Os planetas exteriores e seus ciclos os astros e o amor



Baixar 1.42 Mb.
Página18/23
Encontro29.07.2016
Tamanho1.42 Mb.
1   ...   15   16   17   18   19   20   21   22   23

Uma das coisas mais esquisitas a respeito dos fenômenos sincrônicos é uma avassaladora sensação de uma espécie de conhecimento a priori do inconsciente. "Alguma coisa" — e voltamos ao estranho desconhecido — sabia que, para que o Dr. Adler cumprisse as exigências de seu padrão, ele tinha que chegar até Jung, de modo que "ela" evidentemente deu um jeito de a Sra. Adler ir à mesma festa, e "ela" também evidentemente convenceu o amigo a dar uma festa, em primeiro lugar. Isso parece absurdo, mas subjetivamente, é essa a impressão. "Alguma coisa", igualmente, sabia que para que eu cumprisse o meu padrão,

eu precisava encontrar a astrologia, de modo que "ela" garantiu que eu fosse a Boston, reuniu-me ao amigo que me apresentou a Sra. Hickey e também fez com que a Sra. Hickey se comportasse de maneira a assegurar o surgimento de minha teimosa determinação em aprender algo sobre o assunto sacudido na minha frente e depois retirado de forma tão estranha. Da mesma forma, "ela" garantiu que essas providências coincidissem com um trânsito e uma progressão que se encaixavam perfeitamente no significado da época.

Muito bem, percebo que isso atribui a "ela" poderes razoavelmente assombrosos, e não é surpreendente que as pessoas que se vêem às voltas com esses arran­jos chamem esse "ela" de Deus. A noção de onisciência do inconsciente, sem qualquer base causal concebível, dá origem a uma peculiar sensação de predestinação quando nos deparamos com acontecimentos sincrônicos. "Alguma coisa" conhece o bastante não apenas para movimentar a psique, mas também para movimentar o mundo da matéria, ou, como se disse no filme "E.T.", para "manipular o ambiente". "Ela" parece ter dedos — se esta e a palavra adequada — nos mundos de dentro e de fora, nos reinos do espírito .e da matéria, como se realmente não houvesse distinção entre esses opostos. É isso que entendo pelo termo "psicóide" de Jung, usado por ele para descrever a natureza do arquétipo: é uma unidade que abrange e transcende a oposição entre psíquico e físico, interno e externo, pessoal e coletivo, individual e universal. Jung cita Lao-tzu:

Há algo sem forma, porém completo

Que existia antes do céu e da terra.

Quão quieto! Quão vazio!

De nada depende, imutável,

Em tudo penetra, infalível.

Pode-se concebê-lo como a mãe de todas as coisas debaixo do céu.

Não sei seu nome.

Mas o chamo "Significado".

Se tivesse de dar-lhe um nome, seria "O Grande ".143

Esse é o Tao da filosofia oriental, que no Ocidente era conhecido pelos alquimistas como anus mundos, um mundo, o organismo único, inter-relacionado e interconectado, da vida. Os gregos também o conheciam, quando se afastaram da onipotência de Moira, como pronoia ou nous, a mente de Zeus ou a Providência Divina. O cristianismo adotou o conceito da Providência Divina, opondo-o à velha visão pagã do destino, pois embora, no fundo, seja difícil distinguir entre os dois em termos de "fatalidade", seu sentido subjetivo é muito diferente. Por um lado, Moira, a face feminina do destino, estava associada ao senso de condenação e de morte, pois nenhum "plano", no sentido teleológico, igualava-se a seu poder; ela representava simplesmente os limites da natureza. A Providência Divina, que tem um ar nitidamente masculino, tem, por outro lado, a qualidade de "ordem" e "intuito", um movimento em direção ao "bom" (pode-se discutir até que ponto isso é subjetivo) e associa-se ao cuidado amoroso e a uma Vontade onisciente e benéfica.

