ser uma deusa benigna, cujas qualidades são muito necessárias para nossa cultura atual. Mas é por causa de seus ardis que começa a guerra de Tróia, e os estragos causados por ela são sempre uma ameaça ao relacionamento, em nível individual ou coletivo. Ela é uma deusa extremamente ambígua. Em Esparta, era adorada como uma sanguinária deusa do combate; dizia-se que sua contrapartida egípcia Hátor, a deusa com cabeça de vaca, florescia no sangue e no assassinato. Talvez seja preciso olhar novamente para Hitler, que tinha não só o Sol em Touro, mas também libra ascendendo e era, portanto, duplamente regido por Vênus. A fórmula budista parece ser sumamente conveniente: não assassine o touro, aprenda a dançar com ele desenvolvendo um pa­drão de respeito mútuo, para que o touro se torne mais humano, e o homem mais animal. Conheci muitos taurinos que tentaram lidar com os problemas potenciais do touro, suas poderosas paixões e sua cobiça unilateral "dividindo-se",

isto é, recolhendo-se para o intelecto a fim de evitar a ameaça dos sentidos arrasadores. É claro que isso não é solução; é o que fez Miaus prendendo o Minotauro no labirinto. O corpo, então, em geral rebela-se contra a tirania da mente. Também conheci taurinos que são prisioneiros de seus sentidos, quando o touro ou a vaca dirige o homem ou a mulher; e isso também não satisfaz nem o touro nem o parceiro humano, pois ai voltamos ao rei Minos que repudia o Self e tenta se apoderar para sua própria gratificação do que não é seu, com trágicos resultados.

Até aqui lidamos com os aspectos femininos do touro. Mas Afrodite no mito compõe um par, e mesmo que ela não seja esposa no sentido convencional, ainda assim é casada — com o estranho deus Hefesto, chamado Vulcano em latim, que Zeus e Hera lhe deram como marido. Sempre que há pares assim de deuses no mito, creio que implica duas metades de um só padrão arquetípico. Mesmo que o casamento de Afrodite e Hefesto seja incômodo, não deixa de ser um casamento; ele ê o cônjuge "legítimo" dela. Portanto, precisamos analisá-lo, pois ele também pode dar-nos um entendimento da natureza e do destino de Touro.

Hefesto é o ferreiro divino, refletido nos deuses ferreiros de muitas culturas, pois é feio e coxo. Tem muito em comum com os anões teutônicos, porque é uma criatura de terra e sua habilidade consiste no dom artístico e no poder físico. De acordo com a história, ele era tão fraco e doentio quando nasceu que sua desgostosa mãe Hera o jogou das alturas do Olimpo para livrar-se do embaraço causado por esse filho lamentável. Tenho visto esse triste padrão no começo da vida de muitos taurinos, cujas famílias esperavam algo mais espetacular, mais brilhante, mais exuberante que a criança vagarosa e terrena que o taurino muitas vezes é. Hefesto sobreviveu ao infortúnio porque caiu no mar, onde a deusa do mar Tétis tomou conta dele e o ajudou a montar sua primeira oficina de ferreiro, Ele recompensou essa gentileza com muitos objetos bonitos e úteis. Até que um dia Hera viu Tétis usando um adorável broche feito por Hefesto e, quando descobriu que seu criador era o filho perdido, chamou-o de volta ao Olimpo, onde lhe ofereceu uma oficina melhor, casou-o com Afrodite e começou a mimá-lo muito. Os dois acabaram reconciliando-se, e ele até chegou ao ponto de censu­rar Zeus pelo tratamento dado a Hera, quando o rei dos deuses pendurou a esposa do céu pelos pulsos, porque ela tinha se rebelado contra ele. Zeus, enraivecido, jogou-o do Olimpo pela segunda vez, e a queda durou um dia inteiro. Quando caiu na terra, ele quebrou as duas pernas e ficou coxo; depois disso só pôde andar com muletas douradas. Graves diz o seguinte sobre ele:


