Os planetas exteriores e seus ciclos os astros e o amor



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Goethe

Ela pode ser encontrada nos lugares velhos, ermos e áridos: charnecas e cumes desmatados e nas entradas de grutas. Nem sempre uma, às vezes, ela é tripla, emergindo da névoa ou envolta nela. Banquo, que, na companhia de Macbeth, deparou-se com ela, exclama:


What are these?

So withered and so wild In their attire,

That look not Iike th'inhabitants o' the earth,

And yet are on't? Live you? or are you aught

That man may question? You seem to understand me,

By each at once her choppy finger laying

Upon her skinny lips: You should be women,

And yet your beards forbid me to interpret

That you are so.

... You can look into the seeds of time,

And say which grain will grow and which will not.*
A cortina abre no primeiro ato de Götterdämmerung, de Wagner, entre um silêncio e uma calma sombrios" e ai, agachadas sobre o penhasco defronte à caverna que representa ao mesmo tempo o útero e o túmulo, a passagem ascendente para a vida e a passagem descendente para a morte, estio as altas figuras femini­nas envoltas numa roupagem escura, como que encapuçadas:

*Quem são estas? Tão esquálidas e rústicas em suas vestes / Que não se parecem com habi­tantes da Terra, / No entanto, será que o foram? Vocês vivem? Ou perceberam / Que o homem fará perguntas? Vocês parecem me entender,/ Pois cada uma por sua vez levou o dedo gretado / Aos lábios descarnados; Deveriam ser mulheres, / e, no entanto, suas barbas me impe­dem de / Considerá-las como tais.... Vocês podem examinar o interior das sementes do tempo, / E dizer qual germinará e qual não. (N. T. )



Vamos rodopiar e cantar;

Mas onde, onde amarraremos a corda?
Filhas de Nyx, a deusa da Noite, ou de Erda, a Mãe Terra, elas são chamadas Moiras ou Erínias ou Nornas ou Hécate de três faces, assim como são três em forma e aspecto as três fases lunares. A promissora fase crescente, a fértil cheia e a sinistra fase minguante da Lua representam, na imagem mítica, os três aspectos da mulher: a solteira, a esposa fértil e a anciã estéril. Cloto tece o fio, Láquesis me­dem e Átropos corta-o, e os próprios deuses estão limitados por essas três, por terem sido originados da incipiente Mãe Noite, antes que Zeus e Apoio trouxessem dos céus a revelação do eterno e incorruptível espírito humano.
A roda (do universo) gira sobre os joelhos da Necessidade e, na parte superior de cada circulo, se encontra uma sereia, que gira com eles, entoando uma só nota ou tom. As oito juntas formam um todo harmônico e, em volta, em in­tervalos iguais, há um outro grupo de três sereias, cada qual sentada no seu trono: do as Parcas, filhas da Necessidade, que vestem túnicas brancas e usam uma coroa na cabeça .8

A intricada visão geométrica do cosmo, de Platão, com a Necessidade e as Parcas entronizadas no centro que tudo governa, encontra eco no Prometeu acorrentado, de Esquilo:

Coro: Quem dirige o leme, então, da Necessidade?

Prometeu: As Parcas de três aspectos, as inesquecíveis Erínias. Coro: Será Zeus, então, mais fraco em seu poderio do que elas? Prometeu: Nem sequer Ele pode escapar àquilo que foi decretado.9


E o filósofo Heráclito, nos Fragmentos cósmicos, declara com menos ambi­güidade do que o habitual:

O Sol não ultrapassará seus limites; se o fizer as Erínias, servas da Justiça, o desmascararão.10

O pensamento grego, segundo diz Russell, está repleto da simbologia do desti­no. É claro que se pode argumentar que esses sentimentos são expressões de um mundo ou de unia visão de mundo arcaicos, mortos há dois mil anos atrás e pro­longados durante a época medieval devido à ignorância com relação ao universo natural, e sobre isso estamos mais bem informados hoje em dia. Num certo sentido, isto é verdade, no entanto uma das mais importantes e inquietantes percep­ções da psicologia profunda é a revelação de que a consciência mítica e indiferen­ciada de nossos ancestrais, que animava o mundo natural com imagens de deuses e daimones, não faz parte apenas da história cronológica. Ela pertence também à psique do homem moderno e representa uma camada que, embora estratificada pela consciência crescente e pelo hiper-racionalismo dos últimos dois séculos, continua tão forte quanto era há dois milênios ou mesmo há dez milênios atrás. Talvez ela seja até mais forte agora porque sua única voz é o desprezado mundo

de sonhos da infinda, e os íncubos e os súcubos da noite que são mais bem es­quecidos na clara luz da manhã. Sabemos, a partir de nosso muito mais sofisticado conhecimento do universo físico, que o sol não é um ser "masculino" e que não do as sensacionais Erínias em forma de serpentes entrançadas que o impedem de ultrapassar seus limites. Pelo menos, o ego sabe disso; o que quer dizer que esta é a única maneira de examiná-lo.

A linguagem do mito é ainda, e sempre foi, a expressão íntima da inarticulada alma humana; e se se aprende a ouvi-la com o coração, então não chega a sur­preender que Esquilo, Platão e Heráclito sejam vozes eternas e não meras relí­quias de uma era morta e primitiva. Talvez agora, mais do que nunca, seja impor­tante ouvir essas visões poéticas da natureza ordenada do universo, pois temos perigosamente nos distanciado delas. A percepção mítica de um universo gover­nado por uma moral imutável, tanto como pela lei física, está viva e atuante no inconsciente, e assim também estão as Erínias, as "servas da Justiça". O destino, nos textos gregos, é retratado em imagens que nos são pertinentes, do ponto de vista psicológico. Na imaginação arcaica, ele é, naturalmente, aquilo que escreve a lei irrevogável do futuro: começos e fins que são os produtos inevitáveis dessas fontes. Esse processo implica um padrão regular de crescimento, em vez de capri­cho ou ocorrência fortuitos. São só os limites da consciência humana que nos im­pedem de perceber todas as implicações de um começo, de maneira que somos incapazes de prever o inevitável fim. O texto gnóstico do século II, o Corpus Hermeticum, expressa isso com bela concisão:
E, portanto, ambas, a Sorte e a Necessidade, estão atadas uma à outra, por in­separável coesão. A primeira delas, Heimarmenê gera o começo de todas as coisas. A Necessidade compele ao fim de tudo que depende desses princípios. Na esteira de ambas vem a Ordem, que é sua tecedura e trama, e a organização do Tempo para a perfeição de todas as coisas. Pois nada existe sem a fusão in­tima da Ordem.11

Estamos tratando aqui de uma espécie muito particular de destino, que na realidade não diz respeito à predestinação, no sentido comum. Esse destino, que os gregos chamavam Moira, é o "servo da justiça": o que contrabalança ou pune os desvios com relação às leis do desenvolvimento natural. Esse destino pune o transgressor dos limites fixados pela Necessidade.


