Os planetas exteriores e seus ciclos os astros e o amor



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Pronoia

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O Destino e a Sincronicidade



Um certo M. Deschamps, quando em menino em Orléans, recebeu

um dia um pedaço de pudim de passas de um M. de Fortgibu.

Dez anos mais tarde, descobriu outro pudim de pastas num restaurante

de Paris, e pediu um pedaço. Resultou, entretanto, que o pudim de

passas já tinha sido pedido — por M. de Fortgibu. Muitos anos depois,

M. Deschamps recebeu um convite para comer uma iguaria especial —

um pudim de passas. Enquanto comia, ele observou que a única coisa

que estava faltando era M. de Fortgibu. Nesse momento a porta se

abriu e um homem muito, muito velho, já nos últimos estágios de desorientação, entrou no aposento: M de Fortgibu, que tinha ido ao endereço errado e apareceu na festa por engano.139

Já viajamos uma boa distância na nossa exploração do destino, e deixamos para trás o mundo antigo — pelo menos, é o que parece. Nos escritos de Jung, vamos encontrar uma nova palavra para destino, e um novo conceito da misterio­sa ordem da psique e do mundo; talvez esse novo conceito seja mais adequado para uma época em que nossa consciência mais racional gosta muito mais das hipóteses científicas do que dos mitos. Não obstante, a experiência da fatalidade ainda está conosco, como sugere a instrutiva história acima, e, portanto, agora precisamos considerar o difícil conceito de sincronicidade, no intuito de compreender o que faz a psicologia profunda com a questão do destino.

Gostaria de começar com duas histórias. A primeira é de um estudo do Dr. Gerhard Adler, "Reflexões sobre `Acaso', 'Destino' e `Sincronicidade' ". Nesse estudo, o Dr. Adler escreve sobre a misteriosa ocorrência que levou a seu encontro com Jung, e subseqüentemente à sua formação e trabalho como analista.
Quando eu era jovem, gostava muito de dançar e principalmente de bailes a fantasia, que estavam em voga em Berlim na década de 20 e no começo da

década de 30. Acho que foi em 1928 que dancei duas noites a fio, quase sem dormir. Na manhã seguinte, domingo, estava bastante estafado. Assim, não fiquei nem um pouco contente quando fui acordado pelo telefonema de um amigo, convidando-me para uma festa que ele ia dar naquela tarde. Recusei, mas o poder de persuasão do meu amigo acabou levando a melhor e fui. Ao entrar na sala, meus olhos, naquela época bastante suscetíveis, captaram a vi-são de uma bela moça. Quando meu amigo me apresentou a ela, disse o seguinte: "Dr. Adler — Sra. Adler". Esse tipo de coisa chama a atenção; pelo menos chamou a minha... Conversamos bastante, um estava bem curioso a respeito do outro. Assim, decidimos continuar a conversa em outra ocasião. Depois disso, encontramo-nos várias vezes. Em resumo, esse primeiro encontro, se não ainda de almas iguais, mas apenas de nomes iguais, levou a uma amizade íntima e muito fecunda. Porém — e aí está o nó da questão — resultou que minha xará tinha visto Jung e estava profundamente envolvida pelas idéias dele. No autêntico estilo da anima, ela despertou minha curiosidade sobre esse estranho homem e sua Psicologia Analítica; até então, eu tinha estado muito mais interessado em Freud...