Hefesto é feio e tem mau gênio, mas tem um grande poder nos braços e ombros, e em tudo que faz tem uma perícia ímpar. Uma vez fez um conjunto de mulheres mecânicas de ouro para ajudá-lo na oficina; elas até falam e executam as mais difíceis tarefas que ele lhes confia. Possui um conjunto de mesas de três pés e rodas de ouro, dispostas pela oficina, capazes de irem sozinhas ao encontro dos deuses e voltarem.90

É um casamento curioso, entre a bela, indolente e travessa Afrodite e seu marido feio, deformado porém talentoso. Ela despreza sua feiúra e ê eternamente

infiel a ele, mas não pode se separar dele. Acho que esse par de figuras forma um centro inquieto no signo de Touro, pois reúne aí a parte do signo que possui a maravilhosa perícia, poder e engenhosidade de Hefesto, mas que é lento, desajeitado e sem encanto; e também a parte que personifica a beleza e que despreza sua própria imperfeição física. Quer os taurinos exteriorizem esse estranho casa-mento através de um parceiro real, quer ele constitua um conflito interior entre o idealismo e a rusticidade do signo, o casamento é um dado, unia espécie de destino. Talvez o ego precise chegar a um acordo com o touro bestial; mas o próprio touro está dividido entre a grosseria e a graça, e essas três partes compõem o daimon que impregna esse signo enganadoramente simples.

GÊMEOS
Lutei contra meu gêmeo,



O inimigo interior,

Até nós dois cairmos na estrada ...

Bob Dylan


Os gêmeos sempre tiveram uma conotação numinosa. Apesar de nosso conheci. mento moderno sobre os processos biológicos que levam ao nascimento de gêmeos idênticos, é fascinante e perturbador olhar duas pessoas que parecem unta só, mas que não são. Vários conjuntos de gêmeos foram associados à constela. cão de Gêmeos, e todos têm essa qualidade fascinante. Um dos pares menos co­nhecidos, associado a Gêmeos, é Zeto e Anfião, filhos de Zeus e Antíope. Por um lado, Zeto era forte e enérgico, um autêntico guerreiro; Anfião, por outro lado, recebeu uma lira de presente de Hermes, e tocava como um mestre. Zeto desprezava o gosto do irmão por atividades "de mulher", e Anfião defendia energicamente o valor da arte e da vida intelectual. Com esse mito já estamos tocan­do num dos conflitos fundamentais de Gêmeos: seus opostos inerentes.

Os gêmeos Castor e Polydeuces (Pólux em latim) são muito mais conhecidos que Zeto e Anfião, e são o par geralmente associado às estrelas da constelação de Gêmeos. Eram filhos de Leda, esposa do rei Tíndaro de Esparta. Zeus transformou-se em cisne para cortejar essa mulher, que botou dois ovos em conseqüência dessa união. De um ovo surgiram Castor e Clitemnestra, que já encontramos como esposa de Agamenon na Orestéia. Eram crianças mortais, prole do rei Tíndaro. Do outro ovo vieram Pólux e Helena, que eram os filhos de Zeus. Assim, há dois pares de gêmeos na história, um masculino e um feminino: Castor e Pólux, chamados Dioscuros — que significa filhos de Deus — e Clitemnestra e Helena. Metade de cada par é mortal, metade imortal. Aqui está contido não apenas o motivo dos irmãos (ou irmãs) hostis, mas também das almas gêmeas irmão-irmã. Na história, Castor e Pólux brigaram com outro par de gêmeos, Idas e Linceu. Na batalha que se seguiu, Castor, que era mortal, foi morto. A dor de Pólux foi tão grande pela perda do gêmeo amado que ele suplicou a seu pai Zeus para devolver a vida do irmão, ou aceitar a sua própria vida como resgate pela de Castor. Zeus, um pouco fora de seu personagem, demonstrou compaixão

pelos gêmeos, permitindo que eles desfrutassem alternadamente o benefício da vida, passando um dia debaixo da terra no reino de Hades e o dia seguinte na mansão celestial do Olimpo. Dessa forma, os gêmeos refletem uma experiência cíclica de opostos, pois, quando são mortais, precisam sentir o gosto da morte e da escuridão, mas quando são divinos partilham dos prazeres dos deuses. Gêmeos é tido tradicionalmente como um signo de humor variável, tendendo a oscilar entre a alegria e a depressão. Isso não causa surpresa ao examinarmos esse mito, que retrata vividamente as experiências conflitantes de escravidão a um corpo mortal, com seu senso de perda e de morte, e a exaltação do reino do espírito e da vida eterna.