Quando os primeiros autores religiosos tentaram descrever a "alguma coisa" que eles viam como a incognoscível Vontade de Deus, ou a Providência que dispõe os assuntos da vida, tiveram dificuldade em articular a tecedura de tempo, espaço e causalidade que qualquer intromissão dessa Providência parece acarretar. Por esse motivo, faz-se referência à Providência Divina como algo que está além do espaço e do tempo: o futuro e o passado são simultaneamente o presente na Mente de Deus, e a criação como um todo ocorre espontaneamente no mesmo momento. É só o ego, em termos psicológicos, que experimenta a vida num continuum linear espaço-tempo, e quando o inconsciente irrompe no campo da consciência, com os fenômenos sincrônicos que o acompanham e a qualidade de "conhecimento absoluto", a experiência que se tem é de ausência de tempo e de destino preordenado. Jung coloca isso da seguinte forma:
O "conhecimento absoluto" que é característico dos fenômenos sincrônicos, um conhecimento não mediado pelos órgãos sensoriais, respalda a hipótese de um significado automantenedor, ou até expressa sua existência. Essa forma de existência só pode ser transcendental, visto que, como mostra o conhecimento de acontecimentos futuros ou distantes no espaço, ela está contida num espaço e tempo fisicamente relativos, isto é, num continuum espaço-tempo irrepresentável.144
O problema do que o religioso entende como a pré-cognição de Deus levou a alguns confrontos mais ou menos violentos no decorrer do desenvolvimento da teologia cristã. Era inconcebível, para os primeiros homens da Igreja, que Deus não fosse onisciente; mas se Ele fosse onisciente, então sabia que pecados um homem cometeria no futuro, o que significava que pecado, salvação e condena­ção já estavam predestinados. Mas isso cheirava muito ao velho conceito pagão do destino e à astrologia; além disso, se os pecados e a salvação do homem já estivessem escritos, não fazia muito sentido nem fazer esforços morais para não pecar, nem, para começar, dar muita importância à orientação da Igreja. Assim, era preciso pensar em algo mais sutil, que admitisse a Providência Divina repudiando ao mesmo tempo o destino e a compulsão das estrelas. Bertrand Russell cita Santo Agostinho a esse respeito:
A astrologia não é só maligna, mas também falsa: isso pode ser provado através da diferente sorte de gêmeos, que têm o mesmo horóscopo. A concepção estóica do destino (que estava associada à astrologia) é errônea, pois anjos e homens têm livre-arbítrio. É verdade que Deus tem precognição de nossos pecados, mas não pecamos por causa de sua precognição.145

Santo Agostinho estava profundamente convencido de que todos os homens partilham do pecado de Adão e, portanto, merecem ser julgados. Em Sua grande misericórdia, entretanto, Deus predestinou alguns homens à salvação; predestinou outros ao castigo que seu pecado merece. Todos os homens, maculados pe­lo pecado, merecem a condenação, mas Deus, por sua soberana vontade, escolhe alguns para a salvação. Santo Agostinho sustentava que Deus tinha predetermina. do o número exato dos que receberiam Sua graça, e não se podia somar nem

subtrair uma alma sequer desse número. Entretanto, apesar disso, diz ele, anjos e homens têm livre-arbítrio. Acredito que isso ilustra algumas das dificuldades que surgiram em torno da questão de conciliar a liberdade de opção humana e a onisciência de Deus.

A doutrina da Providencia e da predestinação também era sustentada por Santo Tomás de Aquino, que, como Santo Agostinho, rejeitava a astrologia pe­las razões de sempre. Em resposta à pergunta: "Existe o destino?" Santo Tomás sugere que poderíamos dar o nome de destino à ordem impressa pela Providência, mas era melhor achar outra palavra, pois destino é um termo pagão. Isso conduz inevitavelmente à discussão de que a prece é útil, mas a Providência é imutável, Deus às vezes opera milagres, mas ninguém mais.

