Os planetas exteriores e seus ciclos os astros e o amor



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O caráter de Hermes contém em si a ambigüidade e a alternância entre luz e sombra, de que os gêmeos constituem outro símbolo. Hermes é o filho mais inteligente de Zeus. Nasceu de Maia, que é o nome de unia ninfa e também o nome pelo qual Zeus se dirige à grande deusa Noite quando lhe pede conselhos. Assim, Hermes não é apenas o filho de uma mulher comum; ela é uma divindade mais velha, mais poderosa, e o acasalamento de Zeus e Maia não é apenas mais um de seus estupros usuais, e sim a união do espírito brilhante com as insondáveis profundezas escuras do inconsciente e da própria natureza. Diz a história que Zeus a cortejou numa caverna escura sob o manto da noite, e ela gerou um filho de grande astúcia: o adulador traiçoeiro, o ladrão de gado, o portador de sonhos,

  • vagabundo noturno (como diz Kerenyi, "como os que espreitam nas ruas diante dos portões").

Hermes deu início à sua acidentada carreira inventando a lira e roubando o gado de seu irmão Apolo. Mais tarde tornou-se o Mensageiro iniciado do caminho para a Casa de Hades no inferno, executando assim a função de Psicopompo,

  • acompanhante das almas. Dessa forma, ele percorre os mundos de cima e de baixo, além do reino mortal que fica no meio. É a única divindade que não tem um "local" designado, pois seu lugar é a fronteira, as estradas, as passagens e as encruzilhadas onde são enterrados os suicidas, os enforcados e os criminosos. Os seres humanos lucram com Hermes, que às vezes deliberadamente desencaminha-os na noite escura. O interessante que unia das versões do nascimento do deus faz dele o irmão gêmeo de Afrodite; ambos são filhos do deus do céu Urano e têm o mesmo dia de nascimento, o quarto dia do mês lunar. O filho deles era Eros, o grande daimon do amor e da discórdia. A curiosa história do nascimento de Hermes nos oferece outra dimensão de seu caráter, pois ele é muito mais do que um mero embusteiro. Sua gêmea e amante é a deusa da fertilidade, e o filho deles é uma imagem da grande força que une a vida. Hermes promove o relacionamento até através da discussão e da separação, e junta as coisas através de suas diferenças e vice-versa.

De acordo com a descrição de Walter Otto, Hermes “carece de dignidade”. Sua força reside em sua engenhosidade. Realiza seus feitos pela astúcia e encantamento;

a magia lhe ê mais adequada que o heroísmo, e talvez seja por isso que, na Renascença os textos mágicos de que falamos anteriormente eram dedicados aos Três Vezes Grande Hermes. Ele é arquifeiticeiro e patrono dos magos. O lucro, inteligentemente calculado ou totalmente inesperado (mas principalmente o último) também vem dele. Otto escreve:


Esta é sua verdadeira caracterização. Se alguém encontra objetos de valor na estrada, se tem um súbito golpe de sorte, agradece a Hermes. A palavra normal para qualquer golpe de sorte é hermaion, e a expressão costumeira para cobiça é "Hermes comum" (koinos Hermes). Com certeza, em geral é preciso passar por muitos problemas antes de receber a dádiva desse deus, mas no fim é sempre um achado de sorte. O deus hindu Pushan faz paralelo com Hermes, pois esse deus também conhece o caminho e guia, impedindo que o homem se perca. 93

Jung ficou fascinado pela figura do embusteiro, algumas vezes brilhante, algumas vezes sombria, e em especial pelo Mercúrio dos alquimistas. Para ele, essa figura representava o ímpeto misterioso do inconsciente, ora destrutivo, ora divertido, ora assustador, mas sempre ambíguo, e sempre fértil. Essa infindável fertilidade que tece os sonhos e os pesadelos de nosso sono foi personificada pelos gregos pré-clássicos, que colocavam Herms — estátuas votivas do deus — em todas as encruzilhadas. O Herm não era nada mais do que uma cabeça barbuda, sorrindo matreiramente, colocada em cima de um pilar retangular, com um falo ereto apontando o caminho. Jung escreve em seu ensaio sobre o arquétipo do embusteiro:


O motivo do embusteiro não surge apenas na sua forma mítica, mas aparece com a mesma ingenuidade e autenticidade no confiado homem moderno — toda vez, na realidade, que ele se sente à mercê de "acidentes" incômodos que frustram sua vontade e seus atos com uma intenção aparentemente maligna. 94

Jung associa essa figura embusteira com a sombra, e assim completamos um circulo voltando aos irmãos hostis do mito de Gêmeos.


O assim chamado homem civilizado esqueceu o embusteiro. Só se lembra dele figurativa e metaforicamente, quando, irritado pela própria inépcia, diz que o destino lhe prega peças ou as coisas estão encantadas. Nunca desconfia de que sua sombra escondida e aparentemente inofensiva tem qualidades cuja periculosidade vai além de seus mais ousados sonhos. Assim que as pessoas se juntam em massas e submergem o indivíduo, a sombra é mobilizada e, como mostra a história, pode até ser personificada e encarnada. 95
O destino certamente prega peças aos geminianos, pois esse é um atributo de sua alma. A fertilidade criativa de Hermes reflete-se na longa lista de geminianos que nos legaram uma herança de arte: Wagner, Dante e Thomas Mann são apenas três deles. Mas acredito que os "acidentes" incômodos de que Jung fala e os coa 

Oitos com rivais que parecem estar disseminados pelo caminho dos geminianos, podem levar a uma profunda apreciação da delicada ambigüidade da vida e do mistério do deus luz-sombra. Não há dúvida de que Gêmeos se cansaria com qualquer coisa menor.

CÂNCER
Da Água vem toda a vida. Corão
A constelação de Câncer, como ressalta um autor, é a figura mais modesta do zodíaco. O humilde caranguejo sequer foi sempre um caranguejo, pois os egípcios imaginavam-no como um escaravelho rodando uma bola de estrume. Esse era o scarabaeus, símbolo da imortalidade, com seu ninho de terra entre as garras. No mito egípcio, é unia imagem de autocriação, pois acreditava-se que nascia de si mesmo, a partir da bola de estrume. (Na realidade, se esta é a palavra certa, a bola de estrume protege os ovos e as larvas.) O escaravelho era chamado

Khepri, que significa "aquele que veio da terra", equiparado ao deus criador Atum, uma forma do deus Sol, porque o escaravelho empurra a bola de estrume à sua frente, assim como Atum empurra a bola do Sol pelo céu. Por mais humilde que seja a constelação de Câncer, seu simbolismo está longe de ser insignificante. Para os caldeus, e mais tarde para os neoplatônicos, o caranguejo era chamado o Portão dos Homens, por onde a alma descia das esferas celestes para a encarna 


Essas associações numinosas com Câncer sugerem unia dimensão um pouco diferente do bom cozinheiro e da mãe que o folclore astrológico popular nos oferece. Hugh Lloyd-Jones, no livro Myths of the Zodiac, 96 diz que, de acordo com alguns autores gregos primitivos, Câncer, e não Mies, começava o zodíaco. Isso parece estar de acordo com a idéia de que esse signo representa a primeira emergência da vida, a entrada do espírito num corpo material. A cúspide da quarta casa do horóscopo, que é a casa natural de Câncer, é associada, há muito tempo, ao fim da vida; aqui ela é também imaginada como o começo, pois é o ponto do Sol à meia-noite, quando o velho dia morre e um novo dia nasce. No mito egípcio, o deus Sol atravessa os céus todo dia no seu barco dourado, e toda noite desce para as cavernas do inferno; ali ele luta com a terrível Serpente, e surge vitorioso a cada manhã, para começar um novo dia. Essa ligação profundamente mística entre Câncer e a própria semente e fonte da vida associa-o não apenas à Mãe primitiva, mas também ao Pai, pois essa linguagem mítica trata não apenas da emergência do ventre, mas também da semente espiritual que fertiliza e começa uma nova vida. Tenho visto esse elemento místico operando fortemente na vida de muitos cancerianos; e, paradoxalmente, pode conviver lado a lado com as qualidades mais convencionalmente maternais e pessoais do signo.

O mito grego do Caranguejo coloca-o mais decididamente no reino da Mãe. O Caranguejo aparece na saga dos Trabalhos de Héracles, principalmente durante a batalha do herói com a Hidra, o monstro de nove cabeças de serpentes que

estava destruindo os campos de tema. Durante a luta, todas as criaturas vivas ficaram do lado de Héracles, mas do pântano onde vivia a Hidra saiu rastejando um imenso caranguejo, enviado pela deusa Hera para derrotar o herói, seu inimigo. O caranguejo agarrou Héracles com as pinças, mordendo seus pés e tornozelos; essa manobra, mais ou menos característica de Câncer, quase fez o herói perder sua batalha. Mas no fim Héracles pisou no caranguejo e o esmagou. Hera honrou-o por obedecer suas ordens e promoveu-o aos céus.

