Os planetas exteriores e seus ciclos os astros e o amor



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O Leão fazia parte do zodíaco egípcio e babilônico, associado ao calor escal­dante do sol nos meses de verão. Sekhmet, a deusa solar egípcia, tem cabeça de leão e quando está com raiva chamusca a terra. Mas os gregos identificavam o leão com a criatura que Héracles combateu em um de seus Trabalhos, o Leão de Neméia, enviado por Hera da Lua à Terra para atormentar o herói, seu adversário. Por que esse leão teria que vir da lua, e da deusa, vamos ver mais tarde; mas diz a história que essa primeira tarefa exigia que Héracles matasse a besta sem armas. Um velho indicou ao herói o caminho até o covil do leão. Chegando à distância apropriada, ele disparou uma flecha que atingiu a besta, porém Hera tinha-a tornado invulnerável, e a flecha caiu no chão. Héracles, então, foi buscar sua maça, violando assim as regras do combate. O leão refugiou-se no covil, uma caverna com duas entradas. O herói bloqueou uma das entradas com pedras e foi ao encontro do animal na escuridão. Depois de uma magnífica luta, conseguiu agarrá-lo pelo pescoço e estrangulá-lo. Em seguida esfolou-o e desde então passou a vestir-se com essa pele.

A história do homem em combate com a besta é o mais velho dos motivos arquetípicos. Já o encontramos nos mitos associados aos primeiros quatro signos. Num sentido mais amplo, é a batalha entre o ego em desenvolvimento e suas raízes instintivas, que precisam ser domesticadas para que o indivíduo se torne realmente individual. Mas aqui o que é mais importante é o tipo específico de besta, pois se trata de um leão e não de um carneiro, um touro, um dragão, um monstro marinho ou um irmão hostil. Sekhmet, como já vimos, tipifica a natureza agressiva e belicosa do leão. Cibele, a Grande Deusa da Ásia Menor, anda numa carruagem puxada por dois leões; Dioniso, que vamos encontrar mais tarde, também veste unia pele de leão, como Héracles, e muitas vezes é retratado com

leões em seu séquito. Porém, os atributos do leão, embora freqüentemente associados ao feminino, são atributos muito quentes e belicosos, bem distantes da fria sabedoria da Mãe reptilária. Jung diz o seguinte a respeito do leão:


Na alquimia, o leão, a "besta real", é um sinônimo de Mercúrio ou, para ser mais preciso, de um estágio de sua transformação. Ela é a forma de sangue quente do monstro devorador e predatório que aparece inicialmente como dragão ... O leão belicoso tem a finalidade de expressar exatamente isso — a emotividade apaixonada que precede o reconhecimento dos conteúdos inconscientes. 99

O leão também está associado à concupiscência e ao orgulho. Tem um aspecto inconfundivelmente erótico, daí sua associação a Dioniso e Cibele, mas também é um animal combativo e sugere impulsos agressivos saudáveis, bem como destrutivos. No Caranguejo encontramos uma criatura de sangue frio do reino submarino ligada ao aspecto feminino. O leão, porém, pode ser domesticado e reagir à atenção do homem — a realeza egípcia e a persa tinham leões como bichos de estimação — e estamos diante de algo muito mais próximo da consciência: as paixões nobres do coração. Héracles e o leão, sem dúvida, foram imaginados de acordo com o antigo padrão do homem combatendo a besta, porém esse herói veste a pele do animal que matou. Dessa forma ele se torna semelhante ao leão, mas as paixões inflamadas estão agora contidas. Não se pode imaginá-lo vestindo a casca do caranguejo, distanciado demais da vida humana. O emblema da realeza, no sentido mais profundo, está associado a essa capacidade de lutar com as paixões. O homem que é incapaz de conter seus impulsos belicosos não pode governar os outros nem servir-lhes de exemplo.


