Os planetas exteriores e seus ciclos os astros e o amor



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Assim, ele foi incapaz de aproveitar a oportunidade oferecida pela quadratura Sol progredido-Urano. Embora não estivesse mais ocupando a mesma posição na sociedade, tentava manter a mesma personalidade e o mesmo código de

ética. Em resumo, tentou permanecer exatamente a mesma pessoa que era antes do aspecto Sol-Urano. Minha impressão é que um planeta como Urano exige o máximo de nós, porque ele tenta demolir as atitudes cristalizadas e liberar libido para outros fins. Se a pessoa não consegue assimilar esse tipo de mudança, em ge­ral há um preço a pagar mais tarde. Pela minha experiência, esse preço, muitas vezes, é a doença física. Falando sem rodeios, como a morte, no mapa de David Bates, está refletida corno um conflito e não como um desenvolvimento harmônico, acho que ele pode ter morrido porque alguma coisa dentro dele recusou a nova vida que estava sendo oferecida. Todavia, pode-se argumentar que a morte é uma "nova vida", e que não é um acontecimento negativo mas simplesmente uma passagem. Esse é o ponto de vista sustentado tanto pela reencarnação como pelo cristianismo ortodoxo, embora o outro lado da passagem seja diferente. Inclino-me a concordar, em linhas gerais, com esse ponto de vista filosófico, e não tenho a menor idéia se David estava "predestinado" a morrer. Mas, pelo que captei de sua história, ele era um homem amável e manso, tímido demais para viver sua vida, e levava consigo um eterno sentimento de insatisfação e de fracasso.. Nesse caso, a morte talvez fosse menos o preenchimento de uma vida do que uma oportuna fuga dela. Ás vezes se vêem progressões na época da morte refletindo um senso de serenidade e preenchimento; a morte, então, é mostrada como uma dádiva, o florescimento de uma vida plena. No caso de David Bates, as progressões são turbulentas e refletem a morte como um conflito.

Os trânsitos no mapa de David na época da morte aumentam mais ainda minha impressão de um conflito não resolvido dirigindo-se para a única saída possível. Esses trânsitos, na realidade, são o "mapa da morte". O exame desse mapa mostra um eclipse solar ocorrido um pouco antes do dia do falecimento de David. Esse eclipse, que fez conjunção com Mercúrio em trânsito e Plutão em trânsito, aterrissou, com a precisão de um míssil Sidewinder, no ascendente natal de David. O eclipse também caiu em quadratura com uma conjunção Marte-Satur­no-Plutão no Meio-do-Céu. Bem, nós já lidamos um pouco com Marte-Saturno-Plutão, nos exemplos de Timothy S. e de Ângela. Não preciso me alongar aqui sobre a intensidade e a paixão reprimidas refletidas pela configuração. Não importa o que mais signifiquem os eclipses solares — eles são, em essência, uma lua nova, e portanto refletem um novo começo, o fim de um ciclo e o começo de outro. Como o ascendente é o ponto mais íntimo do horóscopo, refletindo o nascimento da pessoa, o mito e o espelho de sua perspectiva de vida essencial, esse eclipse parece ter-se sincronizado com uma época em que as velhas atitudes de David, representadas pelos planetas no Meio-do-Céu, estavam sendo desafiadas. Marte-Saturno-Plutão em Câncer é muito mais frustrado e limitado do que Mar­te-Saturno-Plutão em Leão, que pelo menos pode desabafar sua relva por meio de explosões de mau gênio. Mas a natureza sensível e retraída de Câncer virtualmente garante que o planeta dominante dessa conjunção será Saturno, cercean­do todas as paixões e ambições para não deixar oscilar o status na sociedade. David Bates era um excelente diretor, na opinião de todos que o conheciam; mas ele mesmo achava que nunca tinha conseguido obter o reconhecimento ou o po­der que desejava. Suponho — embora Jean Bates não quisesse falar a respeito, e eu não tenha investigado — que David se sentia impotente em muitas acepções da palavra, inclusive em termos de seu impacto sobre o mundo e de sua masculinidade

essencial. No casamento, parece que ele foi o parceiro mais flexível e mais submisso. A vontade, a paixão e a auto-assertividade de David sempre foram rigidamente controladas pela voz da autoridade coletiva, representada por Saturno; e era essa voz que estava sendo desafiada. Outra visão desse fato, talvez mais plutoniana, seria que David continuou preso, pela vida toda, à mãe e aos códigos de conduta por ela impostos, nas áreas profissional e pessoal; agora havia uma oportunidade para que essa prisão fosse relaxada, com todas as conseqüências decorrentes.

Quatro meses antes de sua morte, Plutão tinha estado estacionário a 13 Libra, em quadratura exata com Saturno no Meio-do-Céu. Era a quarta vez que Plutão passava nesse ponto, a culminação de um longo e subterrâneo processo de mu-dança. Nos três anos entre a aposentadoria e a morte, ou, astrologicamente, entre as quadraturas Sol-Urano e Sol-nodo, Plutão também cruzou várias vezes o ascendente natal, aí fazendo duas estações. Como Plutão está colocado na nona casa no mapa natal, esse trânsito implica o questionamento da perspectiva filosófica e moral, e na percepção gradual dos aspectos mais ambivalentes de um Deus que, para David Bates, sempre tinha sido summum bonum, somente bon­dade: Mais uma vez, fico com a impressão de que David, na época subseqüente à aposentadoria, tinha começado a vislumbrar algumas coisas a respeito de si mes­mo e de sua vida, e não gostou do que viu. Talvez ele tenha começado a sentir raiva da falta de liberdade verdadeira ou de individualidade em sua vida, ou da maneira como, tantas vezes, ele tinha se limitado em nome da moralidade cole­tiva. Como vamos ver, os aspectos cruzados entre os mapas de David e Jean não são absolutamente fáceis, e seus conflitos estavam sendo acirrados durante esse período de reorientação de três anos. Mas, longe de serem abertamente manifestados, esses conflitos eram rigidamente reprimidos pelos dois. Talvez David precisasse do ataque cardíaco porque a única alternativa seria um tipo diferente de morte, que ele não podia sancionar.

Também é interessante notar que Saturno em trânsito tinha entrado no signo natal de David, e estava se aproximando da conjunção Sol-Vênus em Virgem na décima primeira casa. Como Vênus é o regente do ascendente, e como a décima primeira casa diz respeito, entre outras coisas, à visão individual do futuro e à contribuição individual aos objetivos grupais, parece que estava ocorrendo um período de necessária depressão e reavaliação. O estilo de vida de David, e sua persona, entretanto, não teriam permitido que ele passasse por uma "boa" depressão para descobrir o que seria dele quando não fosse mais um diretor com um emprego que dava significado à sua vida. Ele também pode ter começado a sentir alguma dificuldade no casamento, típico de Saturno sobre Vênus, mas atípico de David, que era conivente com a esposa no sentido de apresentar um casamento "perfeito" aos olhos do mundo. Saturno em geral dá a Vênus lampejos de compreensão a respeito do relacionamento e das limitações do amor — do outro e do próprio — e exige um pouco de "distanciamento", para que a realidade dos dois possa ser ajustada no relacionamento. Esse casal, entretanto, tendia a viver como uma unidade amorfa, sem qualquer distanciamento visível, nem físico nem psíquico.

Sei que o que disse sobre David Bates soa como se achasse que sua morte foi de certa forma um fracasso, a Incapacidade de resolver um conflito. Isso não es-

tá de acordo com Moira, que exige que tudo que é mortal morra; também não está de acordo com qualquer visão mais pragmática que encara a morte como um acontecimento físico que sobreveio, nesse caso, "por acaso". Mas essa morte específica tem algo de estranho; parece ter proporcionado a saída para um impas-se. Não creio que tenha sido um "fracasso", pois as coisas realmente não pode-riam ter sido diferentes. Dado o teor do seu horóscopo natal, não é de surpreen­der, com a mansidão e o refinamento de seu temperamento, que quaisquer mudanças abertas ou agressivas teriam assustado David, e não teriam permissão para entrar na consciência. Se o caráter é o destino, então o caráter de David predestinou a sua morte, resultado inevitável do choque entre o caráter e seu imprescindível crescimento. Sol conjunto a Vênus e Lua conjunta a Netuno somam-se ao ascendente libriano e ao Meio-do-Céu canceriano para fazer de David uma pessoa totalmente respeitável, que não gostava de discussões, detestava magoar os ou­tros, evitava conflitos sempre que possível pela mediação e pelo debate, e abstinha-se de ir contra a tendência geral. Assim, sua morte não é um "fracasso", e sim uma necessidade psíquica. Mas acho que posso ser desculpada por investigar que outras possíveis formas de morte seriam cabíveis, se David fosse mais consciente de sua situação. Talvez mesmo assim ele tivesse de morrer; simplesmente não é possível saber.