"Foi assim que isto começou" — mas o que é "isto"? Aqui, o destino de duas pessoas foi profundamente entrelaçado num padrão complexo por causa do que, em linguagem comum, só podemos chamar de encontro casual. Acaso, destino, fomento da prontidão interna para a mudança e direção — como é possível desemaranhá-los? De qualquer forma, podemos perceber aqui uma "coincidência significativa" entre o destino interno e os acontecimentos externos.140
O Dr. Adler cita outros exemplos pessoais dessa aparente emergência de um padrão secreto na vida comum, onde se tem a impressão de que "alguma coisa" está trabalhando para moldar a direção em que a pessoa se desenvolve. Freqüentemente só é possível ver a importância dessas ocorrências em retrospecto; essas ocorrências nem sempre chamam especialmente a atenção, como a que foi citada acima. Mas os encontros "casuais" que, como o deus ex machina do teatro grego, aparecem subitamente no caminho da pessoa como arautos de uma crise ou de uma mudança de grande significado para o futuro, não são necessariamente encontros com pessoas significativas. Ás vezes o livro certo, que virtualmente "cai" de uma estante da biblioteca, ou o filme certo, que a pessoa, relutantemente, vai ver com os amigos, o acontecimento "casualmente" presenciado na rua, ou o acidente ou a doença impecavelmente sincronizados, ou mesmo um acontecimento aparentemente "mau" como um roubo, podem projetar uma aura misteriosamente significativa, porque coincidem com uma época de mudanças internas. Nessas ocasiões, a pessoa está, de alguma forma, mais receptiva ao significado simbólico do que viu ou encontrou. O acontecimento pode não significar nada para os outros, mas, se encontra ressonância dentro da pessoa, provoca uma forte sensação de que algo importante está ocorrendo, sensação que é muito difícil de ignorar. Tenho visto, no mais das vezes, darem a ela o nome de sentimento de "destino", como se a pessoa tivesse chegado a algum nó, ou tivesse o presságio ou intuição de ter atingido uma encruzilhada. Embora talvez algumas pessoas se­

jam mais sensíveis que outras a essas ocorrências — talvez devido à função intuitiva que tende a extrair conexões significativas com bastante rapidez — elas não se limitam, absolutamente, aos que se interessam pelas artes esotéricas ou pela psicologia profunda. Acontecem com todo o mundo, e até a alma mais prosai. ca, se lhe derem chance, terá uma história estranha para contar. Essas "coincidências significativas" invocam uma convicção de que, por baixo do mundo visível, existe um outro mundo que se introduz, nas ocasiões oportunas, através da experiência da ordem predestinada.

O Dr. Adler levanta a questão da relação entre o interior e o exterior, e da possibilidade de os dois não serem tão díspares como a princípio parece.
Existe dentro de nós algum destino que prefigura o padrão de nossa vida, ou ela ê moldada pelas experiências reais? As experiências que temos são predestinadas, ou nós a sentimos tão intensamente e nos lembramos tão bem delas devido a uma necessidade interior? Ou existe uma coincidência entre necessidades interiores e acontecimentos exteriores, uma interconexão de dentro e fora, que torna a divisão em duas esferas irrelevante e até errônea? 141
Acredito que seja essa conexão entre "alma" e "destino" que esteja incorporada nas imagens míticas que investigamos nas páginas anteriores. Como vimos, os mitos cruzam as fronteiras entre "interior" e "exterior", manifestando-se nos dois níveis. Porém, se os mitos refletem um padrão básico, o que, então, preen­che o padrão com acontecimentos tão estranhos como o encontro do Dr. Adler com a Sra. Adler? Todo astrólogo encontra o "lugar intermediário" do mito em todo horóscopo, pois o padrão astrológico parece descrever tanto o caráter quanto o destino, como se fossem a mesma coisa. Os padrões míticos dos signos zodiacais são uma ilustração particularmente clara de como um modo interior de percepção e experiência coincide com um padrão de vida exterior. Mas alguma "outra" coisa opera para provocar as "coincidências significativas" que nos lembram de nossa unidade com nosso mundo. Jung achava que as experiências sincrônicas que unem o interior e o exterior pareciam apoiar-se numa base arquetípica. Em outras palavras, existe algo funcionando que transcende a divisão artificial entre a psique e o ambiente físico "exterior" — um padrão ordenador inerente que une a pessoa e suas experiências concretas de vida num significado comum. Creio que a maioria dos astrólogos tem experiência dessa "base arquetípica" como uma teoria geral para explicar por que um posicionamento planetário, um trânsito ou um aspecto progredido correlacionam uma qualidade ou tendência interior com um determinado tipo de experiência. O que é mais difícil de apreender é a especificidade da experiência, tal como o encontro descrito pelo Dr. Adler. Por mais causal e mecanicista que o astrólogo se torne — e alguns, compreensivelmente, procuram um "efeito" físico dos planetas sobre a vida humana — é difícil explicar satisfatoriamente a ocorrência espantosa, e às vezes profundamente irônica, dessas "coincidências significativas" a que Jung dá o nome de sincronicidade.