Provavelmente não estaremos errados ao supor que o "rei dos animais", conhecido até na época helenística como um estágio de transformação de Hélio, representa o velho rei... Ao mesmo tempo, representa o rei em sua forma teriomórfica, isto é, como aparece em seu estado inconsciente. A forma animal enfatiza que o rei é subjugado ou coberto por seu lado animal, e conseqüentemente só se expressa através de reações animais, que não passam de emoções. A emotividade, no sentido de afetos incontroláveis, é essencialmente bestial, razão pela qual as pessoas nesse estado só podem ser abordadas com a cautela apropriada para a selva, ou então com os métodos do treina. dor de animais.100
Creio que nenhum astrólogo vai discordar que essa apaixonada belicosidade é característica de Leão. Porém, o leão é um estágio de um processo, como sugere Jung; e é esse processo ou padrão que nos leva à esfera do "destino" de Leão. Parece, a partir do que tenho observado das histórias de vida de leoninos com quem trabalhei, que existe um trabalho alquímico a ser executado. Ao leão não ê permitido permanecer na forma bestial, que deve dar lugar a outra coisa. Parece que um aspecto perturbador desse padrão é que muitas vezes o Leão ê tratado, como diz Jung, com "a cautela apropriada para a selva" ou com

"os métodos do treinador de animais" — o chicote e a aguilhada. É um proces­so doloroso para o Leão, cujo coração infantil fica profundamente ferido pelas reações de seus pares aos excessos que comete. Sua "intenção foi a melhor", mas de alguma forma parece que os outros não gostam; no mais das vezes ficam zangados. Se o próprio Leão não captar a importância do processo, a vida tende a ensiná-lo mais ou menos à força que um leão não pode andar solto por aí entre os homens sem algum tipo de retaliação. Com mais criatividade, o Leão decide empreender sua busca por vontade própria, e é por essa razão que o mito que associo mais intimamente a este signo é a história de Parsifal. É um mito medieval, não grego, mas suas raízes são muito mais antigas, e creio que descreve, virtualmente em todos os detalhes, o padrão de vida de Leão.

Os contornos gerais da história de Parsifal em busca do Graal são bem conhecidos, apesar das muitas versões diferentes. Um objeto ou recipiente misterioso, preservador e sustentador da vida, é guardado por um rei num castelo que está escondido ou é difícil de achar. O rei está aleijado ou doente, a região circundante está devastada ou esgotada; este é o estado de coisas no poema The Wasteland de Eliot, baseado no mito da busca do Graal. A saúde do rei só pode ser recupe­rada se um cavaleiro de visível perfeição encontrar o castelo e, assim que olhar o que lá estiver, fizer uma determinada pergunta. Se ele deixar de fazer essa pergunta, tudo vai continuar como antes, o castelo vai desaparecer e o cavaleiro vai ter de iniciar de novo a procura. Se ele finalmente for bem-sucedido, depois de muitas andanças e muitas aventuras, envolvendo principalmente encontros eróticos (porque Leão procura primeiro o seu tesouro no amor, antes de descobrir que o tesouro pode estar dentro dele mesmo), e aí fizer a pergunta, o rei vai recuperar a saúde, a terra vai começar a ficar verde novamente e o herói vai herdar o reino e tornar-se guardião do Graal.

A história descreve, no início, um estado de doença espiritual. O velho rei não pode ajudar sua terra ou seu povo, e é responsabilidade do jovem passar pela pro­va. Mas a prova não é um feito guerreiro. É uma pergunta, isto é, uma capacidade de tornar-se consciente do significado das coisas, uma qualidade de reflexão. Parsifal começa a história órfão de pai, criado pela mãe num bosque isolado. Esse início sem pai (ou sem princípio do pai, mesmo que haja um pai físico presente) é algo que tenho visto na vida de muitos leoninos. O pai ou está ausente ou está ferido num nível mais profundo, e não pode proporcionar o senso de renovação criativa da vida de que o filho ou filha precisam; assim, a criança busca esse princípio tá fora, na forma da aventura de sua vida.

Cinco cavaleiros de armaduras brilhantes vieram cavalgando pela floresta; quando Parsifal os viu, sentiu-se irresistivelmente atraído e decidiu tornar-se cavaleiro. É claro que a mãe, como Tétis com Aquiles, tentou impedir sua partida, mas Parsifal não pertence à mãe. Nem ficou emburrado nem se escondeu vestido de mulher; simplesmente saiu sem mesmo dizer até logo. A mãe imediatamente morreu de dor. Parece que esse é um rito de passagem necessário para Leão, embora no começo de suas aventuras Parsifal seja desajeitado e malcriado. Ele é, efetivamente, o rei na forma teriomórfica ou animal, o futuro governante inconsciente, tomado de afeto emocional. Parsifal combateu em seguida o Cavaleiro Vermelho que, pela cor da armadura, parece ser outra imagem da emocionalidade violenta de Leão, usando a cor do sangue, do fogo e da vida. Como Héracles,

Parsifal vestiu a armadura do inimigo derrotado. Depois encontrou uma adorável mulher em desgraça, e foi iniciado nas artes eróticas; mas deixou a dama com a mesma grosseria desajeitada com que tinha abandonado a mãe, mais uma vez necessariamente cego.

Por fim Parsifal chegou a um rio profundo, sem nenhuma passagem visível; o destino tinha-o levado ao fim da estrada — ao local de sua tarefa em potencial. Viu um pescador, que lhe ensinou o caminho para o castelo do Graal, e de repente o castelo surgiu do nada. O portão abriu-se, pois ele estava sendo misteriosamente esperado e aguardado pelo rei-pescador. O rei, na história, estava ferido na virilha ou coxa — não podia procriar, visto que sua masculinidade estava prejudicada. É uma imagem, ligeiramente encoberta, de castração. Parsifal então teve uma visão de uma espada, uma lança gotejando sangue, uma moça trazendo um Graal de ouro com pedras preciosas, e outra moça trazendo uma bandeja de prata. Os estudiosos do tarô reconhecerão nesses quatro objetos sagrados naipes de copas, espadas, paus e pentágonos, e os estudiosos de Jung reconhecerão a quaternidade que simboliza a inteireza do Self Enquanto esses quatro objetos sagrados passavam, Parsifal não ousou dizer nada. Foi para a cama, e ao acordar o castelo estava deserto. Saiu e encontrou outra mulher que lhe falou do seu recente fracasso. Se ele tivesse perguntado: A quem serve o Graal?, o rei teria sido curado, e a terra renovada. Ao se deparar pela primeira vez com seu destino, Parsifal, como se diz, estragou tudo.

Só tornou a achar o castelo depois de atingir a maturidade e a compaixão necessárias. A princípio, nada disso tinha qualquer significado para ele; era simplesmente um show montado para sua diversão. No livro The Grail Legend, Emma Jung e Marie-Louise von Franz enfatizam a falta de capacidade de sofrimento característica do jovem Parsifal. Wagner, em sua grande ópera de redenção, pegou esse tema da falta de compaixão de Parsifal. O herói entra em cena pela primeira vez depois de ter atirado num inocente cisne por mera diversão, e é asparamente criticado pelos Irmãos do Castelo do Graal por sua insensibilidade. Jung e von Franz dizem:

Sua ofensa real, na verdade, reside na falta de ambigüidade primitiva de seu comportamento, que deriva de seu desconhecimento do problema interno dos opostos. Não se trata do que ele fez, e sim de sua incapacidade de avaliar o que fez.101

A insensibilidade de Parsifal com relação à mãe, ao Cavaleiro Vermelho (que ele não mata por qualquer motivo pessoal — a briga não era dele — mas simplesmente pelo desejo de se mostrar), a Bancheflor (a mulher que ele salva e abandona em seguida) e ao próprio rei do Graal (por quem ele ainda não sente compaixão, não fazendo a pergunta inevitável causada pela compaixão) está incorporada na imagem alquímica do leão, a forma animal do futuro rei. Acredito que essa ingênua falta de jeito seja parte integrante do Leão jovem ou imaturo, assim como a condição de orfandade; entretanto, apesar dessa falta de jeito, é o escolhido do destino para ter a visão do Graal antes de estar pronto para entendê-la. O que quer que seja o Graal — um senso de destino pessoal, o sucesso precoce, a espiritualidade jovem — parece que chega cedo para o Leão, não através do esforço, mas muitas vezes através dos dons naturais e da intuição deste signo. Mas em se 

guida ele se perde, porque o senso de seu significado ainda não foi aprumado, e o ego reivindica para si o sucesso. Portanto, é preciso que ele seja encontrado novamente na consciência, em geral por meio de muita dificuldade.

A ferida do rei é um tema central do Parsifal de Wagner; reconhecidamente, as distorções da história de Parsifal na versão de Wagner revelam tanto sobre o compositor como sobre Parsifal, mas mesmo assim Wagner escolheu um tema arquetípico, apenas parcialmente extraído do poema medieval Parzival, de Eschenbach. Na ópera, o ferimento do rei do Graal, Amfortas, foi feito pelo mago mau Klingsor, no momento em que o rei se tornou vulnerável nos braços da sedutora Kundry, a ambígua figura feminina que serve tanto ao claro quanto ao escuro. Klingsor queria ser um Cavaleiro do Graal, mas foi recusado por Amfortas; assim, o mago castrou-se para tornar-se invulnerável às tentações eróticas e, como vingança, roubou a lança de Amfortas. Em conseqüência do ferimento e da perda da lança, o Reino do Graal ficou esgotado. Talvez isso nos dê alguma compreensão de um dos dilemas de Leão — no brilho e nobreza de suas aspirações, ele não permite a entrada da sombra inferior, de sua própria humanidade imperfeita. A sombra rejeitada revida do inconsciente por meio dos efeitos desintegradores do erotismo incontrolável. Amfortas desfalece impotente nos braços de Kundry; não pode conservar a "pureza" de sua visão, portanto é um escárnio, um rei contaminado, não mais apto a guardar o Graal, ferido por sua própria culpa torturante. Leão, é claro, não é apenas Parsifal, mas também o rei doente e o mago mau; e é também a mulher que destrói o rei mas que mais tarde ajuda a curá-lo.

Depois de sair do castelo do Graal, Parsifal passa por muitas aventuras e muito sofrimento. Através dessas experiências, acumula sabedoria e compaixão. Então, finalmente, é capaz de retomar ao castelo, ver o Graal e fazer a pergunta fatal. Ao som de suas palavras, o rei fica curado e revela ser o avô de Parsifal. A custódia do castelo e do Graal agora cabe ao jovem cavaleiro. Assim, finalmente, o órfão encontra o pai, porém superior ao pai carnal. E o avô, o Grande Pai, a benigna fonte da vida criativa, e que começa a história velho, cansado, precisando ser redimido. Creio que o mais profundo impulso de Leão e essa procura do Self do valor central da vida — que, em termos míticos, é a mesma coisa que a procura do pai. Não é o pai que vamos encontrar em Capricórnio, pois o pai de Capricórnio é o senex, o princípio legislador terreno que limita e estrutura a vida mundana. Tampouco é o pai da confrontação ariana, o deus do fogo Javé com o qual é preciso lutar. O pai de Leão é o radiante doador da vida, adorado por milênios como o sol. É o Deus mais piedoso do Novo Testamento, cujo abundante fluxo de compaixão é personificado na imagem do Graal. Entretanto, esse pai-deus precisa renovar-se através dos esforços do homem para entendê-lo. Dessa forma, Leão, geralmente apresentado como um extrovertido exibicionista, é interiormente motivado por um impulso profundamente espiritual. O Leão individual, entretanto, pode continuar sendo para sempre o jovem Parsifal, inconsciente do significado de sua existência e incapaz de formular a pergunta.
Tampouco a redenção ocorre de acordo com a doutrina indiana da salvação, segundo a qual tudo deve ser reconhecido como nada além de ilusão. Aqui acontece de forma diferente, não pelos atos de um deus (embora natural-

mente seja Deo concedente, pois quem quer que a realize precisa ser a ela destinado por Deus) nem pela natureza, mas unicamente peio resoluto esforço de um ser humano, Percival; assim como não se pode colocar nem mais nem menos do que isso no opus da alquimia ou na realização do Self. É pre­ciso observar, entretanto, que o caminho de Percival para o Graal, o opus da alquimia e a realização do Self têm em comum com a forma cristã de salvação o seguinte: todos significam um opus contra naturam, isto é, não é a linha de menor, sim de maior resistência.102


A busca da realização individual, naturalmente, não pertence unicamente a Leão. É a trajetória básica da alma humana, e adiante vamos falar mais sobre individuação e destino. Porém o mito de Parsifal, embora num sentido mais amplo seja aplicável a todos os homens e mulheres,. parece prefigurar, às ve­zes misteriosamente, o padrão de vida de Leão. Talvez a questão de descobrir o significado de ser um indivíduo seja uma preocupação básica para Leão, a ques­tão mais importante que possa ocorrer-lhe. Portanto, não é surpreendente que Jung, ele mesmo um leonino, tivesse desenvolvido o conceito de individuação, que mostrou ser de tamanha importância para a moderna psicologia profunda. Essa era a questão que mais de perto falava a seu coração — uma questão previsível, do ponto de vista do astrólogo, quando se conhece alguma coisa do cená­rio mítico do signo; era, naturalmente, seu destino. Assim, o sucesso precoce que conheceu como discípulo favorito e herdeiro escolhido por Freud não era suficiente para ele, como poderia ser, e efetivamente foi, para outros. Seu próprio mito o compeliu a percorrer o caminho solitário em direção às suas profundezas, para que a visão da psique que acabou desenvolvendo viesse de sua expe­riência, de sua intuição, de sua pesquisa e de sua percepção. Foi um caminho tipicamente leonino, fazendo círculos cada vez mais perto de um centro que Jung achava ser tanto uma experiência religiosa como instintiva. Sua decepção com o pai, um homem da igreja que tinha perdido a fé, também é característica do pa­drão. Jung atribuía suas aspirações em grande parte a esse pai "ausente", isto é, sua procura por uma espécie diferente de pai, uma experiência direta do numinoso. Leão, como Capricórnio, vive muitas vezes essa decepção com o pai pessoal, que parece — e geralmente é mesmo — "ferido", impotente de alguma forma, espiritualmente "aleijado", incapaz de fornecer uma visão amparadora da vida como experiência significativa e enriquecedora.

Agora vamos deixar Parsifal para trás e considerar uma última imagem mítica relacionada com Leão: Apolo, o deus do sol. Essa divindade, cujo famoso santuário de Eleitos mostrava, talhada em pedra, a ordem "Homem, conhece-te a ti mesmo", é um deus superior e mesmo grandioso. É uma imagem da elevação de espírito, e é em si mesmo uma espécie de Graal. Como coloca Walter Otto em The Homeric Gods, Apolo é "a manifestação do divino entre a desolação e a confusão do mundo"; é o mais sublime do panteão grego. Febo, um de seus epítetos, significa "puro" ou "santo". Há algo de misterioso e inabordável nesse deus, que obriga a uma distância respeitosa. Apolo é o grande curador e purificador. Tira a poluição da realidade corporal e devolve o homem impuro ao estado de graça. É algo assim — a perda do senso do pecado inerente — que está vinculado à experiência do Self. A relação de Apoio com o suplicante é a do Graal com

Parsifal, e a pergunta é a mesma; daí a ordem na porta do templo. Como diz Otto:
A vida deve ser libertada dessas barreiras sobrenaturais, dos emaranhados demoníacos sobre os quais nem a mais pura vontade humana tem poder. Apolo, portanto, aconselha ao homem em desgraça sobre o que deve ser feito e o que deve ser deixado sem fazer, onde a reunião e a submissão podem ser necessárias.103
Na minha interpretação psicológica, Apoio é uma imagem do poder da consciência, assim investido pelo Self, que quebra a "maldição" e purifica o impuro, libertando a pessoa das "barreiras sobrenaturais" surgidas do escuro mundo do Inconsciente. É o poder do ego em toda a sua glória, o vencedor da batalha com a serpente Píton do inferno, o veículo de Deus como realização humana. É a ele que as pessoas oram quando precisam de visão clara, pois sua flecha penetra até no mais sombrio dos problemas, e sua música aquieta o coração confuso e agitado.

Apoio não é um deus de mulheres. Na verdade, não tem muita sorte com as mulheres que corteja, pois geralmente tem um rival mais bem-sucedido que ele. Muitas vezes esse é o padrão de Leão, capaz de ter muitas admiradoras que o adoram, mas muitas vezes incapaz de conseguir o objeto desejado. Creio que Leão não é o mais fácil dos signos para as mulheres, visto que sua essência está tão nítida e brilhantemente associada ao reino do fogos. Talvez seja por isso que muitas mulheres de Leão pareçam manifestar a leoa, a face mais emotiva do signo, em vez de se engajarem na longa luta para alcançar o senso de significado interior que Parsifal simboliza. Parsifal não pertence exclusivamente nem a homens nem a mulheres, pois a individualidade não é prerrogativa de nenhum dos dois; tampouco o é o problema de redenção pela compaixão e da compreensão de uma fonte mais profunda que é a verdadeira criadora da personalidade.


VIRGEM
Verdadeiramente, meu Satã, és um estúpido;

e irão conheces a roupa do homem;

Toda meretriz foi virgem um dia

William Blake, The Grites of Paradise


Já conhecemos um dos mitos que acredito estar intimamente associado a Virgem: o rapto de Perséfone. Embora tenha mencionado esse mito com relação a Plutão e a Escorpião, a figura de Perséfone é caracteristicamente kore,a donzela — e seu destino reflete uma coisa muito relacionada com Virgem. É essa imagem da kore que agora gostaria de explorar mais completamente.

Os gregos identificavam a constelação da Virgem com a deusa Astréia (ou Diquê), que representa o principio da justiça. De acordo com Hesíodo, ela era filha de Zeus. Viveu certa vez na Terra, durante a Idade de Ouro, quando não havia contenda ou derramamento de sangue entre os homens. Sentava-se na companhia das pessoas do povo, e reunia os mais velhos no mercado para incitá-los a

obedecer às leis da natureza. Porém, com a gradual corrupção dos homens, Astréia adquiriu ódio pela raça humana, devido a seus crimes, e deixou a Terra para sempre, voando aos céus para se juntar a seu pai Zeus e tornar-se a constelação de Virgem. Para Hesíodo, a figura de Astréia é severa, punidora dos crimes; tem muito em comum com Nêmesis, que já conhecemos. Mas a justiça de Astréia não diz respeito aos tribunais e às sutilezas do relacionamento social. Vamos en­contrar mais coisas desse tipo quando chegarmos a Libra. Astréia, que geralmente aparece carregando um feixe de cevada, é uma deusa mais terrena. Jane Harrison, em Themis, estudo sobre as origens sociais da religião grega, escreve:
Diquê (Astréia) é a maneira de vida de cada coisa da natureza, cada planta, cada animal, cada homem. Também é a maneira, o uso, o curso regular do Universo, esse grande animal, a maneira que se manifesta nas Estações, na vida e morte da vegetação; quando se chega a ver que tudo isso depende dos corpos celestes, Diquê se manifesta nas mudanças do nascer e pôr das constelações, no crescente e minguante da Lua e no curso diário e anual do Sol.104

Aqui temos algo semelhante à antiga figura de Moira, embora Astréia não seja uma deusa tão primitiva, nem seja responsável pela distribuição do destino. Parece que ela é uma imagem da ordem intrínseca da natureza, e seu desgosto pela humanidade é uma imagem mítica da tradicional aversão de Virgem pela desordem, pelo caos e pelo desperdício de tempo e matéria. Como Astréia, Virgem não tem muita simpatia pelos que, caprichosamente, fizeram do mundo uma bagunça. Tudo tem sua hora e seu lugar no domínio da deusa Astréia; toda forma natural do universo tem seu respectivo ciclo e valor. Não é surpreendente, com um daimon desses presidindo o signo, que Virgem se incline ao ritualismo e a uma visão da vida em que é preciso restaurar a "justiça".

Frances A. Yates escreveu um estudo notável sobre o tema da Virgem Astréia na política do século XVI (chamado, adequadamente, Astroea), no qual a rainha Elizabeth I, ela mesma uma virginiana, é identificada com essa figura mítica. Yates fez os seguintes comentários sobre a Virgem celestial:
A filiação da Virgem é obscura; alguns dizem que ela é filha de Júpiter e Têmis; outros, filha de Astreu e Aurora; outros dizem que ela é Erígone, filha de Icário, uma virgem pia cujo cãozinho a levou ao corpo morto do pai. Tem ligações com várias divindades. O cereal em sua mão sugere que ela deva ser Ceres (Deméter). Algumas vezes ela é associada a Vênus. Outros acham que ela é Fortuna, pois sua cabeça desaparece entre as estrelas. Existe um traço de Ísis em sua natureza. . . mas a divindade feminina com quem mais se pa­rece é Atargatis, a deusa síria, adorada com o nome de Virgo Caelestis de Cartago, e associada a Urânia e, como Ísis, à Lua. A virgem justa é, portanto, um caráter complexo, fértil e estéril ao mesmo tempo; ordeira e virtuosa, porém matizada pelos êxtases lunares do Oriente.105

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