Os planetas exteriores e seus ciclos os astros e o amor



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Existe uma forma mais sutil de dragão que Escorpião pode encontrar, incorporado

no mito de Fausto. Aqui, como com Parsifal, entramos no mundo da lenda medieval, mas a figura do mago e de sua luta contra seu duplo escuro, o Mefistófeles serpenteante, é uma história antiga. O próprio Mefistófeles é um verdadeiro filho da Mãe, "aquele poder que para sempre deseja o mal, mas para sempre faz o bem". A história da sede de Fausto por poder e prazer, sua corrupção e re­denção final, deu origem, através dos tempos, a óperas, novelas, peças e sonhos, porque, apesar de hoje termos mais dificuldade em acreditar em figuras tais como Górgonas e Hidras, Mefistófeles está logo no outro quarteirão. O mito do mago é um conto sobre o homem ou mulher que, devido à amargura, solidão e isolamento de seus semelhantes, deseja dar sua alma em troca do poder sobre todas as coisas que o feriram na vida. Assim, ele adquire poderes mágicos, mas sua alma não mais lhe pertence, e ele fica condenado à maldição eterna. Seu duplo diabólico agora o segue por toda parte, destruindo qualquer prazer que o poder possa ter proporcionado. No fim, tudo que ele toca fica arruinado. Entretanto, ele é heróico, como Lúcifer no Paradise Lost (Milton também tinha Escorpião ascendente), visto que ele ousou negociar em reinos onde a pessoa "boa" comum não teria forças para entrar. E ainda conserva algo digno de ser salvo, que Deus deseja. Por conseguinte, no final do grande poema de Goethe, ele é redimido.


"Missa aqui, missa ali" — disse o Dr. Fausto. "Meu voto me prende totalmen­te. De modo frívolo, desprezei Deus, tomando-me perjuro e sem fé nele; acreditei e confiei mais no diabo do que Nele. Portanto, nem posso voltar para Ele nem ter qualquer consolo de Sua graça, que perdi. Além disso, não seria honesto nem redundaria em minha honra dizer que violei meu voto e meu selo, que fiz com meu próprio sangue. O diabo cumpriu com honestidade a promessa que me fez, portanto vou cumprir com honestidade o voto que fiz e contratei com ele.."114
Assim, de acordo com a biografia medieval (que é mais parecida com ficção biográfica), falou o verdadeiro Dr. Fausto, uma figura apagada e pouco imponente, que perdeu a vida numa demonstração de vôo e que volta à tradição do feiticeiro Simon Magus do Acts VIII. Marlowe, em seu drama, ficou mais próximo da lenda do Dr. Fausto corrupto e tolo, mas Goethe, que tinha Escorpião no ascendente e enxergou mais fundo, transformou-a num relato da jornada da alma da escuridão para Deus. Goethe enfocou o egoísmo e a inquieta procura do po­der como o grande defeito de Fausto, mas infundiu no personagem toda a grandeza manchada do anjo caído, Lúcifer. Esse egoísmo abre as portas para Mefistófeles, o espírito da negação. Em vez de ser muito quente e inflamado pela pai­xão, esse diabo reptilário é frio, tão frio que faz murchar tudo que é jovem e inocente. Na introdução à tradução de Fausto, Philip Wayne escreve:
Talvez seja um dito fácil, mas tem sua profundidade, o cinismo é o único pecado. Esse diabo de Goethe precisa ser conhecido para ser apreciado. É o retrato de Satã mais convincente do mundo, e o cinismo, a zombaria, a negação são a tônica de seu intelecto... É mais moderno do que ontem. A datilógrafa de hoje o encontra quando descobre, com secreto ressentimento, que no escritório qualquer palavra de aspiração é imediatamente deturpada, com

um sorriso, e transformada em obscenidade. Parece que Satã atua no presente com um título antigo; pois a velha palavra diabolos, no fim das contas, antes de nossa história, tem a mesma origem de balística e significa, aproxi­madamente, "o que faz acusações injuriosas".115


A atitude de negação cínica é um tormento para muitos escorpianos. Muitas vezes fica por baixo de uma superfície mais otimista, e a pessoa só conhece o próprio negativismo destrutivo através de seus inadvertidos efeitos sobre a vida. É unia espécie de depressão ou apatia, uma convicção de que, em última análise, nada vai funcionar; e muitas vezes deriva do desespero da infância e da típica sensibilidade ao lado negro da psique que a pessoa de Escorpião possui, quando bem jovem. Fausto acaba fazendo uma barganha com Mefistófeles: o Diabo po­derá ficar com sua alma se ele tentar deter a vida e se agarrar ao momento pre­sente, em vez de permitir a mudança e o fluxo. Talvez isso esteja associado à fixidez de Escorpião que, devido à amargura e negativismo, pode muitas vezes ten­tar possuir algo bom ou agradável em vez de deixar que a vida flua através dele; no momento da posse, a felicidade é perdida. A fama de ciúme e possessividade que Escorpião tem, e que freqüentemente funciona como um mau destino nos relacionamentos, revela assim ter raízes muito mais complexas. Fausto coloca-o dessa forma a Mefistófeles:
Se eu disser à hora efêmera

"Fica, és tão bela, ficar"

Prende-me com tua corrente fatal, Pois nesse dia vou morrer.116
No final do poema, Fausto quase pronuncia essas palavras fatais. Mas o seu inquieto espírito lutador o livra de cair nessa armadilha. Embora suje as mãos na corrupção e na escuridão, esse é um aspecto necessário de sua saga, não apenas para ter poder, mas também iluminação e amor. Portanto, muita coisa lhe é perdoada. No desfecho, os Anjos, pairando acima na atmosfera e levando para o céu tudo que é imortal em Fausto, proclamam:

Está salvo nosso espírito-irmão, em paz, preservado da intriga do mal;

Pois nós redimiremos



Aquele que nunca cessa de lutar." Se, tocada pelo amor celestial,

Sua alma tem o fermento sagrado Vem saudá-lo, lá de cima,

Os amigos do Céu. 117
A díade de Fausto e Mefistófeles parece-me um vivo retrato de um conflito inerente a Escorpião que, apesar de sua suscetibilidade ao orgulho e egoísmo, cinismo¬ e sede de poder, não deixa de aspirar a uma experiência do amor que é, em última análise, sua redenção. Não importa o que possamos sentir sobre Fausto

— ê uma das maiores e mais complexas criações literárias, pois personifica um dilema humano arquetípico. Na Parte Dois do poema de Goethe, ele passa por um opus alquímico, através do ar, água, fogo e terra, descendo ao misterioso mundo das Mies e finalmente subindo novamente ao céu; durante toda a jornada de queima e de purificação, nunca abandona sua luta lastimosa.

Jung ficou fascinado pela figura de Fausto. Via nele a personificação de um problema inerente à cultura ocidental, o difícil e espinhoso caminho de trilhar na corda bamba entre uma renúncia à vida, nascida do amargo cinismo sobre as possibilidades do mundo, e uma identificação demasiado grande e abandono ao reino da gratificação material. Como Fausto é tanto um homem espiritual como sensual, é vítima das armadilhas dos dois: a aversão pela humanidade, por um lado, e a rejeição de Deus por outro lado. Jung assim descreve sua complexa personalidade:
O anseio de Fausto torna-se sua ruína. Seu anseio pelo outro mundo trouxe em seu rastro uma aversão pela vida, de modo que ele estava à beira da autodestruição. É seu anseio igualmente pertinaz pelas belezas do mundo precipitaram-no em reiterada ruína, dúvida e miséria, culminando com a tragédia da morte de Gretchen. Seu erro foi ter feito o pior dos dois mundos, seguindo cegamente o impulso de sua libido, como um homem tomado por paixões fortes e violentas.118

Nessa descrição imagino poder ver muito do daimon de Escorpião, que impulsiona violentamente para cima e para baixo mas que, como a imagem mais primitiva da luta com o dragão, precisa confrontar e finalmente aprender a viver com essa imagem vital e assustadora da vida instintiva, da qual a Górgona e a Hidra são fa­ces negativas. As elevadas aspirações de Escorpião, que, como ressalta Jung, podem levar à aversão pela vida, é sua poderosa sensualidade, desejosa de submergir no mundo, são parceiros de cama extremamente incompatíveis. Entretanto, derivam no mesmo cerne misterioso, metade sexualidade e metade espiritualidade, que conduz Fausto em sua longa jornada. A difícil combinação do erotismo espiritualizado e da espiritualidade erotizada é uma tarefa difícil para Escorpião. Não é de surpreender que tantos escorpianos pareçam reprimir ou sublimar um dos dois, desesperados porque não há reconciliação possível. Fausto aceitou os dois até o fim, embora tenha "feito o pior dos dois mundos", e permanece como uma figura de dignidade em potencial e de redenção.


SAGITÁRIO
Nada mais certo que as incertezas;

O destino está cheio de novidades: Só é constante na inconstância.

Richard Barnfield, The Shepherd's Content

Antes de explorarmos a figura do Centauro, que representa a constelação de Sagitário, precisamos considerar Júpiter, o regente planetário do signo, cujo nome

grego é Zeus. Já o encontramos várias vezes, principalmente com relação ao signo de Áries, mas Zeus tem uma "história de vida" notavelmente bem documentada e, como Afrodite, é um dos mais vitais e vibrantes dos deuses.

Alguns aspectos de Zeus-Júpiter já ficaram evidentes no divertido relato de Robert Graves da história da Criação do Mundo. O principal deles é a natureza competitiva, conquistadora, bombástica dessa divindade ultramasculina. Embora essas qualidades sejam tradicionalmente associadas a Áries, eu as tenho visto com freqüência não menor em Sagitário, que não é tifo bonachão e pacato como aparece na tradição astrológica popular. Zeus, embora criado por Réia e exercendo o poder por consentimento dela, está determinado a apagar todos os traços de sua dependência do feminino. Entretanto seu intento nunca é realmente conseguido, pois seu casamento com Hera, a rainha dos deuses, prende-o mais uma vez a seu lado feminino. Mas seu fracasso não se deve à falta de tentativas. As histórias de Zeus e suas concubinas e seu turbulento casamento com sua irmã­-mãe-noiva revelam personalidade altamente individualista desse poderoso deus que não é tão "macho" quanto parece.
Zeus não chegou ao poder simplesmente por meio de sua vitória sobre os titãs; vitória devida, com efeito, a Mãe Gaia (Réia) e alguns de seus filhos. Seu domínio baseou-se muito mais em casamento e alianças com as filhas e netas de Gaia.119

Zeus é o pai dos deuses e dos homens. Já vimos que seu nome, djeus, significa "a luz do céu", de modo que ele é o daimon da iluminação e do esclarecimento. Quando surge conto o vitorioso rei dos deuses, derrubando o governo dos titãs terrenos e estabelecendo seu domínio celestial, reflete o surgimento, na consciência coletiva, de um princípio espiritual, maior que Moira. Portanto, é oportuno que Sagitário siga Escorpião, porque Zeus personifica o que pertence ao espírito eterno, e não à carne mortal. É chamado de deus da Chuva, o Originador, o Aguadeiro, o Pai, o Rei e o Salvador. Oferece a luz do espírito, ao contrário da vida condenada e predestinada do corpo, presa nas garras viciosas da Necessidade. Esta, no meu entender, é a visão básica de Sagitário — a incessante procura de um espírito que transcenda o destino e a morte.


Em vista do mistério que envolve a "condenação" e sua consumação — isto é, a intersecção entre os círculos dos deuses e do destino — é concebível que, quanto maior a divindade, mais facilmente pode colocar-se no mesmo nível da escura Necessidade, ou até suplantá-la. Quando Agamenon fala de sua ce­gueira predestinada, indica Zeus antes de Moira. Mas quando se pensa em "de­creto de Zeus" ou "deuses", a imaginação salta do destino sombrio para o plano e conselho Inteligentes.120
Assim como Sagitário surge das emanações do "destino sombrio" e do choque com o inferno, personificado por Escorpião, também Zeus surge do domínio da Mãe ctônica e assume a regência sobre deuses e homens. Da melancolia do reino "das Mães", em Fausto, onde a mortalidade e a impotência do homem, seu quinhão do destino familiar e sua parte no mal coletivo do identificados e aceitos,

surge a brilhante aspiração que forma o cerne de todos os rituais religiosos: a promessa do espírito imortal e sua bondade, à espera no amplexo do Bom Pai.


Os deuses que agora governam a vida como guias e idéias já não pertencem à terra e sim ao éter; por isso, dos três reinos e seus deuses... só permanece um como lugar de perfeição divina, o reino de luz de Zeus.121
Essa é a descrição que Walter Otto faz de Zeus, divindade muito mais cômoda do que Moira – embora imprevisível – e muito mais próxima do Deus do nos­so plano judeu-cristão.

Mas Zeus não é inteiramente livre, nem está inteiramente no comando. Pode ter substituído Moira, como Ésquilo acreditava, mas seu casamento com Hera é um espinho eterno em seu lado divino. Esse contrato de casamento – sempre enfatizado como contrato, um vínculo de união e permanente, como os símbolos rúnias do contrato gravado na lança de Wotan no Ring de Wagner – liga-o eternamente ao mundo feminino da forma. Diferentemente da divindade judaico-cristã, Zeus não pode fugir da esposa. Hera é tanto esposa como irmã, e Kere­nyi enfatiza a importância de seu status: ela e Zeus representam um casamento de iguais. Estão constantemente empenhados em discussões conjugais, como a que vimos envolvendo o profeta Tirésias; aparentemente essa disputa é um tema próprio do padrão de vida de Sagitário. Zeus está sempre correndo atrás de outras mulheres. A lista de suas amantes e seus filhos ilegítimos enche volumes. Hera está sempre frustrando-o, espionando-o, perseguindo suas rivais, estragando seus idílios românticos, tentando eliminar ou enlouquecer os seus filhos bastardos. Os dois travam uma batalha eterna mas ficam eternamente casados, uma imagem do espírito criador de fogo preso ao mundo da forma, dos laços e compromissos humanos, da moralidade, da "decência" e da responsabilidade munda­na, que faz parte da natureza de Sagitário tanto quanto a desenfreada promiscui­dade representada por Zeus.

Portanto, não é surpreendente que tantos sagitarianos se joguem de cabeça no destino de um casamento como o de Zeus e Hera. O sagitariano dos manuais evi­ta o casamento porque se sente preso por regras demais e expectativas rígidas. Não gosta de ser "amarrado", prefere ser "espontâneo", ou seja, acha desagradáveis as conseqüências de seus atos e prefere evitá-las. Mas, de acordo com a minha experiência, há uma espécie de destino atuando no caso desses centauros, homens ou mulheres, que se casam tarde. Mais cedo ou mais tarde, tendem a encontrar suas Heras. É claro que pode não ser um cônjuge; pode ser um emprego, uma causa à qual a pessoa se sente vinculada, ou uma casa, ou algum outro objeto do mundo exterior. Numa das versões da saga Zeus-Hera, ela, cujo nome significa simplesmente "a amante", usou um encantamento de amor – um cinto mágico – para seduzi-lo. Irmão e irmã foram escondidos para o leito conjugal, embaixo do oceano, para evitar a vingança de seu pai, Crono. Essa sedução pelo cinto mágico, que parece tão tentador, tende a ser uma armadilha para Sagitário, cuja inclinação, apesar da aparente mundanidade e da natureza amante da liberdade, é conservar uma notável ingenuidade sobre as motivações dos outros. Fre­qüentemente, a armadilha em que ele (ou eia) cai é uma gravidez. Entretanto, sem Hera, Zeus não seria nada. Como Kerenyi ressalta, ele deve a maior parte

de seu poder a ela e suas parentas; o atrito e a tensão causados pela união inviolável do casamento fazem mais do que levá-lo a constantes casos amorosos ilícitos. Também o mantêm vivo e vigoroso. Sem o atrito, ele se tornaria relaxado e preguiçoso, qualidades que ostenta em muitas histórias – é duvidoso que perseguisse seus amores com tanto entusiasmo se não fossem proibidos.


"Não faço caso da sua raiva; se você fugisse para o ponto mais longínquo da terra ou do mar, onde moram Iapetos e Crono, sem luz do Sol ou sopro de vento; se você viajasse longe assim na sua peregrinação, eu não faria caso da

sua raiva ".122


diz Zeus a Hera em Homero, porque uma das formas que ela usava para retaliar as infidelidades dele – bem à maneira de suas contrapartes humanas – era abandoná-lo e sair em repetidas viagens, que sempre terminam com a volta e a reconci­liação. Entretanto, apesar de Homero descrevê-lo como um valente, ele efetivamente faz caso da raiva dela – tem necessidade crônica de reafirmar sua condição masculina.

Zeus deitou-se com Eurínome, filha de Oceanos, e gerou nela as três Carites ou Graças. Charis, de acordo com Kerenyi, é a palavra que deu origem a chairein, "rejubilar-se"; e também à nossa palavra "caridade". É o oposto de erinus e Erínias, que personificam o ódio, a vingança e a raiva da Mãe. Aqui a progênie de Zeus fornece um contraponto ao inferno dominado pela Mãe, pois "rejubilar-se" significa estar além dos confins da sombra de Moira. Zeus também acasalou-se com Temia, uma titã, de onde nasceram as Horas. Seus nomes são Eunômia ("ordem legal"), Diquê ("justa retribuição") e Irene ("paz"). Assim, sua luta pa­ra se libertar de Hera gera muitas das qualidades que tradicionalmente associamos a Sagitário; e, o que talvez seja mais importante, nasce um reino de justiça, uma alternativa à vingança impiedosa da Natureza e da Necessidade, de Nêmesis e Moira.

Outra concubina de Zeus foi Mnemósina, que significa "memória", gerando as nove Musas, as portadoras da cultura. O mais estranho de seus amores foi a própria deusa Necessidade. Aqui temos a união de Zeus e Moira. Wotan também faz isso com a profética deusa da terra, Erda, gerando as Valquírias. De acordo com a lenda, Zeus perseguiu Necessidade por terra e mar. Ela assumiu muitas formas para escapar dele, e acabou transformando-se num ganso. Ele, por sua vez, transformou-se em cisne e copulou com ela. Do ovo que ela botou nasceu a famosa Helena, que já encontramos, e que ajudou a desencadear a guerra de Tróia. (Na versão mais comum dessa história, a mãe de Helena é Leda, rainha de Esparta.) Assim, pela conquista de Moira, Zeus lançou sobre a humanidade ou­tro tipo de destino: a beleza fatal, a atração fatal. O destino de morte de Moira pode ser rompido pela iluminação do espírito, mas ela se vinga através do poder fatal da atração sexual.

A lista de mortais que Zeus seduziu ou perseguiu é infindável. Com Dânae, ge­rou o herói Perseu, com Sêmele, o deus Dioniso; com Europa, o rei Minos de Creta; com Deméter, sua deusa irmã, a virgem Perséfone; e assim por diante. O que acredito ser a questão principal em tudo isso é sua interminável fertilidade, sua criatividade sem fronteiras, sua inquietação e sua inconstância, e sua inventividade

proteana. Essas são suas características, mas Hera é o seu destino.

Podemos agora passar para a curiosa figura de Cheiron ou Quíron, o centauro, cuja imagem forma a constelação de Sagitário. Existem duas histórias sobre sua origem. Numa delas, Íxion, um mortal, contemplou a deusa Hera e cobiçou-a. Como esposa submissa, e também porque queria provocar ciúmes no marido, ela contou o fato a Zeus que, para descobrira verdade, esculpiu a imagem de sua esposa numa nuvem, chamando-a Néfele. Íxion, iludido, abraçou a nuvem e ge­rou nela um filho meio-homem, meio-cavalo. Esse filho, algumas vezes chamado Kentauros, acasalou-se com as éguas do monte Pelion e gerou uma raça de cen­tauros, os selvagens habitantes da floresta, com a parte inferior de cavalo e a parte superior de homem. Quíron era um deles. Ás vezes ele é representado como a criança-cavalo.

A segunda história do nascimento do centauro faz dele o filho de Crono-Saturno, e portanto meio-irmão de Zeus. Crono, certa vez, deitou-se com Fibra, filha de Oceanos, e foi surpreendido no ato por sua esposa Réia. Imediatamente transformou-se num garanhão e saiu a galope, fazendo com que Filira gerasse um filho meio-homem e meio-cavalo, o centauro Quíron. Sentindo repugnância pelo monstro que devia amamentar, Filira rogou aos deuses que a libertassem, e foi transformada numa tília.

Considerando qualquer uma das histórias, Quíron é um filho da terra, por um mortal ou titã, e não um olímpico. Era conhecido como o mais sábio e mais justo dos centauros. Sua fama de curador, de erudito e de profeta espalhou-se por toda parte. Mas ele é uma divindade ctônica, pertencente ao grupo de tutores fálicos ou meio-animais dos deuses, que simbolizam a sabedoria da natureza e do próprio corpo. Quíron tornou-se rei dos Centauros, e numa caverna embaixo do pico do monte Pelion, criou heróis e filhos de deuses. Entre esses, sobressaía. se Asclépio, o curador semidivino, a quem o centauro ensinou as artes médicas.


Numa velha pintura de vaso, ele aparece num traje coberto de estrelas, com uma árvore arrancada no ombro, carregando os espólios da caçada e com o cão ao seu lado: um caçador selvagem, um deus escuro. 123
Esse "caçador e deus escuro" tem um destino trágico. Como Zeus, cai numa armadilha, e é seu corpo que é apanhado. Quando hospedava Héracles no monte Pelionna, na época em que o herói tentava capturar o Javali de Erimanto, foi ferido, acidentalmente, por uma das flechas de Héracles — no joelho, no pé ou na coxa, dependendo da versão do mito, mas de qualquer forma na sua parte de cavalo. Essas flechas estavam embebidas do sangue da Hidra, que o herói tinha matado, e que encontramos há algumas páginas atrás; seu veneno era mortal. Angustiado pelo acidente com seu velho amigo, Héracles arrancou a flecha e o próprio Quíron aplicou os medicamentos para tratar do ferimento. Mas de nada adiantaram, e o centauro, uivando de agonia, recolheu-se a sua caverna. Não podia morrer, pois era imortal; mas não podia viver, porque não havia antídoto para o veneno da Hidra, e sua angústia não podia ser aliviada. Muito mais tarde, quando Prometeu roubou o fogo e foi punido por Zeus, e depois libertado por Héracles, Zeus exigiu um substituto para Prometeu, um imortal que fosse ao inferno e sofresse a morte em seu lugar. Esse imortal foi Quíron, e o inventor da

arte da cura assumiu a morte do benéfico titã Prometeu, que levou o fogo ao homem.

Essa é uma história triste, com um fim ainda mais triste. Dificilmente a nobre e amável figura do sábio centauro merece um destino desses. Entretanto, a imagem do Quíron sofrendo por causa do ferimento incurável, de certa forma harmoniza-se, como sombra e luz, com a imperial e insaciável figura de Zeus, rei dos deuses e dos homens. Talvez onde há muita luz precise haver escuridão. O ferimento fica na parte animal do centauro, em sua perna, a parte que usamos para nos apoiar, ou assumir uma postura, no mundo material. Quíron faz parte de uma longa lista de deuses aleijados feridos no pé ou, em outras palavras, em seu relacionamento com a realidade física. Toda a sua sabedoria não pode ajudá-lo, porque o veneno da Hidra é o veneno incurável do lado sombrio da vida. Minha impressão é que essa tristeza e essa ferida são parte integrante de Sagitário, constituindo uma espécie de depressão ou desespero por baixo da superfície brilhante e otimista do signo. Creio que é por isso que os sagitarianos às vezes são tão maníacos no esforço enérgico que fazem para ser felizes e divertidos. Zeus cria o trovão e o raio no céu, e não existe signo mais positivo ou mais rijo. Porém escondido na caverna, está o centauro sofredor, capaz de curar e dar sábios conselhos proféticos para os males de todos, exceto para os seus, envenenado pelo choque entre sua natureza benigna e a escuridão e o veneno do mundo.

Talvez devido a essa ferida, e não a despeito dela, Sagitário seja capaz de ofe­recer esperança e otimismo a si mesmo e aos outros. Esse signo não se sente multo à vontade no corpo; nem se sente à vontade com as limitações e as exigências mundanas da vida. O caráter de Sagitário é realmente o de Zeus. Sua direção é para cima, seguindo o vôo da flecha do arqueiro, e o senso de que a vida tem um significado e a bondade de espírito são os fatores que os outros mais facilmente percebem e apreciam. Mas, às vezes, existe fanatismo na entusiástica pregação do evangelho de Sagitário, e fanatismo em geral está intimamente associado a profundas dúvidas internas. Tenho constatado que às vezes existe profunda amargura e mágoa rondando lá embaixo, que são, em certo sentido, incuráveis: isto é, o fato psíquico é que gera grande parte da aspiração de Sagitário e proporciona o ímpeto de seu vôo para cima. São incuráveis porque o homem não pode ser um deus. Assim, não se pode dizer que essa depressão ou ferida sejam "más", porque são, de muitas formas, o aspecto mais criativo do signo. Dito de outra forma, é o sofrimento do animal no homem, que não pode voar tão alto, que é mudo, e que está preso às leis da natureza. Essa é a parte que ficou da batalha de Escorpião, o veneno que permaneceu. Se Sagitário agüentar encarar essa ferida, ela o fortalecerá incomensuravelmente, porque, não visando tão alto, poderá usar seus dons para produzir de forma mais prática e significativa. O auto-sacrifício de Quíron também é importante, pois ele oferece sua vida em favor de Prometeu e toma seu lugar no inferno, como consentimento de Zeus. Seus dons, da magia da terra, ficam assim perdidos para os homens; mas o dom do fogo, dado por Prometeu, torna-se aceitável e deixa de ser um pecado. Não estou certa sobre o possível significado disso, mas me sugere o tema de um sacrifício da intuição mágica e da "sorte", que acompanham Sagitário tão freqüentemente na primeira parte da vida, e que precisam dar lugar a uma adaptação mais consciente ao mundo.

Zeus é o daimon que preside Sagitário, mas o mito de Quíron pende no fundo, constituindo o inferno sombrio do signo. Uma vez conheci um sagitariano que me disse que tinha um ferimento real: tinha sofrido um acidente logo depois do casamento, com vinte e poucos anos, quando caiu num lance de escadas. Entrou uma lasca na sua coxa e a ferida nunca cicatrizou. Apesar dos melhores cuidados médicos e de séries de vários antibióticos, a infecção continuou com uma leve supuração, provocando uma dor razoável. A presença constante de um problema físico, mesmo não sendo grave a ponto de prejudicar sua vida pessoal ou profissional, foi suficiente para acalmá-lo e tomá-lo mais pensativo, pois um problema desses no corpo dá uma sensação estranha e autônoma — como se viesse de "algum outro lugar" e tivesse uma mente própria. Aconteceu de ele me ouvir falar sobre o mito de Quíron num seminário, achando perturbador e espantoso que sua vida se encaixasse tão exatamente no mito. Também achei o fato perturbador, mas não espantoso, porque já vi outras encenações literais de mitos. É sempre um pouco assustador quando o mundo das imagens arquetípicas se encarna de forma tão evidente. Em geral somos mais velados na maneira de exteriorizar os contos antigos. É preciso perguntar qual pode ser o significado de uma coisa dessas. Talvez, para esse homem, só algo tangível e incômodo como uma doença física tivesse o poder de dirigir para dentro seu espírito em geral expansivo e inquieto, no sentido de examinar questões sérias como a razão de sua vida, ou o significado mais profundo de seu casamento, o que coincidiu com o ferimento.

Mas é exatamente para aí que leva o ferimento de Quíron, Como tudo o mais no mito, pode ser entendido ideologicamente. A ferida aponta para cima, para Zeus e para a vida eterna do espírito; e também aponta para baixo, para a vida igualmente divina do corpo, a quem cabe agüentar uma alma tão fogosa e, conseqüentemente, sofre. Como o magnum miraculum do Corpus Hermeticum, Sagitário é uma criatura merecedora de dignidade e de honra, em parte daimon e em parte deus, em parte animal e em parte imortal, que volta os olhos para sua metade imortal e depois precisa pagar o preço devido — cuidar do corpo sofredor que ignorou por tanto tempo.

CAPRICÓRNIO
Não sabeis que me convém tratar dos negócios do meu Pai?

S. Lucas II 49
Já vimos, nos signos precedentes, como os mitos são não apenas imagens de padrões de vida, mas também modos de percepção que colorem a maneira como a pessoa vê e experimenta sua vida. Portanto, eles aparecem, por dentro e por fora, como qualidades da alma e acontecimentos externos. Para Escorpião, a vida focaliza-se na batalha com o monstro-serpente, ou com o diabo; para Sagitário, no vôo para cima, da carne sofredora para os braços do espírito eterno. Para Capricórnio, cuja conhecida cabra é um dos mais antigos símbolos de luxúria, de cobiça e de fertilidade, o daimon inicia uma nova volta para baixo e

o espírito, revigorado pela revelação da "luz do céu", prepara-se para ser iniciado na servidão em nome do Pai.

Tanto em Homem como em Hesíodo, dois titãs detêm o poder do planeta Saturno: Crono e Réia. São deuses da terra, gerados em Gaia por Urano, o pai do céu. Este, sentindo repulsa pela feiúra dos filhos, baniu-os para o Tártaro. Caia persuadiu os filhos a atacarem o pai e armou o mais novo dos sete, Crono, de uma foice de sílex, símbolo da lua e do poder da deusa. Crono agarrou os genitais do pai com a mão esquerda e cortou-os, jogando-os no mar. Os pingos de sangue que escorreram da ferida caíram sobre Gaia, a terra, que assim gerou as Erínias. Essa história contém um conflito muito diferente das altercações entre Zeus e Hera, mas já encontramos facetas dele em Áries: o confronto entre pai e filho.

O tema do sacrifício do velho rei, para assegurar a fertilidade das colheitas, é um motivo antigo, que associo especialmente ao signo de Capricórnio. O rei precisa morrer, o novo rei precisa nascer, os dois precisam lutar e, na morte, revelarem-se um só. Em Áries, o filho encontra o pai como um deus de fogo, cuja fúria ciumenta compromete a humanidade nascente. Em Leão, o filho encontra o pai como um espírito doente, cuja ferida precisa ser redimida pela consciência. Em Capricórnio, o pai é a própria terra, o princípio da realidade. A alquimia tomou esse motivo do velho rei e o retratou descendo às profundezas do mar, onde se acasala com a mãe ou irmã, é esquartejado e renasce do ventre de sua consorte, como o jovem rei. O velho rei Crono come os filhos para se proteger da ameaça deles, sabendo muito bem que pode ter o mesmo destino do pai; o filho oculto rebela-se, assim como ele mesmo o fez — história tão inevitável como o próprio destino. A natureza terrena de Crono, como titã, relaciona-o prontamente à Terra Mãe. Gaia e Réia são a mesma deusa, representando a fertilidade da terra. Crono não ê um princípio masculino independente, e sim o lado masculino do princípio gerador, presidido pela Mãe. Seus primos, Pã e Priapo, são imagens fálicas da fertilidade da natureza. Crono e sua foice são, de acordo com Graves, símbolos associados ao sacrifício ritual do rei: a foice segura por Saturno, contrapartida romana de Crono, tinha a forma do bico de um corvo (a palavra Kronos significa "tempo" e "corvo"), e acreditava-se que o corvo abrigasse a alma do rei sagrado depois do sacrifício. Essa foice ritual dava o sinal para que os mortos fertilizassem a terra e renovassem as colheitas. Crono era adorado em Atenas como o deus da cevada Sabázio, e todo ano era cortado no campo de plantio e lamentado, como Osíris. Ele é tanto o velho como o jovem rei, pois o mesmo que faz ao pai é feito a ele. Essa dualidade e unidade de pai e filho, sena e puer, é um dos motivos míticos dominantes de Capricórnio.

O antigo símbolo do sacrifício do rei também é mais recente do que se possa pensar, pois está presente na figura de Cristo, o filho de Deus e rei dos judeus. Nasceu (como todos os reis redentores sacrificais) no solstício de inver­no, data de nascimento que tem em comum com Mithras, Tammuz, Adônis e até com o rei Arthur. Essa é a época do ano em que o sol está mais fraco e o mundo está mais escuro. A terra jaz desolada, as pessoas anseiam pela redenção; esterilidade e morte estão por toda a parte, e igualmente na alma dos homens. T. S. Eliot, em The Wasteland, dá uma linda visão disso:

Que raízes prendem, que galhos crescem

Desse entulho de pedras? Filho do homem,

Você não pode dizer, nem adivinhar, pois só conhece

Um punhado de imagens quebradas, onde bate o sol,

E a árvore morta não dá abrigo, o escabelo nenhum descanso,

E a pedra seca nem sinal de água. 124

Já encontramos essa terra em ruínas na história de Parsifal e do Graal; mas enquanto Parsifal é a versão de Leão, a de Capricórnio é a versão do próprio rei do Graal doente. Como Átis, Cristo, o filho de Deus, é pregado à cruz: a madeira da matéria, a mãe, a vida material. É uma imagem que tem semelhança, como o sabia Fraser em The Golden Bough, com o sacrifício anual do rei, esquartejado e lavrado na terra para renovar as colheitas. Mas o esquartejamento ritual da Eucaristia renova o espírito, e há muito deixou para trás o protótipo cuja intenção era renovar a natureza. O tema da terra arruinada e da longa espe­ra pelo redentor, em meio à depressão, desespero e estagnação é um padrão demasiado comum na vida das pessoas nascidas sob Capricórnio, mesmo dos que conseguiram o sucesso material, que se acredita ser um empenho tão grande deste signo.

Pode-se ver a encenação do mito de formas aparentemente comuns. A opressiva incorporação da responsabilidade indesejada, tão característica do rito de passagem de Capricórnio, parece refletir essa crucificação na matéria. Prisão, limitação e servidão pertencem à primeira parte da vida de Capricórnio, quer isso signifique trabalhar no negócio do pai ou casar com uma mulher que se engravidou, ou qualquer uma das milhares de obrigações que escravizam sem esperança de liberação. Muitas vezes Capricórnio assume de bom grado essa servidão, mesmo que haja outras alternativas. Ë como ;e procurasse e desse as boas-vindas a esse destino, por motivos obscuros e muitas vezes inconscientes. Também conheci muitos capricornianos que adiam tanto quanto possível essa hora de ajuste de contas, vivendo quase totalmente o puer ou puella, temendo o sofrimento da servidão e igualmente dominados por ela, na rebelião ou na aceitação. Mas o destino de Capricórnio não é o de Sagitário. Os braços do Pai não se abrem para receber esse filho pródigo, a menos que ele tenha pago em dinheiro sólido, pois esse Pai não vive no céu, e sim na própria terra. O filho precisa descer e retroceder para ser preso à cruz da experiência mundana. A crise do desespero e da fé perdida também pertence a Capricórnio, o grito de Cristo na cruz: "Pai, por que me abandonaste?"

O tema mítico da reunião com o pai mereceu a eloqüência de Joseph Campbell em The Hero With a Thousand Faces. Parece que Capricórnio quase sempre acha que o pai pessoal é um desapontamento, assim como Leão, pois o Pai que procura é nada menos que divino. Mas a fúria desse pai é unia questão de profundo significado para Capricórnio. Saturno é o Pai Terrível Terreno, e sua face devoradora e destrutiva, seu ciúme, sua paranóia e sua sede de poder provocam a experiência de culpa e pecado para parecer estar tão imbuída na psi­cologia de Capricórnio.

O aspecto de ogro do pai é um reflexo do próprio ego da vítima — derivado do jardim de infância dos sentidos que se deixou para trás, mas que se projeta à frente; a idolatria fixadora dessa não coisa pedagógica é, em si mesma, o erro que mantém a pessoa rigidamente num senso de pecado, cegando o espírito potencialmente adulto para uma visão mais equilibrada e mais realista do pai, e por conseqüência do mundo. A reunião consiste apenas no abandono desse duplo monstro autogerado — o dragão que se acredita ser Deus (superego) e o dragão que se acredita ser Pecado (Id reprimido) ... É preciso crer que o pai é piedoso, e em seguida confiar nessa piedade. 125

Entendo que, com isso, Campbell esteja dizendo que a polaridade pai-filho, o Doador da lei vingativo, cujas regras de vida rígidas e estruturadas se chocam com os desejos do filho, do tipo da cabra, lascivos e libidinosos, que essa polaridade existe dentro da mesma pessoa. Moralidade e vergonha, lei e falta de lei, parecem abranger alguns dos opostos polares de Capricórnio. O filho precisa encarar a punição do pai, para descobrir que o pai está dentro dele; e o pai, o velho rei, precisa encarar a rebelião do filho, para descobrir que é seu próprio espírito jovem, que ele acreditava ter superado há muito tempo. A iniciação do filho pelo pai é uma experiência interior que, aparentemente como se fosse um destino, muitas vezes é negada a Capricórnio no relacionamento parental real — portanto, é preciso que ele a busque dentro de si num nível mais profundo. Ao fazer essa descrição, como sempre, não estou falando só dos homens, pois essa constelação pai-filho pertence tanto às mulheres, em termos de sua capacidade de eficiência e de auto-suficiência no mundo, como aos homens.


Quando o filho supera o popular idílio do seio da mãe e volta-se para o mundo da ação adulta especializada, ele passa, espiritualmente, para a esfera do pai — que se torna, para o filho (ou filha) o signo de sua futura tarefa .. Quer ele saiba disso ou não, e qualquer que seja sua posição na sociedade, o pai é o sacerdote iniciador que introduz o jovem ser no mundo maior. 126

Esse rito de iniciação, com sua revelação do pai primeiro como ogro e perseguidor, a exigência da aceitação das "regras" e condições do mundo, e a visão final de um Pai misericordioso e de uma alma imortal, parece ser o caminho saturnino arquetípico. O jovem ou a jovem não desejam obedecer as condições ou fazer os preparativos necessários; tudo precisa ser feito agora, precisa acontecer agora, por que esperar? Essa é a qualidade do puer, para o qual tudo precisa ser instantâneo e espontâneo. Mas a iniciação de Capricórnio não se ganha pela infantilidade. Esse ritual é oferecido, no nível mais profundo, a qualquer pessoa que passe um trânsito ou progressão envolvendo Saturno; para Capricórnio, repete-se seguidamente na vida, pois tudo que é digno de ser possuído precisa ser atingido pelo caminho que se desdobra alem do trono do Pai.


Venha, ó Ditirambo,

Entre aqui, no meu ventre masculino,

grita Zeus para Dioniso, seu filho, na Bacchae de Eurípides; a entrada no mundo do Pai e a separação da Mãe formam o leitmotiv da passagem de Capricórnio pela vida. Muitas vezes a manifestação desse movimento ocorre na área do trabalho: a dedicação a uma vocação e a uma vida mundana. A aceitação da responsabilidade e da limitação terrenas também é o processo de passagem de filho para pai, de menino para homem, de espírito sem alicerces a uma ativa contribuição na encarnação. Essa encarnação também envolve um senso de comunidade, unia espécie de serviço; um dos mais difíceis aspectos da descida é a participação na vida comunitária — que, para o puer, é irritante e ameaçadora, porque parece estragar o que ele tem de especial e único, e fere seu enfoque narcisista. Paradoxalmente, a "prisão" acarretada por um compromisso desses também é unia libertação. É a reunião com o Pai, sem a qual nenhuma fé autenticamente viva pode penetrar na vida. De outra forma, o espírito permanece como um ideal em algum lugar "lá em cima", e se despedaça ao passar pelo teste de desafio, conflito e fracasso. O fracasso é um aspecto necessário da jornada de Capricórnio, pois sua fé não tem sentido a menos que tenha passado pelo teste do desespero.

Abaixo está o sonho de um cliente capricorniano, um homem que pediu a interpretação de seu horóscopo no período em que Saturno, regente do seu signo solar, estava transitando em conjunção com Plutão pelo ascendente, no final de libra. Esse longo trânsito tinha-o pressionado de várias formas. Quando falei dos temas da prisão e da limitação, ele me contou o sonho.
Estou com minha mulher numa prisão. É um lugar estranho, porque as portas ficam abertas, temos liberdade de ir embora. Mas tenho a sensação de que aceitei voluntariamente a prisão. Uma guarda, uma mulher escura mais velha, fica do lado de fora da porta. Minha esposa não se sente à vontade com a porta fechada, mas acho que isso é necessário para mostrar que consentimos voluntariamente. Tranqüilizo-a, dizendo que a prisão não vai durar para sempre, mas precisamos suportá-la, por razões que no sonho são obscuras.
No começo do trânsito, meu cliente tinha sentido muita insatisfação com o emprego, o casamento, os filhos e o seu corpo físico. Tudo na sua vida parecia uma prisão. Ele era um homem de sucesso considerável na área jurídica, mas nunca sentiu que era "ele" de verdade; havia sempre alguma outra coisa que poderia ter sido melhor. Isso é característico do puer, que vive num estado perpetuamente provisório, onde o "real" é sempre mais tarde, nunca agora. Agora é só uma tentativa, portanto não merece um compromisso pleno. Meu cliente sempre tinha a sensação de "um dia, quando eu crescer", uma sensação de descontentamento, uma fantasia de maior fama e realizações, um relacionamento mais satisfatório "um dia". O jovem ainda não está preparado para tornar-se pai, porque teme a perda das possibilidades criativas e a destruição da fantasia de que ele é capaz de ser qualquer coisa. Assim, permanece jovem, embora meu cliente fosse, de fato, pai e bem entrado na meia-idade. Avançava em termos de idade, mas estava apenas começando a experimentar a iniciação interior de pai para filho, e a liberdade paradoxal da prisão voluntária.

Esse sonho sugere-me que meu cliente estava sofrendo uma mudança gradual,



no decorrer do trânsito de Saturno-Plutão sobre o ascendente, e que estava no limiar da compreensão de que o "real" era o que quer que estivesse em sua vida. No sentido mais profundo, esta é uma atitude religiosa, pois é uma aceitação do que se recebeu, unta decisão voluntária de tratar o que se recebeu com respeito e com toda atenção. O tema desse sonho, que me parece ser um acordo final com a vida como ela é, tem ressonância na novela de Mary Reunault, lhe King Must Die, onde o velho rei Piteu de Tróia diz para o jovem Teseu:
Preste atenção, e não se esqueça, pois vou mostrar-lhe um mistério. Não é o sacrifício, quer venha na juventude ou na velhice, pois o deus poderá devolvê-lo; não é o derramamento de sangue que invoca o poder. É o consentimento, Teseu. A prontidão é tudo. Limpe o coração e a mente das coisas que não importam, deixando-os abertos para deus. Mas uma limpeza não dura a vida toda; é preciso renová-la, senão a poeira volta a nos cobrir.127
O motivo da prisão e da crucificação voluntárias é como uma linha mestra percorrendo toda a vida de sonhos e de fantasias de Capricórnio. Parece que isso é verdade a despeito da convicção religiosa da pessoa, ou de seu sexo, visto que o relacionamento entre puer e senex, jovem e velho, pode ser igualmente relevan­te para a mulher cujo espírito criativo busca expressão na vida externa. O nascimento na carne, o senso de pecado diante do pai irado, o desespero, a prisão, a noite negra, o cinismo e a perda da fé, e o nascente senso de um princípio espiritual firme, ou código ético, com o qual, finalmente, seja possível compro. meter-se — tudo isso é a forma humana de encenação do mito do redentor que precisa morrer para renovar o velho rei. Se a vida não fornece experiências de fácil acesso para que Capricórnio faça seu rito de passagem, ele criará problemas para si mesmo. Não é de espantar que, entre a opção do caminho fácil e do caminho difícil, a Cabra quase sempre escolhe o difícil. Também não é de surpreender que só mais tarde na vida o menino jubiloso, finalmente contido pelo Pai, olhe através dos olhos do homem de meia-idade; ou a menina, cheia da alegria da juventude que ela provavelmente não teve na juventude real, sorria pelo rosto da mulher experiente. Essa fé conquistada a duras penas, posta em dúvida, perdida e novamente encontrada na escuridão, é o sustentáculo do capricorniano maduro que — homem ou mulher — é então capaz de, com graça, servir de pai para a geração seguinte.
Através da Igreja cristã (na mitologia da Queda e Redenção, Crucificação e Ressurreição, o "segundo nascimento" do batismo, o sopro iniciatório no rosto na confirmação, a ingestão simbólica da Carne e do Sangue) somos unidos de forma solene e às vezes efetiva com as imagens imortais do poder iniciatório; foi através da sua ação sacramental que o homem, desde o início de seus dias na terra, dissipou o terror de sua fenomenalidade e venceu todos os obstáculos, até a visão, totalmente transfiguradora, do ser imortal.128

Em termos psicológicos, o puer e o senex são personificados no mito, primeiro quando Saturno-Crono derrota o pai; depois quando se torna pai e devora os filhos para impedir que façam o mesmo com ele; e finalmente quando é derrotado

pelo jovem Zeus. Seja o senex o pai pessoal, um conjunto de rígidas normas éticas do superego dentro da pessoa, ou instituições e autoridades do mundo exterior, o daimon de Capricórnio parece conduzi-lo a esse ciclo, para que possa experimentar a dualidade dentro de si James Hillman, no livro Puer Papers, ci­ta de Picatrix, do século X, uma prece a Saturno:
Ó mestre de sublime nome e grande poder, supremo Mestre; Ó Mestre Satur­no: Tu, o Frio, o Estéril, o Lúgubre, o Pernicioso; Tu, cuja vida é sincera e cuja palavra é certa; Tu, o Sábio e Solitário, o Impenetrável; Tu, cujas promessas são cumpridas; Tu, que és fraco e cansado; Tu, que tens maiores cuidados que qualquer outro, e que não conheces nem o prazer nem a alegria; Tu, velho e astuto, mestre de todos os artifícios, enganoso, sábio e judicioso; Tu, que trazes a prosperidade ou a ruína, e tornas os homens felizes ou infelizes! Conjuro-Te, ó Pai Supremo, por Tua grande benevolência, e Teu generoso favor, a fazeres por mim o que peço, 129
Não é preciso dizer que essa prece é um monte de paradoxos e contradições. Hillman ressalta que na figura de Saturno o aspecto dualista é mais vividamente real do que em qualquer outra figura divina grega — ate mais do que em Hermes. O Pai Saturno é pernicioso e honrado, generoso e avarento, terrível e piedoso. O que ele não é, nessa prece, é jovem; pois a juventude em si é vivenciada no suplicante, e projetada do lado de fora. Hillman acha que a própria astrologia é uma arte saturnina, porque diz respeito aos limites e fronteiras dentro das quais a pessoa precisa se desenvolver:

Assim, as descrições de personalidade do senex dadas pela astrologia serão afirmações do senex pelo senex. É uma descrição que vem de dentro, uma autodestruição do estado de prisão e agrilhoamento da natureza humana, estabelecida dentro da privação de seus limites caracterológicos, e cuja sabedoria vem através do sofrimento provocado por esses limites. 130

Aceitar esses limites é, em certo sentido, fazer de pai e filho um só.

Gostaria agora de explorar a estranha cabra-peixe capricorniana, emblema astral do signo. A princípio, a história mítica associada a essa constelação parece desvinculada do tema da crucificação e da ressurreição do rei. De acordo com Graves, o peixe-cabra ou a cabra-peixe (dependendo de onde se queira colocar a ênfase) é Amaltéia, a ninfa-cabra que amamentou o jovem Zeus na Caverna Dicte quando sua mãe, Réia, o escondeu da fúria devoradora do pai, Crono. Isso é um paradoxo, que já encontramos em vários mitos. O próprio Crono é a Velha Cabra, o deus da fertilidade; no mito teutônico, assim como no grego, a cabra é associada à colheita dos grãos e à abundante cornucópia cheia dos frutos do inicio do inverno. Amaltéia é a cabra que presta socorro, que dá vida ao filho jovem e desamparado; Crono é a cabra destruidora, que vai comer o próprio filho. Assim, como no caso de Teseu e seu pai-touro, um só símbolo une todos os personagens.

Zeus ficou grato a Amaltéia por sua bondade e quando se tomou senhor do

universo colocou a sua imagem entre as estrelas, como Capricórnio. Também tomou emprestado um de seus chifres, que se tornou a Cornucópia ou Chifre da Abundância, sempre cheio de qualquer comida ou bebida que seu dono desejasse — uma espécie de Graal. Esse lado generoso de Saturno era adorado pelos romanos na Saturnália, que coincide com o nosso natal; em outras palavras, no mês de Saturno. O estranho acoplamento dos lados positivo e negativo da cabra, implícito nesse mito, parece sugerir, como com Teseu, que existe uma profunda conivência entre os aspectos sombrio e luminoso da mesma divindade. O Pai Terrível, que procura, secreta e inconscientemente. destruir o filho, também lhe oferece a salvação através do aspecto feminino do mesmo emblema, que ele próprio ostenta. Essa conivência secreta, encontrada no trabalho analítico, é bastante assustadora. Surge a ciência de que, apesar dos medos, resistências, sintomas e problemas da pessoa, existe algo — não importa a palavra que se escolha para definir esse algo — que tem um propósito secreto exatamente para esses sintomas e problemas, como se estivesse dividido contra si mesmo; entretanto, em algum nível muito oculto, está indiviso, trabalhando para a totalidade maior da pessoa. Esse princípio, causador do maior sofrimento de Capricórnio — o rígido, atormentado pela culpa, estreito, temeroso e paranóico velho rei — é o mesmo princípio que lhe proporciona resistência, determinação e visão do futuro para lutar contra os obstáculos, exatamente como no mito, onde uma das faces do daimon Crono tenta destruir, enquanto a outra face, Amaltéia, socorre e preserva.

É interessante, no contexto do simbolismo da cabra-peixe, descobrir que existe um mito associado a ela que é ainda mais antigo que o de Crono e Amaltéia. É a antiga figura de Ea, deus sumério da água, cujo símbolo é uma cabra com cauda de peixe. Esse deus Ea mais tarde tornou-se Oannes em grego, e o nome Oannes, por sua vez, tornou-se João; e assim chegamos à figura mítica de João Batista, que tem antecessores teriomórficos mais velhos, e que profetiza a chegada do redentor. Esse é o paradoxo desse estranho deus-pai a que Capricórnio está preso, o daimon de seu destino. Sob muitos aspectos, tem parentesco com Javé, embora o que encontremos em Capricórnio seja mais a lei de Deus do que o fogo de Deus. Esse é o Deus perverso e antinômico que tanto aflige como socorre Jó e, paradoxalmente, de acordo com a doutrina cristã, traz ao mundo seu único filho e depois o crucifica, dessa forma sofrendo Ele mesmo o destino dos mortais, para redimi-los — e, secretamente, redimir a Si próprio.

AQUÁRIO
Pois a Misericórdia tem um coração humano, A Piedade, um rosto humano,



E o Amor, uma divina forma humana,

É a Paz, uma vestimenta humana.

Blake, Songs of Innocence

Chegamos agora ao signo da "Nova Era", que nos anos 60 se proclamou ser a era

do amor e da fraternidade mas que, como se torna cada vez mais visível, pode ter um pouco mais de complexidade. Aquário é um signo complexo, com dois regentes planetários, Saturno e Urano; mas seus regentes, diferentemente dos de Escorpião, têm pouco em comum. Na realidade, são inimigos no mito grego, como já vimos, e a luta entre eles parece retratar uma dualidade ou ambigüidade inerente a Aquário. Já vimos bastante coisa sobre Crono-Saturno; existe pouco material mítico sobre o deus do céu Urano, a não ser o destino que ele sofre nas mãos de seu filho. Na verdade, a única passagem de relevo que temos sobre essa divindade antiga e indistinta é que ele sentiu repulsa pelos filhos que gerou em sua mãe-esposa-irmã Gaia, os titãs terrenos e os grotescos gigantes de cem mãos, e aprisionou a prole toda no Tártaro, nas entranhas do inferno, para que ela não ofendesse seu senso estético. Isso já nos diz bastante sobre Aquário — na verdade, mais do que a escassez de material poderia sugerir. Tenho visto com tanta freqüência esse processo de repressão do terreno e animalesco em aquarianos, que parece ser uma necessidade fundamental do signo. A ofensa que o rude e o ctônico provocam em Aquário talvez seja responsável por seus incessantes esforços para reformar e redimir a humanidade, e por seu quase feroz instinto civilizador, eternamente preocupado com os aspectos mais vis da personalidade humana, como um cachorro com seu osso. Como Urano, o daimon "celestial" do perfeccionismo acaba sofrendo nas mãos do que criou, mas a redenção vem através de formas diferentes e mais ambíguas. Os genitais cortados que Crono lança ao mar geram a deusa Afrodite, que combina em si a sensualidade dos titãs da terra e o esteticismo do deus do céu, seu pai. As Erínias, como já vimos, também são sua progênie, nascidas de seu sofrimento e de seu sangue, e são uma espécie de lei permanente contra o derramamento do sangue dos parentes.

Mas é preciso olhar para muito além de Urano, se quisermos captar o padrão mítico de Aquário. Penso que uma figura igualmente importante que incorpora muito do significado do signo é o benéfico titã Prometeu, que vem da mesma ra­ça de Crono, mas que toma partido de Zeus na batalha contra o pai, e no fim toma o partido do homem contra os deuses. Prometeu é o grande trabalhador social cósmico, que, ao roubar de Zeus o fogo para dá-lo ao homem, incorpora um espírito que não se contenta com a vida meramente instintiva, mas precisa se tornar cada vez melhor e mais esclarecido.

Existe certa divergência nas histórias sobre o nascimento de Prometeu. Em todas, ele é um titã, mas às vezes é um filho ilegítimo de Hera, outras vezes filho de Jápeto, o titã. Seu nome significa "o que vê à frente" ou "o previdente". Tinha um irmão, Epimeteu, cujo nome significa "o que só aprende com os fatos" ou "o descuidado". Juntos, parece que esses dois titãs descrevem qualidades opostas do espírito humano. Como Prometeu recebeu o dom da antecipação, sabia o resultado da rebelião de Zeus contra seu pai Crono, e, mesmo sendo um titã, sabiamente preferiu ficar do lado de Zeus. Ajudou no nascimento da deusa Atena da cabeça de Zeus, e ela, por sua vez, ensinou-lhe arquitetura, astronomia, matemática, navegação, medicina, metalurgia e outras artes úteis. Por seu turno, ele passou esse conhecimento ao homem. Na verdade, a versão mais velha do mito de Prometeu diz que foi o próprio titã que fez os homens, com o consentimento de Atena, com argila e água, à semelhança dos deuses; Atena soprou neles

a vida. Esse relato parece-se com a descrição talmúdica da Criação quando o arcanjo Miguel (contrapartida de Prometeu) criou Adão do pó, sob as ordens de Javé.

As artes que Prometeu ensinou ao homem distinguem-no como o daimon do impulso cultural. É uma imagem do instinto que luta por elevar o homem acima de suas origens animais — isto é, tornar-se semelhante aos deuses. Em Prometeu acorrentado, de Ésquilo, há um longo trecho que exprime eloqüentemente os dons que o titã, contra os desejos de Zeus, concedeu aos homens:


Ele (Zeus) não fez caso dos desgraçados homens, decidido a aniquilá-los e criar outra raça.

Ninguém se opôs a esse propósito, exceto eu:

Eu ousei. Salvei a raça humana de ser Transformada em poeira, da morte total. 131
Prometeu continua falando como os homens não conseguiam entender nem ver as coisas corretamente, nem compreender o mundo à sua volta; como não sabiam construir casas, ignorando a carpintaria; como não conseguiam entender o ciclo ordenado da mudança de estações e do crescimento das colheitas. Fala-nos de como ensinou-lhes a astronomia e a matemática, a domesticação e o cuidado dos animais, a construção de navios. Também ensinou-lhes medicina, cura, profe­cia e leitura de presságios, e o trabalho com ouro, prata e ferro.
Assim, aqui está toda a verdade em uma palavra:

Toda a destreza e ciência do homem foi uma dádiva de Prometeu.132
Creio que esse benéfico impulso de boa vontade com relação à humanidade é um dos temas dominantes em Aquário, sem dúvida identificado na maior parte das descrições do signo. Porém, o mito de Prometeu não é tão simples, pois a história tem outro personagem que também pertence a Aquário, que se liga ao titã por parentesco e por inimizade: Zeus, rei dos deuses. Zeus queria destruir os homens, e só os poupou a pedido do titã; tornou-se cada vez mais zangado com os poderes e talentos gradativamente maiores que os protegidos humanos de Prometeu começaram a exibir. Esse é o Deus ciumento do Gênese, que não deseja que Sua criação participe do fruto das Árvores do Conhecimento e da Vida, muito menos que o homem se pareça com Deus. Zeus, aqui, semelha mais seu pai Crono, parecendo incorporar aquele aspecto da psique que não deseja tornar-se consciente, mas tenta frustrar e deter o desenvolvimento do ego individual, ameaçando com duras punições e instilando no renegado o senso do pecado. Prometeu e Zeus estão em constante desacordo sobre a questão de até que ponto deve-se permitir o desenvolvimento da humanidade. É como se as duas divindades representassem alguma profunda verdade sobre a nossa natureza. Creio que Aquário, com seu bem conhecido impulso em direção ao desenvolvimento dos aspectos civilizados e conscientes do homem, tem também dentro de si um aspecto antitético igualmente poderoso, que forma o drama de seu padrão mítico.

Prometeu demonstrou seu desprezo pela tirania de Zeus de várias formas. De acordo com a lenda, um dia o titã foi convidado a arbitrar uma disputa sobre quais partes de um touro de sacrifício deviam ser oferecidas aos deuses, e quais deviam servir de comida para os homens. Esfolou e esquartejou o animal e costurou a pele, formando duas sacolas, abertas de um lado. Numa delas, colocou a carne deliciosa, escondida por baixo do pouco atraente estômago. Na outra, colocou os ossos, cobertos por uma esplêndida camada de gordura. Em seguida, deixou que Zeus escolhesse. O deus, facilmente enganado, escolheu a sacola com os ossos e a gordura, e, enfurecido peio engano, puniu Prometeu negando aos homens o dom do fogo. "Deixe que eles comam sua carne crua", gritou. Prometeu, então, procurou Atena, sua padroeira, que o introduziu no Olimpo pelas escadas do fundo. Na carruagem em chamas do sol, acendeu uma tocha e tirou dela um pedaço de carvão em brasa, que guardou num gigantesco galho oco de árvore. Em seguida, apagando a tocha, fugiu e entregou a chama sagrada aos homens.

Zeus jurou vingança. Ordenou que Hefesto, o ferreiro divino, fizesse uma mulher de argila. Os quatro Ventos sopraram a vida dentro dela e todas as deusas olímpicas a enfeitaram. Essa mulher, chamada Pandora, foi mandada como presente de Zeus a Epimeteu, irmão de Prometeu. Mas Epimeteu tinha sido advertido pelo irmão previdente para não aceitar qualquer presente de Zeus, e, assim, recusou a mulher. Zeus, então, acorrentou Prometeu, nu, a uma coluna no alto das montanhas do Cáucaso, onde todo dia, ano após ano, um abutre voraz (ou águia) vinha bicar seu fígado. De noite, o fígado se refazia. Epimeteu, alarmado com a sorte do irmão, casou com Pandora. Ela abriu um cântaro, que Prometeu tinha advertido para deixar fechado, onde ele tinha aprisionado, com esforço, todas as pragas que poderiam atormentar a humanidade: Velhice, Fadiga, Doença, Insanidade, Vício e Paixão. As pragas fugiram numa nuvem e atacaram a raça dos mortais. A esquiva Esperança, entretanto, que Prometeu também tinha fechado no cântaro, impediu, com suas mentiras, que os homens cometessem um suicídio geral.

O sofrimento de Prometeu, entretanto, que Zeus pretendia que fosse eterno, acabou sendo finito, pois o herói Héracles intercedeu por sua liberação, que foi concedida. Já vimos como o centauro Quíron ofereceu sua mortalidade em troca do titã, para que uma alma não fosse roubada a Hades. Como Zeus tinha anteriormente condenado Prometeu a uma punição eterna, ele estipulou que, para que ainda parecesse ser um prisioneiro, o titã deveria usar um anel feito com a cor-rente, e engastado em pedra do Cáucaso. A humanidade começou a usar anéis e enfeites em honra de seu benfeitor. Zeus colocou nas estrelas a flecha usada por Héracles para atingir o abutre que atormentava Prometeu, o titã, como a constelação de Sagitário.

Prometeu redime a humanidade da escuridão. Como ele mesmo diz na tragédia de Ésquilo, todas as artes e ciências desenvolvidas pela raça humana derivam dele. Esse aspecto beneficente da figura mítica é fácil de identificar na preocupação aquariana com o bem-estar e desenvolvimento humanos. Mas o problema de Zeus é menos simples, bem como a imagem de seu tormento. Aqui está o problema paradoxal do impulso em direção à consciência chocando-se com o impulso em direção à inconsciência. Prometeu não é um "homem" no sentido do ego; é o daimon que procura ajudar o desenvolvimento do homem. Essa perpétua ten­são,

num nível arquetípico, gera um sofrimento inevitável, porque o choque é inevitável. Podemos considerar Prometeu um herói, porque deu ao homem o divino fogo criativo. Porém, do ponto de vista do mundo dos deuses, ele come-teu um crime, um pecado, e essa é uma situação que chamou especialmente a atenção de Jung: o senso de pecado que surge quando se faz qualquer esforço no sentido da realização Individual.

Jung tinha Aquário no ascendente; portanto, sua preocupação com esse problema devia ter alguma relação com ele, assim como com alguma coisa que tenha observado nos seus pacientes. Abrindo a caixa de Pandora do inconsciente, ele estava, paradoxalmente, desempenhando o papel tanto de Prometeu como o de Zeus. Duvidava constantemente da validade do seu trabalho — uma indicação, segundo creio, do possível significado do abutre ou águia atacando o fígado; pois o fígado, na antiga correlação astrológica-fisiológica, é o órgão de Zeus. Júpiter. Portanto, o abutre de Zeus destrói a parte do corpo mortal que também é o próprio deus. Estamos de volta à estranha duplicação de símbolos que já encontramos várias vezes. O deus castiga Prometeu exatamente através do aspecto do titã que reflete o deus. Talvez isso possa ser descrito como sua fé, ou sua crença em si mesmo. Tenho visto, ao lado do autêntico altruísmo de Aquário, uma profunda dúvida sobre si mesmo; poucas vezes encontrei pessoas mais dadas à autopunição e à autodenegrição do que os aquarianos que conseguem expressar um pouco do espírito prometéico e que fazem uma contribuição, por pequena que seja, à evolução individual ou coletiva. Na astrologia tradicional, o Sol está em "detrimento" no signo de Aquário, e diz-se que isso indica que o princípio da auto-expressão e da autoconfiança é prejudicado pela preocupa­ção, constante nesse signo, com o poder e o ponto de vista do grupo. Aquário muitas vezes se atormenta pelo pavor de ser "egoísta"; de todos os signos, é o mais pontilhado de "deves" e "é preciso". O mito sugere uma base mais profunda para esse medo do autopreenchimento. Implica o problema do senso do pecado, que acompanha qualquer esforço verdadeiro de desenvolvimento.
O Gênese apresenta o ato da tomada de consciência como a infração de um tabu, como se o conhecimento significasse a ímpia ultrapassagem de uma barreira sacrossanta. Acho que o Gênese está correto, à medida que cada passo em direção à maior consciência é uma espécie de culpa prometéica: através do conhecimento, é como se o fogo dos deuses fosse roubado, isto é, algo que era propriedade dos poderes inconscientes é arrancado do seu contexto natural e subordinado aos caprichos da mente consciente. O homem que usurpou o novo conhecimento, entretanto, sofre uma transformação ou ampliação da consciência, que já não se parece com a de seus semelhantes. Elevou-se acima do nível humano de sua época ("Serás igual a Deus"), mas assim fazendo se alienou da humanidade. A dor dessa solidão é a vingança dos deuses, pois ele nunca mais pode voltar à humanidade. Está, como diz o mito, acorrentado aos penhascos solitários do Cáucaso, abandonado por Deus e pelos homens.133
Não poderia dizer isso melhor do que Jung, que sem dúvida conhecia muitíssimo bem a "dor da solidão", porque ele roubou uma quantidade considerável

de fogo. Não é preciso dizer que o isolamento de seus semelhantes é um dilema profundamente doloroso para o aquariano de mente social. Somos os beneficiários de Jung; mas não há dúvida de que ele mesmo, apesar da suspensão do castigo ¬que ocorre no mito, teve de continuar a usar o anel forjado de sua cadeia, a lembrança de sua ofensa aos deuses. Todos os campos de atividade tradicionalmente aquarianos — ciência, invenção, assistência social, psicologia, até astrologia — são mesclados pela solidão, que é o preço pago por ofender Zeus. Ela forma o ímpeto-sombra secreto por trás da pessoa que "precisa" ajudar os outros, pois é através dessas relações: de auxílio que se pode aliviar uma pequena parte da intensa falta de compreensão. É bom lembrar que Lúcifer, o anjo rebelde que se opôs aos desejos de Deus, significa em latim "o portador da luz", e que em Aquário encontramos outra forma do diálogo entre o filho rebelde e o pai ciumento. Em Capricórnio, esse diálogo ocorre entre o pai que se cristalizou em formas velhas e rígidas, e o filho que se rebela contra as restrições mundanas que vão em detrimento de sua produtividade. Em Aquário, estamos diante do deus ciumento cuja criatura, sem ter permissão, investigou os segredos de sua origem.

É provavelmente relevante que, numa das versões do mito de Prometeu, Zeus revogou o castigo não por compaixão nem por causa de Héracles, mas porque Prometeu, o que via à frente, sabia do destino futuro que aguardava o rei dos deuses. Zeus, disposto a apoderar-se dessa informação, deixa-se chantagear. Mais uma vez encontramos esse misterioso acordo ambivalente que é a conivência entre o consciente e o inconsciente. Zeus, embora pudesse reduzir Prometeu a átomos, devido a seu pecado, permitiu que ele continuasse a viver e até que fosse libertado, porque o titã tinha algo que o rei dos deuses precisava. Tinha necessidade do conhecimento de Prometeu sobre o futuro, precisava de orientação sobre a forma de ir a seu encontro. Aqui temos novamente a velha heresia alquimista — Deus precisa do homem para realizar o trabalho da perfeição. Também é um dos temas maiores que atravessa a obra de Jung, e que lhe infunde uma conotação profundamente mística. A luta pela individuação não é simplesmente a "cura" do mal-estar neurótico, e sim uma obra sagrada realizada para o homem e para Deus. O ego e o inconsciente, assim, têm um relacionamento estranhamente ambivalente. São inimigos, entretanto dependem um do outro. Zeus e Prometeu nasceram da mesma semente: Urano, o deus do céu, imagem do céu eterno. Mas são de raças diferentes: Zeus é um olímpico, portanto "do ar", e Prometeu é um titã, portanto "da terra". Um está vinculado ao espírito, o outro ao mundo. Seu relacionamento, delicadamente equilibrado, está repleto de perigos, entretanto é uma associação de iguais; se não quanto à natureza, pelo menos quanto ao valor.

Agora podemos considerar a própria constelação de Aquário, e os mitos a ela associados. O Aguadeiro, na tradição egípcia, era o deus que presidia o rio Nilo. Chamava-se Hapi, era descrito como um homem vigoroso e gordo, com seios de mulher e trajes de barqueiro ou pescador. Morava perto da Primeira Catarata, numa caverna de onde despejava água 'de suas urnas no céu e na terra. Como toda a civilização egípcia dependia da inundação anual do Nilo, Hapi era uma divindade importante. Mas não fez mais nada além de despejar sua água. Os gregos montaram um mito totalmente diferente para essa constelação: o mito

de Ganimedes, o belo filho do rei Trós de Tróia. De acordo com a história, ele era o mais belo jovem existente; Zeus desejou-o e escolheu-o para servir à mesa dos deuses. O olímpico disfarçou-se de águia e raptou o rapaz levando-o para o céu. Mais tarde, Hermes, a mando de Zeus, deu ao rei Trós uma vinha de ouro e dois belos cavalos, como compensação. Ganimedes tornou-se imortal e serviu o néctar dos deuses; Zeus colocou sua Imagem nas estrelas como o Aguadeiro.

A importância que pode ter essa pequena história para a complexa psicologia e o destino de Aquário não é imediatamente discernível. Robert Graves faz os seguintes comentários a seu respeito:


O mito de Zeus-Ganimedes gozou de imensa popularidade na Grécia e em Roma, porque dava uma justificativa religiosa ao amor apaixonado de um homem adulto por um menino. . . Com a difusão da filosofia platônica, a mulher grega, até então intelectualmente dominante, degenerou numa trabalhadora não paga e numa parideira, onde quer que Zeus e Apolo fossem os deuses reinantes. 134
Como nem todos os aquarianos são homossexuais, inclino-me a tomar simbolicamente, e não literalmente, essa encantadora história dos deuses gregos gays. Graves associa o mito ao repúdio do feminino e à redução do seu poder. Esse tema certamente se refere a Aquário. Esse signo tem um visível horror inerente a tudo que é vil e biológico — já vimos isso na história em que Urano rejeita seus filhos titãs — e tem também um profundo medo do irracional. A imagem da homossexualidade no mito poderia, entre outras coisas, sugerir um mundo exclusivamente masculino, um lugar onde as mulheres e o plano instintivo da vida não podem entrar — uma união sem prole, a não ser os produtos da mente e do espírito. Isso se aplica não menos às mulheres que aos homens de Aquário, pois elas, freqüentemente, se sentem mais à vontade em companhia masculina e com os ideais masculinos. O costume tribal de tirar os meninos púberes das mães e colocá-los em "clubes" ou grupos exclusivamente masculinos, para neutralizar o poder do reino feminino, matriarcal, é um paralelo antropológico que sugere como é arquetípica a procura da força masculina com a exclusão do feminino. Zeus e Ganimedes, juntos, rejeitam Hera, a amante. Quando o rei dos deuses toma uma concubina, Hera pelo menos pode competir. Com Ganimedes, ela não pode nem chegar perto. Acho que esse é um padrão aquariano, embora em geral ocorra em outras esferas que não a sexual. Esse signo, com toda certeza, é um campeão da luz e do espírito, e a única divindade feminina com a qual Prometeu tinha qualquer espécie de ligação era Atena, ela mesma não exatamente unia amiga da Grande Mãe, já que era a filha virgem de um pai. Assim o mundo pro­metéico é um mundo masculino, onde se formam as imagens do drama da luta pela evolução e suas inevitáveis repercussões.

PEIXES
Ensine-me metade do contentamento Que teu cérebro deve conhecer.



É uma loucura tifo harmoniosa

Fluiria de meus lábios.

O mundo, então, deveria ouvir — como estou ouvindo agora.

Shelley, To a Skylark


O signo dos Peixes está mergulhado no mito pois, diferentemente de muitas outras criaturas zodiacais, a linhagem do último dos signos precede os gregos claramente de muitos séculos. Peixes também é um dos mais surpreendentes signos, visto que a exploração de seus mitos gera visões que não são normalmente associadas à tradicional "alma sensível" que pode tornar-se um bêbado, um músico ou uma enfermeira. O último signo é também o primeiro, porque forma o cenário de onde surgirá o novo ciclo; visto sob esse prisma, não é estranho que o simbolismo de Peixes nos ligue não com o deus Netuno, nem com qualquer outra divindade masculina, e sim com a Mãe primordial que já encontramos no signo de Câncer, cuja manifestação é a água.

O peixe tem um simbolismo muito velho e variado. É uma das imagens teriomórficas que abrangem todo o espectro desde as profundezas orgiásticas aquáticas da deusa da fertilidade até a carne transcendental de Cristo. Como a pomba, que percorre o mesmo espectro e é o pássaro de Jatar e de Afrodite, assim como o símbolo do Espírito Santo, o peixe é pagão e cristão, e sua natureza, em última análise, é feminina. Se seguirmos nossa trilha através do emaranhado de contos e de divindades inter-relacionados, acabaremos chegando a um tema comum. As primeiras histórias egípcias e babilônicas sobre os dois Peixes celestiais vinculam-nos ao culto marinho sírio-fenício da grande deusa Atargatis, que encontramos com relação a Virgem. Seus templos tinham piscinas com peixes sagrados, que ninguém podia tocar. Ali também se comiam ritualmente refeições de peixes, pois a própria deusa às vezes era retratada na forma de peixe, e seus sacerdotes usavam peles de peixe. Essa deusa-peixe tinha um filho, chamado Ichthys, que também era um peixe. Mais tarde ele evoluiu até o deus-peixe babilônico Ea, que se associa a Capricórnio, a cabra-peixe. Atargatis e Ichthys também são Istar e Tammuz, Cibele e Átis, Afrodite e Adónis. De acordo com a história babilônica, dois peixes encontraram um gigantesco ovo no rio Eufrates, que empurraram para o mar. Ali, foi chocado por uma pomba. Depois de alguns dias surgiu do ovo a deusa Atargatis. A seu pedido, os peixes foram honrados por sua colocação nos céus. Na versão grega desse conto, Afrodite e seu filho Eros fugiram do monstro Tífon, disfarçados de peixes; ou, em outra versão, foram salvos pelos peixes, cuja bondade foi recompensada com um lugar no céu. Para que não se separassem, suas caudas foram amarradas uma à outra.

Que a Grande Mãe e seu filho-amante sazonal, ritualmente sacrificado, sejam peixes, não é tão estranho quando compreendemos a forma como o peixe era simbolizado no mito. Jung o descreve muito bem:
As Grandes Mães mitológicas geralmente são um perigo para seus filhos. Jeremias menciona a representação de um peixe numa lâmpada do cristia 

nismo primitivo, mostrando um peixe devorando o outro. O nome da maior estrela da constelação conhecida como Peixe do Sul — Fomalhaut, "a boca do peixe" — pode ser interpretado nesse sentido, exatamente como no simbolismo do peixe toda forma concebível de concupiscentia devoradora é atribuída aos peixes, que se diz serem "ambiciosos, libidinosos, vorazes, avarentos, lascivos" — em resumo, um emblema da vaidade do mundo e dos prazeres terrenos ("voluptas terrena"). Eles devem essas más qualidades, principalmente, ao seu relacionamento com a deusa-mãe e deusa do amor Istar, Astarte, Atargatis ou Afrodite. Como planeta Vênus, ela tem sua "exaltatio" no signo zodiacal dos Peixes. 135

Assim, um desses peixes é a grande deusa da fertilidade, e o outro é seu filho. Ela é devoradora, destrutiva e lasciva: o mundo primordial do instinto. Ele é o redentor, Ichthys, o Cristo. Estão unidos para sempre pelo cordão que amarra suas caudas; não podem fugir um do outro. A atitude ambivalente com relação ao peixe no antigo simbolismo religioso reflete essa dupla, pois, por um lado, ela é impura, emblema de ódio e de condenação; por outro lado, é objeto de venera­ção. Ironicamente, o peixe também era sagrado para Tífon, o monstro de quem a deusa e seu filho fugiram, disfarçados de peixes; portanto, mais uma vez encontramos a repetição de uma única imagem no mito, onde tanto o perseguidor como o perseguido ostentam a mesma forma, e o que redime exibe o mesmo as­pecto do que está condenado. Talvez aqui estejamos diante de uma imagem da vida transitória, porém sagrada, da alma individual, nascida da Mãe e destinada a voltar para ela, eternamente ligada a ela, mas que durante uma breve estação é o fertilizador da terra e a centelha criativa que renova a vida.

O mito pisciano, portanto, está intimamente associado à Mãe e seu filho-amante, especialmente com a tragédia mítica da morte precoce do filho e de sua ressurreição. O deus redentor sazonal é desmembrado pela própria Mãe, ou por um de seus animais totêmicos — javali, cobra, cervo, lobo. Encontramos esse filho redentor em Leão e em Capricórnio, mas nesses signos ele é o filho de seu pai. Em Peixes, encontramos o filho da Mãe, a história doce e amarga do filho que está "de empréstimo" apenas por uma estação, e cuja pungente história chegou até nós levemente disfarçada na doutrina cristã. As conexões entre a era astrológica de Peixes e o cristianismo são óbvias, principalmente nas referências fornecidas pelos evangelhos — "pescadores de homens", os pescadores como os primeiros discípulos, o milagre dos pães e dos peixes. O simbolismo mostra Cristo e os que nele crêem como peixes, o peixe como refeição religiosa, o batismo como uma imersão num tanque de peixes, e assim por diante. O Cristo desmembrado é comido ritualmente, seu sangue é bebido ritualmente; nesse sentido, ele é um descendente direto de Átis, Tammuz e Adônis, e sua morte precoce numa cruz de madeira, o símbolo-árvore da Mãe, é uma morte predestinada — não por ter sido decretada por romanos ou judeus, e sim porque a Mãe chamou-o de volta ao lar.

O tema do redentor e da vítima fala muito de perto a Peixes. Quer a pessoa pisciana se identifique mais com a vítima, tornando-se aquela cuja vida é desmembrada, ou como redentor, que salva do sofrimento, não há muito o que escolher entre eles, visto que são duas facetas da mesma coisa. Assim também é o

peixe voraz, a deusa, de quem a vítima precisa ser resgatada; ou para quem o redentor precisa ser sacrificado, para absolver os outros do pecado. Essas três imagens — salvador, vítima e monstro devorador do pecado e da condenação — são parte integrante do mesmo motivo mítico. Já se disse que é plausível as pessoas de Peixes se encarnarem ou para sofrer ou para salvar. Como generalização, é mais verdadeira do que a maioria; e em geral ocorrem as duas coisas, pois somente o ferido tem compaixão. Nenhum signo tem tanta propensão a apresentar-se como vítima da vida, e nenhum outro signo tem tanta propensão à autêntica empatia com o sofredor. Também nunca se viu outro signo cair tão rapidamente no caos, na licenciosidade orgiástica e na dissolução, conforme a imagem da exuberante deusa Atargatis, o elemento água de onde, como nos diz o Corão, vem toda a vida.

O que isso nos diz acerca do padrão de desenvolvimento de Peixes? Creio que, em primeiro lugar. significa que os dois peixes não podem ser separados. Para Peixes, o mundo caótico da Mãe está sempre desconfortavelmente próximo. Peixes, como Câncer, pode criar a partir dessa profundeza: há uma longa lista de "grandes nomes" da música, da arte e da literatura que manifestaram o doce e trágico anseio por esse mundo aquático com profundezas insondáveis. A maioria deles passou por muito sofrimento na vida pessoal. A união com o mundo do inconsciente não é uma tarefa fácil para um homem de nossa cultura. Freqüentemente, ê assustador, para a psicologia masculina. descobrir-se um Filho da Mãe, porque o desmembramento sempre ronda por perto; para Peixes. a experiência da morte e do desmembramento faz parte integrante até mesmo da criação artística. Conheci muitos piscianos que tentaram tornar-se criaturas intelectuais, super-racionais, mas sempre soava um pouco falso, pois o mundo irracional jaz logo abaixo da superfície. Muitas vezes. esses piscianos envolvem-se fatalmente com pessoas que exteriorizam para eles o mundo caótico da deusa; assim- tocam as profundezas por delegação, tornando-se "enfermeiros" do louco. Einstein. um pisciano cuja maior contribuição foi dada ao mundo da ciência e da matemática, era um místico que não se envergonhava disso. Sabia muito bem de onde vinham seus lampejos intuitivos. Entretanto, viver tão próximo das profundezas. estar ligado dessa forma à Mãe. não é fácil. É muitíssimo mais fácil para a mulher que se identifica com. a Mãe, que socorre o marido-vítima, o amante ferido pela vida, o paciente doente que precisa de seus cuidados. O lado assustadoramente som-brio desse cenário é que ela (ou ele) podem ter feito um grande investimento inconsciente na permanência do ser amado na doença. E mesmo quando essa identificação é parcialmente bem-sucedida, também assoma a escuridão orgiástica da deusa e sua propensão a devorar seus filhos-amantes. No mundo moderno do show business. poderíamos considerar a estrela do cinema Elizabeth Taylor, unta pisciana. como a encenação desse papel no século XX. procurando seu redentor numa lista absurdamente grande de candidatos-maridos.

O planeta Netuno, regente astrológico de Peixes. a meu ver não é uma descrição mítica muito boa das profundezas desse signo. Os antecedentes de Netuno estão no deus grego Posídon. Senhor dos Terremotos e dos Touros. Esse é um deus de terra e não de água, embora tenha regência nominal sobre o mar: mas esse último domínio é tirado da deusa do mar Tétis. As profundezas do oceano sempre pertenceram à deusa, assim como as profundezas do inferno, e Netuno é

uma aparição multo tardia. O Ea babilônico é uma imagem mais adequada, mas não pode ser separado da mãe. Se eu fosse escolher uma única figura mítica para personificar o que entendo como a curiosa complexidade andrógina de Peixes, voltar-me-ia para Dioniso, que Walter Otto, em seu estudo sobre a divindade, acredita ser uma imagem da "loucura criativa"; e que Kerenyi, em seu estudo, chama de "chão irracional do mundo". No nascimento, vida e atributos de Dioniso encontraremos uma descrição vívida do daimon que preside Peixes, e que cobre desde o mundo espiritualmente sublime de seu pai Zeus (Júpiter é co-regente de Peixes) até as profundezas loucas e extasiantes da Mãe.

Kerenyi começa seu Dionysos fazendo uma distinção entre duas palavras gregas para vida: zoë e bios. Bios, por um lado, tem a conotação da vida caracterizada; é atribuída a animais quando é preciso distinguir seu modo de existência do das plantas. Naturalmente, nossa palavra biologia deriva dessa raiz. Zoë, por outro lado, é a vida em geral, sem maior caracterização. Os animais e as plantas têm suas estações próprias e morrem; mas a vida como zoë é infinita, e não abrange a morte. É a força vital que se mantém através das mudanças cíclicas de forma. Kerenyi cita Karl Otfried Muller, um filólogo e mitologista clássico do século XIX:

A natureza suplantando a mente e precipitando-a para fora do estado de autoconsciência clara (cujo símbolo mais perfeito é o vinho) é o que jaz na base de todas as criações dionisíacas. O ciclo das formas dionisíacas, que constitui, por assim dizer, um Olimpo especial e diferente, representa essa vida natural e seus efeitos na mente humana, concebida em diferentes estágios, às vezes em formas mais nobres, às vezes em formas menos nobres; no próprio Dioniso desdobra-se a mais pura florescência, combinada com um afflatus que desperta a alma sem destruir o tranqüilo jogo dos sentimentos. 136
Se conseguirmos achar nosso caminho por entre os maneirismos do século XIX dessa descrição, o que parece estar implícito é um senso de unidade do nível instintivo bem como espiritual. É o estado de participation mystique com a natureza, com os animais, as plantas e o vinho, que parece ter uma identificação material com o deus. Essa unidade extasiante com a vida natural, imorredoura — mais conhecida nas imagens de sonhos individuais como orgia — combina-se, na personalidade do deus, com uma experiência de agudo sofrimento. Dioniso é uma espécie de Cristo-sombra, um Cristo com falo, pois ele mesmo, como Cristo, ê vítima e redentor.

A mãe de Dioniso varia no mito. Às vezes ela é Deméter, raptada por Zeus: às vezes é Perséfone, sua filha. Com mais freqüência é Sêmele, filha do rei Cadmos de Tebas, com quem Zeus teve um caso secreto de amor. Hera, ciumenta como sempre, disfarçou-se como uma vizinha velha e convenceu a moça a pedir que Zeus aparecesse diante dela na sua forma verdadeira. Sêmele, não perceben­do que isso poderia destruí-la, persuadiu o rei dos deuses a dar-lhe qualquer coisa que ela desejasse, e em seguida pediu que ele revelasse sua face divina. Já estava no sexto mês de gravidez. Zeus, preso à promessa, viu-se obrigado a aparecer como trovão e raio, transformando Sêmele em cinzas. Mas Hermes salvou seu filho ainda não nascido, costurando-o dentro da coxa de Zeus; na época apro-

priada, o menino nasceu. Assim, Dioniso foi chamado "nascido duas vezes" ou "a criança da porta dupla". É um macho filho de um macho, entretanto é um deus afeminado, um deus de mulheres, geralmente retratado como um jovem afeminado do feições suaves. Ao nascer, tinha chifres, com serpentes nas pontas. Um de seus animais totêmicos é a cabra, símbolo da fertilidade e da luxúria. Obedecendo ordens de Hera, os titãs o seqüestraram e, apesar de ele ter se transformado em formas animais, cortaram-no em pedacinhos, que ferveram num caldeirão. No lugar onde caiu seu sangue brotou do solo uma romãzeira.

Mas Réia, sua avó, salvou-o e devolveu-o à vida. Foi criado em segredo, disfarçado de menina (como Aquiles, que sofreu uma indignidade semelhante). Hera descobriu-o novamente, quando ele se tornou homem, e enlouqueceu-o. Ele ficou perambulando pelo mundo todo, acompanhado por seu tutor Sileno (um sátiro) e por um grupo de Mênades selvagens. Ensinou a arte da viticultura aos egípcios e indianos, e voltou a peregrinar pela Grécia. Acabou chegando a Tebas, local de nascimento de sua mãe. Ali, o rei Penteu, cujo nome significa "aquele que sofre" (como o próprio Dioniso), não gostou da aparência dissoluta do deus e mandou prendê-lo, bem como a seu desleixado séquito. Mas Dioniso fez o rei ficar louco, e Penteu achou que tinha algemado um touro em vez do deus. As Mênades. fugiram e lançaram-se furiosamente montanha acima, onde despedaçaram animais selvagens. O rei Penteu tentou detê-las; porém as Mênades, inflamadas pelo vinho e pelo êxtase religioso, lideradas por Agave, mãe do rei, despedaçaram seus membros e arrancaram sua cabeça. Assim, teve o mesmo destino do deus que tinha rejeitado.

A história de Dioniso é cruel, e o próprio deus exibe uma selvageria que não encontra paralelo em outra figura mítica, exceto na que lhe é mais próxima: a Mãe Escura, como Kali, Bast ou Sekhmet. Pode parecer estranho que eu associe essa qualidade de selvagem crueldade ao signo manso e inofensivo de Peixes; mas é bom lembrar piscianos históricos como Kemal Ataturk, que em 1915 achou por bem massacrar quase um milhão de armênios num genocídio quase comparável ao da Alemanha nazista. Esses piscianos incorporam o peixe devorador do signo, o monstro Tífon, eterno companheiro do redentor. É a selvageria inata da natureza, a multidão que mata o Cristo, o javali que despedaça Adônis, a Mãe Morte que exige a carne de crianças e os corações arrancados dos peitos das suas vítimas de sacrifício. Mas a natureza também pode ser amorosa e benigna, assim como Dioniso. A doçura e o êxtase de seus ritos, que incluíam tanto a brutalidade do desmembramento de animais como a pungente unidade com o deus, incorporavam esse espírito ambivalente da natureza, o daimon, que é tanto indiretamente destrutivo quanto promete a vida eterna.

Kerenyi cita Bernhard Schweitzer:

É uma forma de experiência do mundo, uma das grandes formas fundamentais do confronto do homem com as coisas que chamamos "místicas" e cuja natureza específica só pode ser caracterizada pela palavra genérica "dionisíaco. .137
O estranho elo entre o misticismo, a busca da união com o divino e as sangrentas crueldades exemplificadas na vingança de Dioniso contra Penteu, seu duplo humano,

é um desses paradoxos que a consciência tem dificuldade em assimilar. É inerente a praticamente todas as histórias sobre os santos, que combinam a santidade com o vício e o sadismo; de alguma forma, essas figuras pertencem ao destino que atraem. Acredito que, em Peixes, esses dois opostos vivam lado a lado. Pode até ser possível sugerir que um gera o outro. Portanto, não é de surpreender que muitos piscianos fujam para a segurança do intelecto, para contrabalançar esse dilema. A inimizade entre Hera e Dioniso, filho de Zeus — o jovem deus é às vezes chamado o "Zeus subterrâneo", sugerindo uma identidade entre os dois — é a inimizade (e amor) entre mãe e filho, onde as fronteiras entre amor e ódio, posse e destruição se confundem, e o erotismo torna-se voraz. Dioniso é um Zeus das mulheres, enquanto o olímpico é um Zeus dos homens. Para adorar Dioniso, as mulheres ficavam sozinhas — nenhum homem podia pre­senciar os ritos. Nossa palavra mania é a mesma que a palavra grega mania, que significa amor furioso e ódio ou raiva furiosos. A palavra Maenad, a adoradora do deus, vem da mesma raiz. O próprio deus é chamado mainomenos, que signi­fica furioso, no sentido de apaixonado. A redenção da selvageria das paixões é a tarefa do filho, o redentor; as paixões em si são a Mãe. Entretanto, estranhamente, esse deus por quem o aspirante anseia, com quem deseja se unir, não é na verdade uma divindade masculina, e certamente não é o Javé patriarcal do Velho Testamento, ou o Zeus dos gregos. É um andrógino, tão feminino quanto masculino. O horror e o anseio começam e terminam no mesmo mar. Kerenyi, escrevendo sobre a hera e a videira, ambas associadas a Dioniso, diz:

O crescimento da hera só apresenta aspectos calmantes, confortadores. Aqui se revela um aspecto especial da vida: seu aspecto menos quente, quase sobrenatural, apresentado também pela cobra. Tal é zoë reduzida a si mesma, mas para sempre se reproduzindo. Na hera, está presente não como significado, mas como realidade: não como o significado de um símbolo ou como uma alegoria de idéias abstratas, mas concreta e tranqüilizadora, apesar de seu fruto amargo não comestível. Os frutos doces nascem da videira, cujo crescimento lento e alastrante é capaz de difundir o maior sossego, e cujo suco de rápida fermentação é capaz de despertar a maior agitação, uma vida tão quente e intensa que um ser vivo impõe ao outro o oposto irreconciliável da vida: a morte. 138

Qualquer que seja o papel desempenhado por Peixes nesse drama mítico, ele é, na realidade, todos os atores; ou, dizendo mais adequadamente, todos os atores vivem dentro dele. Dioniso, o deus, e Penteu, o ego zombeteiro que rejeita o daimon dissoluto, são na verdade a mesma figura, pois ambos sofrem o mesmo destino; loucura e esquartejamento. São os titãs, de terra, que destroem o deus. Talvez esta seja uma imagem do sofrimento suportado pelo espírito pisciano por estar encarnado na carne densa. A carne pode ser uma prisão e um devorador do espírito; mas o espírito, igualmente, não é só um redentor, mas também um devorador da carne. Em Peixes, os dois certamente não se entendem. O pisciano clássico, alcoólatra ou toxicômano, na busca do espírito, desmembra sua prisão corporal. Mas a conclamação dos Alcoólicos Anônimos, que tem ajudado tantas

pessoas que sofrem desse problema, é no sentido de ter fé num poder maior que a própria pessoa.

Talvez seja o destino de Peixes viver com esse daimon extraordinário, porque repudiá-lo, como sugere o mito de Penteu, pode ser perigoso. A própria vida pode desmembrar, se não for bem-vinda. A identificação com a figura do Messias também é um tema pisciano. Assim também é a identificação com a vítima, pois como já vimos elas são uma e a mesma pessoa. Entretanto, a profunda compaixão de que Peixes é capaz e seu acesso criativo às profundezas do insondável mundo da água são as dádivas decorrentes da proximidade com um tal deus.


Nas páginas anteriores, encontramos uma série de histórias e de figuras míticas, cada uma personificando uma faceta diferente da complexa dança da vida. Evidentemente, há uma quantidade de contos que deixei de lado, mas espero ter transmitido uma noção da forma como o mito, que parece expressar o significado e o senso de propósito da experiência, funde-se com os signos astrológicos. Embora, por motivos de coerência, tenha descrito os padrões de cada signo astrológico como se se aplicassem especificamente ao signo solar, na realidade parece que esse não é o caso. Apesar de o Sol e o ascendente dominarem o mapa natal, sendo os padrões a eles relativos muito importantes para o desenvolvimento da pessoa, qualquer coisa no mapa pode ser vista sob o prisma mítico. Isso inclui aspectos entre os planetas e colocações por casas; o padrão, muito complicado, que é assim tecido, transmite a qualidade individual de um determinado horóscopo. Já se ressaltou em vários textos astrológicos que, em geral, alguns temas se repetem quando se examina atentamente o mapa natal. Poder-se-ia fazer a mesma colocação, por exemplo, a respeito de Vênus em Escorpião, Plutão na sétima casa, vários planetas na oitava, e assim por diante; os temas básicos que assim emergem constituem a espinha dorsal do mapa, o enredo principal da vida individual.

O mesmo ocorre quando usamos o mito como uma ampliação da astrologia. Se consideramos determinadas colocações astrológicas do ponto de vista da história, bem como do ponto de vista das características, em geral descobrimos, no horóscopo individual, que determinadas figuras e histórias míticas se repetem. No exame do mapa de Ruth, por exemplo, a história de Hades e Perséfone é sugerida não apenas pelos fortes aspectos relacionados a Plutão, que faz oposição ao Sol e Mercúrio (regente do mapa), quadratura com Marte e com Júpiter, mas também pelo ascendente em Virgem, e pela colocação do Sol na sexta casa, a casa natural de Virgem. Também o regente do mapa, Mercúrio, está envolvido na grande cruz, em oposição exata a Plutão. Assim, mesmo que Ruth seja pisciana, o tema plutoniano é dominante em seu horóscopo e em sua vida. Isso é enfatizado pela época específica em que ela veio me ver, pois a grande cruz estava sendo ativada e, dessa forma, os temas míticos a ela associados estavam tendo um destaque especial em sua vida.

Como já enfatizei, não se pode ser muito literal com o mito. Mas há épocas e situações quando o cenário arquetípico dos acontecimentos e emoções ajuda a pessoa a "enxergar dentro" do que está acontecendo, de forma a elevar a experiência a um nível superior ao do referencial de causa e efeito, dando-lhe uma

dimensão profunda e atemporal. Não é simplesmente confortador, mas às vezes transformador, sentir e saber que, como pessoas, fazemos parte de um cortejo, e que a história antiga confere dignidade a nossos pequenos problemas pessoais, dilemas e sofrimentos. No sentido em que coloco o mito em termos de igualdade com o destino e o caráter, a "história" ou "trama" é a ponte entre a acalentada idéia do "potencial" e a realidade concreta do que não podemos mudar. O tema arcaico do daimon que nos é dado ao nascer e molda nossas vidas a partir de dentro, concede dignidade ao destino e à opção individual, tomando possível fazer "de bom grado o que preciso fazer". Não sei se o daimon é realmente um aspecto de Moira, ou se são coisas separadas; mas embora pareçam tão díspares, minha idéia é que, no fim das contas, a justiça de retaliação e o destino não são assim tão diferentes. Pode ser que haja uma unidade por trás deles, um padrão central, que ainda estamos por explorar e contemplar.

TERCEIRA PARTE


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