Parece-me, ao confrontar inicialmente essa complexa visão teológica de um destino que não é destino mas se comporta como tal e na realidade o é, se pudermos usar uma palavra diferente, que alguns muito eminentes Pais da Igreja se empenhavam com extremo afinco para conciliar a experiência da fatalidade da vida com a perspectiva religiosa que precisava, necessariamente, excluir o destino, já que essa crença desgastava o interesse pela Igreja, e a dependência dela como instrumento de salvação. Exatamente o mesmo problema surgiu durante a Reforma, quando a crença de Calvino na predestinação das almas eleitas excluía a necessidade dos sacerdotes como intermediários entre as almas dos homens e Deus. Pode-se entender o dilema teológico, e pode-se mesmo admirar a sutileza da discussão. Porém, quanto mais penso nesse assunto, mais acredito que a resposta teológica a Moira vai um pouco além da mera prestidigitação intelectual para preservar o poder do santo edifício. Isso, sem dúvida, é uma parte da questão. Mas no fim das contas talvez a Providência não seja exatamente igual a Moira, pois as leis de Moira, conforme expressas no mito grego, são causais. Ou seja, Édipo está destinado, desde o nascimento, a assassinar o pai e casar com a mãe, e porque isso foi escrito pela mão do destino, é preciso que ele cumpra, necessariamente, o oráculo. Santo Agostinho tem trabalho para ressaltar que a pré-cognição de Deus não faz com que os homens pequem. É mais como o "conhecimento absoluto" do inconsciente de que fala Jung que, como existe num "continuum espaço-tempo irrepresentável", percebe simultaneamente o pas­sado, o presente e o futuro e cria as coincidências externas e internas da vida sempre de novo em cada momento, porque cada momento é um momento eterno. Todavia, Jung teve extremo cuidado em ressaltar que o que ele estava descrevendo era o inconsciente, não Deus; não é possível, como psicólogo, pretender conhecer o Incognoscível. Mas as formas como os seres humanos vivenciam Deus — ao contrário da natureza de Deus — sem dúvida pertencem ao domínio da psi­cologia, e essa experiência humana postula um Deus que se manifesta pela sincronicidade e parece possuir um "conhecimento absoluto"; entretanto não faz com que os homens pequem, no sentido em que Moira faz com que os homens cumpram um determinado destino.

Assim, pronoia ou Providência torna-se uma espécie de contraponto ao velho conceito estóico de heimarmenê, o destino escrito nos céus. Embora tudo, inclusive a salvação, possa estar predeterminado desde o começo na Mente de Deus, não é a mesma coisa que a compulsão planetária, porque a vontade de Deus, no sentido cristão, não preordena que os homens pequem; conhece antecipadamente

seus pecados, o que é diferente. Assim, a famosa Oração de Cleanthes, citada por Russell como exemplo da crença pagã na Providência, poderia facilmente ser uma oração cristã, com uma ligeira troca de nomes:
Conduz-me, Ó Zeus, e tu, Ó Destino,

Conduz-me d frente,

Para qualquer tarefa que me envies,

Conduz-me à frente.

Seguirei sem medo; mesmo que, sem confiança,

Eu me retarde e não vá, preciso seguir à frente.146
Aqui temos uma ressonância da declaração de Jung de que o livre-arbítrio é a capacidade de fazer de bom grado o que é preciso fazer.

Parece que se manifesta uma espécie de progressão ou evolução na transição do destino causal e concreto de Moira para o destino sincrônico da Providência Divina. Moira, mesmo sendo menos digerível para a consciência do século XX, é mais fácil de entender. Jung define a sincronicidade como a ocorrência simultânea de um determinado estado psíquico e um acontecimento (ou acontecimentos) externo que se apresenta como um paralelo significativo com relação ao estado subjetivo. É isso, em essência, que encontramos ao interpretar qualquer posicionamento no mapa natal, e principalmente ao considerar fatores que possam ser prognosticados tais como progressões e trânsitos, mapas horários e retornos solares. Como o problema do jovem que viu a Morte no mercado de Isfahan, a questão de saber se uma determinada situação poderia ser evitada ou mudada torna-se, de certa forma, irrelevante. Pode-se especular que outro "arranjo" poderia ter acontecido para levar o Dr. Adler a Zurique, caso tivesse recusado o convite do amigo para a festa. Já fiquei imaginando o que poderia ter sido "arranjado" para me introduzir à astrologia, se eu não tivesse encontrado a Sra. Hickey. Mas essas são perguntas impossíveis, porque, como acontece com as imagens estranhamente precisas e "certas" que surgem nos sonhos, as situações efetivas que ocorreram eram absoluta e irrepreensivelmente oportuna para a pessoa e a ocasião.