Os deuses têm suas províncias por concessão impessoal de Láquesis ou Moira. O mundo, de fato, era desde os primeiros tempos considerado como o reino do Destino e da Lei. Necessidade e Justiça — "necessidade" e "dever" — en­contram-se juntas nesta noção primária de Ordem — uma noção que para a representação religiosa grega é elementar e enigmática.12
Para apreciarmos o gosto peculiar de Moira, não podemos prescindir da concepção popular de acontecimentos predeterminados que não tem sentido, mas que nos ocorrem de imprevisto. A fórmula famosa "você vai encontrar um estranho alto e moreno", da leitora da sorte do salão de chá ou da seção de astrologia do jornal, não tem muita substância no sentido profundo de uma ordem moral universal

que os gregos entendiam por destino. Essa ordem moral difere muito do significado judeu-cristão de bem e mal, pois não se ocupa dos triviais crimes do ser humano contra seus semelhantes. Para a mente grega — e, quem sabe, para alguma camada profunda e esquecida da nossa própria mente — o pior pecado que o homem poderia cometer não era qualquer um daqueles incluídos mais tarde no catálogo dos vícios mortais do cristianismo. Era, sim, hubris, uma palavra que sugere algo que contém arrogância, vigor, nobreza, esforço heróico, falta de humildade perante os deuses e a inevitabilidade de um fim trágico.

Antes que a filosofia surgisse, os gregos tinham uma teoria ou opinião a respeito do universo, que pode ser chamada de religiosa ou ética. De acordo com essa teoria, cada pessoa e cada coisa possuía seu lugar ou função designados. Isso não depende da sanção de Zeus, pois ele próprio está sujeito ao mesmo tipo de lei que governa os outros. A teoria está relacionada com a idéia de destino ou necessidade. Ela se aplica, com ênfase, aos corpos celestes. Mas onde há vigor, há a tendência de ultrapassar os limites exatos; daí surge a disputa. Alguma espécie de impessoal e superolímpica lei pune hubris e restaura a ordem eterna que o transgressor buscava vilar.13
Quando uma pessoa é atormentada por hubris, ela tenta ultrapassar os limites do destino fixados para si (que é, implicitamente, o destino representado pelas posições dos corpos celestes no nascimento, visto que a mesma lei impessoal re­ge tanto o micro quanto o macrocosmos). Assim, ela se esforça para tornar-se divina; e nem mesmo os deuses têm permissão para transgredir a lei natural. A essência da tragédia grega reside no dilema de hubris, que é, ao mesmo tempo, o grande dom do ser humano e seu grande crime. Pois, ao opor-se aos seus limi­tes predestinados, ela dá expressão a um destino heróico, ainda que pela própria natureza dessa tentativa heróica ela seja castigada pelas Erínias.

Os temas da lei natural e da transgressão dos limite; impostos pelo destino poderiam encher, e realmente enchem, volumes de drama, poesia e ficção, sem falar da filosofia. Parece que nós, criaturas humanas curiosas, sempre estivemos preocupados com a difícil questão de saber qual o nosso papel no cosmo: somos predestinados, ou somos livres? Ou estamos fadados a procurar por nossa liber­dade, apenas para fracassar? Será melhor, como fizeram Édipo e Prometeu, lutar até os limites extremos de que se é capaz, mesmo que isso provoque um fim trágico, ou será mais sensato viver moderadamente, portar-se com humildade diante dos deuses e morrer com tranqüilidade em seu próprio leito, sem ja­mais ter provado a glória ou o terror dessa imperdoável transgressão? É eviden­te que poderia me estender por milhares de páginas sobre este tema, que é o que a maioria dos filósofos fazem. Já que não sou filósofa, em vez disso, vou concen­trar minha atenção sobre o fato interessante de que as "servas da Justiça", quer se as encontre na mitologia ou na poesia, são sempre do gênero feminino.

Talvez uma das razões por que existe uma inevitável associação entre o desti­no e o feminino seja a inexorável experiência de nossos corpos mortais. O ven­tre que nos gera, e a mãe a quem abrimos nossos olhos pela primeira vez, é, no princípio, o Inundo inteiro e o único árbitro da vida e da morte. Enquanto ex­periência psíquica direta, o pai é, na melhor das hipóteses, uma conjetura, mas a mie é o fato da vida primário e mais real. Nossos corpos estão em harmonia

com os corpos de nossas mães durante a gestação que precede qualquer individualidade independente. Se não temos memória do estado intra-uterino e das contorções do parto, nossos corpos tem, e também a psique inconsciente. Tudo que se relaciona com o corpo pertence, pois, ao mundo da mãe — nossa heredi­tariedade, nossas experiências de dor e prazer físicos e até mesmo nossa morte. Assim como não conseguimos nos lembrar do tempo em que ainda não existía­mos, simples ovo no ovário materno, também não conseguimos imaginar o tem­po em que deixaremos de existir, como se o lugar de saída e o lugar de regres­so fossem o mesmo. O mito sempre ligou o feminino com a terra, com a car­ne e com os processos de nascimento e de morte. O corpo em que uma pessoa vive seu período de tempo devido provém do corpo da mãe, e essas característi­cas e limitações inerentes a nossa herança física são experienciadas como desti­no: o que está escrito nos hieróglifos do código genético que se estende até eras atrás. O legado físico dos antepassados constitui o destino do corpo e, embora a cirurgia plástica possa modificar o formato de um nariz ou corrigir uma arcada dentária, mesmo assim nos contam que vamos herdar as doenças de nossos pais, suas predisposições à longevidade ou à ausência dela, suas alergias, seus ape­tites, seus rostos e suas estruturas ósseas.