O ódio de Hera. por Héracles (cujo nome, por profunda ironia, significa "glória de Hera") deve-se, declaradamente, ao fato de ele ser filho de uma das concubinas de Zeus. Mas, na realidade, é a raiva da matriarca contra o herói intruso que ameaça seu reinado. Certamente existe uma face mais escura de Câncer que reflete esse problema, e a batalha para se libertar tanto do poder da Mãe como da mãe muitas vezes é uma questão acentuadamente difícil na vida dos cancerianos. O caranguejo, aqui, é o Câncer arcaico para quem a maternidade é tudo, e para quem o pai é simplesmente o fornecedor da semente. Esse elemento mais regressivo de Câncer opõe-se à reivindicação do ego por consciência e liberdade de escolha, assim como a Mãe Terrível arquetípica prefere combater e até destruir o filho em vez de deixar que ele escape a seu domínio. O ca­ranguejo, no mito, usa da astúcia típica de Câncer, agarrando os pés em vez de enfrentar o herói diretamente. Em outras palavras, mina a estabilidade do herói enquanto ele luta com o monstro. O Caranguejo e a Hidra estão aliados, e podemos ver esse padrão um tanto desagradável funcionando em certos relacionamentos em que um parceiro oferece amor e apoio nominalmente, enquanto em segredo mina o outro durante sua luta mais difícil. Esse é o lado escuro do signo, que precisa ser confrontado pela parte heróica da pessoa. O problema do caranguejo de Hera também não é exclusivamente feminino, pois o caranguejo ronda nos pântanos de homens e mulheres que têm Câncer fortemente enfatizado no mapa natal. Pode-se observar muitas vezes, nos homens cancerianos, muita dificuldade em relacionar-se com o seu próprio sexo, porque os aspectos "heróicos" do masculino parecem ser simplesmente brutais, agressivos e violentos.

Assim nos deparamos com duas dimensões de Câncer: A Mãe Terrível que procura deter o controle sobre a individualidade nascente, e o Pai Divino que ê a fonte da vida e que a pessoa almeja. Erich Neumann, em Pie Origins and His­tory of Consciousness sugere que esses dois Pais Mundiais são parte integrante da mesma unidade, que, para a mente do primitivo e da criança, parecem ser andróginos e que durante milênios foram imaginados como a Serpente do Mundo ou Uroboros, a cobra que come sua cauda e se devora para nascer novamente de si mesma. Esse Uroboros é o mais antigo símbolo das origens do homem, surgindo daquela profundidade do começo onde mundo e psique ainda são um só, e onde a pergunta inicial sobre a origem do mundo é ao mesmo tempo a pergunta sobre a origem do homem, a origem da consciência e a origem de si mesmo. Em resposta à pergunta: "De onde venho?", surge essa poderosa imagem das profundezas, mie e pai ao mesmo tempo. É a perfeição original, antes de começarem os opostos e o conflito, o ovo do qual se formou o mundo. Portanto, o Uroboros é o elemento criativo primordial — o que Jung denominou

o oceano do inconsciente coletivo — que mata, casa e se impregna para sempre. Câncer representa esse ventre materno, mas não é unicamente materno. Também é uma união entre os opostos masculino e feminino, os Pais do Mundo unidos em eterna coabitação. Acredito que Câncer é levado a procurar essa fonte divina; esse é seu daimon, imaginado tanto como o começo da vida antes da separação física e do nascimento, como o fim da vida quando a alma mais uma vez se funde com o Um. Assim, é tanto um anseio regressivo pelo ventre, como um anseio místico por Deus. É compreensível que a projeção desse símbolo primor-dial caia primeiramente sobre a mãe pessoal, e talvez seja por isso que ela tenha um aspecto tão poderoso na vida dos cancerianos, a despeito de ela ser ou não, na realidade e em qualquer sentido objetivo, tão poderosa. O clássico "complexo de mãe" do canceriano não diz respeito realmente à mãe pessoal. É o primeiro estágio de um desdobramento gradual em direção a uma fonte interior, embora em geral Câncer procure, em diferentes períodos da vida, essa fonte personificada numa pessoa "maternal", homem ou mulher, que possa "cuidar" dele e livrá-lo do medo do isolamento e da separação. As mulheres de Câncer também procuram esse Mãe-Pai nos seus relacionamentos, ou se esforçam por tornar-se essa figura através da maternidade. O fato de muitos cancerianos não terem filhos de verdade, ou precisarem deixar esses filhos partir, parece um destino triste, porém necessário, para que o significado mais profundo do mito possa manifestar-se na vida e para que o Pai divino possa tornar-se um conteúdo interior.