No trabalho astrológico surgem inúmeros exemplos de sincronicidade, que qualquer praticante mais cedo ou mais tarde encontra. Fazem parte do incrível fascínio desse estudo. Todos os exemplos que citei de sonhos coincidentes com trânsitos críticos são exemplares do tipo sincrônico. O mesmo ocorre com os fenômenos "comuns" que muitos astrólogos e também psicoterapeutas experimentam como tão difíceis de explicar para o leigo, mas que acontecem com tanta freqüência que a pessoa pára de questionar e começa a dar risada. Por exemplo, parece que a pessoa sempre atrai clientes cujos problemas refletem ou constelam os próprios problemas dela, mesmo que os clientes venham através de algo tio impessoal quanto um anúncio de jornal. Todo analista tem experiência desse tipo de coisa, bem como da maneira quase mágica em que, se ele consegue algum progresso ou adquire maior compreensão sobre suas próprias questões, o mesmo ocorre com seus analisados, sem que troquem qualquer palavra a respeito. Aqui encontramos o peculiar unus mundus do inconsciente, que une analista e analisado num acordo secreto e ambivalente, de modo que às vezes se torna difícil saber

qual psique está fazendo o quê a quem. Também já ouvi muitos colegas queixa­rem-se das "semanas más" em que os analisados, os clientes, o marido ou a mulher, a mãe e até o caixa do banco tornam-se rudes, intratáveis difíceis sem razão aparente; mas o exame do horóscopo revela que a pessoa está passando por alguma mudança ou crise importante, e o mundo exterior encena para ele a natureza de seu conflito. Essas são as épocas em que ocorrem os "acidentes", o carteiro traz o imposto, o ladrão arromba a casa, o cano de água arrebenta e o porão fica inundado, e a pessoa começa a achar que, definitivamente, "alguma coisa" a está perseguindo.

Também são comuns as "séries" de clientes de um determinado signo que procuram o astrólogo quando um dado movimento está ocorrendo no horóscopo do astrólogo. Notei que, de vez em quando, recebo uma série de clientes, em geral uma dúzia, todos com o Sol, a Lua ou o ascendente no mesmo signo, e até no mesmo grau, um atrás do outro; isso acontece mesmo quando as consultas são marcadas em ocasiões diferentes e sem qualquer ordem astrológica determinada. Quando examino as minhas questões internas, em geral descubro que aquele determinado símbolo zodiacal, qualquer que seja, tem alguma importância para mim naquele momento específico. Muitas vezes isso coincide com algum trânsito no meu mapa, embora não necessariamente com alguma coisa no mapa dos clientes. Eu poderia fazer uma citação interminável dessas situações sincrônicas, que parecem um bando de aves voando à volta do trabalho astrológico e analítico. Talvez seja assim porque essas áreas exigem o encontro e a relação constante com o material arquetípico, e, uma vez dentro desse "campo" arquetípico, a pessoa logo fica exposta à estranha forma em que ele aparentemente "ordena" os acontecimentos externos e internos.

Creio que os fenômenos de clarividência também pertencem à categoria dos acontecimentos sincrônicos. Métodos divinatórios como o tarô, a clarividência, o I Ching e assim por diante tendem a provocar medo e ambivalência no leigo, devido à implicação de que o futuro está predestinado. É claro que não sei qual é a resposta, mesmo tendo à minha disposição um termo bonito como sincronicidade. Mas se considerarmos essas coisas do ponto de vista da psicologia profunda, não estamos lidando com um destino "causal" onde tudo está escrito desde o começo, e sim com uma ligação significativa entre um estado interior e um acontecimento exterior, que se torna perceptível para o vidente porque ele, ou ela, já penetrou no reino arquetípico. O clarividente, portanto, ultrapassou o continuum comum espaço-tempo e atingiu aquele "lugar intermediário" onde o passado, o presente e o futuro são simultâneos. Como essa parece ser uma esfera de criação espontânea, aparentemente a intromissão da consciência tem algum efeito sobre essa criação, da mesma forma que o observador científico tem um efeito sobre o experimento que está observando. Assim, vimos como o trabalho com o material do sonho, que também ê uma intromissão no mundo do inconsciente, afeta tanto o observador quanto o observado — embora nem sempre seja claro exatamente quem é, na verdade, o observador ou sujeito, e o que é objeto observado. Se a transformação do destino é possível, aí reside essa possibilidade: no relacionamento com o reino arquetípico. O mesmo pode ser dito da predição astrológica: enquanto a pessoa permanece inconsciente e conserva seu velho ponto de vista, qualquer novo desenvolvimento interno assumirá uma expressão previsível,