Os mitos relacionados com o nascimento de "gêmeos celestiais", em que geralmente um representa o bem e o outro o mal, aparecem nos épicos da Grécia, de Roma, do Egito, da Índia e da China. São um dos grandes motivos arquetípicos do mito. Ás vezes os dois gêmeos, de maneira igual, fazem bem à humanidade e à sociedade circundante; assim são as divindades gêmeas da tradição hindu, os Asvins, os grandes condutores da carruagem do céu, que fabricavam a chuva e concediam a fertilidade. Com mais freqüência, entretanto, um dos gêmeos personifica a luz, e o outro a escuridão. No mito romano, os gêmeos Rômulo e Remo eram filhos do deus da guerra Marte, e foram amamentados por uma loba. Fundaram a cidade de Roma. Mas os irmãos discutiram por causa do lugar e Remo, ao tentar matar Rômulo, foi morto. Remo é o irmão "escuro" que tenta destruir seu irmão "luminoso" Rômulo, e se dá mal. Essa junção da força escura com a luminosa toca num profundo dilema humano, o problema do que Jung chama de sombra, o inimigo interior que também é um irmão, nascido do mesmo ventre, que nunca pode ser totalmente conquistado, mas que precisa ser eternamente combatido. Outra imagem desse problema pode ser encontrada no relacionamento entre Jesus e Judas no Novo Testamento. No Velho Testamento, encontramos os irmãos Caim e Abel que, mesmo não sendo gêmeos, representam uma polaridade. Caim é o irmão escuro, Abel é o luminoso. Satã e Cristo são igualmente filhos de Deus; o mesmo ocorre com Esaú e Jacó, outro par de irmãos em disputa. Parece que o daimon que preside gêmeos leva a pessoa ao conflito inevitável com seu oposto sombrio. Esse conflito freqüentemente é experimentado através do outro, no mais das vezes no relacionamento de irmãos, onde um irmão ou irmã é o "bom" que os pais amam, e o outro é o "mau" que carrega a projeção da sombra para a família. Nessas situações exteriorizadas, é muito mais fácil descobrir o inimigo interior e a guerra entre opostos que precisam eventualmente encontrar-se no meio.

Ivor Morrish escreveu um livro extremamente interessante chamado The Dark Twin, onde analisa o tema dos gêmeos com relação ao problema da sombra e do mal. Sobre os gêmeos, diz o seguinte:
Conquanto tenhamos usado o termo "gêmeos" com relação à oposição entre Bem e Mal, deve-se observar de saída que muitos dos "duplos" da mitologia se relacionam simplesmente a irmãos, dos quais um é "bom" e faz coisas aceitáveis, e o outro é "mau" e executa atos considerados "maus" ou inaceitáveis pela sociedade. Os gêmeos, entretanto, sempre foram considerados algo especial e, se não relacionados diretamente à divindade, possuidores de algum

poder incomum ou mana que funciona por oposição, mais ou menos como as forças positiva e negativa da eletricidade, ou os pólos norte e sul do ímã. Assim, está implícito no conceito de gêmeos certo balanceamento ou equilíbrio, uma proximidade e semelhança sem uma identidade completa; e, em última análise, pelo menos na mitologia, há indício de certa oposição capaz de levar, por meio da crescente hostilidade, à tentativa por parte de um dos gêmeos no sentido de destruir o outro. 91