A segunda história que gostaria de usar como ilustração da experiência da "predestinação" ou ordem significativa é sobre a minha introdução à astrologia. Como o encontro fatídico dos dois Adlers, minha experiência derivou de um encontro

aparentemente "casual", embora não fosse com ninguém com o meu nome.. Nas férias de inverno do meu terceiro ano na universidade, aconteceu de eu estar em Boston, Massachusetts, onde conheci uma pessoa interessada em astrologia e filosofia esotérica. Naquela época, eu não tinha nem experiência nem interesse nessas coisas, mas estava preocupada quanto ao meu próprio rumo — continuar com a psicologia ou fazer carreira como cenógrafa e figurinista teatral. Fui "persuadida", contra a vontade e com certo ressentimento, a visitar a astróloga do meu conhecido — que era Isabel Hickey, na época residente em Boston, mas ainda desconhecida do grande círculo astrológico. Na ocasião, há mais ou menos 20 anos, na realidade não havia um "grande" círculo astrológico, mas pessoas que estudavam o assunto mais ou menos sozinhas. A Sra. Hickey era o centro de um grupo de alunos, poucos mas devotados, e marcamos uma hora para a leitura do meu horóscopo.

Naturalmente, a leitura me interessou, embora fosse muito rápida — somente meia hora — e fiquei perplexa com sua profundidade e acuidade: uma experiência bem comum no primeiro encontro de qualquer leigo com as misteriosas reve­lações do mapa natal. Fiquei, não há dúvida, profundamente impressionada, e senti-me forçada a considerar formas alternativas de encarar as coisas, diferentes do ponto de vista behaviorista que eu estava aprendendo. Mas a leitura do mapa, apenas, não teria sido suficiente para me levar a estudar o assunto em profundidade. Entretanto, parece que a Sra. Hickey sentiu um nítido interesse por mim, sugerindo que eu poderia me sair bem no estudo da astrologia, e se ofere­ceu para me incluir em sua turma e dar-me algumas aulas particulares. Acolhi a idéia com entusiasmo, mas antes que eu pudesse aceitar o seu oferecimento, ela, por razões que até hoje não entendo, inverteu o interesse inicial, tomou-se de apaixonada aversão por mim, insultou-me e excluiu-me de suas aulas. Não fiquei, e nem estou agora, espantada por ela não ter gostado de mim; provavelmente, sou tão "não gostável" quanto qualquer um. Mas o seu ataque intenso e abertamente agressivo me surpreendeu. Nem eu nem meu amigo conseguimos achar uma razão plausível para ele; não parecia próprio da mulher sábia e compassiva do primeiro encontro, de quem todos falavam com respeito e afeto. Tinha só trocado umas poucas frases com ela, e, que eu saiba, de forma alguma a ofendi. Tentei conseguir unta cópia do meu mapa natal, que ela normalmente dava a seus alunos, mas recebi uma recusa seca. Meu amigo, então, tentou achar o mapa nos arquivos do escritório dela, ao qual ele tinha acesso, mas, para meu espanto, disse-me que o mapa tinha desaparecido; o de todos os outros estava lá, mas não o meu.

Minha reação inicial a essa experiência um tanto aborrecida, tão promissora no começo e tão embaraçosa no final, foi me desligar de tudo. Saí de Boston, perdi contato com o amigo que tinha me apresentado à Sra. Hickey. Mas a coisa me corroía, gerando um medo um pouco paranóico de que ela tivesse visto no meu horóscopo algo terrível, que a tivesse feito recuar, ou que tivesse previsto um destino horrível, sem poder me avisar. Eu também estava muito ferida e, conseqüentemente, muito zangada. O resultado foi que resolvi aprender a montar meu mapa, para poder enfrentar fosse qual fosse o pesadelo que ela pudesse ter visto. Como não conhecia ninguém sequer remotamente interessado em as­trologia entre meus colegas de psicologia, só me restava lutar com os poucos

livros sobre o assunto disponíveis na época, a maioria de orientação mais ou menos teosófica e não muito instrutivos para uma psicóloga. Assim, instruí-me, pelo processo de ensaio, erro e experimentação, discutindo com amigos cujos mapas montei. Quando percebi que meu mapa natal não refletia nenhuma configuração monstruosa e nenhum destino hediondo, eu já estava apaixonada. Como diz o Dr. Adler em seu artigo, "Foi assim que isto começou" — mas o que é "isto"?

Recapitulando essa experiência, agora fica evidente, em retrospecto, que minha confusão sobre meu rumo e minha receptividade interna à entrada de algo em minha vida coincidiram com os acontecimentos externos que acabei de descrever, de maneira sincrônica. Eu estava numa encruzilhada, e meu destino veio me encontrar. Para ser honesta comigo mesma, preciso admitir que a reação hostil que recebi foi exatamente o estímulo certo para me colocar no meu caminho. Se tivesse sido aceita e protegida como uma das alunas da Sra. Hickey, é inteiramente possível que eu fosse até hoje uma das alunas da Sra. Hickey, continuando a praticar, apesar da sua morte recente, o método astrológico muito individual dela, com sua peculiar mistura de pensamento teosófico e sabedoria astrológica tradicional. Em vez disso, fui condenada a achar meu próprio caminho e desenvolver minhas próprias percepções; e qualquer que seja a relevância que minha investigação da astrologia psicológica possa ter para esse campo de estudo em geral, ela é inquestionavelmente forjada pela minha experiência e observação diretas, não um produto de um professor ou de uma escola. Tenho profunda gratidão por isso e pelo estranho encontro que tive, por mais desagradável que fosse na época, e por mais incompreensível que ainda seja agora.

Naturalmente, fui logo verificar os trânsitos e progressões em vigência na época do meu encontro com a Sra. Hickey e das repercussões subseqüentes. O trânsito mais notável na época era Júpiter passando em Gêmeos e fazendo uma estação¬ direta em meu Urano natal, na sétima casa. Essa é uma representação clássica de um encontro "predestinado" (ou sincrônico), trazendo oportunidades em seu rastro, mas saindo de minha vida tão depressa quanto entrou. Desde então aprendi a prestar muita atenção aos trânsitos de Júpiter porque, embora muitas vezes passem depressa e sem quaisquer benefícios concretos visíveis para a pessoa que fica esperando sentada que lhe caia maná do céu, eles coincidem, freqüentemente, com oportunidades capazes de expandir em muito a visão e a compreensão. Mas é preciso agir quando se abrem essas cortinas que cobrem o mundo interno. É bom lembrar de Zeus, que com a rapidez do raio persegue e deita-se com as concubinas que escolhe, e depois desaparece com a mesma rapidez, deixando-as grávidas de um filho semidivino.

Outro aspecto relevante em vigência na época era a conjunção de Mercúrio progredido com Netuno natal em Libra na décima casa. Isso também é óbvio, pois o envolvimento da décima casa sugere um novo rumo em termos de objetivo ou vocação ou, num nível mais profundo, em termos da eventual contribuição individual ao coletivo. A presença de Mercúrio, classicamente, se associa a novos interesses e esferas de aprendizado; Netuno, naturalmente, se associa a toda espécie de coisas ocultas e sobrenaturais. Lendo essa configuração específica, eu diria que refletia um "momento certo" no meu desenvolvimento, quando estava pronta, intimamente mas sem saber, para encontrar o mundo de imagens do Inconsciente

e seus antigos símbolos, que acabaria se tornando a vocação de minha vida. Como diz o ensinamento budista, quando o aluno está pronto, o mestre aparece — mesmo que no meu caso o mestre tenha desaparecido com igual rapi­dez, me deixando sozinha para encontrar o caminho.

Essas duas configurações — o trânsito de Júpiter por Urano e a conjunção progredida de Mercúrio a Netuno — são os indicadores primários de "alguma coisa acontecendo" na época de meu encontro com a Sra. Hickey. Não são identificáveis, de pronto, como aspectos espetacularmente significativos, como pode ser o caso com progressões do Sol ou trânsitos dos planetas exteriores. Ficaria surpre­sa se qualquer astrólogo, sem retrospecto, olhasse essas configurações e dissesse — "Ah, esse é um dos grandes pontos de virada da sua vida". Isso levanta uma questão importante, sobre a relação entre o "significado" de uma experiência em termos subjetivos e a aparente força dos aspectos que refletem, no mapa, essa experiência. Constatei que essas duas coisas não coincidem necessariamente. Parece que alguma outra coisa está envolvida na importância de uma determinada experiência para a pessoa, além dos significadores astrológicos; mas qualquer que se­ja essa "coisa", parece que ela depende, ou é refletida, por um movimento plane­tário adequado, que fornece um canal ou um "marcador de tempo" para sua ex­pressão. Vamos explorar o que possa ser essa "coisa" na hora devida, quando chegarmos à questão do destino e do Self. Na minha maneira de ver, a constelação de conteúdos arquetípicos e acontecimentos sincrônicos ocorre em coorde­nação com trânsitos e progressões planetários; o significado da experiência e suas qualidades essenciais são refletidos pelos planetas envolvidos. A importância da experiência para a pessoa, entretanto, não é necessariamente proporcional ao "poder" do trânsito ou da progressão de acordo com as regras astrológicas tradicionais.

Nos escritos de Jung sobre o assunto, ele chega à conclusão de que os acontecimentos sincrônicos tendem a ocorrer quando a pessoa está subjugada pela Influência emocional. Ele descreve esse processo da seguinte forma:


Os arquétipos são fatores formais responsáveis pela organização dos processos psíquicos inconscientes; são "padrões de comportamento". Ao mesmo tempo, eles têm uma "carga específica" e desenvolvem efeitos numinosos que se expressam como afetos. O afeto produz um abaissement du niveau mental parcial, pois embora eleve um conteúdo particular a um grau supernormal de luminosidade, ele o faz retirando tanta energia de outros possíveis conteúdos da consciência que estes se tornam escurecidos e finalmente inconscientes. Devido à restrição da consciência produzida pelo tempo de duração do afeto, há uma correspondente diminuição de orientação que, por sua vez, dá ao inconsciente uma oportunidade favorável para infiltrar-se no espaço vago. Assim, constatamos regularmente que conteúdos inconscientes inesperados, ou de outra forma inibidos, irrompem e encontram expressão no afeto. Esses conteúdos, com muita freqüência, são de natureza inferior ou primitiva, e assim traem sua origem arquetípica.142
Uma das situações mais óbvias em que se pode ver esse processo do afeto Irrompendo e desorientando a consciência da pessoa, permitindo assim que con­teúdos

inconscientes desconhecidos venham à tona, é a experiência de se apaixo­nar. Esse é um campo extremamente fértil para acontecimentos sincrônicos, como Jung descobriu ao montar seu famoso experimento astrológico com casais casados. A correlação espantosa (paca o leigo) entre uma profunda experiência emocional e uma correspondência altamente precisa e estatisticamente incrível de fatores astrológicos entre dois mapas é conhecida de qualquer astrólogo que lide com sinastria. Não há fatores astrológicos específicos, até onde posso ver, que indiquem, com certeza, que a pessoa vai se apaixonar, embora a constelação do casamento no estudo de Jung pareça estar relacionada com conjunções, trígonos e sextis Sol-Lua entre os mapas. Mas o estado de paixão não é um fato legalizado como o casamento, e é experimentado de forma diferente por pessoas diferentes. Freqüentemente, Vênus, Netuno e a Lua estão envolvidos sempre que há um estado afetivo forte, embora não precise necessariamente ser "amor". Mas tenho visto gente dizer que está apaixonada sob configurações áridas como Sol e Saturno, ou Marte e Urano. Parece que a constelação interna refletida por um trânsito ou uma progressão sobre algum ponto sensível no mapa natal e o encontro exterior com o "outro", que provoca essa emoção tão arrasadora, constituem, juntos, um exemplo básico de sincronicidade. Algumas vezes fiquei pasma com a forma misteriosa e incompreensível como duas pessoas de pontos opostos do mundo se encontram, e seus complexos combinam maravilhosamente, seus antecedentes parentais são incrivelmente semelhantes, e seus mapas encaixam-se como uma roupa sob medida. O objeto amado, nessas circunstâncias, "responsá­vel pela invocação de tamanho despertar de imagens arquetípicas, quase não é humano; com mais freqüência é algo semidivino, por causa da natureza mítica da projeção e da numinosidade que acompanha essas experiências do profundo mundo interior. Esses encontros em geral são chamados "predestinados", porque é assim que parecem. É difícil refutar isso, porque sem dúvida existe uma sensa­ção de "certo" nesses encontros, não só em termos dos efeitos que têm no presente imediato, mas também em termos de sua influência sobre o curso do desenvolvimento das duas pessoas.