já que só pode manifestar-se através dos canais disponíveis. Porém, se os mo­vimentos do inconsciente puderem ser recebidos pelo ego dentro de um espírito de autêntica abertura, as duas partes da equação ficam afetadas, e torna-se cada vez mais difícil determinar, concretamente, a exata expressão exterior da dinâmi­ca interior. Presumo ser isso o que está tentando dizer a escola astrológica do "blueprint", mas o que ela não enfatiza é a longa luta e o esforço necessários pa­ra estabelecer esse relacionamento com a psique inconsciente. Dessa forma, vol­tamos outra vez a Marsilio Ficino e sua magia "natural", e também ao pobre rei Henri II, cuja morte, em sincronismo com determinados trânsitos planetários, era tão claramente previsível.

Mostramos acima um grupo de mapas de uma família: um homem, sua esposa e seus dois filhos. Escolhi esses horóscopos para ilustrar um caso de destino e sincronicidade,





porque a morte do homem, que chamarei David Bates, ocorreu de forma súbita e inesperada. Esse evento está refletido não só no mapa dele como também no do resto da família. Vamos ver mais tarde que está refletido até no mapa dos quatro netos, embora fossem muito novos para avaliar totalmente sua perda e não o conhecessem bem. A morte, como o nascimento, é o mais arquetípico dos acontecimentos. É experimentado por todos os seres vivos, e seu sig­nificado invade muitas dimensões da vida interna e externa. A ocorrência da morte numa família não é um acontecimento isolado atingindo uma pessoa num vácuo. É refletida sincronicamente nos horóscopos de todos os membros da fa­mília, embora sua expressão varie em cada caso, pois as experiências significam coisas diferentes para pessoas diferentes. Havia outros acontecimentos em cur­so na família na época da morte de David Bates, sem relação causal com ela, mas, como veremos, com uma ligação em termos de significado. David morreu de um ataque do coração enquanto jogava tênis; até então, não tivera nem doenças nem sintomas que pudessem sugerir esse desenlace numa idade relativamente jovem. Entretanto, veremos que a sombra de alguma crise já tinha se projetado muito tempo antes, embora talvez não previsível de forma específica ou concreta. A morte física de David foi um acontecimento de uma rede interligada de expe­riências, internas e externas, todas elas portando algum selo arquetípico de morte, em um nível ou outro. Tive a sorte de obter, por intermédio de Jean Bates — que forneceu os dados natais do marido e dos filhos — a hora da morte de David, de modo que também podemos examinar o "mapa da morte" mostrado anteriormente. Essencialmente, esse é um mapa horário para a hora específica de um acontecimento; esse "mapa da morte" é em si uma expressão de sincronicidade, mostrando nada menos que quatro planetas, além do nodo lunar Norte, na oita­va casa, e Urano, como convém ao modo súbito do falecimento, colocado exa­tamente no Meio-do-Céu.

As ligações entre os mapas dos membros dessa família são fascinantes e refletem o que já vimos no caso da família de Renée, a criança autista: a repetida ocorrência de determinados signos, aspectos e colocações por casas. Por si só, esse já é um estranho exemplo de sincronicidade, pois não há base causal para es­sas recorrências, mas elas acontecem assim mesmo. Por enquanto, entretanto, gostaria de focalizar os trânsitos e progressões vigentes no mapa de David Bates por ocasião do ataque cardíaco. O primeiro aspecto progredido em vigência, e talvez o mais impressionante deles, era o Sol progredido em 15 Escorpião em quadratura quase exata com o nodo ascendente da Lua, na quarta casa. Já conhe­cemos a fama medieval um tanto estranha dos nados da Lua, onde o trânsito de Saturno sobre o nodo ascendente no mapa do rei Henri foi um sinal da morte iminente da Sui Mui Cristã Majestade, para Luc Gauricus. Não sou Luc Gauricus, e reluto em lazer interpretações tão literais dos movimentos planetários sobre os nodos, mas esse aspecto progredido, sem dúvida, me dá a desconfortável sensa­ção de refletir alguma crise ou acontecimento inevitáveis. Não preciso me esten­der sobre o significado tradicional da quarta casa como "fim da vida". Ela tam­bém tem outros significados, inclusive o começo da vida, o relacionamento com o pai e o relacionamento com as raízes e o mundo interno. É possível que David Bates tivesse a opção de expressar essa progressão através de qualquer um desses níveis aos quais tivesse acesso; mas também é possível que não. Além da progressão