A existência no tempo anterior ao começo liga-se, supostamente, à precognição. A criatura que ainda existe plasticamente participa do conhecimento do não formado, fundida com o oceano da sabedoria. O oceano primordial, igualmente um símbolo de origem — pois, como cobra circular, o uroboros também é o oceano, —, é a fonte tanto da criação como da sabedoria. 97

Além do problema que Neumann chama de "incesto urobórico" — o anseio avassalador pela fuga da vida em direção ao amplexo dos Pais do Mundo — existe também um poder imensamente criativo em Câncer. Esse é o reino das imagens não formadas a que o artista dá à luz, e por essa razão disponho-me a associar Câncer com o poeta, o artista e o músico, mais do que com o bom cozinheiro ou a dona-de-casa. A lista é muito extensa — Proust e Chagall são apenas dois de seus representantes — e é impressionante. Este dizimou por trás de Câncer parece mais preocupado em fazer nascer as imagens do reino oceânico, seja na forma de uma criança de carne e osso ou de uma criação artística. A segunda, freqüentemente, é mais importante para Câncer do que a primeira, e é possível que seja projetada num "indivíduo criativo" cujo potencial Câncer decide estimular.

No mito grego, o reino oceânico que é a fonte da vida pertence à deusa do mar Tétis. Ela é ao mesmo tempo a benéfica doadora da vida e um monstro; sua antecessora no mito babilônico é o grande monstro do mar Tiamat, que foi morto pelo deus do fogo Marduc e de cujo corpo desmembrado saiu toda a criação. Tétis é, portanto, a Criadora. Seu nome vem da palavra tithenal que, como daimon, e também como motriz, significa "dispor" ou "ordenar". No

começo do Gênesis o espírito de Deus move-se sobre a superfície das águas. Mas Tétis não é apenas Deus, ela é a própria água, e existiu muito antes do Javé bíblico, contendo em si profundidades masculinas e femininas, semente e ventre combinados. Ela também é chamada Nereida, cujo nome significa "o elemento molhado". Desse nome vem a estranha figura mítica de Nereu ou Proteu, o profético "velho do mar", retratado com cauda de peixe e um leão, um cervo e uma víbora saindo de seu corpo. É o pai-mar, assim como Nereida ou Tétis é a mãe-mar; muda sua forma, é um profeta. Quem quiser obter respostas dele precisa primeiro amarrá-lo e esperar que ele se transforme em vários animais assustadores, até que finalmente assume sua curiosa forma e pronuncia a profecia. Odis­seu, nas suas longas peregrinações, buscou o conselho de Proteu e teve que esperar as mudanças de forma até o velho daimon finalmente lhe dizer o que ele queria. O ato de amarrar o velho do mar e esperar pacientemente a sua muta­ção em todas as formas concebíveis de bestas e monstros sugere um importante aspecto do processo criativo — o artista precisa agarrar-se a uma coisa inefável que escapa e se transforma até emergir como imagem estável. Também sugere o processo analítico, onde é preciso agarrar com firmeza as cambiantes imagens dos sonhos e fantasias até que produzam um significado assimilável pelo cons­ciente.

Foi assim que Câncer adquiriu a reputação que sempre teve de ambigüidade e de dificuldade de definição, o que acho que é um eufemismo. Faz parte da natureza da água e do inconsciente passar fluidamente de uma a outra forma; faz parte da natureza de Câncer viver num mundo onde nada é exatamente o mesmo que foi cinco minutos antes. Talvez a maneira como Odisseu trata Proteu seja uma imagem de algo que é importante que Câncer aprenda: capturar o velho mago das profundezas e segurá-lo firmemente até que ele solte sua sabedoria. Sem Proteu, Odisseu não teria achado o caminho de casa, mas teria ficado eternamente perambulando pelas águas, para sempre sem um lar.