Minha experiência com Gêmeos ensinou-me que no começo da vida um dos gêmeos, o "bom" ou o "mau", é separado e projetado externamente em alguém ou alguma coisa do ambiente. Vagarosamente, a pessoa, através do choque com esse oposto, começa a descobrir que é ela mesma, embora isso freqüentemente não ocorra antes da segunda metade da vida. No caso de gêmeos reais — e eu conheci muitos nascidos no signo de Gêmeos — isso se torna ainda mais difícil, pois cm geral um dos gêmeos é muito obviamente o extrovertido e confiante, e o outro é o inibido e "neurótico"; a pressão da família e da sociedade, para não falar das suas próprias necessidades, torna difícil a ocorrência da separação. Porém, mais cedo ou mais tarde, a batalha interna se torna visível. Contudo, como Morrish ressalta, existe um equilíbrio nesses opostos. Um sem o outro é incompleto, e a personalidade como um todo depende dos dois. Nenhum dos dois se desenvolve sem o outro. Os opostos podem variar. Como é o caso dos dois primeiros gêmeos que encontramos, Zeto e Anfião, a briga pode ser entre masculino e feminino, ou entre valores intelectuais e emocionais, ou entre ob­jetivos espirituais e corporais. Ou pode ser entre qualidades negativas e positivas, das quais Gêmeos em geral apresenta os dois extremos. Como diz o verso, "quan­do ela era boa ela era muito, muito boa, e quando era má, ela era horrível." Se os outros acham isso caprichoso ou difícil, é duplamente difícil para Gêmeos, que em geral fica completamente confuso e precisa encontrar uma maneira de reconciliar esses princípios em luta, ao mesmo tempo em que aceita o fato de que pode ser que eles nunca se integrem totalmente numa adorável, harmoniosa e idealizada unidade livre de conflitos. O perigo é que, se Gêmeos não consegue enfrentar seus opostos e contradições, a sombra (ou a luz) pousa inevitavelmente nos irmãos, amigos, parceiros ou, o que é mais difícil ainda, nos filhos do mesmo sexo, que podem então ficar condenados a exteriorizar o lado "mau" do pai, porque essa maldade precisa existir em algo exterior para que a vaidade do pai não seja afetada.

O tema de sombra e luz vai ainda muito mais longe no mito, impregnando a visão das grandes religiões do mundo. Hermes, que vamos analisar mais detalhadamente em breve, entra na alquimia como Mercúrio, o ambíguo e imprevisível, o espírito de luz-sombra que orienta o opus mas que sempre ameaça destruí-lo. Ele/ela é volúvel, andrógino, matéria-prima e elixir, portador de todos os opostos concebíveis, retratado como o gêmeo escuro de Cristo. Assim, Mercúrio ê o duplo ctônico do Filho de Deus, nascido da escuridão da Mãe Terra. As religiões dualistas como o zoroastrismo também refletem essa ambigüidade de um universo de duas faces. Ahura Mazda (Ormuzd) é o princípio da luz, Angra Mainyu (Ahriman) é o princípio da escuridão. Ormuzd promove a vida, a felicidade e o bem-estar eterno; Ahriman só procura a morte, a miséria e o sofrimento. Pelos

olhos de Gêmeos, o cosmo divide-se em opostos, e assim como Castor e Pólux passam metade do tempo no Hades e metade no Olimpo, Gêmeos também ora percebe só o que há de bom na vida, ora só o que há de mau.

No mito escandinavo, Baldur e Loge personificam os irmãos em disputa. Bal­dur é bonito, elegante e idílico; na realidade, ele é bom demais para ser verdadeiro. Loge é escuro e ladino — brilhantemente retratado, na produção de Bayreuth do centenário do Anel, como um corcunda feio, de corpo e pensamentos tolhidos — e responsável, no fim, pela morte de Baldur. Esse é o relacionamento entre Alberich e Wotan no Anel, com o próprio Wotan reconhecendo a duplicidade dos dois, e se autodenominando o Alberich "branco", enquanto o anilo é o Alberich "preto". Numa escala humana, Siegfried e Hagen enfrentam-se como o herói dourado e sua sombra preta. Mas a morte de Siegfried pelas mãos de Hagen, assim como a morte de Baldur pelas mios de Doge é, em certo sentido, uma necessidade ou um destino. O herói brilhante é um pouco brilhante demais, um pouco invulnerável demais, um pouco distante demais do sofrimento humano comum e do anseio humano comum de realizar a tarefa de redenção que lhe cabe. Só pode ser ferido pelas costas, insinuando que a brilhante postura heróica é capaz de desviar qualquer coisa na vida, exceto a sombra, o inconsciente, No final do Anel, tudo parece escuro e depressivo, porque o herói foi destruído e o mundo dos deuses está chegando ao fim. Porém, se minha interpretação do tema de Wagner é correta, parece que ele está dizendo que o que sobra depois da destruição é a própria humanidade, depois que o gigantesco mundo dos deuses bidimensionais entra em declínio. Assim, Judas precisa trair Jesus e Jesus precisa fazer o sacrifício que lhe cabe, para que o homem possa receber um símbolo que una os opostos na vida. Caim precisa destruir Abel e, conseqüentemente, ficar marcado, e Satã precisa convencer Deus a punir Jó e precisa atormentar Eva para comer a maçã. Richard Donington, no livro sobre o ciclo do Anel, diz o seguinte:


Se Hagen é, em certa medida, uma sombra pessoal de Siegfried, Alberich é o autêntico Príncipe das Trevas. Essa cena nos recorda que, se um homem se volta para o diabo, é porque o diabo está sempre lá para incitá-lo. Mas as provocações do diabo desempenham seu papel no crescimento do caráter, que consiste em grande parte do aprendizado de quão inseparáveis (mas não irreconciliáveis) são o bem e o mal. O diabólico é o reverso do divino. 92
Wagner, ele mesmo um geminiano, provavelmente estava bastante familiarizado intimamente com esse problema. Sem dúvida ele chega até nós, de acordo com suas biografias, como um homem completamente contraditório, insuportável e difícil, mas também como um dos grandes artistas produzidos pela história. Talvez os geminianos menos exuberantes tenham o mesmo profundo discernimento, e acredito que as turbulentas mudanças que tantas vezes ocorrem na vida de Gêmeos, e que com tanta freqüência são estimuladas pelo lado-sombra embusteiro da própria pessoa, sejam intensamente necessárias.

Também podemos encontrar irmãs hostis no mito, porque, como acontece com todos os signos, o sexo do herói pode ser facilmente substituído por seu oposto. Inanna e Eresquigal, que conhecemos anteriormente neste livro, são



duas irmãs inimigas desse tipo, e mais uma vez a "luminosa" tem algo a apren­der — nada menos que a morte e a regeneração — por meio da "escura". Ártemis

  • Afrodite também são inimigas no mito grego, quando vimos quando exploramos alguns dos temas míticos de Touro. A virgindade de Ártemis e a carnalidade de Afrodite estão em completo desacordo. O tema da "outra" (que também parece ser um tema recorrente na vida dos geminianos) aparece ligado a Hera e todos os numerosos amores de seu marido Zeus. Até nos contos de fadas encontramos esse tema de duas mulheres ciumentas, algumas vezes disputando o afeto de um homem, outras vezes disputando o poder: Branca de Neve e a Rainha Malvada, e Cinderela e suas irmãs feias e ciumentas. Psiquê e Afrodite lutam entre si pelo amor de Eros, e até Dorothy precisa lutar contra a Feiticeira Má do Oeste no Mágico de Oz. (Convenientemente, o papel de Dorothy, nesse filme clássico, foi representado por Judy Garland, uma geminiana.) O ciúme entre irmãos, a inveja entre amigos, os conflitos com rivais — todos esses temas são encenações externas do mito de Gêmeos que, infelizmente, com muita freqüência não é entendido como a luta entre duas metades da mesma pessoa.
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