Mas um trânsito precisa ser mencionado antes de passarmos para o "mapa da morte" e para os horóscopos dó resto da família. É a conjunção de Júpiter em trânsito com a Lua natal em Leão. Essa conjunção estava quase exata na época da morte e, com irônica previsibilidade, ocorreu no signo que, durante milênios, foi associado ao coração físico. Aqui encontramos outra evidência de sincronicidade: a relação entre a predisposição psíquica refletida por um signo zodiacal, e um órgão no corpo físico. Dizer que Leão "rege" o coração implica uma situação causal. Mas parece que, a despeito do princípio arquetípico representado por Leão, o coração físico e a esfera simbólica do coração se unem na mesma imagem. Já exploramos o mito de Leão, com seu anelo de redenção espiritual e sua enérgica busca da fonte da individualidade. No momento da morte, o que pare­ce ter sido constelado em David Bates foi um intenso anseio de renovação do amor e da vida. Normalmente, Júpiter sobre a Lua pareceria um aspecto "bom", porque "abre o coração". Mas o súbito despertar de vitalidade refletido pelo trânsito evidentemente não encontrou canal de expressão; provou ser "demasiado" para David e, com o risco de parecer rococó e simplista, parece que, em algum nível interior, seu coração quebrou.

O "mapa da morte" da ilustração não é diferente do mapa natal, no sentido de refletir as qualidades do momento. Porém o mapa natal descreve os padrões e o significado interno da vida de David Bates, enquanto esse outro horóscopo descreve a qualidade de sua morte. Uma carta desse tipo pode ajudar-nos a compreender o significado de um acontecimento, não só do ponto de vista de como os planetas afetam o horóscopo natal da pessoa, mas também como uma descrição da conotação e significados inerentes ao momento da morte. Parece que os céus, aqui, conspiraram contra David Bates para refletir um mapa cuja ênfase está no reino da morte — quatro planetas, incluindo o Sol, a Lua e o regente do mapa (Saturno) estão na oitava casa. Essa, tradicionalmente, é a casa relacionada com a morte, destruição, regeneração e o encontro como "outro" nas profundezas

de si mesmo. É um mapa em geral harmônico, sem nenhuma oposição e ape­nas duas quadraturas. Mas há algo extremamente perturbador no aglomerado da oitava casa. Tomado apenas como um momento de um dia, esse mapa, falando sem rodeios, sugere que era um bom momento para alguém morrer.

Marc Edmund Jones, no livro Horary Astrology, faz o seguinte comentário sobre os princípios de operação desses mapas de acontecimentos:


A pergunta muitas vezes levantada pelo não-astrólogo é uma questão prática: como pode o padrão de uma situação trivial da vida ter seu reflexo no céu? A resposta ê encontrada na concordância geral dos acontecimentos num universo ordeiro ou num sistema de energia integrada. 147
Assim, o princípio da sincronicidade na qualidade do momento é tão relevante como os fenômenos sincrônicos com relação à pessoa. Alguns momentos são mais "cheios de morte" que outros, e este é um deles. A presença da morte não está ligada especificamente ao horóscopo de David, mas é uma propriedade do momento específico em que ele morreu. Que esse momento "cheio de morte" também afete o horóscopo dele com muita exatidão (com aspectos tais como Júpiter exatamente conjunto à Lua) torna-o ainda mais espantoso. Posso explicar as razões dessas coincidências tanto quanto posso explicar por que as galinhas vêm dos ovos.

O "mapa da morte" de David não é o mapa de uma pessoa, mas de um momento, e portanto não podemos interpretá-lo de acordo com os padrões da psi­cologia humana. Sob muitos aspectos, esse mapa é mais árido, mais duro, porque não está recheado de carne humana. A tranqüilidade desse horóscopo, com seus muitos sextis e ausência de oposições, reflete com precisão infalível a tranqüilidade do falecimento de David. No que diz respeito a tipos de morte, uma coronária fatal súbita provavelmente é das menos desagradáveis; assim, o Sol, a Lua, Mercúrio e Plutão todos conjuntos em Libra, fazem um sextil com Netuno, su­gerindo uma passagem tranqüila. A nota dissonante do mapa é dada pela conjunção exata de Urano com o Meio-do-Céu. Mas isso combina com o modo súbito do acontecimento e combina, também, com a separação dos entes amados pela morte, sugerida pela conjunção de Urano com Vênus em Escorpião. Assim, o "mapa da morte" nos diz muito literalmente que tipos de padrões ou influências arquetípicas estão operando no momento. Acredito, há algum tempo, que o Meio-do-Céu, como um dos quatro ângulos do mapa, se relaciona não só com a vocação e com a mãe, mas com o processo de manifestação física, talvez ainda mais que o ascendente — que é em geral considerado como o ponto de nascimento. Há alguns anos coletei dados sobre as épocas de vários terremotos sérios, e descobri que Urano figurava constantemente no Meio-do-Céu. Isso me levou a pensar no Meio-do-Céu com relação a acontecimentos manifestos. Uma pesquisa posterior com horóscopos compostos levou-me a descobrir que, na época de concretização de um relacionamento potencial, muitas vezes há um trânsito poderoso no Meio-do-Céu do mapa composto. Como resultado dessas e de outras obser­vações, estou convencida de que esse ângulo do horóscopo está relacionado com o nascimento das coisas na realidade concreta. Assim, o Meio-do-Céu representa não apenas a mie, mas a mãe enquanto corpo, e muitas vezes as características

físicas da pessoa são refletidas pelo signo e planetas no Meio-do-Céu com mais força do que pelo ascendente. Em outras palavras, o Meio-do-Céu é o lugar da manifestação do lado de fora, e a conjunção Marte-Urano-Vênus no Meio-do-Céu do "mapa da morte" de David sugere um acontecimento súbito, violento, separativo ocorrendo no mundo exterior naquele exato momento. A morte física, refletida pela colocação de Urano no Meio-do-Céu, só poderia "acontecer" em sentido literal no momento preciso em que o planeta atingisse o Meio-do-Céu — o que, por sua vez, "aconteceu" de coincidir com o momento preciso da coronária de David.

Sem dúvida, o testemunho desse "mapa da morte" tem algo de muito estranho e perturbador. A implicação, naturalmente, é que cada momento traz seu próprio padrão, e alguns momentos são mais carregados ou mais poderosos que outros. Talvez nós sejamos, em certo sentido, "sensíveis" ao giro eterno dos céus, de modo que o que fazemos é sempre adequado para aquele momento; ou então, porque nós mesmos somos partes da vida unificada que também inclui os céus, nós e eles coincidimos. Assim, se alguma configuração arquetípica como a morte está refletida nos céus — como obviamente estava no momento do faleci. mento de David — as pessoas em que a mesma configuração arquetípica também é constelada responderão com uma experiência de morte em algum nível, naque­le momento. Podemos nos entusiasmar com a palavra sincronicidade, porque parece muito mais racional, mas ela soa simplesmente como destino.

Agora gostaria de examinar o horóscopo de Jean Bates, cuja experiência da morte do marido é refletida de maneiras muito diferentes. Estranhamente, os trânsitos e as progressões ativos na época não envolvem a sétima casa, como se poderia esperar com um fato como a morte do parceiro. Ao contrário, enfatizam a quarta casa, através da conjunção de Mercúrio progredido e Marte natal em 14 Áries naquela casa. Agora, acho que nem Luc Gauricus leria "morte do mari­do" dessa vez, mas o que eu leio, embora a princípio possa parecer estranho, é uma crise envolvendo pai e raízes. Só posso deduzir que, para Jean, o marido era mais uma figura paterna do que marido, cujo significado primário era proporcio­nar um lar, raízes e segurança. Á medida que prosseguirmos, vamos ver se há quaisquer outros fatores que corroborem essa conjetura. O que a progressão no mapa de Jean Bates diz é o seguinte: uma figura paterna, e não um marido, está em crise ou passando por problemas. Como a sra. Bates adorava o pai e despre­zava a mãe, não é surpreendente que tal elemento tenha se tornado parte integrante de sua vida de casada.

Se quiséssemos ser literais, poderíamos interpretar o Urano na quarta casa de David como um destino de morte súbita, de final repentino da vida. Conheci algumas pessoas muito idosas com Urano na quarta casa, embora isso não exclua a possibilidade de que, quando chegar a hora, seu fim seja súbito, e não prolongado. Da mesma forma, poderíamos enxergar literalmente o Vênus de Jean Bates, regente da sétima casa, em oposição a Plutão na oitava, como o destino da morte do parceiro. Jean, com certeza, não me deu a impressão de uma pessoa que deixaria que Plutão entrasse em seu casamento de qualquer outra maneira. Era um casamento "perfeito", sendo qualquer escuridão ou destrutividade totalmente inconscientes e encobertas. Essa oposição natal entre Vênus e Plutão foi acionada pelo eclipse em 9 Libra que caiu no ascendente de David e também na

décima casa de Jean. Esse eclipse, além do Plutão em transito, também se chocou com Marte natal-Mercúrio progredido. Como o Vênus-Plutão de Jean liga-se, por um aspecto cruzado de quadratura, com a conjunção Saturno-Marte-Plutão de David, podemos conjeturar que poderia ter havido alguns elementos menos que perfeitos atuando nesse relacionamento; o Saturno de David, em quadratura exata com o Marte de Jean, e o Saturno de Jean em quadratura ampla com o Marte de David sugerem a existência de uma situação emocional e sexual meio turbulenta entre os dois. Esse é um "problema conjugal" básico, onde os dois parceiros tendem a frustrar e a enraivecer o outro. O que é curioso é que toda a rede de aspectos entre os dois mapas estava sendo constelada pela configuração Sol-Lua-Mercúrio-Plutão em trânsito na época da morte. Não tenho certeza de como ler isso, mas desconfio que, juntamente com qualquer outro destino e quaisquer outras motivações que pudessem estar atuantes por ocasião de sua morte, David Bates deixou a esposa da única forma que sabia.

Outra faceta interessante no horóscopo de Jean é que, exatamente na mesma época em que o Sol progredido fez quadratura com Urano no mapa de David, e ele se aposentou, Jean estava experienciando o Sol progredido em quadratura com Plutão. Ela, também, estava passando por profundas mudanças; algum tipo de morte também assomava no seu horizonte, três anos antes do evento. Ela me contou que durante esse período ficou bastante "doente", sofrendo de vertigens e desmaios sem explicação médica. A nossa tendência, como analistas céticos, seria olhar o lado emocional desses sintomas, principalmente porque aconteceram numa época que Jean descreveu como "maravilhosa", quando ela e o marido estavam particularmente próximos, nunca se perdendo de vista. O Sol progredido em quadratura com Plutão descreve a morte do parceira com mais exatidão que os aspectos atuantes na época da morte efetiva, o que é muito misterioso. É como se, para ela, alguma coisa tivesse morrido antes, coincidindo com a época da aposentadoria de David. É isso que queria dizer quando afirmei que a sombra dessa morte já tinha sido projetada muito tempo antes. Pode ser que, agora que o marido já não usava mais suas insígnias sociais, ela se visse desafiada a chegar a conhecê-lo e a encarar os elementos mais escuros dos sentimentos que nutria por ele. O Sol progredido em quadratura com Plutão sugere um período em que uma pessoa se depara com tudo que é escuro, primitivo e desconhecido em sua natureza. Minha impressão é que Jean Bates não podia, ou não queria olhar essas coisas; daí os sintomas de "escurecimento" que ela apresentou na época que, como imagem simbólica, não poderia descrever melhor o "tornar-se inconsciente".

Parece que estava surgindo unta crise para os dois que, sem dúvida, à sua moda, se amavam profundamente, mas estavam mal equipados para lidar com os aspectos inconscientes mais intrincados deles mesmos e do seu relacionamento. Docilmente pode-se "culpá-los" por isso, visto que os valores e os padrões nos quais foram educados quase não os prepararam em nada para o lado mais desagradável do casamento, representado por Plutão, que aspecta Vênus e Marte nos dois mapas. Para não dedicar mais umas cinqüenta páginas às características psicológicas do casal, basta dizer que, por um lado, a experiência que David tinha da mãe e, portanto, das mulheres, reflete-se em seu horóscopo como extremamente poderosa e muito manipulativa; sua experiência do pai e, portanto, suas possibi­lidades

com relação à própria condição masculina reflete-se como frustrada e decepcionante. Jean, por outro lado, tem uma imagem da mãe semelhante à do marido, pois os dois têm Saturno na décima casa; sua imagem do pai também não é diferente da do marido, pois ela tem o Sol em oposição a Netuno, sugerindo idealização e adoração mascarando uma sensação de perda e desilusão; enquanto Marte na quarta casa em oposição a Saturno e em quadratura com Plutão sugere violência encoberta e poderosa sexualidade não expressa associada ao pai. Assim, os dois têm o mesmo padrão: uma mãe repressora e poderosa, um pai frustrado e zangado, que parecia "fraco". Talvez cada um deles vivenciasse o outro como um pai delegado, uma situação que não é incomum em muitos casamentos mais convencionais de jovens. Esse elo incestuoso e profundamente inconsciente só foi rompido quando David se "aposentou", quando se "retirou", sob a progressão Sol-Urano, e começou a se libertar. A atmosfera, numa casa onde as duas pessoas nunca saem da visão da outra e simultaneamente estão passando por importantes progressões solares aos planetas exteriores, não pode ter sido pacífica. Mas Jean Bates não conseguia se lembrar absolutamente de nada errado, a não ser seus inexplicáveis desmaios.

O trânsito de Plutão, cruzando o ascendente de David e fazendo quadratura com seu Saturno no Meio-do-Céu, como mencionei, também estava fazendo oposição ao Marte natal de Jean e acionando tanto a conjunção Marte-Saturno do mapa natal como a progressão Mercúrio-Marte. Mais uma vez, isso implica uma situação de frustração e profunda raiva, e a necessidade de mudança e de liberação. Suponho que David e Jean estavam começando a descobrir todo tipo de profundos ressentimentos um contra o outro, embora nenhum deles fosse capaz de lidar com essas emoções. Jean é uma aquariana muito característica, que nunca sonharia em dizer algo doloroso ou egoísta para ninguém. Seu jeito e positivo e bondoso, com poucos sinais do ascendente Escorpião ou na Quadrado T Vênus-Marte-Plutão do seu mapa. Mas seu forte componente plutoniano sugere que ela deve ter dado a conhecer seus sentimentos de todas as maneiras enco­bertas possíveis, e esses sentimentos devem ter sido realmente muito fortes. Os desmaios em geral aparentemente atingiam seu objetivo, pois sempre que ela ficava "doente", o marido se mostrava extremamente atencioso, carinhoso e devotado. Em algum outro nível, entretanto, ele sem dúvida ficava extremamente zangado. Só posso conjeturar sobre o significado dessa morte para Jean além do nível consciente. É claro que depois ela mergulhou num período de pesar e de desorientação, pois ele era a coisa mais importante em sua vida. Mas acho que essa morte também significou a perda de uma batalha, já que o marido conseguiu esgueirar-se de suas garras; assim, foi uma liberação final com relação à necessidade de posse dela, cada vez mais premente e mais enraivecida, e, conseqüentemente, uma rejeição no nível mais profundo.

Há outros trânsitos que, sem dúvida, são relevantes nesses dois mapas, e também não mencionei todos os meios-pontos que poderiam estar envolvidos, nem outros métodos de prognóstico como as progressões primárias e terciárias, ou os retornos solar e lunar. Mas os aspectos que mencionei contam uma história, notavelmente clara, de morte em muitos níveis, ocorrendo — ou tentando ocorrer — por um considerável período. Quando se pondera que a datação desses aspectos já era inerente ao nascimento dos dois, fica ainda mais surpreendente

observar os aspectos cruzados entrelaçados ocorrendo na época da morte. Não estou sugerindo que os problemas conjugais fossem a "causa" da morte de David. Estou sugerindo que a vida à tona desses problemas e a necessidade psí­quica de mudança foram sincrônicas com a morte.

Gostaria agora de considerar a experiência da morte do pai nos horóscopos dos dois filhos, começando com o mais novo, que vou chamar de Trevor. Estranhamente, não há aspectos progredidos importantes no mapa de Trevor por ocasião da morte do pai. Os dois filhos tinham se separado da família de maneira mais ou menos reveladora, embora não revelasse nada para a Sra. Bates. Alguns anos antes do evento, Trevor tinha emigrado para a Austrália e Brian para a América. Assim, na ocasião da morte, Trevor não estava enredado nos problemas da família, embora alguns aspectos no mapa natal, como Lua em quadratura com Netuno e Sol em oposição a Plutão, sugiram que os dilemas que os pais não puderam solucionar passaram para a geração seguinte. Trevor também tem o revelador contato Marte-Saturno, que partilha com o pai e a mãe, e que é uma espécie de "assinatura da família". Mas havia um aspecto Importante progredido em vigor no ano antes da morte: o Sol tinha avançado para 21 Peixes, fazendo um trígono com a Lua natal em 21 Câncer na sétima casa. Esse aspecto, em geral considerado harmônico e estabilizador, sugere que a vida de Trevor estava realmente caminhando num sentido muito cons­trutivo, e que ele estava experimentando um período de felicidade pessoal na profissão e no casamento. Isso é interessante, à luz das dificuldades que os pais estavam vivendo, como se o seu próprio "casamento interior" de Sol e Lua representasse uma espécie de separação da rede familiar, e uma cura da sua divisão interna entre mãe e pai — sugerida pelo quincúncio entre o Sol e a Lua. Tenho visto muitas vezes que a morte de um dos pais coincide com uma época na vida do filho quando ocorre, internamente, uma separação daquele genitor. Assim, rompe-se o cordão que une pai e filho num nível inconsciente, e ambos ficam livres para buscar seu destino. Tive ocasião de observar esse processo em funcionamento em um de meus analisados, quando o inconsciente começa a lançar símbolos que parecem se referir à separação interna com relação ao pai, meses antes de ocorrer a morte efetiva. Só em retrospecto se torna evidente que já havia algum conhecimento interior da morte próxima; ou, visto de outra forma, que a libertação interna do vínculo parental é sincrônica com a experiência externa da perda do pai.

O relacionamento de Trevor com o pai, conforme o mapa natal reflete, não era íntimo. O regente da quarta casa, Marte, está em oposição a Saturno em Virgem na oitava casa, sugerindo que o lado mais estruturado e terreno de seu pai (que era virginiano) era a faceta mais evidente para esse filho mais novo, e não era inteiramente bem recebida. Quando chegarmos ao exame do mapa do filho mais velho, Brian, também vamos encontrar um Saturno de oitava casa; assim, os dois filhos refletem certa distância ou perda envolvendo a experiência do pai. Os aspectos entre os mapas de Trevor e David também são um pouco difíceis, sugerindo perspectivas opostas e bem diferentes. Por exemplo, a conjunção Lua-Netuno em Leão, de David, faz oposição com a conjunção Vênus-Mercúrio em Aquário, de Trevor, sugerindo emotividade e autocentrismo no pai, chocando-se com racionalidade e distanciamento do filho. O Sol natal de

Trevor em oposição a Plutão também sugere uma experiência difícil do pai, devido ao elemento implícito de poder e de luta pelo domínio; é como se Trevor tivesse herdado o que seu pai, David Bates, não podia expressar do próprio vigor plutoniano que tinha. Suponho que a voluntariosidade, a paixão e o domínio da conjunção Marte-Saturno-Plutão no Meio-do-Céu de David, embora não fosse expressa na vida comum, era muito visível para o filho, contribuindo para sua mudança sem precedentes para a Austrália.

Os trânsitos são mais reveladores que as progressões, quando examinamos o que estava atuando no mapa de Trevor na ocasião da morte. Um dos aspectos mais impressionantes é a coincidência entre o falecimento de David e o final do retorno de Saturno de Trevor. Embora a conjunção exata tivesse ocorrido dois meses antes da morte, Saturno ainda estava dentro de órbita, e todo o período de vários meses antes e vários meses depois de um retorno de Saturno carrega o significado essencial do trânsito. Uma das características desse ciclo, que afeta todas as pessoas mais ou menos na mesma idade, é que ele significa uma espécie de "tornar-se adulto", um movimento de separação dos valores e padrões da família, com a afirmação dos pontos de vista e perspectivas da própria pessoa. É um, endurecimento psicológico, uma maturação que permite à pessoa deixar para trás parte de suas dependências parentais, lidar melhor com o mundo exterior, suas exigências e limitações, e aceitar a própria natureza, as fraquezas e as forças, com melhor ânimo. Assim, a morte de David Bates é mostrada como profundamente simbólica e como acontecimento literal, porque num nível interno o pai já estava morrendo — os velhos padrões e valores estavam indo embora — e essa mudança interna era acompanhada pelo enrijecimento e pelo isolamento de um filho passando de menino para homem. Trevor, a essa altura, já era pai, e estava começando a ter sucesso em sua área, a pesquisa química. Parece que em certo sentido a morte de David representou, para ele, uma libertação do velho Pai Terrível saturnino que o segurava, e o nascimento simultâneo de um princípio saturnino mais positivo dentro dele mesmo, que lhe permitia avançar no mundo.

Assim, Trevor já estava num processo de separação do pai nos meses que precederam a morte efetiva Um dos motivos desse tema da separação é o do fracasso ou sucesso materiais. David Bates, como já mencionei, parece ter sentido o peso de um agudo senso de não ter vivido seu potencial no mundo. Morreu achando que tinha sido fraco e ineficaz, Até que ponto isso ê uma verdade objetiva, e até que ponto é uma sensação subjetiva, não sei dizer; mas é evidente que, dentro do sistema familiar, ele era certamente o parceiro mais fraco no casamento. Trevor, até a época do retorno de Saturno, sofria de uma sensação semelhante, tendo falado com a mie algumas vezes a esse respeito. Essa sensação de impotência é característica de Marte-Saturno, presente no horóscopo natal de pai e filho. Depois do retorno de Saturno — embora não solucione absolutamente as implicações interiores do aspecto, que constituem um desafio para a vida toda — ficou mais fácil, para Trevor, ter sucesso e sentir-se "potente" em termos mundanos, pois já não estava tão identificado com o pai.

Há outros trânsitos em destaque no mapa de Trevor, embora eu acredite que o retorno de Saturno à sua posição na oitava casa é o mais revelador em termos da morte de David. Júpiter, que no mapa de David tinha chegado perto de uma

conjunção exata com a Lua, estava entrando em oposição exata à conjunção Vênus-Mercúrio de Trevor desde a cúspide da oitava casa. Esse trânsito tem uma conotação um tanto literal: uma experiência de morte perturba a estabilidade e a segurança do Vênus da segunda casa. Urano em trânsito também se aproximava de uma quadratura exata com Plutão natal em 15 Leão na oitava casa; mais uma vez, há uma conotação de uma experiência repentina da morte, um choque com alguma espécie de destino irrevogável. Também havia uma conjunção de Plutão em trânsito com o Netuno de Trevor em 15 Libra na nona casa. O envolvimento da nona casa, que também ocorre no mapa de Jean Bates, traz a implicação de alguma mudança profunda na visão do mundo, Já se processando algum tempo antes da morte. Netuno na nona casa é um posicionamento extremamente idealista; Trevor tem esse atributo em comum com a mãe, que também tem Netuno na nona em 16 Leão. Assim, os dois entram na vida com uma visão de um cosmo bem-aventurado e amoroso; Deus é summum bonum e o sacrifício e a submissão são exigências feitas à alma. Na época da morte de David, Urano em trânsito fazia quadratura com o Netuno na nona casa de Jean; e Plutão em trânsito fazia conjunção com o Netuno de Trevor na mesma casa. Assim, parece que os dois estavam passando por alguma mudança profunda nas atitudes religiosas e filosóficas por volta da época da morte de David Bates. A visão infantil de Jean de uma divindade amorosa e interessada foi despedaçada pelo modo súbito e pela "injustiça" da morte; a de Trevor estava sendo minada e sutilmente aprofundada nos meses anteriores. A morte não causou essas mudanças — foi sincrônica com elas; qualquer evento súbito e "não merecido" tem uma tendência a coincidir com uma época de questionamento das crenças religiosas básicas. Mais uma vez o arquétipo da morte está atuando, embora em esfera diferente.

O filho mais velho Brian Bates, parece ter registrado a morte do pai muito mais fortemente que o irmão, pois as progressões e trânsitos da época distinguem-se pela extrema força. Talvez o acontecimento tenha significado muito mais para ele, coincidindo com mudanças mais turbulentas em sua vida. O primeiro aspecto progredido que precisamos explorar é a oposição entre Mercúrio progredido e Plutão natal na nona casa. Esse aspecto, como a progressão Mercú­rio-Marte de Jean, não pode ser concebido cotio uma progressão de "morte" no sentido comum. O que sugere, isso sim, é um período na vida de Brian em que ele começou, talvez sem querer (as quadraturas e oposições em geral refletem a relutância em lidar com um problema) a descobrir uma dimensão inteiramente diferente da realidade. Mercúrio-Plutão expõe a pessoa ao inferno, de tal forma que sua perspectiva e suas atitudes mudam; suas opiniões sobre si mesmo e sobre a vida são forçadas a se aprofundar, e as coisas nunca mais ficam tão simples. Mercúrio está colocado no seu mapa natal na segunda casa, regendo a oitava; assim, a implicação é que essa profunda mudança na perspectiva brota de uma experiência de perda e estabilidade rompida.

Outro aspecto progredido relevante na época é a oposição entre Marte progredido e Vênus natal, também colocado na segunda casa. Essa progressão coincidiu com o início do rompimento do casamento de Brian, acontecimento que a princípio parece não se associar à morte do pai, mas que, como vamos ver, tem uma ligação mais íntima do que se pode pensar. Mais uma vez a morte está em evidência, mas aqui é a morte de um relacionamento; os contatos Marte-Vênus são

reflexos típicos de turbulência e de dificuldades nessa esfera da vida. As necessidades individuais chocam-se com a necessidade de segurança refletida por Vênus, regente da sétima, na segunda casa. O casamento de Brian era uma situação de segunda casa, dava-lhe um "cenário" de estabilidade. Na época em que o pai "deixou" a mãe, ele estava no processo de deixar a esposa. Marte estava progre­dindo pela oitava casa, ressaltando assim o tema da morte, embora a morte do pai — no caso de Brian, num nível simbólico — pareça estar mais relacionado a um encontro com uma faceta mais profunda e mais misteriosa da vida, e com a erupção de elementos emocionais até então inconscientes. Como o pai, Brian tinha feito um casamento "perfeito". Também como o pai, o arquétipo da morte, constelado com tanta força nessa família, parece ter ativado nele a amarga percepção de que havia algo menos que perfeito em sua vida. Os dois "morreram" em algum nível, embora a morte de Brian se referisse ao fim de uma per­sona, de um determinado estilo de vida e de um verniz de normalidade social encobrindo muita coisa em silenciosa putrefação. Ao expor esse período difícil na vida do filho mais velho, Jean Bates mostrava-se visivelmente perturbada e confusa, pois, da mesma forma que ocorria no casamento dela, "tudo parecia tão adorável". Quando considero todas essas vidas em conjunto — Trevor passan­do por sua iniciação no mundo, Brian passando pela morte da velha vida, David deixando a vida para trás e Jean sofrendo de desmaios, fico com a forte impressão de que algum tipo de cola básica, ou substância ligadora, que até então mantinha a família numa fôrma enredante e paralisante, começava a se dissolver. Essa dissolução liberou os filhos para viverem suas vidas, liberou a mãe para a viuvez e muitas questões perturbadoras, e liberou David para a morte.

Uma última progressão é digna de menção no mapa de Brian: a Lua progredida tinha chegado a uma oposição exata com a conjunção Marte-Urano em 5 Gêmeos na sétima casa. Classicamente, esse aspecto se associa à disrupção e à separação, e é interessante observar que Urano é o regente da quarta casa de Brian — a casa que se refere ao relacionamento com o pai. Brian, como Trevor, não registrava o pai como um homem amoroso, simpático; aqui o regente da quarta casa faz conjunção com Marte e quadratura com a Lua na décima (re­gendo a mãe). Assim, parece que Brian não era inconsciente das subcorrentes de batalha existentes entre os pais, mas que todos ignoravam tão cuidadosamente. A sincronicidade entre a perda do pai e a perda do casamento revela que, de alguma forma, a natureza do casamento de Brian estava vinculada ao casamento dos pais — como se ele tivesse tentado erradicar a profunda ansiedade de Marte-Ura­no-Lua cobrindo-a com uma "boa" fachada, seguindo os moldes da "boa" fachada observada em casa. Dessa forma, quando a morte cortou um dos relacionamentos, o laço que unia o outro também se rompeu. Um não foi a causa do outro; aconteceram juntos. Esse aspecto lunar progredido é a única progressão lunar que aparece nos quatro mapas considerados até aqui. Jean Bates não tinha nenhum aspecto lunar progredido atuando na época da morte, nem Trevor, nem o próprio David Bates; entretanto, se ele tivesse vivido mais um mês, sua Lua progredida teria feito um trígono com Netuno natal e um sextil com Mercúrio natal. Não tenho certeza do que concluir dessa ausência de aspectos progredidos lunares, já que a Lua progredida em geral é um excelente marcador do fluxo e refluxo da experiência vital. A única conclusão que posso tirar é que Brian foi o

único membro da família imediata que realmente sentiu o impacto da morte do pai na época do evento. Os outros a registraram, mas talvez só a tenham experimentado num nível emocional mais tarde. Isso não é incomum, pois nem todos nós sentimos as coisas da mesma forma e na mesma época. Muitas vezes existe um intervalo entre a época de uma experiência concreta e a época em que ela é assimilada. A Lua é o receptáculo da experiência no nível dos sentimentos, por assim dizer no nível das "entranhas", porque ela digere os acontecimentos da vida e os torna pessoais. A falta de aspectos lunares em todos os mapas, menos no de Brian, sugere-me que, embora Jean Bates tenha registrado a idéia da morte do marido, não sentiu essa morte nem suas implicações; na verdade, quando conversei com ela, tive a nítida impressão de que ela ainda não tinha digerido totalmente essa morte, embora já se tivessem passado vários anos. Quando perguntei sobre o enterro e o que ela sentiu, ela disse que tinha mandado cremar o corpo do marido. Só Brian foi ver o corpo antes da cremação, atitude que os outros achavam meio estranha. Até parece que essa morte não era totalmente real para nenhum membro da família, exceto Brian.

Finalmente, para concluir a análise dos mapas da família, um trânsito no horóscopo de Brian parece relevante. E o trânsito de Saturno pela Lua natal e em quadratura com a conjunção Marte-Urano, antes da morte. A Lua de Brian, em Virgem, liga-o ao irmão, que tem Saturno em Virgem bem perto dela, e também ao pai, embora a órbita da conjunção entre a Lua de Brian e o Sol de David seja tecnicamente demasiado ampla. Porém, esse trânsito de Saturno no mapa de Brian, como o retorno de Saturno no mapa de Trevor, parece sugerir que Brian tinha amadurecido de uma forma um tanto amarga nos meses precedentes à morte do pai. As quadraturas com os planetas na sétima casa refletem a dolorosa separação em curso em seu casamento, revelando um conflito entre o senso de responsabilidade e uma premente necessidade de liberdade. Mas o trânsito pela Lua sugere uma questão relativa à mãe. Além de superar o pai, Brian também estava superando a mãe, pois de certa forma parece que ele tinha se casado com ela ou com uma substituta sua. Logo antes da morte de David, tinha-se iniciado um afastamento da infância e dos vínculos maternos, combinado com uma necessidade cada vez maior de se firmar no mundo. Brian é procurador, e parece que o rompimento do casamento e a morte do pai também foram sincrônicos com um crescente envolvimento na vida profissional. Assim, os dois filhos estavam passando pela transição rumo à maturidade, nos meses anteriores à morte. Fico com a impressão de que Jean Bates, uma mulher extremamente carente e possessiva, com muito medo de abandonar qualquer pessoa que ame, "perdeu" os dois filhos durante esse período. Embora os dois já estivessem fisicamente separados, com grandes distâncias entre eles e a família, ainda não tinham "ido embora" emocionalmente; esse vínculo foi cortado nos anos que precederam a morte de David. Jean deve ter registrado o fato em algum nível, mesmo que inconsciente, provocando um certo aumento de ansiedade e uma tendência a descarregar no marido toda a bateria de suas necessidades emocionais. Como ele mesmo também estava passando por uma espécie de separação, era forçado ao confronto com ela — coisa que os filhos, mudando-se para pontos opostos do globo, tinham até certa medida evitado. Entre esse confronto, que num nível arquetípico ê representado pela luta com o dragão mítico, e uma saída rápida, pa­rece

que ele escolheu a segunda opção, embora eu não queira dizer que sua "escolha" foi em sentido consciente.

Gostaria de deixar claro que a análise acima não é uma acusação a Jean Bates como "causadora" da morte do marido. Seja qual for o significado da morte, ela estava refletida no mapa dele, de maneira desconfortavelmente "predestinada", e era portanto uma necessidade sua. Mas esse breve exame e, sob muitos aspectos, incompleto de algumas das influências dominantes atuando nos mapas, su­gere que estava começando a romper-se um complexo familiar, deixando cada um dos membros às voltas com suas próprias questões emocionais. Cada um rea­giu de acordo com o temperamento individual. Jean Bates informou-me, como uma espécie de reflexão posterior, que quando Brian voltou para a América, depois do enterro, escreveu a ela e contou-lhe um estranho sonho. Ela lembrava do sonho porque se associava, embora levemente, ao morto, e curiosamente serviu-lhe de consolo. Brian sonhou que tinha sido lançado das profundezas do mar num lugar rochoso, e quando subia para a terra firme viu seu pai caminhando alegremente para a água. David Bates virou-se sorrindo e disse até logo, indicando com um gesto que agora era a vez de Brian entender-se com a vida; em seguida desapareceu nas mesmas profundezas de onde o filho tinha surgido. Esse é um sonho profundo e de movimento, embora Jean não captasse suas implicações, pois retrata o ciclo da vida e a passagem da responsabilidade de pai para filho. O tema mítico por trás dele é a morte do velho rei e o nascimento do novo, aqui descrita como uma aceitação voluntária e não como uma luta. Creio que esse sonho também reflete algo sobre esse pai e esse filho, à medida que Brian, rompendo o vínculo maternal que o ligava à mie e à esposa, tinha realizado um feito de que o pai não foi capaz. É um pouco semelhante a Parsifal, pois o jovem é bem-sucedido onde o velho doente fracassa. O sonho é uma imagem adequada dos padrões míticos ou arquetípicos atuantes nessa família em níveis profundos e desconhecidos, sendo a morte física do pai apenas uma de suas manifestações.

Gostaria de encerrar essa exposição com uma breve menção de alguns reflexos sincrônicos do evento nos mapas de quatro netos. Reproduzi os mapas abaixo, mas só vamos lidar superficialmente com eles. É interessante notar a recorrência de signos, aspectos e colocações por casa, reflexo da herança familiar e do destino familiar.

Breco e Sally Bates são filhos de Trevor Bates, e Rupert e Henry são filhos de Brian. No horóscopo de Bruce, vê-se que Júpiter está colocado exatamente no IC em Aquário; Júpiter em trânsito estava se aproximando de uma oposição exata com esse ponto, na época da morte do avó. Como a quarta casa refere-se ao pai e à herança por linha paterna, esse aspecto parece condizente, embora Bruce, pessoalmente, não fosse muito afetado pela morte, pois na ocasião só tinha cinco anos. Sally, com dois anos na época da morte do avó, também mostra esse movimento pelo meridiano em seu horóscopo, mas no caso dela é Netuno em trânsito que se aproxima de uma conjunção exata com o Meio-do-Céu, aplicando-se à oposição com a Lua no IC. Assim, no mapa dessas duas crianças, sugere-se alguma mudança ou crise na esfera da família, embora dificilmente elas pudessem ter consciência das implicações mais profundas da morte. Além disso, Saturno em trânsito, que estava em 8 Virgem na época da morte de David, estava fazendo




uma quadratura exata com o Sol natal de Sally em 8 Gêmeos. Esse aspec­to também é tradicionalmente associado ao relacionamento com o pai ou com a linhagem masculina, e com alguma experiência de perda ou decepção.

Rupert e Henry eram mais velhos e conheciam melhor o avó; na época de sua morte, Rupert estava com onze anos e Henry com sete. Saturno, transitan­do em 8 Virgem, estava se aproximando de uma conjunção exata com o Vênus natal de Rupert; esse aspecto, sem dúvida, reflete a dor emocional e senso de perda provocados pela dissolução do casamento do pai, pois Vênus rege a quarta casa no mapa de Rupert. Porém, mais uma vez se mostra a sincronicidade de eventos, pois o aspecto coincide com a morte do avô de Rupert. No mapa de Henry, a poderosa oposição de Urano em trânsito com o ascendente também pode ser tomada como reflexo do rompimento do casamento dos pais; mas também é sincrônica com a morte do avô, pois 14 Escorpião é o grau que apa­rece no Meio-do-Céu do "mapa da morte" de David Bates.

O nodo ascendente de Henry está colocado exatamente no mesmo grau e no mesmo signo que o do avó — 15 Aquário — e cai na décima casa de Henry, rece­bendo uma quadratura de Urano em trânsito. E, mais uma vez, encontramos Júpiter aplicando-se à conjunção no IC em 7 Leão. Assim, qualquer que seja a interpretação que desejemos dar a esses trânsitos nos mapas dos quatro netos, um ponto se destaca claramente: a quarta casa está afetada em todos os mapas, ou por um planeta aproximando-se da cúspide ou por um trânsito afetando o regente. Esse elo sincrônico nos quatro mapas, mostrando alguma crise ou mu-dança na esfera do pai e da linhagem do pai, é bem impressionante.

A história de três anos na vida da família Bates, do ponto de vista astrológico, é um bom reflexo da maneira como pode apresentar-se a sincronicidade. Mas essas ligações não são de forma alguma excepcionais ou incomuns. Podem ser encontradas em qualquer família, sempre que ocorra um fato significativo para essa família enquanto unidade, e podem ser encontradas em relacionamen­tos também, onde os desenvolvimentos na vida de um dos parceiros se sincro­niza com mudanças na vida do outro. Através dessa grande cadeia interligada,

vidas diferentes são unidas por um significado comum, e revela-se a estranha unidade de substância que a alquimia chamava de unus mundus e que Jung chamava de inconsciente coletivo. A operação da sincronicidade ê assombro­sa, não menos devido a qualidade de conhecimento absoluto que parece ser exposta. Como diz Aniela Jaffé em The Myth of Meaning:


Os fenômenos sincrônicos arranjados pelo arquétipo despertam, muitas vezes, admiração e espanto, ou uma intuição de poderes insondáveis que conferem significado. Segundo Goethe, existe um poder ordenador fora do homem, que se assemelha ao acaso tanto quanto à providência, que contrai o tempo e ex­pande o espaço. Denominava-o "daemonico", e falava dele como os outros falam de Deus. 148

Se ê Deus, "daemon", como dizia Goethe, ou destino, eu não sei. Mas a experiência de "poderes insondáveis" é inconfundível, assim como a sensação de uma espécie de teia cujos filamentos se irradiam até distâncias desconhecidas. Não é de surpreender que a aranha seja um dos mais antigos símbolos do destino.



Essa teia era o que os estóicos queriam dizer com heimarmenê, aborrecendo a tal ponto a Igreja primitiva que ela se viu obrigada a desenvolver o conceito da providência divina para neutralizar o senso de fatalidade provocado por qualquer encontro com a teia. É extraordinariamente difícil compreender esse apa­rente paradoxo, onde fatos se "sincronizam" com configurações astrológicas e estados psíquicos internos porque foi constelado um "arquétipo". Entretan­to, ao mesmo tempo, essas configurações astrológicas, sincrônicas com os fatos e com as experiências internas, foram "ordenadas" desde o momento do nascimento da pessoa, por causa do mecanismo ordenado dos céus. Em outras pala­vras, tanto o destino causal (Moira) quanto o não causal (inconsciente) são formas igualmente válidas de interpretar a experiência. A linha que divide Moira e o unus mundus do inconsciente coletivo, onde atuam os arquétipos, é efeti­vamente muito tênue, pois parece que o destino é simultaneamente causal e não causal, já escrito mas sendo escrito a cada momento, irrevogável mas sujeito à intromissão do homem. Investigamos, detalhadamente, a intricada teia tecida por esses "poderes insondáveis", e os arranjos assim formados. Agora é hora de considerarmos esses mesmos "poderes" que Jung, no decorrer de sua vida, aca­bou denominando o Self.



10
O Destino e o Self

O que você fará, Deus, se eu morrer? Sua taça se quebrará? A taça sou eu.

Sua bebida se estragara? A bebida sou eu. E sou o seu ofício;

Comigo, vai-se todo o seu sentido.
Rainer Maria Rilke
Um único tema liga todos os exemplos dos problemas tipicamente humanos descritos nos capítulos anteriores deste livro. Quer consideremos a difícil vida interna e externa de Ruth, ou o impenetrável autismo de Renée R., ou o melancólico suicídio de Timothy S., ou o fim aparentemente predeterminado do rei francês Henri II, ou a morte súbita de David Bates, existe um senso de ordem, ou teleologia, ou necessidade, envolvendo esses exemplos. As vezes essa ordem é evidente para a pessoa envolvida na experiência; este era o caso de Ruth, que — embora ela e eu não tenhamos discutido o seu horóscopo nas nossas sessões — chegou a sentir cada vez mais que o infortúnio aparentemente "causal" de seu relacionamento aprisionante não era, afinal. tão causal, e sim a expressão exterior de uma "coisa" inteligente dentro dela, que lhe provocava considerável sofrimento e conflito, mas que também estava indo para algum lugar, em direção a algum objetivo. Em outros casos, como no suicídio de Timothy S. ou na morte de David Bates, não há um senso de significado evidente para a pessoa. Mas torna-se evidente para o astrólogo, quando se associa o padrão de vida com o horóscopo e se vê a sincronicidade entre posicionamentos planetários e a vida interna e externa da pessoa. Um fato isolado do contexto pode parecer casual, mas inserido no contexto da vida total, com seus antecedentes familiares, seus traços específicos de caráter, seu desdobramento interno refletido nos sonhos, e seu horóscopo, toma bem inadequada a palavra acaso, sugerindo qualidades como "ine­vitável",'ordenado", "certo", "significativo" e "necessário". Diz Jung:
O que acontece a uma pessoa é característico dela.

A pessoa representa um padrão e todas as peças se encaixam. À medida que a vida prossegue, uma a uma elas vão para seus lugares, de acordo com algum desígnio predestinado. 149


Quando a vida desfere um golpe rude e inesperado, experimentamos a face escura do destino, que os gregos chamavam Moira. Quando a vida parece estares guiando em direção a um objetivo e nos enche de uma sensação de rumo, então experimentamos a face luminosa do destino, que o cristianismo chama de Providência. A primeira, fielmente refletida por sua imagem feminina primor-dial, parece severa, impiedosa, e sem uma razão ou desígnio relacionados pessoa. Moira, afinal, traça seus limites sem favoritos, pois seus limites não são pessoais, em qualquer sentido individualista, e sim coletivos ou universais. A segunda, mesmo quando acarreta dor, no final parece benévola, cheia de sabedoria, atentando principalmente para a pessoa. Muitas vezes as duas facetas do destino são experimentadas simultaneamente; a sensação de que as duas vem juntas, ou são parte do mesmo todo, não é uma ocorrência pouco freqüente no trabalho analítico, onde as limitações, feridas e perdas "injustas" da vida são gradualmente relacionadas a um padrão interno que se move em direção a um objetivo e que lentamente amplia e enriquece a personalidade. Aniela Jaffé expõe da seguinte maneira essa coincidência:
Basicamente, a individuação consiste nas tentativas constantemente renovadas e constantemente necessárias no sentido de amalgamar as imagens interiores e a experiência exterior. Ou, dito de outra forma, é o esforço para “tornar inteiramente nosso intuito aquilo que o destino tenciona fazer conosco”.150
Assim, o destino, como Crisipo sugeriu, parece incorporar uma dualidade ou um paradoxo, porque se manifesta ora como uma condenação, ora como um ato de graça. O problema desse paradoxo preocupou Jung, que viu nele o reflexo de uma divindade moralmente ambígua, cuja face ambivalente se revelou ao perplexo Jó tanto como Deus quanto como Diabo. Quando Jung formulou os conceitos da individuação e o arquétipo do Self, esses dois fios desiguais que tecem o destino dualista de que falou Crisipo, foram unidos. "Self" é um termo maravilhoso para unir todos os opostos dentro do complexo e paradoxal ser humano, e é exatamente isso, na visão de Jung, o que o Self faz. Por mais impreciso que possa ser o resultado final, vale a pena tentar explorar o que ele quis dizer com esse termo no contexto do horóscopo; pois é o mais perto que podemos chegar, psicologicamente, de uma conciliação lógica dessas expressões contraditórias do destino, e da relação igualmente paradoxal entre o destino e o livre-arbítrio, com que a vida freqüentemente nos confronta.

Primeiro vou citar uma das várias definições de Jung do Self, que é um pouco extensa, mas que vai ajudar-nos a captar o que ele quer dizer com o termo.

Como conceito empírico, o self designa toda a esfera dos fenômenos psíquicos no homem. Expressa a unidade da personalidade como um todo. Mas à medida que a personalidade total, devido ao seu componente inconsciente, só pode ser parcialmente consciente, o conceito do self é, em parte, apenas potencialmente empírico e, nesse sentido, é um postulado...

Assim como, na prática, encontramos fenômenos conscientes e inconscientes, o self, como totalidade psíquica, também tem um aspecto consciente, bem como um inconsciente. Empiricamente, o self aparece em sonhos, mitos, contos de fadas, na figura da "personalidade supra-ordenada, como rei, herói, profeta, salvador etc., ou na forma de um símbolo de totalidade, como o círculo, o quadrado, a quadratura circull, a cruz etc. ... Empiricamente, portanto, o self aparece como um jogo de luz e sombra, embora concebido como uma totalidade e uma unidade na qual se unem os opostos ...


O self não é uma idéia filosófica, já que não afirma sua própria existência, isto é, não-substanciação. Do ponto de vista intelectual, é apenas uma hipótese de trabalho. Seus símbolos empíricos, por outro lado, possuem muito freqüentemente uma nítida numinosidade, isto é, um valor emocional a priori, como no caso da mandala ... Assim, prova ser uma idéia arquetípica, que difere de outras idéias do mesmo tipo porque ocupa uma posição central condi­zente com o significado do seu conteúdo e de sua numinosidade.151
Algumas vezes Jung escreve sobre o self como "um" arquétipo — isto é, um dos vários fatores ordenadores ou padronizadores do inconsciente. Assim, da mesma forma que Moira é um auto-retrato do instinto primordial da natureza que impõe limites à vida material e pune a transgressão desses limites, o Self, com sua impressionante quantidade de representações simbólicas — diamante, círculo, mandala, pedra filosofal, flor, tesouro, andrógino, anel de ouro etc. — é uma imagem do instinto que a pessoa tem de evoluir para si mesmo, de tornar-se o todo único, ímpar e significativo que sempre foi em potencial, mas cujo desdobramento leva uma vida inteira — ou muitas vidas — para se completar. Dito de outra forma, o Self é uma imagem do instinto religioso, o aspecto da psique que aspira à unidade ou divindade. Quando Jung se refere a ele dessa forma, o Self é "o" arquétipo, o Grande Círculo que abrange todos os aspectos da psique e os funde num todo ímpar. Diz Aniela Jaffé:
O arquétipo do self é "sem nome, inefável", um X oculto cujas concretizações são indistinguíveis das imagens de Deus ... A individuação deve ser entendida como a realização do "divino" no homem. 152
Ao formular esse conceito do Self como o centro do desenvolvimento individual (e também o desenvolvimento coletivo, pois suas imagens são "indistinguíveis das imagens de Deus"), Jung separou-se irrevogavelmente de Freud e dos freudianos, que tendiam a não ver com simpatia a idéia de um instinto "religioso" tio básico e inato como os impulsos biológicos com que lida a psicanálise ortodoxa. A aspiração religiosa, para o psicoterapeuta mais redutivo, é uma

"sublimação". Para Jung, não é nada disso; é antes um impulso a priori dentro da psique, existente desde o começo, de desenvolver-se de acordo com um padrão único em direção a um objetivo único (segundo a "vontade de Deus"); esse padrão e esse objetivo correspondem aos impulsos do corpo e também aos do espírito. Assim, Moira e Providência unem-se num único centro, tanto corporal como espiritual, pessoal e coletivo. O seguinte trecho de O desenvolvimento da personalidade reflete o que se chamou de visão "mística" da psique de Jung:


O que, no final, induz o homem a seguir seu próprio caminho e elevar-se da identidade inconsciente com a massa como de uma névoa envolvente? Não é a necessidade, pois muitos a têm, e todos se refugiam na convenção. Não é a decisão moral, pois de cada dez vezes, nove também optamos pela convenção. O que é, então, que inexoravelmente inclina a balança para o lado do extraordinário? É o que é comumente denominado vocação: um fator irracional que destina o homem a emancipar-se do rebanho e de suas trilhas gastas. A verdadeira personalidade é sempre uma vocação, e nela confia como em Deus .... Mas a vocação age como uma lei de Deus, da qual não há escapatória ... É preciso que ele obedeça à sua própria lei, como se houvesse um daemon sussurrando a respeito de novos e maravilhosos caminhos. Qualquer pessoa que tenha uma vocação ouve a voz do homem interior: ela é chamada. 153

Agora, isso que Jung chama de "vocação" e "verdadeira personalidade" coloca uma série de problemas para o astrólogo. Quando o Self é descrito como "a unidade da personalidade como um todo", podemos encarar o horóscopo como unta cópia dele, incluindo os signos, os planetas e as casas, bem como os aspectos e o equilíbrio (ou desequilíbrio) de elementos e qualidades, fases lunares, todos os detalhes, efetivamente, que compõem a arte da interpretação horoscópica. O Self, portanto, é o mapa todo, natal e progredido. Mas a dificuldade está em que, o que quer que seja que "induz um homem a seguir seu próprio caminho", parece não estar mostrado no horóscopo. Qualquer astrólogo experiente já deve ter encontrado pessoas que, longe de manifestarem a história altamente individual do mapa natal, de forma alguma se assemelham a ele, parecendo figuras de papel recortadas de revistas populares ou de séries de TV, com idéias, crenças e respostas totalmente coletivas. Falando claramente, não há ninguém em casa; isto é, não há nenhuma pessoa em casa, e sim um porta-voz coletivo exprimindo o sistema de crenças e valores da família c, num nível mais amplo, as crenças e valores da cultura dominante onde a pessoa vive e trabalha. Não há nada no horóscopo que possa nos dizer por que essa pessoa não está expressando seu horóscopo; mas está nos fitando na cadeira em frente. Portanto, o Self tem alguma coisa que não é só a totalidade do horóscopo, mas é também mais que o horóscopo.

Também há muitas pessoas em estágios variáveis de expressão individual; po­de-se ver a Lua ativa, o Sol em quadratura com Urano, ou um Vênus no Meio-do-Céu, mas a conjunção Mercúrio-Plutão absolutamente não aparece, não se vê nada do Saturno na oitava casa exceto na sua forma mais superficial, e a conjunção Marte-Urano da quarta casa desapareceu completamente. É assim que vive a

maioria de nós: num estado de encontro gradual com mais e mais da personalidade total que primeiro vem ao nosso encontro como "destino" no mundo exterior, e só mais tarde, às vezes com considerável esforço, como aspectos de nós mesmos — embora não menos "destino". Uma das facetas mais interessantes do trabalho analítico do ponto de vista astrológico é a maneira como as pessoas se tornam mais parecidas, e não menos parecidas, com seus horóscopos, à medida que cresce a consciência do self. Longe de "transcender" o mapa natal, parece que a pessoa se sente mais à vontade com ele; os dois começam a se encaixar; ao mesmo tempo, ela se sente melhor sendo o que é. É claro que isso pode ocorrer sem qualquer discussão de temas astrológicos, de modo que dificilmente podem acusar-me de "fazer" meus analisados se encaixarem em seus mapas — freqüentemente só vejo seus mapas depois de anos de trabalho. O signo solar é o que parece brilhar cada vez mais na pessoa, como se esse ponto do horóscopo fosse, acima de todos, o "veículo" do Self Mas não estamos chegando mais perto de saber por que algumas pessoas decidem fazer a viagem individual e outras não.

Outro problema levantado com relação ao Self e o horóscopo é a questão com que já nos deparamos muitas vezes: por que uma determinada configuração astrológica manifesta-se numa pessoa em um nível, e noutra num nível totalmente diferente? Sem dúvida podemos mexer com algumas coisas da psique, com outras não; o caso que vai ser apresentado em breve é uma ilustração do último caso. Mas parece, encarando-se a vida de uma perspectiva mais ampla, que as fronteiras dadas — por Moira, pela Providência ou pelo Self — são exatamente as fronteiras certas para facilitar o desenvolvimento daquela pessoa. É difícil descrever isso, exceto para quem já tenha sentido essa experiência: uma frase que tenho ouvido com freqüência (eu mesma já senti) é que não se poderia mudar nenhum aspecto da vida passada, porque de alguma forma tudo se "encaixou" e levou ao presente e, além do presente, ao futuro; e isso inclui os pedaços "maus" ou "infelizes", os "erros", as "escolhas erradas", bem como os pedaços "felizes" e as "escolhas certas". Essa profunda experiência subjetiva de um "encaixe" parece não se ligar ao horóscopo; é uma sensação que se tem a respeito do horóscopo, como se aquele fosse o mapa que a pessoa escolheria, se tivesse essa opção. Mas o mapa não descreve com precisão os detalhes mundanos, como acontece com o tipo de acontecimentos sincrônicos que vimos no capítulo anterior. O horóscopo reflete o significado dos "arranjos" apresentados pela vida, mas não os detalhes de sua manifestação concreta. Mais uma vez, deparamo-nos com um aspecto do Self que jaz além do mapa natal.

O que, de um ponto de vista, parece ser a face sombria de Moira, de outro torna-se um desígnio significativo, mas aparentemente essa segunda perspectiva não é acessível a todos. Talvez nem todos precisem dela, ou talvez precisem, mas lhes falte, ou recusem, a oportunidade. A mesma sensação de "encaixe" surge quando se faz um trabalho profundo com sonhos, pois os sonhos da pessoa se ajustam àquela pessoa; mesmo que a princípio pareçam dar voltas numa rota sem sentido e aleatória, acabam revelando notável ordem e desígnio, com motivos que se repetem sucessivamente e temas que pareciam ter desaparecido meses atrás ressurgindo numa justaposição perfeita, como reflexo das mudanças na consciência ocorridas nesse ínterim. É uma crônica corrente da vida, feita por "alguma coisa" lá de dentro. A trama assim tecida dá a impressão de uma arte

sobre-humana. Jung diz o seguinte sobre os produtos de fantasia espontâneos da psique — os sonhos e a "imaginação ativa".
O árbitro final do padrão é um impulso sombrio, um a priori inconsciente que se lança numa forma plástica... Parece que uma indistinta precognição — do padrão e do seu significado — impera sobre o processo todo. 154

Essa mesma sensação de arte surge quando se considera o padrão de uma vida, como se fosse um sonho cujo conteúdo é simbólico e também literal. Mas quando examinamos o horóscopo, como um conjunto de posicionamentos planetários, ele não transmite, a princípio, essa noção de trama. Em vez disso, seus componentes são os fios de diversas cores que "alguma coisa" usa para fazer a tapeçaria. Os acontecimentos da vida "real" e o fluxo de imagens interiores são regulados de maneira misteriosa pelo Self, mas o "material" que forma as experiências internas e externas é simbolizado pelo horóscopo. Algumas vezes a manifestação se dá na forma de evento exterior, outras na forma de imagem interior; e mesmo quando se considera o mundo dos acontecimentos concretos é possível que dois fatos aparentemente opostos sejam descritos pela mesma configuração astrológica. Assim, o transito de Saturno sobre Vênus pode significar casamento para uma pessoa e divórcio para outra. O significado intrínseco é o mesmo: é um acordo com a realidade do outro, um choque entre os ideais do amor e a diversidade do parceiro. Porém, essas duas circunstâncias desiguais — uma multas vezes "feliz", a outra muitas vezes "infeliz" — são feitas sob medida para um ajuste perfeito à pessoa. Parece que aquilo que Jung chama de Self faz seus arranjos usando o mapa astrológico como o tecelão usa seus fios.

Às vezes acho que é nesse sentido que se direciona o trabalho do astrólogo, e também do analista: levar a pessoa a uma descoberta gradual, a um acordo, a dar o máximo de si à totalidade da qual o horóscopo é o instrumento, a pessoa ê o veículo e o Self é o criador. Essa é uma questão altamente subjetiva e torna-se evidente que nessa área as estatísticas não têm lugar, por mais úteis que sejam em outros campos.
Toda vida é a realização de um todo, isto é, de um self, razão pela qual essa realização também pode ser chamada "individuação". Toda vida se vincula a um portador individual que a realiza, e é inconcebível sem ele. Mas todo portador carrega um destino ou desatinação individuais, e é somente a sua realização que dá sentido à vida. É verdade que esse "sentido" muitas vezes poderia igualmente ser chamado de "não-sentido", pois há certa incomensurabilidade entre o mistério da existência e a compreensão humana. "Sentido" e "não-sentido" são meros rótulos dados pelo homem para nos dar um senso razoa­velmente válido de direção. 155

A noção de "sentido" e "não-sentido" é a descrição mais aproximada que posso fazer de qualquer experiência do Self atuando na vida. É quando algo faz sentido para mim, em termos da minha vida e não da vida de ninguém mais, que posso vislumbrar algo "daquilo" que é ao mesmo tempo o destino e o Self individual. Talvez o "sentido" seja relativo e subjetivo, e não uma propriedade inerente à

vida objetiva. Mas nem por isso deixa de ser uma realidade psíquica; além do mais, o que é exatamente a vida "objetiva"? Não se pode, na realidade, chegar a uma conclusão a esse respeito: é como a questão de Deus, apresentada numa versão meio enfeitada no começo do filme A canção de Bernadette: "Para os que acreditam em Deus, nenhuma explicação é necessária; para os que não acreditam, nenhuma explicação é possível." Assim, qualquer posicionamento no ma­pa natal pode descrever empiricamente o caráter ou um fato, mas pode ser "sem sentido" à medida que é simplesmente urna dessas coisas, uma afirmação do destino impessoal, com o qual a pessoa não sente uma relação verdadeira Não é um "co-criador" de seu universo. Ou pode ressoar como algo profundamente significativo porque é reconhecido como parte da pessoa, e não algo imposto de "fora" pelos pedaços de rocha voadores chamados de planetas. É nisso que o conceito junguiano do Self e do tipo de experiências internas que as pessoas têm quando encontram sua própria substância psíquica, difere do antigo heimarmenê, a "compulsão planetária" universal, que se abatia sobre o corpo pecador mas não podia atingir a alma. Coloque o Self no centro e subitamente nos envolvemos com algo profundamente individual. Não se trata de compul­são planetária; os planetas simplesmente refletem, ou são símbolos, de um pa­drão existente no homem e na mulher interiores, orquestrado através da experiência da vida pelo arquétipo que representa a essência de sua individualidade. Os planetas não "compelem" contra a alma, mas são veículos dela.

O mapa que se segue é de uma mulher que vou chamar Alison. É minha cliente astrológica, não minha analisada, embora esteja familiarizada com o mundo da psique, pois também trabalha com ele. Alison é cantora e conselheira e tem uma série de habilidades terapêuticas que usa juntamente com a voz, em seminários e em trabalhos individuais. Ela é cega, mas não totalmente; às vezes é capaz de discernir luz e sombra, movimento e cor. Sua cegueira é congênita, mas levou anos para se manifestar. Como ela é uma mulher de excepcional vita­lidade e criatividade, achei que seria válido examinar seu horóscopo e também apresentar a descrição que ela faz da sua perda de visão e do gradual processo de ajustamento a ela, pois essa história revela muito do caráter de Alison — evidente em seu horóscopo — e também daquela fugidia noção de "sentido" que aparentemente ela extrai do seu padrão de vida. Portanto, transcrevi uma conversa que tive com ela sobre a sua cegueira, já que as palavras dela são muito mais expres­sivas do que as minhas poderiam ser.

Minha primeira pergunta a Alison foi sobre as características físicas de sua ce­gueira: sua definição médica, seu começo, suas primeiras reações.

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