solar, Marte progredido estava a 15 Leão, fazendo uma oposição com o nodo, de modo que o Sol progredido e Marte progredido também estavam em quadratura. Finalmente, o próprio nodo progredido tinha avançado até uma conjunção exata com Urano natal, também na quarta casa.

Não há dúvida de que Gauricus teria riscado David Bates, assim como riscou o rei francês, mas no momento estou mais preocupada com o significado desses aspectos. Esses contatos astrológicos certamente cheiram a raiva e grandes conflitos. O que quer que estivesse acontecendo dentro de David na época do ataque cardíaco, creio que ele devia estar extremamente frustrado e insatisfeito, talvez com todo o edifício de sua vida e com seu significado (ou falta de significado). Parece que ele estava sendo pressionado pela necessidade de alguma mudança, com a qual aparentemente não sabia lidar, devido à intensa relutância que sentia com relação a todas as coisas "internas". Essa mudança tinha começado três anos antes de sua morte, quando o Sol progredido avançou até uma quadratura com Urano natal, regente da quinta casa. O Sol rege a décima primeira casa e também está aí colocado; reflete-se, assim, um conflito entre os objetivos e atividades de David na sociedade, e seu desenvolvimento individual. Isso sugere que algo estava sendo exigido dele, na esfera da expressão individual; mas como David não era inclinado à introspecção "egoísta", a mudança ou movimento em direção a uma nova dimensão de experiência foi frustrada. Tudo que ele fez, na época da pro­gressão, foi se aposentar — mas essa aposentadoria não significou, de forma al­guma, uma expansão. Significou simplesmente parar de trabalhar, enquanto tudo o mais continuava exatamente como antes.

David Bates era diretor de uma escola para meninos, profissão que parecia servir-lhe admiravelmente, tendo o Sol em Virgem e o Meio-do-Céu em Câncer. Gos­tava de seu trabalho, e seus alunos e colegas respeitavam-no e gostavam dele. Para um virginiano que trabalhou a vida toda num só emprego e num só lugar, a aposentadoria é uma crise importante, pois Virgem tende a identificar-se com seu trabalho e precisa de uma coisa mais profunda que uma mudança de horários pa­ra contrabalançar o que foi perdido. Esse período de três anos na vida de David, entre a progressão Sol-Urano e a progressão Sol-nodo, foi um período de completa reorientação, uma oportunidade que a pessoa tem para descobrir quem é, quando a persona exterior é desmontada. Que a persona era mais ou menos obsessivamente Importante para David, podemos deduzir da colocação de Saturno exatamente no Meio-do-Céu. Isso sugere, em primeiro lugar, uma experiência extremamente dominante e poderosa da mãe pessoal, enfatizada pela presença da conjunção Lua-Netuno em Leão também na décima casa. Mais tarde, reflete certa¬ ansiedade ou insegurança quanto à posição ocupada no mundo exterior, e uma tendência a tentar sempre fazer o que é "certo" aos olhos dos outros. Os sentimentos de David sobre seu trabalho são complicados: dava-lhe satisfação emocional e David, por sua vez, dava muito de si ao trabalho, que é a minha interpretação da conjunção Lua-Netuno, mas ao mesmo tempo se agarrava como um caranguejo às "regras", e estava fora de questão fazer ou pensar em qualquer coisa que não fosse "respeitável".

1   ...   15   16   17   18   19   20   21   22   23


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal