Os planetas exteriores e seus ciclos os astros e o amor



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A imagem mítica de Osíris julgando as almas dos mortos é um retrato do julgamento que os deuses fazem do homem, e implica a existência de princípios universais de certo e errado, aos quais a vida humana precisa se ajustar. Esses princípios não são "naturais" no sentido de que não são leis do reino da nature­za. Pertencem ao reino do espírito humano e de sua visão da perfeição. Gostaria de explorar agora dois contos míticos cujo tema principal é o julgamento dos deuses pelo homem. Esses mitos, acredito, influem nos padrões que moldam o desenvolvimento de Libra. Nessas histórias, convoca-se um ser humano para decidir uma questão sobre a qual os deuses estão discutindo, à semelhança do júri humano de Atenas, encarregado de julgar Apolo e as Erínias. O problema decorrente do julgamento também é um tema importante nos mitos, e implica que julgar os deuses não é uma questão fácil ou sem conseqüências. Na figura de Osíris e da balança de Maat temos uma visão cara ao coração de Libra: o cosmo, em última análise, é justo e correto, o bem ê recompensado e o mal é punido. Não existe outro signo tão voltado para o "bom, verdadeiro e bonito" como diz Platão, embora, no fim das contas, o que é bom depende da pessoa. Entretanto, parece que Libra não o encara como questão individual, e sim como a des­coberta da ética universal que transcende a mera escolha humana.

Nas histórias de Páris e Tirésias encontramos dois humanos que, devido à sua experiência e percepção superiores, são convocados a fazer algo que os próprios deuses não conseguem. Assim, a visão de um cosmo justo é uma contribuição que o espírito humano pode fazer à vida e aos deuses, e não o contrário. Tanto Páris como Tirésias sofrem conseqüências que me impressionam como típicas das confusões em que os librianos costumam se meter. O julgamento, como su­gerem

essas histórias, é uma ocupação perigosa, pois os próprios deuses não jogam de acordo com as regras.

Páris era filho do rei Príamo e da rainha Hécuba de Tróia. Um oráculo ou sonho tinha prevenido a mãe de que, ao crescer, ele seria a ruína de seu país. Assim, a criança foi abandonada no monte Ida, onde foi salva e amamentada por uma ursa. Porém, a excepcional beleza, a inteligência e a força do jovem príncipe acabaram denunciando sua origem real. Devido à sua habilidade com as mulheres e seus superiores poderes de julgamento, Zeus o escolheu para arbitrar uma disputa entre três deusas olímpicas. Um dia, o jovem estava pasto­reando seu rebanho quando apareceram diante dele Hermes, Hera, Atena e Afrodite. Hermes deu-lhe uma maçã dourada e transmitiu-lhe o recado de Zeus: "Páris, como você é tão bonito quanto sábio em questões do coração, Zeus ordena que você julgue qual dessas três deusas é a mais bonita, dando à vencedora a maçã dourada".

Como Páris não era tolo, recusou, compreensivelmente, o pedido, sabendo muito bem que, não importa o que fizesse, incorreria na ira das duas outras deusas. Assim, como um bom libriano, propôs galantemente que a maçã fos­se dividida em partes iguais entre as três. Zeus, entretanto, não queria evasivas, e exigiu que o jovem fizesse a escolha. Páris, então, suplicou às deusas que não se aborrecessem com ele, caso perdessem, pois a tarefa lhe tinha sido impingida contra seu desejo, não era escolha sua. As três prometeram não se vingar, caso perdessem o concurso. Pediu então às três que se despissem. Atena insistiu para que Afrodite tirasse seu famoso cinto, que fazia todos se apaixonarem por ela, dando-lhe uma vantagem injusta. Afrodite insistiu para que Atena tirasse seu elmo de combate, que lhe dava uma aparência mais nobre e distinta. Hera não se rebaixou a essas táticas, mas simplesmente tirou as roupas com a dignidade adequada à rainha das deusas.

Hera, em seguida, ofereceu a Páris o governo de toda a Ásia, prometendo fazer dele o homem mais rico da terra, caso a escolhesse. Páris, sendo um típico libriano, não se sentia particularmente atraído pelas responsabilidades de tamanha riqueza e poder. Atena prometeu que lhe daria vitória em todos os combates, mas como esse é um mito de Libra e não de Áries, essa promessa não tinha atrativos para ele. Afrodite, sendo de longe a melhor juíza das motivações de Páris, prometeu-lhe a mulher mais bonita do mundo como esposa. Tratava-se de Helena, filha de Zeus com Leda, e esposa do rei Menelau de Mikenai. Páris argumentou que Helena já era casada; como poderia, então, ser sua esposa? Deixe comigo, disse Afrodite, e Páris deu-lhe a maçã dourada, sem pensar duas vezes. Por causa desse julgamento, ele suscitou o ódio de Hera e Atena que, faltando com a promessa de serem boas perdedoras, foram de braços dados tramar a destruição de Tróia. Quando, finalmente, Páris encontrou Helena na corte do marido, os dois se apaixonaram na mesma hora e, na ausência do rei, fugiram juntos para Tróia. O incidente provocou a vingança dos gre­gos, dando-lhes um pretexto para o que sempre tinham desejado fazer: destruir Tróia totalmente. Durante a guerra, Páris e os três filhos que teve com Helena fo­ram assassinados; Helena, porém, sendo semidivina e inocente, por ser um jogue-te de Afrodite, foi devolvida, arrependida, ao marido.

Dessa forma, Páris, um dos heróis míticos mais librianos, foi confrontado com

a necessidade de fazer um julgamento — sobre valores pessoais e escolha ética — reagindo de forma característica. O fato de o seu final ter sido infeliz não significa que esse seja o destino concreto de Libra, embora às vezes as escolhas amorosas de Libra efetivamente levem a bastante confusão e dificuldades. Já vi o suficiente desses triângulos amorosos típicos de Libra, em que tais escolhas jogam a pessoa em dilemas emocionais (e às vezes também financeiros) mais ou menos árduos, pata estar convencida de que esse mito engloba um padrão de desenvolvimento típico do signo.

Tirésias, por outro lado, é um personagem um pouco diferente. Quando o encontramos no conto de Édipo, ele é um vidente cego, famoso pela perspicácia e discernimento. É ele que avisa Édipo de que o próprio rei era a coisa amaldiçoada que estava contaminando Tebas. Mas a história da cegueira de Tirésias é interessante. Existem várias versões; em uma delas, Tirésias, como Páris, foi chamado a julgar quem era a mais bonita entre quatro deusas, Afrodite e as três Graças. Deu o primeiro lugar a uma das Graças, atraindo assim a ira da deusa do amor, que o transformou numa velha. Mas a versão mais conhecida do mito de Tirésias começa quando ele estava andando pelo monte Kilene. Aí viu duas serpentes copulando. Quando as duas o atacaram, ele as golpeou com seu bastão, matando a fêmea. Imediatamente foi transformado em mulher, e passou vários anos como uma notável prostituta. Sete anos mais tarde, aconteceu de ele ver a mesma cena no mesmo local, e dessa vez recuperou a condição de homem, matando a serpente macho. Devido à sua incomum experiência dos dois sexos, Zeus o convocou para decidir uma questão entre ele e Hera. Os dois tinham estado discutindo, como de hábito, sobre a infidelidade de Zeus, e o deus se defendia argumentando que, quando partilhava a cama da esposa, ela ficava com o melhor, porque as mulheres têm mais prazer no ato sexual. Hera negava esse fato, insistindo que o contrário era verdade; se não, por que mais o marido seria tão flagrantemente promíscuo? Tirésias, convocado a decidir a questão, respondeu:
Se dividirmos o prazer do amor em dez partes,

Nove ficam com a mulher, uma com o homem.111

Hera ficou tão irritada com a resposta que cegou Tirésias. Zeus apiedou-se dele que, afinal, tinha ficado do seu lado; concedeu-lhe a visão interior e a capacidade de entender a linguagem profética dos pássaros. Também deu-lhe um tempo de vida que se estendeu por sete gerações e permitiu-lhe conservar seu dom de percepção até nos campos escuros do inferno.

A necessidade de fazer um julgamento foi imposta tanto a Páris como a Tirésias. Essa necessidade surge dos próprios deuses, aparentemente em disputa. No caso de Páris, não é difícil discernir a natureza da escolha, pois não se trata realmente de um concurso de beleza, e sim de uma decisão sobre o que, em última análise, tem mais valor para ele. Jane Harrison escreve o seguinte sobre o julgamento de Páris:
É uma angústia de hesitação, terminando numa escolha que desencadeia a maior tragédia da lenda grega. Mas a Escolha estava lá antes de Páris. Os elementos exatos da Escolha variam nas diferentes versões. Atena às vezes é

Sabedoria, às vezes Guerra. Hera, em geral, é Realeza ou Grandeza; Atena é Heroísmo; Afrodite, é claro, é Amor. É o que, exatamente, o "jovem" precisa decidir? Qual das três é a mais bonita? Ou que dons ele deseja mais? Absolutamente não importa, pois essas são duas formas diferentes de dizer a mesma coisa.112


Parece que, por obra de Zeus, Páris não pode ter as três, o que também suge­re algo sobre o "destino" de Libra. Não é possível comer o bolo todo. Poderíamos facilmente substituir Páris por uma mulher, colocando três divindades masculinas no concurso. Poderíamos fazer uma especulação fecunda sobre os elementos da Escolha. Seria possível escolher Zeus com seu dom do poder, ou Dio­niso com seu dom de êxtase, ou Apoio com seu dom da visão de longo alcance? Ou talvez Ares com sua coragem, ou Hermes com sua inteligência, ou Hefesto com sua habilidade artística? Esse mito não descreve um problema exclusivamente masculino. Talvez seja relevante que Páris precise fazer uma escolha entre os atributos das deusas — a anima ou alma —; ele não é convocado para escolher objetivos masculinos de sua preferência, mas os que pertencem a seus mais profundos valores internos. A escolha de uma coisa em detrimento de outra, que a vida parece impor a Libra, não só contradiz o desejo inato do signo de ter tudo em proporção, em vez de ter uma coisa a expensas de outra. Esse julgamento também envolve conseqüências psicológicas, já que qualquer decisão ética tomada pelo ego significa a exclusão ou repressão de algum outro conteúdo da psique, o que gera enorme ambivalência e às vezes muito sofrimento. Acredito que a famosa "indecisão" de Libra não se origine numa incapacidade congênita de fazer escolhas, e sim do medo das conseqüências que as escolhas acarretam. Pode-se argumentar que Páris fez a escolha errada. Porém qualquer que fosse a deusa escolhida, as outras duas ficariam zangadas; e se ele se recusasse a fazer qualquer escolha, Zeus o teria abatido.

Não ê de surpreender que Libra se queixe constantemente da injustiça da vida. Assim é; o pobre Páris não pediu esse destino e fez o que pôde para evitá-lo, propondo a divisão igual da maçã. Mas, desde o começo, ele foi escolhido pela experiência e percepção superiores, e isso sugere que precisamos pagar por nossos dons e realizações. Talvez, no fim das contas, a vida seja justa. Parece que o desenvolvimento de Libra incorpora um curioso paradoxo: o signo ama as leis ordenadas da vida e tem grande fé em sua justeza, mas se defronta eternamente com os aspectos desordenados e imorais da vida, que fragmentam e dividem a unidade amada por Libra. Entretanto, nessas vicissitudes aparentemente injustas, pode-se descobrir as marcas de unia ordem mais profunda e mais irônica. A propensão de Libra a ficar encalhado numa escolha entre duas mulheres, dois homens, duas vo­cações, ou duas filosofias, sugere que, embora o signo não consiga tolerar a divisão ou a desarmonia no universo, alguma coisa dentro do próprio libriano leva-o continuamente a dividir-se, para que possa se descobrir no conhecimento mais profundo dos processos de escolha.

Tirésias teve um fim melhor que Páris, embora também precisasse sofrer por causa do seu julgamento. Mas existem compensações. Sua história é estranha. O começo, com a visão das duas serpentes copulando, sugere um tipo de percep­ção arquetípica das origens da vida. Encontramos o uroboros, a serpente que devora,

mata e se gera, no signo de Câncer, e na alquimia, o uroboros muitas vezes é Imaginado como um par de serpentes ou dragões formando o círculo da unidade. Tirésias, evidentemente, observou um mistério profundo, pois essas cobras são a Serpente do Mundo, macho e fêmea juntos. Assim, elas o atacam, pois ele não devia ver o que tinha visto. É como o ataque mítico de Ártemis contra Actéon, que acidentalmente topou com a deusa se banhando: a natureza tem ciúme de seus segredos. O frio intelecto de Libra, sem dúvida, espiona os lugares em que não é "permitido" ir, principalmente na esfera do amor, e o amor muitas vezes se volta e ataca o libriano por causa de seu julgamento desinteressado. Para se defender, Tirésias mata a serpente fêmea — tentando assim, talvez, proteger-se do lado instintivo da vida. Ao fazer isso, sacrifica sua condição de homem. Talvez essa seja uma imagem do preço pago por esse estágio da jornada, visto que a nítida repressão e aversão pelo corpo e pelos odores carnais da vida, tão característica de Libra, pode resultar na perda do self e na venda da alma. Finalmente, o futuro profeta tem outra visão das origens da vida, e nessa segunda ocasião defende-se do subjugante principio patriarcal que anteriormente tinha feito dele um inimigo de sua própria sexualidade. Assim, é devolvido a si mesmo. Essa oscilação entre masculino e feminino, espírito e corpo, parece típica tanto dos homens quanto das mulheres de Libra. O mesmo aplica-se à experiência simbólica do sexo oposto, quando a pessoa é separada da própria biologia e é possuída pelo inconsciente transexual. Os homens de Libra, tradicionalmente, são conhecidos pela afinidade que têm com a esfera "feminina" do enfeite, da ornamentação e do embelezamento, enquanto as mulheres de Libra são conhecidas pelo pensamento claro e racional e pela capacidade de organização. O mito de Tirésias sugere que a sexualidade de Libra, freqüentemente ambivalente, tem raízes arquetípicas.

Foi em conseqüência da sabedoria adquirida por Tirésias que Zeus o honrou escolhendo-o para solucionar a disputa conjugal olímpica, É como o julgamento de Páris: pede-se que um mortal forneça o que os deuses mesmos não possuem, a capacidade de refletir sobre os opostos com julgamento imparcial. Tirésias sofre por causa de seu julgamento, mas se tivesse ficado do lado de Hera, sem dúvida Zeus o teria punido. Como Páris, e estranhamente como Jó no Velho Testamento, Tirésias teve de pagar por ter percepção demais da natureza e dos próprios deuses. Porém, o velho profeta recebeu em troca um dom. A imagem da cegueira, no mito, freqüentemente significa que os olhos se voltam para dentro, em direção¬ ao Self. Dessa forma, ele já não pode ser seduzido pela beleza mundana, como era o caso de Páris. Wotan, no mito teutônico, também ofereceu um de seus olhos em troca do conhecimento. A longa vida do profeta e a posição de honra do inferno sugerem que existe algo de eterno por trás do escopo mortal da sabedoria pela qual ele precisou pagar um preço tão alto.

Inclino-me a acreditar que Páris é uma imagem do libriano jovem, e Tirésias do libriano maduro. De alguma forma, a questão da escolha evolui da necessidade de decidir quais são os próprios valores, com os conflitos decorrentes, até vislumbres dos dilemas mais profundos onde se revela que os próprios deuses têm duas faces e precisam da ajuda da consciência do homem. Essa percepção muda tanto o homem quanto os deuses. Esse foi o tema abordado por Jung em Answer to Job, e que acredito ser um dos temas subjacentes ao destino de Libra. De todas

as possíveis lições inerentes às histórias de Páris, Tirésias e mesmo Jó, uma das não menos importantes é a percepção de que talvez os deuses não sejam tão justos quanto os homens. Se Libra puder chegar a aceitar esse fato, seu papel de portador da civilização e da reflexão torna-se autêntico e dignifica a nobreza do espírito humano.

ESCORPIÃO


Aqui podemos reinar seguros, e para meu gosto

A ambição de reinar é válida até no inferno: Melhor reinar no inferno do que servir no céu.

Milton, Paradise Lost
Nos capítulos anteriores, já encontramos o reino da Mãe arcaica, cujas imagens teriomórficas são a aranha, a cobra e o dragão. Essas criaturas de sangue frio, muito distantes do cálido reino dos mamíferos do qual o homem faz parte, são imagens das funções inconscientes autônomas do corpo: a cobra como processo intestinal, a baleia e o monstro marinho como ventre, o chacra radical da base da espinha que é a sede da vida. Todos os mitos que exploramos com relação a Plutão têm relação com Escorpião, pois as sinistras figuras do Senhor e da Senhora da Grande Região Inferior são imaginadas como os daimones que presidem esse signo zodiacal. Também examinamos a constelação de Escorpião com relação a Orion, o caçador, que ofendeu a deusa Ártemis-Hécate e foi destruído pelo gigantesco escorpião que ela fez vir das profundezas.

Existem outras imagens míticas que acredito se relacionarem com esse signo, em tomo do tema arquetípico do herói e do dragão. Assim como o carneiro, o leão, o caranguejo e o irmão hostil são aspectos distintos da saga do herói, o dra­gão é uma entidade diferente, parente da Serpente do Mundo, representação das forças daimônicas do inconsciente vivenciadas como a Mãe Terrível. Criaturas como as Erínias são um de seus aspectos, mas uma de suas faces mais comuns é a do monstro serpenteante. A luta com o dragão é um motivo universal, mas se aplica especialmente a Escorpião, que precisa enfrentar, talvez com mais profundidade e mais freqüência, essa face reptilária da vida instintiva com seu poder assustador e destrutivo. Um desses mitos clássicos é o da batalha de Héracles com a Hidra. Outro exemplo é o confronto de Siegfried com o dragão Fafner, guardião do tesouro dos Niebelungos. Talvez todos nós tenhamos que nos haver com esse dragão em alguma época da vida; para Escorpião, porém, existe uma espécie de choque cíclico, uma confrontação permanente e cada vez mais profunda com o reino do dragão.

Outra imagem vívida da batalha com as forças da escuridão é oferecida na história de Perseu e a Górgona. Como todos os heróis legítimos, o nascimento de Perseu foi mágico. Era filho de Zeus, sua infância foi ameaçada por um pa­rente masculino perverso, e cresceu na ignorância de sua verdadeira origem. Nem todas de suas muitas aventuras nos interessam aqui, porém seu confronto com a Medusa é um motivo arquetípico de Escorpião. A própria Medusa faz parte da jornada de Escorpião, já que, como em todos os mitos, herói e monstro formam

uma unidade, dois aspectos de um todo. Diz a história que Medusa era uma linda mulher, que um dia ofendeu a deusa Atena:

As Górgonas, Estado, Euríale e Medusa, eram lindas. Porém uma noite Me­dusa deitou-se com Posídon, e Atena, enfurecida porque eles tinham se deitado em um dos templos dela, transformou-a num monstro alado com olhos ofuscantes, dentes imensos, língua saliente, garras afiadas e anéis de serpente; seu olhar transformava os homens em pedra.113

Outra versão dessa história diz que Medusa foi violentada por Posídon, e que o semblante assustador que ficou gravado em seu rosto era a expressão do horror e ultraje que sentiu. De qualquer forma, estamos de volta aos temas escorpianos familiares do estupro e da sexualidade ofendida. Quer a horrível feiúra da Medusa fosse resultado de uma Atena ultrajada ou de um espírito feminino ultrajado, sob muitos aspectos é a mesma coisa, pois Atena, a deusa virgem que é a sabedoria de Zeus, é uma imagem do julgamento contra o comportamento não civilizado. O rosto da Medusa é um retrato da raiva e do ódio femininos; qualquer um que a contemple fica paralisado. Trata-se de um retrato extremamente acurado, do ponto de vista psicológico, pois esse ódio duradouro com relação à vida e a amargura que conduz à apatia interior são problemas que muitos do signo de Escorpião, mais cedo ou mais tarde, precisam enfrentar.

Perseu foi incumbido de matar a Medusa para impedir que sua mãe fosse obrigada a se casar com o rei Polidectes. Aqui surge o motivo da redenção de uma figura feminina através da vitória sobre outra figura feminina, mais sombria; porém ambas, em essência, são a Mãe. A mãe pessoal só pode ser redimida quando a mãe arquetípica é confrontada. Muitas vezes, um homem tem sua alma interior contaminada pela herança da raiva e da amargura inconscientes da mãe, de forma que ele se torna um portador do ódio dela; nesse caso, a redenção não apenas da mãe pessoal, mas também da própria anima dele das garras da Górgona, torna-se uma questão crítica. Essa batalha pela libertação do feminino da face mais hostil da natureza faz parte integrante da jornada de homens e mulheres de Escorpião.

Em sua saga, Perseu recebeu ajuda de várias divindades. Atena advertiu-o pa­ra não olhar a Medusa diretamente, e sim o seu reflexo no espelho, e presenteou-o com um escudo brilhante. Essa imagem simbólica é mais ou menos auto-explicativa da capacidade de reflexão, visto que o pensamento simbólico é fundamental para se colocar à altura da raiva avassaladora de uma Medusa. Hermes também ajudou Perseu, dando-lhe uma foice Inquebrável para cortar a cabeça da Górgona. Também ganhou um par de sandálias aladas, uma bolsa mágica para guardar a cabeça decapitada, e o capacete escuro da invisibilidade, presente de Hades. Só era possível obter esses implementos mágicos visitando as três velhas Gréias, que só tinham um olho e um dente, e que conheciam o caminho secreto para o covil da Górgona. Na realidade, elas são outra forma das três Par­cas, as Moiras. Portanto, é preciso que o destino esteja com ele — como os alquimistas diriam, Deo concedente. Naturalmente, a saga do herói é bem-sucedida, com todo esse poder divino do seu lado. Como uma espécie de subproduto, ele liberou o corcel mágico Pégaso, que saiu já formado do corpo da Medusa. Esse

cavalo tinha sido gerado nela por Posídon, mas ela era incapaz de dar à luz por causa do ódio. Assim, Perseu o liberou, e também a si mesmo. O cavalo alado é uma ponte entre opostos, uma criatura terrena com o poder de ascender ao reino espiritual. Daí em diante, Perseu pôde usar a cabeça da Górgona contra seus inimigos, visto que, depois de vencer a criatura, estava em condições de utilizar seus poderes em prol de objetivos mais direcionados para a consciência.

A Górgona e a Hidra, que Héracles precisou enfrentar, são, parece-me, imagens características da destrutividade com que Escorpião precisa lidar. A Medusa só pode ser degolada pelo poder da imagem refletida, pois quem a contempla diretamente é sobrepujado pela própria escuridão que possui. Esse é um estado psicótico, e não se pode encontrar símbolo melhor que a cabeça da Górgona para o terror cego e a paralisia encontrados em certas formas de psicose. Também existe uma fórmula especial para vencer a Hidra que, como a Medusa, é um ser semidivino, e, assim como acontece com o surgimento do cavalo alado, o objetivo é transformação, não eliminação ou repressão.

De acordo com a descrição de Graves, a Hidra tinha um prodigioso corpo semelhante a um cão e nove cabeças cheias de serpentes, sendo uma delas imortal. Era tão maligna que até seu hálito, ou o cheiro de seu rastro podia ser mortal. Essa atraente criatura é conhecida de muitos Escorpiões. Primeiro Héracles precisou forçá-la a sair de sua caverna escura usando flechas ardentes, e depois pren­deu a respiração ao agarrá-la. Mas o monstro quase o derrotou, porque assim que uma cabeça era esmagada, nasciam mais duas ou três em seu lugar. O herói gritou para que Iolau, condutor do seu carro, pusesse fogo num dos cantos da mata. Em seguida, para impedir que a Hidra fizesse brotar novas cabeças, queimou os pes­coços com galhos em chamas. Desta forma o fluxo de sangue foi contido — cauterizado — e Héracles usou uma espada para cortar a cabeça imortal, que era em parte de ouro, e a enterrou, ainda silvando, debaixo de uma rocha pesada.

Essas duas lutas contra o dragão — a de Perseu com a Górgona e a de Héracles com a Hidra — incorporam uma lição sobre o preparo e o manejo do veneno reptilário que se encontra quando se cava fundo o bastante. Nenhum dos dois monstros pode ser vencido só pela força bruta. São necessários a reflexão e o fogo — entendido como a queima da intensa emoção interior, ou como a luz da compreensão e da consciência. As duas criaturas são divinas e, em última análise, não podem ser destruídas, embora possam se transformar. Quer esses monstros descrevam a escuridão emocional com que tantos Escorpiões precisam lutar, quer sejam projetados no mundo exterior na forma do mal e do sofrimento que precisam ser expurgados do mundo, o daimon de Escorpião leva-o a um choque com tudo que é assustador, escuro e destrutivo na vida. Muitos escorpianos doaram seus recursos à batalha com o monstro na sociedade: Martin Luther (Sol em Es­corpião), Gandhi (Escorpião ascendente) e Freud (Escorpião ascendente) são apenas alguns que levaram a luta contra o dragão a um nível que gerou mudanças na sociedade e na cultura. Porém essa batalha tem sua expressão mais profunda dentro da pessoa, pois a Medusa e a Hidra encontram-se nos pântanos e nas rue­las sujas da própria alma. Não ficam enterradas — erguem-se e desafiam a pessoa, não uma, mas muitas vezes no decorrer da vida; cada uma dessas ocorrências tem o poder de gerar um novo fruto.

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