Assim, o destino é imaginado como feminino porquanto é experienciado no corpo, e as predisposições inerentes ao corpo não podem ser alteradas malgrado a consciência que habita a carne — assim como Zeus não pode, em última análise, alterar Moira. Os impulsos instintivos de uma espécie constituem também o domínio de Moira, pois estes são também inerentes à matéria e, ainda que não sejam exclusivos de uma ou de outra família, são universais no que diz respeito ao género humano. É como se não pudéssemos infringir aquilo que em nós re­presenta a natureza e que pertence à espécie — por mais que o reprimamos ou o alimentemos com cultura. Nesse sentido Freud, malgrado ele próprio, aparece como um dos grandes animadores do destino enquanto instinto, porque foi compelido a reconhecer a força dos instintos como modeladora do destino humano. O instinto de procriar, diferenciado daquilo a que chamamos de amor, existe em todas as espécies vivas e o fato de que opera como uma força do destino pode ser observado nos encontros sexuais compulsivos e nas suas conseqüências que vir­tualmente pontuam toda vida humana. Não é de se estranhar que os povos nórdi­cos igualassem o destino aos órgãos genitais. Da mesma forma, o instinto de agressão existe em todos nós e a história da guerra, que eclode, não obstante nos­sas melhores intenções, é testemunha da "fatalidade" desse instinto.

A alma também é representada como feminina, e a grande obra poética de Dante em louvor à sua Beatriz morta ergue-se como um dos nossos mais impres­sionantes testemunhos do poder do feminino em afastar o homem da vida mun­dana e alçá-lo às alturas e profundezas de seu ser interior. Jung tem muita coi­sa a dizer sobre a alma como anima, a parte feminina subjetiva que pode levar um homem tanto aos tormentos do inferno como aos êxtases do céu, acendendo o fogo de sua vida criativa e individual. Aqui, o destino parece provir de dentro, através das paixões, da imaginação e da incurável aspiração mística. Não importa se é uma mulher de verdade que desempenha esta função na vida de um homem ou não, apesar disso a alma irá empurrá-la na direção do destino dele. Essa alma estabelece limites, também; ela não haverá de permitir que ele voe alto demais

na direção dos reinos remotos do intelecto e do espírito, mas o fará cair numa armadilha através das paixões sensuais ou mesmo de uma doença física. No mito são as deusas, não os deuses, que regem as doenças e a decomposição orgânica — tal como Kali rege a varíola — e, no final, elas fazem voltar até mesmo o mais espiritualizado dos homens ao pó de onde ele veio. Essas associações im­propriamente cobertas talvez sejam alguns dos fios que ligam a imagem mítica do destino ao feminino. Por mais que desejemos compreender esta face tríplice do destino, ela é concebida como uma presença eterna, que faz girar os ciclos do tempo, o manto do nascimento, o véu das núpcias, a mortalha, os tecidos do cor­po e as pedras da terra, o círculo celeste e a constante passagem dos planetas através da eterna roda do zodíaco.

Além disso, encontramos a face feminina do destino nos ingênuos contos de fada infantis. A palavra "fada" vem do latim fata ou fatum, que no francês aca­bou sendo traduzida por fée, encantamento. Por conseguinte, o destino não só pune a transgressão da lei natural, ele também encanta. Ele fia um feitiço, tece unia teia tal como a aranha que representa um dos símbolos mais antigos, trans­forma um príncipe em sapo e faz a Bela Adormecida cair num sono que dura cem anos.

Há muito tempo atrás havia um rei e uma rainha que diziam todo dia: "Ah, se ao menos tivéssemos um filho! ", mas nunca o tiveram. Aconteceu, porém, que certa vez, quando a Rainha estava se banhando, um sapo pulou da água para a terra e disse a ela: "Seu desejo será atendido; antes que se passe um ano, você terá uma filha."
O que o sapo disse se realizou, e a rainha teve uma menininha tão bonita que o rei não conseguiu se conter de alegria e decidiu dar uma grande festa. Con­vidou não só seus parentes, amigos e conhecidos, como também as feiticeiras, a fim de que elas pudessem ser bondosas e bem dispostas para com a criança. Havia treze delas em seu reino, mas, como ele só tivesse doze pratos de ouro para servir-lhes comida neles, uma delas teve de ficar em casa.
A festa foi realizada com todas as pompas e, quando terminou, as feiticeiras conferiram seus dotes mágicos ao bebê: uma deu-lhe sua virtude, outra sua beleza, uma terceira riquezas e assim por diante com relação a tudo que al­guém possa desejar no mundo.
Depois que onze delas já tinham feito suas promessas, eis que de repente en­tra a décima terceira. Ela desejava se vingar por não ter sido convidada e, sem cumprimentar ou sequer olhar para alguém, declarou em voz alta: "A filha do rei, quando fizer quinze anos, irá se picar num fuso e cairá morta."14
Quem, portanto, são essas "feiticeiras", graciosas e generosas se reconhecidas, mas vingativas e cruéis se ignoradas? "A Bela Adormecida" é um conto de fa­das e, por conseguinte, uma história sobre o destino. Não posso deixar de as­sociar os números doze e treze com algumas coisas muito antigas, pois que exis­tem em um ano treze meus lunares e doze solares; e o rei, nesse conto de fadas,

por ser um rei e não uma rainha, optou por colocar a medida solar acima da lu­nar. Dessa forma, seu próprio problema com o feminino encontra a punição na sua filha, e as Erínias, disfarçadas na forma das treze feiticeiras, clamam por vin­gança.

Parece ser o destino, e não o acaso, que efetua as estranhas transformações nos contos de fada, e é o destino que acima de todas as outras coisas se ressen­te por não ser reconhecido ou por ser tratado com humilhação. Tampouco é esse ressentimento jamais questionado numa base moral dentro do conto. Nenhum personagem da história jamais diz: "Mas não é razoável ou humanitário que a fa­da má lance uma maldição sobre a Bela Adormecida." As palavras mágicas, os feitiços e as maldições pronunciadas pelas fadas são parte da vida retratada no conto; o herói ou a heroína pode tentar transformar ou superá-los, porém nun­ca são contestados do ponto de vista ético, já que não são errados. São natu­rais, isto é, são reflexos de uma lei natural em ação. Ademais, nunca deparamos com um bruxo malvado; vez por outra, um anão malvado pode ser encontrado, mas quase sempre ele está a serviço de uma bruxa, da mesma forma como outro­ra os Kabiroi serviam à Grande Mãe.

Os irmãos Grimm coletaram seus contos de fada, originalmente, da Europa Ocidental e dos povos de língua germânica, em particular. As Feiticeiras que fa­zem suas aparições nessas histórias são parentes próximas das Parcas tectônicas, as deusas do destino, que habitam ao lado da fonte do destino, abaixo das raízes de Yggdrasil, a Árvore do Mundo, e a águam todos os dias para conservar-lhe a vida. Nos tempos medievais, depois que os velhos deuses teutônicos foram desalo­jados pelo poder da Igreja, persistia a lenda de que, em todo o Noroeste da Euro­pa, havia um grupo de mulheres sobrenaturais que podiam determinar o destino de uma criança recém-nascida. Eram chamadas Parcae em latim e, em geral, eram três; inclusive as mulheres tinham por hábito reservar três lugares à mesa para elas. Algumas vezes chamavam-nas de deusas do destino.15 A conclusão que dis­so tiramos é que alguma coisa além da hereditariedade desempenha um papel na formação de uma vida. Não é a mãe, mas a Mãe e suas emissárias, que conferem dotes e maldições à criança recém-nascida.

Portanto, são uma espécie de destino essas bruxas e fadas que nos oferecem uma besta-fera que é potencialmente um gracioso príncipe, ou uma princesa adormecida escondida atrás de uma cortina de espinhos que necessita de tempo e de um beijo para acordar; e teríamos permissão para transformar essas coisas somente se encontrássemos a fórmula mágica para remover o feitiço. A sabedo­ria dos contos de fada, porém, não apresenta razões sociológicas para explicar por que as coisas precisam ser assim, em primeiro lugar. Era magia, e é o nosso destino. Idries Shah, no comentário à sua coleção de World Tales [Contos popu­lares], escreve:
Assim, o Destino e a magia estão sempre associados nos contos tradicionais; e o tipo de "ficção" encontrado nos modernos livros de histórias ocidentais, geralmente para crianças, é apenas uma forma desse Destino tornado concreto.16
Os procedimentos necessários para a superação ou a transformação dos feitiços

e das maldições das histórias de fadas são tarefas altamente ritualizadas. So­mente a vontade não pode fazer nada. Até mesmo onde a inteligência serve co­mo um meio de abordagem, ela deve estar associada ao ritmo do tempo e ao au­xílio de fatores estranhos e muitas vezes mágicos. Freqüentemente, o socorro vem dessas mesmas ignóbeis fadas, ou de seus lacaios, que lançaram o feitiço antes. Ora é o coração que opera a transformação, assim como o amor da Bela transforma a sua Fera; ora é a passagem do tempo, como é o caso da Bela Ador­mecida. Outras vezes, o herói deve fazer, desesperadamente, uma longa e cansa­tiva viagem até o fim do mundo, cercado pelas trevas e pelo desespero, a fim de encontrar o objeto milagroso que irá salvar o reino. No entanto, a solução do feitiço ou maldição depende de outras faculdades que não as racionais, e nenhu­ma solução pode dar certo sem o secreto conluio das fadas ou das próprias par­cas. Isso sugere um outro mistério sobre nossa face feminina do destino; embo­ra ela possa se contrapor à omissão ou punir e transgressão da lei natural, ainda assim age nas trevas ocultas para entrar em contato com a vontade alienada do homem, antes que o rompimento aumente demais e se torne premente um des­fecho trágico. Os temas dos contos de fadas são mais modestos e aparentemente mais mundanos do que as gloriosas representações teatrais das grandes sagas mí­ticas populares. Todavia, em alguns aspectos, eles têm mais importância para nós por serem mais acessíveis, exuberantes, imaturos e mais próximos da vida comum. E eles sugerem, no ponto onde o mito falha, que seria possível cons­truir uma ponte entre o homem e Moira, se respeito, esforço e ritos propiciató­rios adequados forem oferecidos.17

Inúmeros exploradores de caminhos inexplorados da psique tentaram enten­der o fato curioso de que o ser humano, esbarrando de leve nos profundos im­pulsos subjetivos que representam a sua necessidade, dá ao seu destino um nome


  • um rosto de mulher. O mais importante desses investigadores é Jung, que escre­veu longamente, em vários volumes de suas Obras reunidas, sobre o destino tal como ele o sentiu na sua própria vida e nas vidas de seus pacientes. As vezes, ele se refere ao instinto como uma força compulsiva e dá a impressão de equipará-lo a uma espécie de destino biológico ou natural: o vôo do ganso selvagem é o seu destino, da mesma forma que a erupção da semente em muda, rebento, fo­lha, flor e fruto. Assim também é o "instinto" de individuação, que leva um homem a tornar-se ele mesmo. Destino, natureza e finalidade são aqui uma só

  • mesma coisa. Meu destino é o que sou, e o que sou é também a razão por que sou e aquilo que me acontece.

Jung também escreveu sobre o espectro do instinto e do arquétipo, o primeiro como o determinante do comportamento físico ou natural, o último como o determinante da percepção e da experiência psíquicas. Ou, expressando de ou­tra forma, a imagem arquetípica — tal como a imagem das três Parcas — repre­senta a experiência ou percepção psíquica do esquema instintivo, encarnado em figuras que são numinosas ou divinas.
Os instintos são equivalentes muito próximos dos arquétipos — tão próximos, na verdade, que existe uma boa razão para supor que os arquétipos sejam as imagens inconscientes dos próprios instintos; noutras palavras, eles são pa­drões do comportamento instintivo.18

Instinto e arquétipo são, portanto, dois pólos do mesmo dinamismo. O instinto acha-se incluído em, ou é a força ativa que se expressa através de todo movimen­to de cada célula de nossos organismos físicos: a vontade da natureza que gover­na o desenvolvimento ordenado e inteligente e a perpetuação da vida. Mas o ar­quétipo, revestido em sua imagem arquetípica, é a experiência psíquica desse instinto, a força ativa que se expressa através de todo movimento esboçado por cada fantasia, por cada sentimento e por cada vôo da alma. Essa imagem que é mais antiga que o mais antigo dos deuses, a face primordial de Moira, é a percep­ção psíquica da lei imutável, inerente à vida. Somos aquinhoados com nossa sorte, e nada mais. Jung chegou perto de um mistério que o intelecto tem gran­de dificuldade em compreender: a união do subjetivo com o objetivo, do corpo e da psique, do indivíduo com o mundo, do fato exterior com a imagem subjeti­va. Ele fala do arquétipo, por um lado, como uma modalidade herdada de fun­cionamento, um padrão inato de comportamento semelhante àquele que podemos observar em todos os reinos da natureza. Mas, por outro lado, ele é alguma coisa mais também.


Este aspecto do arquétipo é o aspecto biológico. . . No entanto, o quadro muda imediatamente quando olhado de dentro, isto é, de dentro do domínio da psique subjetiva. Aqui, o arquétipo se apresenta como numinoso, ou seja, aparece como uma experiência de importância fundamental. Sempre que se reveste com os símbolos apropriados, o que nem sempre é o caso, ele coloca a pessoa num estado de possessão, cujas conseqüências podem ser imprevisíveis.19

São justamente essas "conseqüências imprevisíveis" que parecem se introduzir na vida como acontecimentos predestinados de fora. Eis então a doença da para­lisia, o acidente estranhamente acontecido na hora marcada, o sucesso inespera­do, a relação amorosa compulsiva, o ínfimo erro que resulta na subversão de todo um sistema de vida. Todavia, tem-se a impressão de que a fonte desse poder não vem de fora, ou melhor, não unicamente de fora; Moira também se encontra no lado de dentro.

Pode-se ler, na obra de Jung, uma relação cada vez mais amplamente formulada entre o destino e o inconsciente.

"Meu destino" significa uma vontade demoníaca com relação precisamente a esse destino — uma vontade que não coincide necessariamente com a minha própria (a vontade do ego). Quando ela é oposta ao ego, é difícil não sentir um certo "poder" nela, seja ele divino ou diabólico. O homem que se submete ao seu destino chama-o de a vontade de Deus; o homem que trava um deses­perado e extenuante combate está mais apto a ver o diabo nele.20


Traça-se também uma relação ampliada entre essa "vontade não necessaria­mente coincidente com a minha própria" e a Individualidade, o arquétipo cen­tral da "ordem" que se situa no âmago do desenvolvimento individual. Destino, natureza, matéria, mundo, corpo e inconsciente — são esses os fios entrelaçados que se tecem no tear de Moira, que rege o reino da matéria, da essência e dos impulsos

instintivos da psique inconsciente, da qual o ego é um produto da nossa época.


A raiz indo-européia mer, mor, significa "morrer". Dela também provém os termos mors, em latim, e moros ("sorte"), em grego e, possivelmente, Moira, a deusa do destino. As Nornas que se reúnem sob o pó do mundo são personi­ficações familiares do destino, haja vista Cloto, Láquesis e Átropos. Com os celtas, a concepção das Parcas talvez tenha se deslocado para a de matres e matronae, que eram consideradas divinas pelos teutos... Não será possível que ela retroceda à grande imagem da mãe primordial, que era outrora nosso único mundo e que depois se tornou o símbolo do mundo todo? 21
Sobre as representações simbólicas do arquétipo da Mãe, Jung escreve o seguinte:

Todos estes símbolos podem ter um significado positivo e favorável ou um significado negativo e desfavorável... Vemos um aspecto ambivalente nas deusas do destino. . . Símbolos do mal são a bruxa, o dragão (ou qualquer ani­mal voraz ou rastejante, tal como um grande peixe ou uma serpente), o túmu­lo, o sarcófago, a água profunda, a morte, os pesadelos e os duendes. . . O lu­gar da transformação mágica e de renascimento, juntamente com o mundo subterrâneo e seus habitantes, são presididos pela Mãe. No aspecto negativo, o arquétipo da Mãe pode conotar algo secreto, oculto, sombrio; o abismo, o mundo dos mortos, qualquer coisa que devore, seduza ou envenene, isso tudo é terrificante e inevitável como o destino.22


Cito Jung literalmente, pois creio que essas passagens são fundamentais para uma compreensão do sentimento de fatalidade ou de compulsividade irracio­nal que tantas vezes acompanha dificuldades emocionais e os acontecimentos que essas erupções ou abalos precipitam. Depressão, apatia e enfermidade talvez sejam máscaras que as Erínias utilizam. desnecessário dizer que a rela­ção de uma pessoa com a própria mãe está, sem dúvida, significativamente as­sociada ao seu próprio sentimento de escolha e de liberdade subjetiva na vida adulta, pois quanto mais magnânima e sinistra é a mãe, mais tememos o desti­no. A mãe, porém, é também a Mãe, que aqui parece, em parte, encarnar o inconsciente em seu disfarce de "origens", "útero" ou "profundidades desconhecidas". Não há resposta para a discussão sobre se é o homem que formula suas imagens psíquicas de deusa, serpente, oceano e sarcófago, devido à sua vaga memória corporal do mar de águas uterinas, do serpeante cordão umbilical que dá a vida e, no entanto, pode estrangular, da escuridão tumular e das contrações do parto, do bem-estar vital que propicia a amamentação no peito da mãe; ou se experimenta prazer ou terror, alívio ou compulsão, de­sejo ou repulsa, e exagera uma "mera" experiência biológica com imagens di­vinas devido à figura arquetípica ou numinosa, da qual a experiência biológica é apenas uma manifestação concreta. Este, é claro, o velho dilema espírito-matéria: o que vem primeiro, o ovo ou a galinha? Será que inventamos os deuses porque temos necessidade de investir significado nos caprichos e nas vicissitu­des da vida física, ou será que a vida física é vivenciada como intrinsecamente significativa porque os deuses existem? É evidente que não sei responder a es­

sa questão. Jung, certamente, em seus esforços para se expressar com clareza e exatidão, do ponto de vista psicológico, a respeito dessas águas não navegadas, procurou ficar no meio-termo: ambos são aspectos de uma realidade e não po­dem ser separados. Se o instinto é uma extremidade do espectro que abrange também um nível arquetípico ou "espiritual", então o destino não é somente o destino do corpo, mas da alma também. A experiência do poder e da nature­za relacionada com a vida e a morte da mãe individual acha-se associada na psi­que com a numinosidade de Moira, divina criadora de vida e de morte. Talvez tudo o que podemos dizer é que existe um elo.

Vale a pena examinar o que dizem dois outros escritores sobre esses temas. Um deles é Johann Jakob Bachofen, jurista e filósofo social suíço do século passado, cuja abordagem poética do mito faz um agradável contraponto à ad­miravelmente sutil definição do mito registrada no Concise Oxford Dictionary, como "uma história inverídica".
Assim, a atividade da natureza, sua criação e formação engenhosas eram sim­bolizadas na fiação, no trançado e na tecelagem; todavia, essas tarefas relacionavam-se, ainda de outras maneiras, com a obra de criação telúrica. Na tecedura de dois fios, podia-se perceber o poder duplo da natureza, a interpenetra­ção dos dois princípios sexuais, requisito indispensável para toda geração. O sexual estava ainda mais manifesto na ação do tear. Essa relação psico-erótica também compreende a idéia de fatum e de destino. O fio da morte é tecido na teia de que todo organismo telúrico consiste. A morte é a suprema lei na­tural, o fatum da vida material, diante da qual os próprios deuses se curvam e sobre a qual não podem pretender ter domínio. Assim, a trama da criação telúrica torna-se a trama do destino; o fio torna-se o mensageiro do destino humano e Eileitéia, a parteira, a boa fiandeira, torna-se a grande Mova que é ainda mais velha do que o próprio Crono. O tear, veículo da suprema lei da criação escrita nos astros, era atribuído às divindades celestes na sua ce­lestial natureza. E, finalmente, essa vida humana e o cosmo inteiro eram vistos como uma grande trama do destino.23
Excetuando-se sua obsessão pela palavra "telúrico", Bachofen realmente não precisa ser parafraseado, de forma que o citei literalmente. Aqui, em sua intricada rede de relações, podemos começar a ver o ponto a partir do qual a própria astrologia — Heimarmenê, a "compulsão planetária" ou a lei natural do céu e da terra — é fragmento e parte do corpo celestial da Grande Mãe. Esse é um mito da criação que antecipa Javé do Velho Testamento, pois aqui o original poder criativo no cosmo é a grande deusa Moira. Essa organização harmoniosa das esfe­ras celestiais é o seu desígnio, e o deslumbramento que causa essa extraordiná­ria imagem zomba delicadamente de nosso conceito ordinário de um destino que pode ser lido na borra do café deixado no fundo da xícara. É essa imagem que acho que tocamos e invocamos quando ponderamos sobre a roda do horóscopo, pois essa imagem antiga jaz em nós mesmos. Talvez seja assim que o corpo tenha uma experiência de si mesmo como possuindo uma duração determinada. A ima­gem de Moira não se apaga quando o intelecto racional sobe a alturas impressio­nantes. Posto que arcaica, ela simplesmente retorna ao mundo subterrâneo de

onde surgiu há muito tempo atrás e onde a fiação e a tecelagem continuam despercebidas e sem interrupção, apenas para emergir à luz do dia como uma experiência de "meu destino".

Vou citar uma outra passagem de Bachofen, pois iremos ver, mais adiante, sua relevância.
Nas escuras profundezas de ogygianas da terra, elas tecem toda a vida e enviam-na para cima, para a luz do sol; e na morte tudo retorna a elas. Toda a vida salda seu débito para com a natureza, isto é, para com a matéria. Desse modo, as Erínias, assim como a terra à qual pertencem, regem tanto a morte quanto a vida, pois ambas são abarcadas pelo ser material, telúrico. . . No seu outro aspecto, as amáveis Eumênides são as terríveis e cruéis deusas, hostis a toda vida terrestre. Nesse aspecto, elas se comprazem na catástrofe, no sangue e na morte; nesse aspecto, são monstros detestáveis, sanguinários e horrendos, a quem Zeus "declarou proscritos". Nesse aspecto, elas distribuem ao homem sua merecida recompensa.24
Quando as Erínias entram em cena em Orestéia a última peça de Ésquilo, é essa face mais sombria que mostram:

Nossa missão é justa e sanguinária, não somos

jamais enviadas para ferir os inocentes.

Mostre-nos suas mãos. Se estiverem vermelhas,

você dormirá profundamente no seu leito.

Mostre-nos suas mãos. Esquerda. Direita.

Você será poupado se elas estiverem brancas.

Mostre-nos suas mãos. Sabemos que há alguém

cujas mãos estão vermelhas e não ousa mostrá-las. Para homens iguais a este cujas mãos estão vermelhas, trazemos o rancor sanguinário dos mortos.

A deusa da vida nos deu estes poderes,

que são nossos, para todo o sempre nossos.

Quando surgimos, os confins estavam demarcados.

Nós e os Olímpicos não temos relações íntimas.

O alimento é oferecido a um dos dois, mas não a ambos.

Não usamos vestes brancas, nem eles usam vestes negras.25

Não tenho nenhuma dúvida de que nós também, neste século, a exemplo de Zeus, os proscrevemos. Desde o início da era cristã nossos deuses têm usado apenas trajes brancos. Contudo, essas coisas permanecem como imagens eter­nas nas profundezas. Veio-as com tanta freqüência nos sonhos de virtualmente todos os pacientes que tenho analisado, que não acho que seja diferente. Na tra­gédia de Esquilo, elas atormentam Orestes até a loucura pelo assassínio da mãe, apesar de o próprio Apoio exigir essa chacina; e Ésquilo oferece-nos visão muito interessante sobre o modo pelo qual este aspecto retaliativo do destino, que pune o transgressor da lei natural, poderia ser observado no homem moderno.

Mesmo um século após Ésquilo, os homens Já não mais acreditavam naquelas temíveis damas com garras em vez de pés e serpentes em vez de cabelos, asas de abutre e vozes de mocho. Há muito que o mundo ocidental já as deixou para trás. Todavia, uma visita ao hospital psiquiátrico mais perto pode, efetivamente, nos reintroduzir à sua atual manifestação desincorporada. Gostaria de sugerir que a pessoa homem ou mulher, que transgride com demasiada brutalidade a lei na­tural de seu próprio ser talvez corra o risco de pagar o preço naquilo que agora conviemos chamar de "doença mental". Não existe nenhuma justiça nisto, pois essas transgressões em geral são feitas inconscientemente, e não se pode culpar a pessoa por aquilo de que ela é ignorante. No entanto, as Erínias não são justas sequer no modo como tratam Orestes; ele não tem escolha alguma e é coagido a cometer seu assassinato pelo deus Apoio, ainda que, não obstante, tenha de pa­gar o preço. Pessoalmente, às vezes, acho mais criativo considerar as Erínias co­mo guardiãs da lei natural, em vez de recorrer a termos que não compreendo cabalmente, tais como esquizofrenia, mas, sem dúvida, qualquer pessoa que clã atenção às Erínias hoje em dia é um esquizofrênico. Seja como for, acho imensamente valioso saber, quando se trabalha como astrólogo, de que forma as leis naturais são representadas pelo horóscopo e em que esfera uma "transgres­são" está sendo perpetrada, intencionalmente ou não; e se e de que modo essa transgressão poderia ser corrigida, a fim de que as Erínias não persigam aquela pessoa interna ou externamente, na qualidade de um "destino desfavorável".

O terceiro escritor que contribuiu com interpretações decisivas para o miste­rioso complexo de imagens psicológicas sobre o destino, o inconsciente, a mãe e o mundo, é Erich Neumann. No seu livro A Grande Mãe, ele escreve:


A sensação vital de toda consciência do eu que se percebe diminuído com re­lação às potestades é dominada pela preponderância do Grande Círculo que contém toda mudança. Este arquétipo pode ser vivenciado exteriormente en­quanto mundo ou natureza, ou interiormente enquanto destino e inconscien­te. . . Assim, o aspecto terrível do Feminino inclui sempre a urobórica mu­lher-cobra, a mulher provida de falo, a união entre a gravidez e a procriação, entre a vida e a morte. . . Na Grécia, a Górgona na figura de Ártemis-Hécate é também a regente dos caminhos noturnos, do destino e do mundo dos mortos.26

A essa altura, poder-se-iam lembrar as feiticeiras barbadas de Macbeth, que são mulheres fálicas: o feminino que contém sua própria força procriadora ou geradora. Essas mulheres criam e destroem a vida de acordo com suas próprias leis, e não com as de um esposo, consorte ou rei. A Noite-Mãe ou a deusa Neces­sidade dá origem às Moiras e às Erínias por partenogênese, ou seja, sem o auxilio do esperma masculino. O trecho acima citado contém algo que acho extremamente importante que o astrólogo leve em conta: a pessoa mais aterrorizada pelo destino e mais intimidada pelo que ela vivencia como suas inclinações mais sombrias e mais destrutivas da alma e da vida, é a pessoa na qual o sentimento do ego, o sentimento de "eu mesmo", é o mais fraco. Isso traz consigo certa impli­cação para o próprio estudioso de astrologia, pois que muitos de nós aprendemos nossa arte por essa simples razão e compartilhamos esse problema com nossa

clientes. Uma consciência desse problema comum pode ser imensamente cria­tiva, mas uma inconsciência dele favorece exatamente as Erínias e reforça o temor ao destino.

Quando as Erínias cantam que "o alimento é oferecido a um dos dois, mas não a ambos", elas estão enunciando um dilema comum: ou vivemos aterrorizados pelo destino, pelo fato de que ainda não encontramos nenhum sentido de genuína individualidade, ou repudiamos a própria idéia de destino exatamente pela mesma razão. Assim, o astrólogo não só é conivente com seu cliente, como também com o exacerbado cético, que tem medo da mesma coisa. Assim como o psiquiatra se identifica secretamente com seu louco paciente, o problema do destino nos compromete não só com os que temem o aspecto retaliador da vida, senão também com os que rejeitam qualquer outra coisa que não a autonomia da consciência racional. Embora não esteja certa sobre as ramificações disso, des­confio que ela se deve parcialmente ao fato de que tão amiúde a astrologia se lança sobre o inconsciente, de outra parte à razão pela qual a apaixonada acumu­lação de estatísticas tornou-se necessária e parte ainda ao fato de que o astrólogo individual se sente quase sempre perseguido pelas pessoas "normais". Ora, não estou insinuando que um forte sentimento de identidade pessoal faça com que o destino desapareça. Não seria tão estúpida a ponto de sugerir tal coisa, nem Newmann o seria, a meu ver. No. entanto, o ato de entrar em acordo com o "meu des­tino" de uma maneira criativa, e não afetada pelo medo, talvez resida, em grande parte, no sentimento que cada um possui de ser um indivíduo.

Neumann prossegue dizendo:

O macho permanece inferior e à mercê do Feminino que o afronte como um poder do destino... O símbolo de Odin dependurado na árvore do destino é típico deste estágio em que o herói-rei era caracterizado meramente pela aceitação da sorte. . . Essa sorte pode aparecer na forma de uma velha e ma­ternal mulher, que preside o passado e o futuro; ou na forma de uma jovem e fascinante figura, como a alma.27


O autor esforça-se para assinalar que, quando ele está se referindo ao "ego mas­culino", não está com isso falando de homens, mas, ao contrário, aludindo ao centro de consciência tanto nos homens como nas mulheres, que é "masculino" no sentido de que é dinâmico, motivado para a diferenciação. Em resumo, ele se assemelha ao Sol em contraste com as difusas e nubladas profundidades lunares do Inconsciente. Tenho absoluta certeza de que o Sol, astrologicamente conside­rado, constitui um ponto no horóscopo que talvez seja mais acessível aos homens em geral, porque representa uma motivação masculina, orientada para uma meta; o Sol, todavia, significa a mesma coisa no horóscopo de uma mulher, sendo, além disso, o símbolo da consciência diferenciada do ego em ambos os sexos. Nesse sentido, Neumann não está nem um pouco preocupado com questões "sexológicas", e seria absurdo interpretá-lo assim. Ele está falando sobre um dilema com que se defrontam tanto os homens como as mulheres: o sentimento de impotên­cia e de inutilidade que todos nós experimentamos diante dessas constrangedo­ras erupções da psique que se abatem sobre nós como o destino, por um lado. Não se pode deixar de ver, por outro lado, implícita nessa passagem uma das raízes

arquetípicas daquele terror que com tanta freqüência se insinua nos relacio­namentos entre macho e fêmea, nos quais a mulher afigura ser, por projeção ou talvez na realidade, a mensageira do destino para o homem. E este, irado e amea­çado pelas "forças" sobre as quais não tem nenhum controle, tenta, assim como Zeus, declarar proscrito o valor da mulher.


O mistério primordial da tecedura e da fiação tem sido também vivenciado na projeção sobre a Grande Mãe que tece a trama da vida e fia o fio do destino, sem importar se ela aparece como uma Grande Fiandeira ou, como ocorre tão freqüentemente, numa tríade lunar. Não é por acaso que falamos em te­cidos do corpo, pois o tecido composto pelo Feminino no cosmo e no útero da mulher é a vida e o destino. E a astrologia, o estudo de um destino gover­nado pelos astros, ensina que ambos começam ao mesmo tempo, no momen­to temporal do nascimento.28
O problema do poder ameaçador que o ego experimenta como uma proprie­dade do inconsciente não é, conforme tenho dito, uma questão sexológica. E uma questão humana, ao que me parece, e tenho encontrado tanto mulheres que correm de medo de suas próprias profundezas, quanto homens dominados pelo mesmo temor. Não obstante, o medo talvez seja o começo de sabedoria, segundo nos ensina o Velho Testamento, pois esse medo do poder do destino é, no mínimo, um reconhecimento. Estou, portanto, inclinada a questionar se é válido dizer a um cliente que veio em busca de uma leitura de horóscopo, que um mapa astral "apenas" sugere potencialidades que ele poderá superar ou domi­nar como preferir. Não estou sugerindo que devamos regredir a um nível arcaico, onde o ego retroceda ao terror primitivo e à aceitação passiva do destino que ca­racteriza tanto as culturas antigas como a criança moderna. Empenhamo-nos du­rante vários milênios em sermos capazes de fazer algo mais do que isso. Mas a hubris, em compensação, não erradica a imagem arquetípica do destino que re­side nas profundezas da psique do cliente e do astrólogo. Tampouco essa atitude poupará o cliente de seu destino.

O destino feminino que estamos investigando constitui, em certo sentido, o paralelo psíquico dos padrões genéticos herdados da linhagem familiar. Ou, num sentido mais amplo, é a imagem arquetípica para os instintos mais primitivos que se contorcem dentro de nós. Esse é o destino de partilha, de fronteiras ou de li­mites que não podem ser cruzados. É o circulo além do qual a pessoa não pode passar durante a sua existência, sejam quais forem as potencialidades ilimitadas que possa perceber em si mesma, visto que gerações construíram esse círculo pedra sobre pedra. O destino e a hereditariedade, por conseguinte, estão intrin­secamente ligados, e a família representa um dos grandes instrumentos do des­tino. Mais tarde, vamos examinar melhor essa questão.

Quando vista sob essa luz, Moira é um dos impulsos inatos na psique indivi­dual e coletiva e sua função é manter a justiça e a ordem no reino natural dos ins­tintos. Visto que nossos impulsos básicos estão representados, no simbolismo astrológico, pelos planetas, é razoável supor que o antigo princípio retaliador de Moira esteja configurado no horóscopo por um dos planetas, assim como por quaisquer outros signos e casas relacionados com esse planeta. Ademais, é razoável

supor que, visto termos proscrito o destino e fingirmos, nos dias de hoje, que ele não existe, sejamos igualmente ignorantes dessa dimensão de seu significado dentro da astrologia. Em certa medida, poderíamos ainda considerar que a imagem que preside o destino retaliador é a imagem de um instinto para fixar fronteiras proscritas dentro de uma pessoa. Moira é a guardiã do direito natural dentro do indivíduo, e ela é tão necessária para o equilíbrio do corpo e da men­te quanto outros e mais extrovertidos e transcendentais impulsos.

Acho muito produtivo, na interpretação de símbolos astrológicos, ser por ve­zes descaradamente não-racional e trabalhar com imagens que esses símbolos evocam, em vez de fazer conceituações ou reduzir a palavras-chave essas antigas e sagradas figuras que por tantos séculos foram percebidas e vivenciadas como deuses. Ainda não sabemos, realmente, o que elas são. É mais aceitável agora, para os propósitos de avaliação e de compreensão coletiva, chamá-las de impul­sos, motivações ou desejos arquetípicos. Mas acho que o astrólogo, e também o analista, podem tirar proveito do método de ampliação, de Jung, a fim de se acerarem mais da essência da linguagem astrológica. Poderíamos, inclusive, ir além e visionar a experiência astrológica como o encontro com uma divindade, um numen, em vez de raciocinar em termos de motivações ou desejos. Pois essas coisas não são as mesmas? Talvez nem sempre seja sensato apropriar-se de tudo o que existe dentro de nós como se fosse "meu", quer dizer, proprie­dade do ego. Nossos impulsos inatos, no final das contas, não estão mais sujeitos à dissecação e ao controle racional, do que os daimones de Platão, que são dados a cada pessoa no nascimento e moldam seu caráter durante toda a existência. Po­deria ser importante admitir, particularmente quando estamos lidando com coi­sas semelhantes ao destino, que existem aspectos de nossas "motivações" que nos ultrapassam, que são transpessoais, independentes, até mesmo infernais ou divinos.

Encontrar determinado planeta em um signo e em uma casa zodiacal é como entrar num templo e encontrar a manifestação de um deus desconhecido. Podemos encontrar essa divindade como uma experiência concreta "exterior" ou por intermédio de uma outra pessoa que é a máscara através da qual o rosto do deus se mostra; através do corpo; através de uma ideologia ou visão intelectual; atra­vés de uma atividade criativa; como uma emoção motivadora. Muitas vezes, vá-rias dessas manifestações são vivenciadas juntas, tornando-se difícil ver a unidade entre o que está acontecendo na vida exterior e o que está acontecendo na vida interior. Todavia, o planeta constrói uma ponte sobre o abismo entre o "exterior" e o "interior" e nos fornece uma ligação significativa, pois os deuses vivem nos dois mundos simultaneamente.

Encontrar a personificação de tudo o que até agora investigamos, destilado na imagem de Moira, é encontrar o que é compulsivo e primordial. É um confronto com a morte e o desmembramento, pois Moira quebra o orgulho e a vontade do ego em pedacinhos. Por ser ela imutável, nós é que somos transformados. Ela é mais forte do que os desejos e a determinação do ego, mais forte do que as ra­zões do intelecto, mais forte do que o dever, os princípios e as boas intenções mais forte ainda do que a fé individual. Platão imaginou-a entronizada no centro do universo, com a roca cósmica assentada entre os seus joelhos, enquanto suas filhas, reflexos diferenciados de seu próprio rosto, guardam os limites da lei natu­

rol e punem os transgressores com intenso sofrimento. A sabedoria de Moira deve ser encontrada no desespero e na depressão, na inutilidade e na morte. Seu segre­do é o que guia e fortalece a pessoa quando ela própria já não consegue mais se sustentar, e aquilo que a mantém atrelada ao seu próprio e único esquema de desenvolvimento.

A necessidade inata de descer do mundo das aparências para a "ligação invisí­vel" e para a personalidade oculta leva ao mundo interior do que quer que se­ja dado. A necessidade autóctone da psique, seu desejo natural de compreen­der psicologicamente, assemelhar-se-ia àquilo que Freud chama de instinto de morte e àquilo que Platão introduziu como o desejo pelo Hades... Ele age através da destruição, dissolução, decomposição, separação e dos processos de desintegração necessários tanto à psicologia alquímica quanto à moderna psicanálise 29
Essa descrição feita por James Hillman sugere que a coisa que guarda as frontei­ras circunscritas da natureza também procura conhecer a sua própria fiação: é o meu destino que busca a explicação de si mesmo. Essa deusa do destino, en­quanto "serva da Justiça", é, a meu ver, representada com mais ênfase no pan­teão planetário da astrologia. Dentro do horóscopo, eu diria que aquilo que os gregos conheciam como as Erínias, a face retaliativa de Moira, nós costumamos chamar Plutão.

2
O Destino e Plutão


Hades, o deus da morte, preside o julgamento

sobre as ações de um homem depois que este morre.
O deus da morte, Hades, não se esquecerá

das matanças e das dívidas de sangue.

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