No meu entendimento desse processo com relação à astrologia, um determinado posicionamento no mapa natal reflete um determinado "padrão" ou "organização psíquica" dentro da pessoa. Esses padrões, que acredito serem o cerne das histórias míticas e também o cerne do que Jung chama complexos, são, em certo sentido, o destino, pois foram escritos no nascimento. Netuno colocado na minha décima casa, além disso, é diferente do Netuno na nona casa de outra pessoa, de modo que esse é um destino altamente individualizado. Estou "destinada" a ter experiências netunianas, a fazer com que se manifestem temas netunianos, na área da vocação e do contato com o público, assim como, no começo da vida, a encontrar o planeta por meio da herança da mãe. Netuno na nona casa, por outro lado, estaria "destinado" a encontrar essas experiências na área dos assuntos espirituais e religiosos, no reino das escolhas morais e éticas. Assim, as pessoas expressam os motivos universais de maneiras altamente individuais, e a antiga re­de de imagens arquetípicas manifesta-se de forma altamente pessoal nos sonhos, como demonstrei em numerosos exemplos.

Prosseguindo, um trânsito ou uma progressão desencadeiam, ou, mais precisamente, coincidem com a emergência desse potencial arquetípico, e desenvolve-se

um afeto. No meu caso, a sensação de confusão e de indecisão sobre o rumo a se­guir constituíam o abaissement que permitiu ao inconsciente "infiltrar-se" com suas peculiares propriedades sincrônicas. O Inconsciente foi ativado porque era a "hora certa". Estou convencida de que esse padrão de tempo é inerente ao orga­nismo desde o nascimento, assim como a época em que o tomate floresce e pro­duz frutos é inerente a sua natureza. Assim, como que por acaso, encontrei alguém que me conduziu à fase seguinte de minha vida, através de uma "coincidência significativa" entre uma descoberta interior e um acontecimento exterior. A experiência interior, a prontidão para explorar o mundo netuniano, foi refletida no exterior pelo encontro com a Sra. Hickey, e o significado inerente aos acontecimentos — interior e exterior —, por sua vez, foi refletido, em termos astrológicos, por Mercúrio progredido conjunto a Netuno e Júpiter em trânsito estacionário sobre tirano.

Jung achava que as situações "encalhadas" tendiam a gerar fenômenos sincrônicos, pois a situação de impasse na vida constela a natureza compensatória do inconsciente, e tendem a surgir sonhos e imagens arquetípicas como uma espécie de "abertura de caminho". Do ponto de vista da astrologia, entretanto, é ao contrário. É o arquétipo que desencadeia a sensação de estar encalhado, pois a pre­sença de um trânsito ou de uma progressão importantes anuncia uma profunda mudança no padrão interno da pessoa. Alguma coisa nova, assim, lenta entrar na vida do ego, alguma coisa que até então estava encerrada num sono de conto de fadas de potencial inconsciente. Acho que é o choque entre esse novo desenvolvimento e a situação estática do ambiente, até então perfeitamente satisfatória, que resulta na sensação de estar encalhado. Tenho visto tantas pessoas usarem essa palavra quando o mapa reflete mudanças iminentes de grande magnitude, que cheguei à conclusão de que o "encalhe" é o estágio preliminar de qualquer movimento importante no mapa — e na pessoa. Não se fica encalhado a não ser que uma coisa em movimento encontre um obstáculo. As vezes o obstáculo é uma atitude preexistente com relação a vida, refletida por uma situação externa, que subitamente começa a parecer estreita demais. Nessas ocasiões, muitas vezes vêem-se pessoas procurando ajuda psicoterapêutica ou consultando um astrólogo, porque a vida ficou "sem sentido", e é impossível saber para que lado ir. Essa era a situação em que se encontrava o Dr. Adler quando conheceu a Sra. Adler. Ele estava "encalhado" em termos de confusão sobre seu rumo. Essa também era minha situação quando encontrei a Sra. Hickey. Mas uma olhada no horóscopo nessas épocas aparentemente morosas, em geral, revela que as coisas estão longe do encalhe ou da estagnação; de fato, estão caminhando para o amadurecimento; o ego ainda está preso à velha perspectiva, mas já sente um novo vento soprando.

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