Posídon quis cortejar Tétis, porém uma profecia dizia que qualquer filho de Tétis seria maior que o pai. Esse tema sugere que as crianças do reino das águas têm algo de numinoso, além de abrir outro tema relacionado a Câncer. Trata-se do relacionamento de mãe e filho e o relacionamento de Câncer com seus filhos em geral, biológicos ou não. Posídon desistiu da corte, e Zeus (que em algumas versões da história também a desejava) decretou que Tétis devia casar-se com um mortal, em vez de colocar os deuses em perigo gerando um filho capaz de ameaçar o maior dos olímpicos. Assim, a deusa, também uma profetisa na forma masculina de Proteu, só pode se acasalar com homens. Em outras palavras, seus po­deres criativos precisam ser canalizados através da consciência humana e da expressão humana. Isso parece ter analogia com a afirmação de Jung de que as transformações e os desenvolvimentos da psique não podem ocorrer sozinhos, porém dependem da interação com o ego, mesmo que a relação — como a de Tétis e seu amante mortal — seja entre algo divino e algo humano. Esse curioso paradoxo também é descrito pela alquimia, pois o ato de liberação do divino Mercúrio, a pedra filosofal, do ventre da terra, depende da participação do alquimista humano, pois a arte alquímica "torna perfeito o que a natureza deixa imperfeito". Jung cita o místico Angelus Silesius, do século XVII:



Sei que sem mim

Deus Mo vive um só momento;

Se eu morresse, ele também

não mais sobrevivem.
Sem mim, Deus não pode Criar um simples verme:

Se eu uno partilhasse dele

Seu destino seria a destruição.
Sou tão grande quanto Deus

É Ele é pequeno como eu;

Não pode estar acima de mim Nem eu abaixo dele...
... Sou o filho de Deus

e Ele também é meu filho; Somos dois em um

Mistura de pai e filho. 98
O resultado das discussões no Olimpo sobre o destino de Tétis é que ela se casou com um homem chamado Peleu. Teve com ele o famoso herói Aquiles, que tem todos os sinais de um canceriano. Graves diz que seu comportamento diante das muralhas de Tróia, quando fica de mau humor na sua tenda, é "histérico"; durante a infância, Tétis tentou impedir que ele se envolvesse na guerra de Tróia vestindo-o de mulher. Na verdade, Tétis teve sete filhos de Peleu, e, bem de acordo com sua natureza matriarcal, não tolerava a idéia de que os filhos seriam mortais, condenados à morte. Conseguiu roubar seis deles e queimar sua carne mortal para que pudessem ascender ao Olimpo e assumir seu lugar entre os deuses. Peleu ficou indignado com a destruição de seus filhos e conseguiu salvar Aquiles antes que a criança se queimasse toda; o pai agarrou com firmeza o osso do tornozelo do filho, que continuou mortal. Parece que essa versão da história é anterior à que diz que Tétis mergulhou o filho no rio Estige para torná-lo imortal, esquecendo o tornozelo, por onde segurava o menino. Mas o sentimento dos dois contos é igual. Quando me deparei com esse mito operando em vidas humanas, muitas vezes foi sob a forma de uma numinosa projeção sobre um filho predileto e amado, de quem se espera que atinja alturas olímpicas mesmo que a humanidade da criança seja destruída no processo. As vezes, quando não há filhos de verdade em quem projetar a visão do desempenho sobre-humano, o canceriano tem essa postura com relação à sua própria criatividade, achando que tudo que vem dele é imperfeito e desagradável, a menos que seja divino. Essa pode ser a razão por que muitos cancerianos não externam seu potencial criativo, esperan­do até que um parceiro amado ou um filho venham realizar essa tarefa.

A história de Aquiles é meio curiosa. Havia uma profecia de que ou ele morre-ria jovem e muito glorioso, ou viveria uma vida longa e inglória em casa. Parece que as Parcas estavam indecisas e lhe deram mais opções do que à maioria das pessoas. Naturalmente, sua mãe Tétis preferia a última escolha, mas Aquiles

escolheu a primeira. Acho que Isso não precisa ser tomado literalmente, como qualquer motivo mítico não exige uma encenação literal; mas sem dúvida a batalha para se libertar da deusa significa colocar em risco a própria mortalidade, e talvez morrer em outros níveis para se tornar livre. Esse monumental esforço por parte de Câncer é, freqüentemente, o ato que libera o potencial da imaginação criativa. Mas existem outros tantos cancerianos, talvez mais, que escolhem o segundo caminho, e continuam a vida inteira próximos do conforto da Mãe, sacrificando qualquer potencial que poderiam realizar. Tétis, como já vimos, trabalhou ativamente para impedir que Aquiles se juntasse aos guerreiros que iam para Tróia; parece, efetivamente, que a experiência que Câncer tem da mãe é de uma trava que o segura. Porém Odisseu descobriu Aquiles escondido entre as mulheres, e o levou para a guerra. Durante as batalhas assistimos à constante interferência de sua mãe-deusa, correndo à sua tenda para levar-lhe uma nova armadura, roupas limpas, e assim por diante. É de surpreender que Homero não fale em sopa de galinha. Se a Ilíada não fosse uma história tão grande e trágica, seria hilariante; esse trecho, sem dúvida, é dolorosamente engraçado. A única coisa capaz de tirar o Aquiles emburrado de sua tenda para entrar em combate é a morte de seu melhor amigo e amante Pátroclo. Só ai se revelam sua verdadeira coragem e seu brio. Parece que isso também é uma faceta de Câncer: nada incita o signo à confrontação direta da vida, a não ser a profunda perda emocional.

O tema da Grande Deusa é uma ameaça que aparece, de uma ou outra forma, em muitos outros signos do zodíaco. Câncer parece descrevê-la como a parteira da vida e regente do mar. Ela é a água uterina de onde surge a criança, e a água inconsciente de onde surge a identidade individual; essa grande imagem da Mãe permanece como a mais poderosa força na vida de Câncer. A tendência, mais tarde, é desviar-se da mãe pessoal como caminho exclusivo para o inconsciente criativo, mas seja qual for a forma em que aparece, Câncer está sempre ligado a ela, para o bem ou para o mal. A face escura desse daimon é o subjugante vín­culo com a mãe que paralisa tanto homens quanto mulheres e os prende de tal forma que abafa o potencial criativo. A face luminosa é o potencial de dar à luz as imagens do inconsciente. A questão da separação da mãe é um monumental rito de passagem na vida dos cancerianos, que precisa ser executado muitas vezes, em muitos níveis diferentes. A semelhança do Caranguejo real, que precisa ficar perto da água e da terra, Câncer é compelido a se apoiar no mundo concreto, com um dos pés eternamente na água, para que ele mesmo, finalmente, possa tornar-se o ventre de onde nascerão os filhos do mar.


LEÃO
A cinco braças faz teu pai;

O coral eram seus ossos;

As pérolas, os seus olhos; Nada dele se desvanece;

Mas no mar se transforma, Em algo rico e estranho.

Shakespeare, The Tempest

O signo de Leão, como o de Touro, é falsamente simples. Acostumamo-nos às descrições do espécime majestoso e barulhento do folclore popular, e poderíamos facilmente acreditar que esse signo não tem nenhum significado mais profundo além da manifestação extrovertida e exibicionista do vigor da vida. Em Leão, porém, funciona um padrão surpreendentemente complexo, e a figura do rei no mito e no conto de fadas nos leva muito longe do leão convencionalmente frívolo e exibido, para um terreno muito mais místico. Há muito tempo estou convencida de que Leão, regido pelo Sol e conseqüentemente associado ao mistério da individualidade e do caminho "predestinado" da maturação individual, não trata realmente da "criação" de algo que possa ser aplaudido pelos outros. Num nível mais profundo, parece descrever o desenvolvimento da essên­cia da pessoa ímpar e da busca de sua origem. Embora se suponha que Leão seja o signo criativo, regente natural da quinta casa, o exame de um grande número de pintores, poetas, romancistas e músicos revela uma preponderância de Gêmeos, Câncer e Peixes; Leão figura muito modestamente. Qualquer que seja a criatividade em questão, acredito que a grande criação de Leão deva ser ele mesmo. Portanto, à semelhança de Capricórnio, que vamos explorar no devido tempo, e Áries, que já vimos, o simbolismo de Leão gira em torno do tema do rei e seu filho, ou do herói e seu pai. E, como vamos ver, embora o leão tenha muitas conotações femininas no mito e seja um dos animais que acompanham a mãe, a batalha entre homem e leão está intimamente ligada à procura que o herói empreende pelo pai espiritual ou pelo valor transpessoal de sua vida.

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